A Escadaria Da Aurora
1 Capítulo 1: Nuvens Negras
Notas iniciais
A Escadaria da Aurora, Parte I
Naquele momento, em algum lugar de Nova York, perto do Central Park, o acampamento meio-sangue comemorava mais um dia de vida. Sua rotina consistia em árduas batalhas e arriscadas aventuras. Eles viviam orando aos deuses para que tivessem sempre sucesso e uma vida duradoura, que chegassem pelo menos aos 40 anos de idade. Não era fácil descobrir ser um semideus. Com cerca de doze anos, um sátiro ou um grupo de escolta os localizava e tentava levá-los em segurança ao acampamento. A esmagadora maioria tinha déficit de atenção para coisas mais “humanas” como política ou literatura americana, mas eram incomparáveis em um campo de batalha. Suas cabeças foram feitas para isso: a luta. Cumpriam bem o seu papel de ícones dos povos antigos, apesar de hoje serem cerca de dez vezes mais numerosos do que na época da Grécia antiga. Eram todos heróis, embora houvessem aqueles com feitos memoráveis e outros que realizavam tarefas menores como servos confiáveis de deuses, mensageiros e ferreiros mágicos. Esses últimos dizem respeito aos filhos de Hefesto, quase tão habilidosos quanto seu pai. Como em qualquer escola ou acampamento, tínhamos aqui diversas figuras. Desde inúteis semideuses a bravos e indômitos que seguem as ordens de seus pais e de todos os outros olimpianos, dando continuidade ao legado de heróis como Aquiles e Perseu, a grupos independentes que seguiam um deus só com convicção e fé absurdas, mesmo sem possuir nenhum laço sanguíneo com tais. Eram os chamados “círculos divinos”, ou o termo que achar melhor. Exemplos disso são as caçadoras de Ártemis e os menestréis de Morfeu.
E temos também os filhos dos deuses menores. Desde que Percy Jackson, filho de Poseidon, pôs um fim temporário nas tramas de Cronos discípulos alienados – em sua maioria monstros – Zeus havia jurado aceitar os filhos de deuses menos importantes e lembrados como Íris, Hipnos e Psique. Todos confiaram na palavra do deus dos deuses e as mudanças realmente ocorreram, apesar de, sendo quem ele é, Zeus complicou o processo o melhor que pôde, gerando revoltas localizadas aqui e ali contra o Olimpo. Foram todas controladas, infelizmente, e houve caso de certos revoltosos mandados ao exílio. Concordemos, porém, que a mensagem foi dada. Tanto que o próprio Olimpo deu um ultimato a Zeus e o mesmo foi obrigado a cumprir sua palavra de uma vez por todas. A maioria dos semideuses menores permaneceu no acampamento, que acolhe mais deles a cada semana que se passa. Um desses campistas é o filho de Selene, a lua, Kevin. De todos os campistas naquele acampamento, que beiravam os mil, apenas os mais bravos e fortes, mais experientes e corajosos, eram chamados para as missões importantes, dadas pelos senhores dos céus, dos mares e do submundo. Kevin não se enquadrava em tal descrição. Nem mesmo de longe. Ele era tão invisível naquele acampamento que, às vezes, sentia poder curvar a luz ao seu redor, como faziam os filhos de Íris. Mas ele sabia que, mesmo se pudesse fazer isso, faria errado, como sempre.
Sendo filho de Selene, a deusa da lua, seu perfil não se enquadrava bem entre os guerreiros, algozes ou mesmo feiticeiros, como os filhos de Macária. Ele era filho da lua, e só. Além de tudo, era o mais novo. Poderia entrar em algum círculo divino, apesar de não saber direito como eles funcionavam. Seus irmãos o disseram que era como um pequeno clube voltado á um deus, onde você ganhava poderes e bênçãos para lhe ajudar a cumprir seu destino de semideis. Seu irmão Luca o dizia que os testes de iniciação eram cruéis e mortais, fazendo gestos de pessoas sendo degoladas vivas enquanto os outros filhos e filhas de Selene se seguravam para não rir. Isso o assustava o bastante para que ele nunca fosse atrás de entrar em um e nunca mais ver as caçadoras da mesma forma. Esforçava-se muito, apesar de tudo, para se destacar.
Em um dia comum no acampamento ele nada mais tinha do que o dever de acordar, tomar café no refeitório, e realizar seus treinos na arena. Não só ele como quase todos os meio-sangues juniores. Esses dois locais, acompanhados de perto dos chalés, eram os três locais mais movimentados de todo o acampamento. Como quaisquer adolescentes normais, todos amavam comer e dormir. Os filhos de Hipnos, deus do sono, provavelmente arrumavam um jeito de fazer os dois ao mesmo tempo. A única diferença é que esses, especificamente, também matavam quimeras e minotauros para sobreviver.
O refeitório era um grande estabelecimento com paredes e teto de madeira. Era rústico, sim. Pintado de vermelho e com detalhes em vinho no exterior, além das várias janelas de vidro, por dentro parecia ainda maior. As mais variadas comidas podiam ser vistas em todo canto. De panquecas a saladas, de pratos repletos de costelas a cachos de uvas bem roxas, não havia ninguém que não encontrasse ali algo de seu agrado. Também, como não poderia? O refeitório era mágico! Bastava desejar uma refeição e uma bebida e lá estariam. Desde que você ofereça um pouco ao seu deus progenitor na fogueira. Os chalés eram os dormitórios dos campistas. Um para cada deus, como sempre foi e sempre será, só que com mais que o dobro de casas. Cada chalé era único, demonstrando a personalidade e entrando no tema de seu deus protetor. O de Ares possuía arame farpado, cercas pontudas, uma tinta vermelha forte e uma cabeça de javali empalhada em cima da porta, além de algumas lanças e armas expostas nas paredes. Quanto à Arena, era a mais simples de todas e, ao mesmo tempo, a mais visitada. Consistia em um enorme círculo de mármore no chão. Com dimensões quase exageradas, a arena possuía de tudo. Tinha seu próprio arsenal de armas para aqueles semideuses que não as tinham ou as esqueciam, instrutores de batalha, quase todos meio-sangues mais velhos, e até mesmo aparelhagem mecânica.
Kevin treinava todos os dias, como todos os semideuses ali. Participava de várias modalidades de treino, variando de espadas curtas a lanças e até desarmado. Quíron, o instrutor-chefe dos campistas e centauro famoso, o havia aconselhado que treinasse de tudo e procurasse o estilo que mais o agradava. Não é necessário comentar que nosso herói não o havia encontrado ainda, mas, se o centauro o perguntasse, provavelmente mentiria e diria que estava se interessando bastante por espada e escudo. Além dos treinos de combate, havia um segundo tipo mais popular, os treinos de esquiva e agilidade. Esses dois estilos compunham os campos obrigatórios nos quais todos deviam procuram excelência. Como eles eram obrigados a treinar em mais categorias, havia os opcionais, como equitação, escalada e mitologia. Kevin era familiarizado com os dois primeiros, mas o último eram aulas especiais dadas por alguns dos campistas mais velhos e fortes aos novatos naquele mundo, ensinando-os sobre os monstros e táticas engenhosas para vencer cada um. Os professores eram todos escolhidos pelo próprio Quíron e quase sempre eram grandes nomes do acampamento. Kevin tinha vergonha até mesmo de se manter nas proximidades de tais lendas. Cada um contava com feitos como, no mínimo, ter matado um colosso – gigantes de pedra que viviam isolados dos demais – enquanto montados em um pégaso ou algo do gênero. Ao menos era o que o diziam. Sempre que o grupo estava realizando uma aula em algum ponto do acampamento, ao ar livre, ele tentava evitá-los, mas o grupo era grande e ele nem sempre conseguia. Foi passando por uma daquelas aulas, dada por David, filho de Hefesto, e Renan, filho de Deméter, que Kevin foi abordado por um campista pálido, de roupas escuras, com um sorriso sarcástico no rosto. Kevin podia jurar ter olhado para aquele banco antes e não ter visto sequer sinal de Andrew. Quase gritou de espanto quando o viu ali, encarando-o. Um misto de medo e raiva parecia vir a Kevin quando fixou seus olhos no sujeito. Engolindo aqueles sentimentos irracionais, falou aquilo que sua coragem o deixava falar:
- Andrew. O que quer?
Pouquíssimo se sabe sobre Andrew. Seu mistério só não era maior do que a sua popularidade naquele lugar. Era impossível olhar para ele e não sentir uma aura negra pulsando, te encarando de volta, mesmo que ele esteja de costas. Filho de Hades, o garoto chamara atenção desde o momento em que pisou no acampamento com treze anos, arrastando um sátiro guardião semimorto com uma mão e uma das cabeças de uma quimera na outra. Seu semblante sério intimidava de longe e ele raramente era visto acompanhado pelo local. Era o tenente do círculo dos Ceifadores de Thanatos. Pouquíssimo se sabia sobre aquele grupo e seu papel no mundo mitológico. Os geniais filhos de Athena diziam ser uma espécie de grupo de extermínio do deus da morte, mas nada se sabia. As identidades de seus membros raramente eram reveladas, para proteger a integridade do grupo. Apenas a alguns, julgados serem de extrema confiança, era permitido revelar a identidade abertamente, e aquele garoto de olhos negros era um deles. Com seu característico manto negro de ceifador, na forma de um casaco, ele agora estava a menos de dois metros do humilde filho da lua.
- Olá, Kevin. – Ele fez uma pausa para levantar-se do banco e se aproximar do filho de Selene. — Muito interessantes essas aulas de mitologia, não? Eu mesmo costumava dá-las no ano passado, mas preferi virar instrutor de treino. – Seus olhos, vazios, miravam o nada, como se tentasse tirar uma memória do fundo da cabeça. — Sabe... Nos quatro anos em que dei aula sobre esses monstros mágicos e afins, nunca me perguntaram sobre um em especial. Eu conheço aves místicas, dragões dos mais diversos, até minotauros únicos e sereias rainhas, mas sobre esse monstro... Esse único monstro, nunca chegaram a comentar. Bem, isso até hoje, quando recebi uma mensagem de Thanatos. Não acha isso estranho? E ele também mencionou o seu nome. Disse que o próprio Hades tinha uma tarefa para você.
- Para mim? Mas ele tem a você! Quem sou eu comparado a você e os outros ceifadores? Que ele chame você, por que eu me recuso.
- Se recusa? – Andrew gargalhou baixo, balançando a cabeça de um lado pro outro. – Quem pensa que está confiando-lhe uma missão? Jano? Hades é um tirano por natureza, ele não quer saber se você é ou não apto a realizar essa tarefa, ele quer que você parta em missão o mais rápido o possível. Você não vê, Kevin? Acha que seu árduo treinamento é em vão? Que quer realizar de importante se apenas treina e vive recluso nesse lugar? Você tem que sair e conquistar algo se quiser crescer como meio-sangue, ou outros continuarão a conquistar em seu lugar. Vão tomar aquilo que poderia ter sido seu se você tivesse se arriscado. O que tem a perder?
- O que eu tenho a perder? Que tal a minha vida? Eu quero me sentir preparado para algo assim e, pelo que você falou, deve ser uma missão suicida.
- Sua vida, Kevin? Eu pensei que tinha sido claro...
Andrew deu um passo à frente, segurando com força a gola da camisa de Kevin, levantando-o um pouco do chão. Varreu com os olhos a área ao redor dos dois, percebendo diversos campistas que haviam sido atraídos pela confusão. Eles os encaravam curiosos, talvez tivessem ouvido os gritos de Kevin. Esse fitava o filho de Hades nervoso, amedrontado, por mais que tentasse não demonstrar. Um dos mais fortes semideuses já vistos estava levantando-o com um braço só enquanto negociavam a sua morte. Finalmente, ele o ouviu dizer:
— Kevin. Você terá a ajuda que eu puder dar, entendeu? Hades não pergunta se você quer ir, ele apenas exige. Eu sei disso melhor do que ninguém, ele é meu pai. Se recusar essa missão os ceifadores serão obrigados a te eliminar! E eu não vou matar um inocente. Somos tudo, menos mercenários.
Ao falar isso, ele franziu o cenho e abaixou um pouco a voz. Parecia carregado de sentimento, algo anormal para um ceifador. Acalmando-se, o garoto obscuro pôs Kevin no chão e o largou. Com um gesto de mão, enquanto encarava os observadores intrometidos, ele chamou Kevin para conversar em particular, atrás do chalé de Artemis, quase sempre vazio. Andrew mantinha-se encarando o chão enquanto andava, seguido por Kevin. Uma vez lá, o garoto deu meia-volta e ergueu as mãos, gesticulando, como se pensassem algo para falar. Ele sabia que teria de contar tudo para Kevin. Por mais que ele já tivesse acostumado a matar, levar a vida de alguém por um motivo desses parecia absurdo. Enfiou as mãos no casaco. Seu semblante não mais mostrava uma ameaça, mas algum tipo de sofrimento, um dilema interno. O filho de Hades acreditava ter o coração no lugar certo, acima de tudo. Bem, é um modo de falar, já que Andrew não tinha coração.
- O deus da morte me contou apenas que certa arma está para ser criada no submundo. Ela é de extrema importância e sua aquisição é de urgência, palavras dele. Os deuses estão em uma espécie de guerra fria, o olimpo e o submundo. Claro que ninguém ia contar isso para vocês, aqui no acampamento, nem eu tenho essa permissão e só consegui essa informação por pura sorte. O reino de Poseidon, aliado a Zeus, está quase se tornando independente no confronto, mas nada confirmado. Isso são apenas detalhes. Detalhes esses que eu jurei a mim mesmo não contar a ninguém. Kevin, você foi escolhido pelos deuses do submundo para coletar certo item para eles. Não me pergunte o porquê, pois eu não faço a menor ideia. Você era tão desconhecido para mim quanto é a maioria dos campistas aqui. Faz meses desde que pisei nessas terras pela última vez, não costumo fazer amigos nesse lugar. O importante é que o item em questão é o pedaço de uma criatura, a mesma que eu estava citando para você quando nos encontramos. Isso é tudo que Hades me contou e tudo que eu deveria saber. O resto, bem, eu tenho minhas fontes. É apenas uma presa desse monstro, a própria encarnação da Aurora, que eles querem que você pegue. Dionísio tem os detalhes, vá vê-lo na Casa Grande. Sua contribuição não contará como se você tivesse "tomado partido" nessa guerra, apenas cumprindo seu dever de meio-sangue. Afinal, você nem mesmo sabe dela, entendeu?
Kevin acenou positivamente, concordando plenamente com o garoto. Não tinha escolha alguma, já que provavelmente morreria se recusasse o pedido do deus dos mortos. Se aceitasse, ao menos teria Andrew do seu lado e uma chance de sobreviver. Seus punhos, cerrados, denunciavam sua apreensão. Era impossível negar que parte sua ainda não tinha engolido isso tudo. Era um campista comum, vivendo uma vida comum. Deus nenhum tinha o direito de pôr sua vida em risco tão repentinamente.
O filho de Hades deu uma meia volta e começou a andar para longe, parando no meio do caminho e se virando de volta para Kevin. Com um rosto agora sério, ele disse:
— O motivo de eu vir aqui antes de Dionísio te chamar foi pra lhe avisar: não se engane com o que aquele bêbado tentar te dizer. Dionísio está do lado de Zeus nessa briga. Veja como foi entre os Estados Unidos e a Rússia. Enquanto o Olimpo e o Submundo mantiverem suas forças em equivalente, a guerra não ocorrerá efetivamente. E caso isso ocorra, não serão países em um confronto armado, serão dezenas de deuses com o poder de aniquilar continentes. Eu não estou do lado de meu pai, mas torço para que as forças estejam balanceadas, isso fortalece a chance das duas se anularem e guerra nenhuma acontecer. Conto com você, Kevin. Queria que isso tivesse sido diferente, que outra pessoa tivesse sido escolhida, mas Hades deve ter suas razões. Se ele acredita em você, também acreditarei.
Ele se virou de costas e continuou a caminhar, sumindo em um redemoinho de sombras. Kevin jurava poder ver algo brilhar no lugar onde sumira o ceifador. Aproximando-se mais, ele mal acreditava no que via. Naquele lugar, foi deixada apenas uma espada negra. Era feita de ferro estígio e tinha cerca de um metro de comprimento. Cravado na lâmina, em grego, Kevin podia ler "Sombra Caminhante". Amarrado com um cordão do que parecia ser palha, um recado: “Você terá a ajuda que eu puder dar”. A arma, famosa entre os meio-sangues, era uma das espadas lendárias do arsenal do submundo. Aquela lâmina de ferro estígio tinha o poder de consumir sombras e aumentar de comprimento e largura, desferindo golpes de cinco metros de alcance. Aquele era um presente de Andrew, mas Kevin não sabia se ele tinha conseguido-o com ou sem o consentimento de Hades. De qualquer forma, indicava certo nível de desespero por parte do próprio filho do rei dos mortos.
O filho de Selene, atônito, fitou a espada por demorados momentos. Enfim, se pôs a caminhar, um pouco hesitante. Ele apanhou o objeto, que parecia moldar o próprio cabo para se encaixar perfeitamente às mãos do novo dono. Retirou da bainha de couro, com cuidado, dando pequenos giros ao redor do corpo e ensaiando um golpe ou outro no ar com um esboço de sorriso. Por fim, ele a guardou e a prendeu na cintura. Estava mais confiante no êxito da missão. Suas chances de permanecer vivo haviam acabado de aumentar.
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Kevin caminhava satisfeito, devido ao presente que havia acabado de ganhar, até a casa grande. Era o centro do acampamento, uma espécie de diretoria. Era lá onde ficava o diretor do local, o deus do vinho, Dionísio, mais conhecido pelos jovens por ali como “Senhor D”. Dionísio havia acabado de mandar um sátiro chamar Kevin, informando que o garoto estava na arena. Provavelmente a infeliz criatura acharia lá diversos campistas, mas não aquele que ela procurava. Kevin, já batia na porta da asa grande. A porta foi aberta por outro campista, desconhecido por Kevin. Provavelmente era um novato, pois seu cordão não possuía pedra alguma. Devia ser mais um dos escoltados para o acampamento pelas diversas equipes de busca. Era sempre bom ver que o número de semideuses aumentava a cada semana, o que indicava a força crescente do exército dos meio-sangues, bem como as possibilidades de uma ampliação das áreas de lazer. Antes de entrar, Kevin olhou ao redor, assegurando-se por algum instinto desconhecido até hoje, se ninguém o seguia. No topo de uma das colunas que circundavam a arena, bem longe e provavelmente invisível para outros campistas por conta de alguma habilidade, Andrew o observava. O filho das trevas assentiu com a cabeça e, novamente, sumiu em vultos negros. Kevin acreditava fazer a coisa certa. Tudo estava de acordo com o plano e ele sabia que o submundo o seguiria de perto em toda a sua aventura. Só não sabia se ficava feliz ou com medo por isso.
Sem mais demorar, ele abriu a porta para a casa grande e passou pelo longo corredor que a atravessava, procurando pela sala de Dionísio. Ela não estava muito distante. Alguns passos depois e Kevin já podia ler os dizeres: "Escritório do Diretor". Senhor D, o deus do vinho, diretor do acampamento meio-sangue, o esperava atrás daquela porta. Kevin teria de conversar com ele de modo a não expor que já tinha conhecimentos sobre a missão. Para Dionísio, Kevin não sabia nada sobre o verdadeiro motivo de Zeus mandá-lo naquela missão e seu encontro com Andrew nunca ocorreu. Tudo seria uma novidade para ele. Ciente de tudo isso, ele entrou na sala.
O diretor era uma figura carismática, se observada de longe ou caso se mantivesse calado. De chinelas de dedo, shorts marrons folgados e uma blusa social amarela estampada com pintas de leopardo, ele parecia mais um senhor, com seus quase quarenta e cinco, desempregado e que aproveitava o ócio de casa. Seus cabelos, cacheados e curtos, estavam escondidos por um peculiar chapéu de praia cor de vinho. Sentado à frente de Dionísio, que o encarava com o rosto rosado, Kevin não sabia direito o que dizer. Sua expressão estava congelada, estática. Tudo que ele conseguia fazer era piscar os olhos com um ar de nervosismo. Assim, coube a Dionísio começar o diálogo:
— Quase todos os campistas a quem mando se apresentarem para receber missões já entram me questionando com perguntas idiotas de mortais, como: Por que eu? O que é pra fazer? Não pode mandar o Percy? Mas eu vou morrer! – Ele deu uma gargalhada cheia e com um tom de maligna. – Fico feliz que tenha aceitado a ideia friamente, será mais fácil assim. – Ele deu um gole na sua latinha de coca-cola diet, apoiada à sua direita, na escrivaninha. Era a única bebida não alcoólica que ele gostava e, já que não podia beber nada enquanto estivesse no acampamento, ia aquilo mesmo. Kevin engoliu em seco, esperando que Dionísio o contasse mais.
- Então, a missão é bem simples. Vou te contar só o que você precisa saber. Você escuta tem perguntar demais, vai lá, completa a missão, volta pra pegar a recompensa e fica tudo bem. Existe um monstro que segue a Aurora Boreal. Seu nome é Boreas. Ele é um Elemental primário do gelo. Isso significa que ele é um ícone dos ícones do elemento água, está me entendendo? Coisa finíssima. Criado nos princípios da humanidade há muito tempo, pela própria terra. Muito importante para a natureza e tudo mais. – Ele deu mais um gole de sua coca diet e, com um suspiro de quem acabou de se refrescar, continuou: – Você precisa eliminá-lo, Kevin. Sua presença agora ameaça o mundo e, por conta disso, ele precisa ser destruído. Não apenas isso. É necessário que você aniquile o seu crânio. Só assim se assegurará de que ele não voltará mais. Entendido? Nada pessoal dos deuses, apenas aquela coisa de equilíbrio natural e tudo mais, você não vai querer saber sobre essas chatices. Quero até a última presa destruída... Quero dizer... Até a última escama.
Kevin afirmou com a cabeça e limpou a garganta. Tentava manter a expressão ainda séria e fria, por mais que toda a missão parecesse armada. Dionísio estava claramente escondendo todas as informações da missão. Por sorte, Andrew o tinha avisado de tudo. Ele sabia que lado tomar.
- Destruí-lo por completo, sem deixar nem uma escama para trás. Só isso? Vou precisar saber de algo mais? Quanto tempo eu tenho, local específico para encontrá-lo? O senhor não me deu sequer por onde começar.
- Tudo será esclarecido. O que eu disse sobre perguntas demais? Não gosto de campista assim, jovem Kelvin.
- É Kevin. Você acabou de confundir meu nome com...
- Claro que não! Agora, escute Kelso, a missão lhe foi dada e eu espero que seja cumprida. Desculpe-me se pareço muito rude, mas esse é um caso de grande interesse para o Olimpo... e para os deuses em geral.
Dionísio falava dando olhares constantes para a janela. Era como se ele soubesse que havia alguém ali, mesmo que usando de algum tipo de magia de ocultação para não ser visto. Ele, sendo um deus, podia sentir sua presença, mas não ver sua imagem era incômodo. Perdeu-se dos trilhos da conversa em uma dessas olhadas, pondo-se a observar o acampamento pela sua grande vidraça à esquerda da escrivaninha. Voltou a si mesmo apenas passados alguns demorados segundos de silêncio desde as últimas perguntas de Kevin. Dionísio virou o rosto rapidamente para o filho de Selene, se engasgando com as palavras como quem fazia força para continuar a conversa. Tentou disfarçar sua recente dispersão, tomando mais um gole da coca diet e pigarreando, apressado:
— Sim, destrua a criatura totalmente, se possível. Não deixe nenhum resquício dela. Você tem uma semana, no máximo, contando de agora. Até a próxima quinta-feira, esse monstro precisa ter sido eliminado da existência. Quanto à localização, ele segue a própria Aurora, siga-a também. Vá para o norte.
E, tomando o último resto de coca, amassando a latinha e jogando-a na lixeira ao seu lado, assumiu um olhar sério e uma voz mais grossa que o comum. Seus olhos ficaram com uma cor vinho intensa. Um cheiro de uvas começou a entupir as narinas de Kevin, quase o asfixiando
— E isso é tudo o que você precisa saber. As passagens estão com Argos na colina. Vá. Sem mais perguntas.
Kevin sabia o porquê de Dionísio querer o monstro aniquilado. Era tudo uma questão de um mais um. Se o crânio e as presas do monstro fossem aniquilados, o submundo não teria como construir o artefato mencionado por Andrew. Zeus ganharia vantagem total na batalha e aniquilaria o reino do irmão. Seria desastroso para todos se os mortos não tivessem um lugar para ir. Mil pensamentos percorriam a cabeça do meio-sangue. Que tipo de trama estava por trás desse ataque de Zeus contra Hades?
- Você já pode ir.
Dionísio relaxou os ombros e a voz. Seus olhos voltaram a um castanho claro. Kevin assentiu com a cabeça:
-Obrigado pela, ahm, recepção.
Enquanto Kevin se retirava da sala, escutou o Senhor D falar em um tom brincalhão:
— Parece que você ganhou um belo presente. Andrew tem um ótimo gosto para armas. Arsenal do pai dele, eu imagino. Vejo que estão ficando amiguinhos...
Gargalhou baixo ao terminar de falar, virando a cadeira para a janela. O perigoso sarcasmo de Dionísio fez uma onda de medo percorrer Kevin. Ele não esperava por aquilo. Talvez tivesse esquecido que Dionísio era um deus e, sendo tal, esconder coisas dele não era tarefa fácil. Sem olhar para trás, ele fechou a porta, ainda podendo ouvir as risadas do deus do vinho. Sua missão agora era fazer as malas e se encontrar com Argos no topo da colina, perto do refeitório. Ele correu até o chalé de Selene, seu dormitório. As paredes negras como a noite, decoradas com feixes brancos, representando a luz da lua. O telhado circular, prateado. Na porta de mogno estava esculpida uma lua de prata, junto a algumas estrelas menores. Os pés de Kevin farfalhavam rapidamente na grama, enquanto ele corria. A porta estava um pouco emperrada, provavelmente um de seus irmãos tivesse feito isso. Ao abrir, percebeu o chalé vazio:
- Claro! Devem estar na arena treinando. Eu devia estar com eles. Queria, ao menos, me despedir.
Ele foi em direção à sua cama. Abriu o armário ao lado para tirar sua mochila. Lá dentro, havia os dois presentes que ganhara de sua mãe, a deusa da lua. Quase todos os semideuses ganham artefatos mágicos quando seus pais ou mães divinos os reconhecem. Kevin ganhou uma espada branca, adornada com pérolas e feita com aço temperado, chamada por ele de Crescente. Ela podia se transfigurar em um anel quando Kevin quisesse. O outro presente era a Pulseira Lunar, feita do mesmo aço, que assumia a forma de um grande escudo quando necessário.
Sem muito tempo, colocou tudo o que podia na mochila. Colocou a pulseira e o anel, calçou os sapatos e vestiu um casaco preto por cima da camisa branca. Torcia para que sua calça jeans, meio rasgada, aguentar a viajem inteira. Colocou a bolsa nas costas e, lamentando não ter um papel e uma caneta para deixar um recado para seus irmãos, partiu para a colina.
Não muito longe do chalé, duas figuras sombrias observavam o filho de Selene saindo de casa. Ambas escondiam-se no telhado do chalé de Athena, embaixo da sacada do segundo andar. Escondidos nas sombras, eles pareciam ter demorado horas para quebrar seu silêncio de vigília:
- Não entendo. Por que Kevin Maxwell? Por que não eu ou você?
- Ele me perguntou a mesma coisa.
- E?
- A profecia.
- Para o inferno com você e essa profecia novamente. Temos dezoito outros filhos de Selene disponíveis e cinco deles estão entre os cinquenta melhores do acampamento.
- A profecia fala dele, o mais novo. Ele precisa ir, e agora. Não importa se ele morre ou não. Ele só precisa estar lá.
- Mas e se Dionísio tivesse...
- Ele sabe o que faz e onde se mete. Os deuses são sábios demais para interferir nas profecias. E eu pensei você também fosse, Seth.
- S... Sim. Desculpe-me... Tenente.
- Ande. Hades nos aguarda para relatório.
E, partindo tão silenciosamente quanto chegaram, os dois sumiram na escuridão.
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