A Escadaria Da Aurora
2 Capítulo 2: Presenças Indesejadas
A bagagem de Kevin tinha sido bem preparada. Pelo menos o melhor que ele podia. Continha mantimentos, em sua maioria comidas enlatadas, algumas refeições instantâneas e barras de cereais, bandagens, roupas para frio — embora poucas para as baixíssimas temperaturas que iria enfrentar — e suas duas armas, presentes da mãe Selene. Havia também diversos dracmas de ouro, o dinheiro dos gregos e de todo aquele mundo mágico. Claro, o garoto não se esqueceu do dinheiro humano e encheu uma pequena carteira com todo o dinheiro americano que possuía. Na alça direita da mochila havia outro bolso e, ali, um dos bens mais importantes de Kevin. Uma foto de seu pai.
Maxwell Ford era um homem incomum. Mais do que isso, ele era incomum até de mais. Nasceu e morou no Canadá até os 30 anos de idade. A partir do momento em que ganhou sua primeira luneta, aos 15 anos, o garoto se apaixonou pelos céus da noite. Mais especificamente, pela lua. Max era fascinado pela lua. Escrevia poemas ressaltando a beleza do astro, sua estética esburacada, cheia de imperfeições e marcas de agressões que, mesmo assim, brilhava em uma magnífica luz prateada, ajudando a iluminar até mesmo a noite mais escura. Ele cresceu se inspirando naquela esfera branca celeste. Estudioso e esforçado, não demorou muito para se formar e começar a viver sozinho. Foi quando conheceu Selene. Mal sabia ele que a própria lua sabia de tudo que havia no coração de Max. E dentro daquele bondoso coração, Max tinha a certeza de que, finalmente, havia encontrado sua lua, na terra.
Aquela foto era tudo que Kevin tinha de seu pai. Pouco depois do nascimento do meio-sangue, um massivo ataque de monstros irrompeu na cidade em que a família morava. Selene sabia que, mesmo que protegesse sua amada família, uma hora precisaria se ausentar para cumprir seus deveres divindade. Foi em uma dessas ocasiões que sua casa foi atacada. Kevin devia ter quatro ou cinco anos. Tudo o que conseguia lembrar-se era de seu pai, com uma grande mala em um dos braços e ele no outro. Via por de trás do ombro de Max. Os monstros o seguiam pela casa e ele gritava pelo nome de Selene. Por mais rápido que viesse, a deus não conseguiria chegar a tempo. O garoto lembra-se das últimas palavras do pai, antes deste o esconder no armário da cozinha.
- Filho... Imersa sua alma... Em amor...
A mídia havia dito que um grupo terrorista invadiu a cidade. Quando Kevin parava para pensar nisso, tocava-se do quão estúpido soava uma organização terrorista que não usa nenhuma arma de fogo, apenas facas. Os mortais realmente tinham uma tendência muito grande a acreditar em qualquer coisa. Kevin não os culpava, obviamente. Era tudo causado pela névoa mágica que separava os dois mundos.
Sua mãe divina provavelmente estava trabalhando agora. Desde que ela o deixou no acampamento, em Nova York, nunca mais foi vista pelo filho. Ela era bastante gentil com ele e, para a felicidade de Kevin, a missão provavelmente começaria à noite. Sentia-se muito mais confortável com a ideia de estar sendo acompanhado de perto pela mãe. Kevin caminhava colina acima com as mangas do moletom enroladas e os olhos semicerrados. O sol estava bastante forte e fazia calor no acampamento naquela época do ano. A pior, em sua opinião. Kevin quase suava naquela roupa, não fosse o vento forte do verde morro que subia, emaranhando um pouco seus cabelos negros e atingindo-o vez ou outra com lufadas violentas no rosto. A grama tremia veloz enquanto o semideus procurava a trilha para o carro de Argos, localizado no topo da colina. Quando finalmente a encontrou, parou por um momento para descansar. Naquele momento, sua espinha gelou. Seu corpo estava paralisado de medo. E o pior, ele não fazia a mínima ideia do motivo. Após passar alguns segundos paralisado o filho de Selene conseguiu levantar a cabeça para olhar ao seu redor. Tudo parecia normal. Não havia sequer sinal de qualquer coisa estranha acontecendo naquela trilha. Ainda assim, a sensação não ia embora. Foi quando ele percebeu que algo ali estava fora de seu devido lugar. Algo que ele nunca havia percebido ali antes, que, com toda certeza, não pertencia ali. Uma floresta inteira.
Sempre que tomavam aquela trilha para Argos, os campistas raramente olhavam ao redor. Estavam ocupados demais discutindo a missão com os colegas com quem foram mandados ou, no caso dos que foram escolhidos para irem sozinhos, refletindo ou distraindo-se. Não era uma tarefa fácil ser mandado em uma viagem para arriscar a própria vida. Por estar assim, imerso em seus pensamentos, Kevin não estranhou aquela floresta, aparentemente no meio da colina, quando a avistava de longe. Era, afinal, apenas uma paisagem qualquer. Mais do que isso, ele não havia se dado nem o trabalho de olhar o que havia entre as árvores quando as percebeu ali, movidas por uma força estranha até aquele local. Foi aí que Kevin percebeu quão séria era a sua missão e, ao mesmo tempo, o tamanho do perigo em que havia se metido. Ali, no meio da floresta, o garoto achou a causa de seu medo irracional. Era, de fato, uma missão suicida, e Kevin olhava direto nos olhos de sangue da morte. Literalmente.
O que Kevin havia antes, aterrorizado, percebido como um par de olhos vermelhos brilhando na escuridão, flutuando, era agora uma silhueta completa. Seus braços esguios agarravam um grande cabo do que parecia ser ferro estígio. No topo daquele bastão, havia a única coisa distinguível por Kevin, além dos olhos do ser: Uma lâmina de quase dois metros de comprimento. Algo o assegurava que aquele era um dos deuses do submundo que as pessoas menos gostavam de ver. Isso considerando que algum deles é bem recebido. Thanatos, o impiedoso deus da morte, mirava diretamente na alma de Kevin. Um som agudo iniciava-se ao longe. Enquanto tornava-se mais alto, trazia consigo um estranho tremor. Toda a floresta e a colina tremiam junto aos ouvidos de Kevin.
- “NÃO FALHE!”
E então, tudo cessou.
Os olhos e a silhueta do deus da morte sumiram, bem como o tremor, o barulho e toda a floresta. Centenas, talvez milhares de árvores, desapareceram sem emitir um som sequer. Kevin continuava com a sensação de mau agouro infestando-o a alma. Quando caiu em si, percebeu estar suando, ofegante. Suas pernas tremiam, assim como as mãos. A respiração pesada o impedia de gritar todos os palavrões que desejava. Pouco a pouco, ele se pôs de volta à sua trilha. Seus olhos, agora, evitavam ao máximo olhar para a esquerda, onde estava a floresta. Mesmo que não restasse mais nada ali além de uma declinação preenchida de grama, uma encosta da colina. Só desejava chegar ao topo o mais rápido possível. Aqueles olhos vermelhos, intensos, ficaram marcados em sua retina e em sua cabeça. As poucas palavras do ser sombrio, fosse Thanatos ou não, pesavam como pedras em seu coração. Os deuses do submundo o vigiavam de perto e dependiam dele. Tais deuses não tinham fama de serem piedosos com quem os falhava e Kevin sabia que, muito provavelmente, esse seria o seu caso.
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Após alguns poucos minutos, nosso quase herói havia chegado aonde queria. No topo daquela grande colina, próximo a um gótico portão de pedra de mármore polida e ferragens cor de cobre, estava Argos e seu carro. Agachado ao lado da porta do motorista com um pano em uma das mãos e um estranho pulverizador mecânico na outra, lustrava o carro calmamente. Talvez até assobiasse antes de perceber a aproximação de Kevin. Quando o campista já se encontrava perto o bastante, Argos levantou-se e o cumprimentou com um curto aceno formal, abaixando levemente a cabeça. Pôs o lenço no bolso da camiseta de estampa havaiana e prendeu o dispositivo de cobre no cinto. Argos era uma espécie de monstro amigo do acampamento, responsável pela segurança geral do local, bem como dar carona aos campistas até o local de suas missões ou até o aeroporto mais próximo. Normal à primeira vista, aquele homem loiro, de físico forte de surfista, era, naquele momento, o motorista oficial de todo e qualquer campista que necessitasse de sua ajuda. Em sua pele havia centenas de olhos que não deixavam escapar-lhe um só detalhe do ambiente em sua volta. Possuía olhos até nas palmas das mãos, o que desencorajava muitos semideuses a apertá-las. Não que Argos quisesse isso, de qualquer forma. Era também muito calado. A única coisa que muitos sabiam dele, não se tratando de sua serventia para o acampamento, era que amava seu carro. Mudando de modelo e marca constantemente, apesar de ser frequentemente uma van, o veículo era tão normal quanto qualquer outro objeto naquele acampamento. Seu dono o estacionava no inicio de uma trilha de terra batida, localizada bem ali, no topo da colina. Era reta e decorada nas bordas com pequenas pedras brancas, terminando no portão de mármore. Boatos que circulavam pelo acampamento, principalmente graças às filhas de Afrodite, diziam que aquela trilha de Argos saía, magicamente, em qualquer viaduto, avenida, rua ou mesmo beco em Nova York. Dependendo da pressa de Argos, poderia ir para cantos ainda mais distantes. Desse modo, tornou-se costumeiro para meio-sangues perdidos ou voltando de missão, o ato de jogar dracmas em qualquer pedaço de asfalto por onde se pode passar um carro e ver, segundos depois, um veículo de modelo e cor aleatórios aparecendo do nada ao lado deles com um peculiar surfista atrás do volante. Muitos alegavam que Argos havia roubado o papel de certas três irmãs que dividem um só olho e um só dente, mas devido a reclamações de diversos campistas, Dionísio resolveu mandar Argos assumir tal papel.
- Argos! Como tem passado?
O monstro não respondeu. Era natural dele não falar quase nada. Muitos até pensavam que fosse mudo. Apenas levantou a mão para o garoto, pedindo que esperasse. Tirou de um dos bolsos da calça um pequeno envelope e o entregou a Kevin. O semideus falou, em um tom entediado:
- Ah! Suponho então que já saiba da minha missão. Que inesperado...
O envelope, de papel-carta branco, continha um selo oficial do acampamento: Um botão de cera alaranjado com uma marca de um centauro. Um cheiro conhecido de vinheiras, que tanto agradava o campista quanto o provocava raiva e repulsa, exalava da cera solidificada. Ele não demorou muito para abrir o envelope e correr os olhos pelo seu conteúdo. Dentro dele havia duas passagens, sendo uma de ida e uma de volta para Alert, no Canadá.
- Mas... É onde eu nasci...
Dentro do envelope tinha também uma pequena carta, onde dizia:
“Caro Kelso,
Alert é o lugar permanentemente habitado mais setentrional. Fica aproximadamente 10 km a oeste do Cabo Sheridan, a ponta nordeste da Ilha Ellesmere, na orla do mar congelado de Lincoln, no território de Nunavut, no Canadá. Alert está a pouco mais de 817 km do Pólo Norte. Eu copiei isso tudo de uma enciclopédia qualquer. São informações completamente sem importância para você não pensar que está tão perdido assim.
Mas você está, acostume-se. Tente não morrer congelado, não quero ter que mandar outro semideus para cumprir essa missão.
Dionísio.”
Realmente, as informações eram inúteis. Kevin havia nascido lá, sabia o necessário. Junto à carta, havia um cartão prateado de crédito. Era estampado com uma grande imagem de um caduceu, que pegava o objeto todo, o símbolo de Hermes, deus do comércio. O nome de Kevin estava inscrito lá, de alguma forma, com letras douradas. Ele já ouvira falar desse cartão antes, quando escutou alguns filhos de Afrodite conversando ao passar pelo chalé deles. Tinha dinheiro humano e dracmas infinitos, todos pagos pelos deuses de uma forma misteriosa. Pelo menos era esse o boato que corria sobre o cartão de Hermes. A única regra, todos sabiam, era não abusar do cartão para coisas supérfluas, e isso seria bastante fácil para Kevin. Ele nunca foi de esbanjar dinheiro.
Colocando o envelope no bolso, Kevin sem querer tocou Penumbra. Não se sabe o porquê de tal efeito ter ocorrido apenas naquele momento, mas essa era a última coisa que passou pela cabeça do semideus. Sua mente estava ocupada demais tentando entender o que, de fato, ocorreu ali. A espada brilhou com uma aura de um roxo incandescente, enquanto seu material se tornava cada vez mais escuro, até ela se tornar apenas uma massa negra e fina, e se desfez em uma estranha fumaça escura. Densa, mais pareciam tentáculos que, descontrolados, procuravam pelo braço de Kevin. O filho de Selene tentou, por reflexo, retirar o braço daquela coisa que mais parecia uma simbiose. A espada, agora totalmente desfigurada em uma massa negra cheia de tentáculos, agarrou-o, rápida e agressiva, e começou a escalar seu corpo, deslocando-se e ficando totalmente em cima do seu antebraço. Ela começou a se dispersar, ficar mais fina e maleável. A massa negra começou a mudar de forma e a aderir à pele de Kevin. Finalizado o processo, nada mais restava da espada na cintura do semideus. A alça na qual ele a pendurava estava vazia e, em seu braço, havia algo novo: Uma tatuagem escura, várias listras e espirais que, juntas, lembrava uma água negra. Possuía diversas inscrições em grego antigo e em uma língua estranha para Kevin. Se o garoto era bom em alguma coisa ou, ao menos, não muito ruim, era em grego antigo. Conseguiu ler, após alguns segundos de análise: "Penumbra, a Sombra Caminhante. Enquanto imersa nas sombras, chegarás ao infinito". Os olhos do garoto, em estado de choque e pânico, varriam as marcas em seu braço e, logo em seguida, o ambiente ao seu redor, procurando por algo. Mesmo não querendo admitir, sabia que devia ter sido obra dos deuses do submundo. Talvez tivesse sido a presença de Thanatos, em algum lugar, ainda por perto, que despertou esse efeito na espada. Seu raciocínio logo foi cortado por um pigarrear grave, alguém limpando a garganta.
Argos, ainda parado na frente de Kevin, o olhava com todos os seus olhos, que dividiam a atenção entre o garoto e sua tatuagem. Era quase como se não tivesse visto nada, de tão natural que era sua expressão. Com um sorriso de canto de boca, Kevin ouviu, talvez, a única frase que Argos já havia pronunciado em muitos anos.
— Como o seu, meu coração não tomará partido.
Isso deixou o garoto confuso em mais outro assunto. O que ele queria dizer? O monstro se virou e abriu a porta do carro, entrando e esperando que Kevin fizesse o mesmo.
Notas finais
Obrigado!
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