A Equina — ANIMALIA

2 Capítulo I: A Enviada


Notas iniciais
Desculpem-me a demora... tive algumas complicações pessoais e não pude postar... porém estou aqui. E muito obrigado aos que comentaram no Prelúdio, espero que estejam gostando e boa leitura!

“Como em todo lugar, vida e espaço, o percurso dos acontecimentos em Zookos continuaram ocorrendo e acabaram desencadeando em um único tempo. Isto é, 13 anos depois do sequestro da Rainha de Zookos.”

O quarto onde a jovem Holly estava era bem luxuoso com seu tons de rosa claro que ela dizia detestar, mas no fundo adorava a cor. Seu quarto lhe trazia belas e doces lembranças desde seu irmãos adotivos que se casaram até os mais novos que ainda conviviam com ela. Assim como sua penteadeira costumava lhe trazer lembranças de suas aulas de etiqueta que começou a ter assim que completou dez anos de idade. Uma bela dama na sociedade Vitoriana deveria se portar de modo educado e respeitável.

Holly estava sentada sobre a cama, sua impaciência era devido aos eventos da tarde daquele dia. Hipismo não era lá sua atividade favorita, mas os duques a obrigavam ir; diziam que uma moça não deveria perder os eventos sociais. Ela já não aguentava mais ir à jogos de críquete, croquet e à partidas de hipismo.

A criada Gessa havia lhe providenciado um belo vestido negro; o vestido era liso — sem estampa alguma —, sua gola era de renda creme, completando ela, estavam acrescidos alguns botões negros e um laço também da mesma coloração. A saia do vestido tinha uma parte lisa como a parte superior dele e a outra parte era de pregas. A duquesa Constance diria que este vestido era uma inovação da moda Vitoriana. Holly não aceitava a ideia de ir para a partida de Hipismo, mas quem não iria com um vestido como aquele?

— Lady Grosvenor, sua mãe te espera apressadamente na porta de entrada da casa — gritou, Gessa, entrando com certa dificuldade dentro do quarto de Holly.

— Fale para ela que não vou.

Holly fez um muxoxo.

— Não seja contraditória, sabe que a duquesa Grosvenor nunca a deixaria faltar a partida de Hipismo. — Gessa se sentou ao lado de Holly na cama e começou a pentear seus cabelos com a escova que estava jogada sobre a cama; não por arrumação e sim, por puro prazer de dedilhar as mechas de cabelo da garota.

— Ela tem de me entender. Eu não quero ir a este jogo. Hipismo não é para mim — disse Holly, indignada.

— Tente ser compreensiva pelo menos uma vez na vida, jovem lady — o tom de Gessa não era um tom de uma relação entre criada com sua ama e sim, de uma tia para uma sobrinha; algo mais íntimo e afetivo.

— Eu tento, mas… — Holly afundou a cabeça em seu travesseiro. Ela não gostava de ser contrariada.

— Lady Holly Nicolle Grosvenor, vista-se e desça! — o grito da duquesa era estrondante. Ela era uma mulher que tinha um vozeirão de deixar qualquer marmanjo de cara no chão. — Não quero me atrasar por sua causa.

— Sabe que quando ela grita assim não é boa coisa, minha jovem lady — o tom de Gessa era afável e compreensivo como sempre costumava falar com Holly.

Holly afastou os dedos de Gessa de forma grosseira e se levantou.

— Se ela quer que eu vá para esta partida de Hipismo, então ela terá o que quer. — Holly se sentou sobre a penteadeira. — Gessa, faça favor de arrumar cabelo, tenho uma partida de hipismo para ir.

Gessa parecia até uma formiga que perdeu o caminho de volta para o formigueiro; ela andava de um lado para o outro, estava atordoada com o jeito grosseiro e rebelde de Holly. A jovem lady podia ser meiga e carinhosa, mas a maior parte do tempo era mimada e teimosa. Gessa tentava ser gentil, afável e bem atenciosa com a garota, mas parecia que a negligência dos pais adotivos era maçante.

Os cabelos castanhos claro de Holly caiam em cascata atrás da cadeira de sua penteadeira. Ela sorria e se admirava, enquanto Gessa penteava os cabelos. A garota era uma futura dama Vitoriana bem vaidosa; esse era um dos traços mais requeridos para as damas da época.

— Preso ou solto, lady Grosvenor?

— Preso, Gessa, preso — respondeu Holly com um tom de cansaço na voz.

A criada obedeceu os pedidos da ama e prendeu o cabelo em um belo coque, perfeitamente alinhado. Ela era bem experiente com coques, já havia servido a família real até Victoria rebaixa-la para a família do Duque Hugh.

— Fique de pé, lady Grosvenor — solicitou Gessa.

Holly não pestanejou. Ela levantou-se instantaneamente e esperou que Gessa lhe vestisse. Dito e feito, a criada vestiu sua ama com o belo vestido que havia providenciado desde o início do dia. Holly estava deslumbrante naquele vestido negro.

— Boa sorte — disse Gessa, antes de deixar a lady Holly descer as escadas rumo à carruagem.

De certa forma, Holly se sentia culpada por ter tratado Gessa daquele jeito, porém seu orgulho era demasiadamente grande para se desculpar; um dos milhares de defeitos de Holly, mas quem não tinha defeitos? A lady havia descoberto que a duquesa Constance traía o marido com o duque de Albany, o filho da rainha Victoria com o príncipe Alberto.

Holly chegara na porta da carruagem, Jack já lhe esperava. Assim que viu a menina, ele já abriu a porta para ela. Holly subiu com uma pequena ajuda do criado e se sentou ao lado da duquesa.

— Por que demorou? — perguntou a Duquesa, ranzinza.

— Estava me arrumando. Não iria como aqueles mendigos de certas ruas da cidade — esclareceu Holly com uma pitada de ironia.

Jack deu partida na carruagem e os cavalos começaram a trotar. As tabernas perto da casa dos Grosvenor passaram com uma velocidade incrível. Os cavalos pareciam estar trotando com uma maior destreza do que a natural.

— Por que quer que eu vá afinal? — Holly perguntou.

— Não imagina? Seu dom, querida. Eu e o duque apostamos na partida e parece que seu dom será bom para dar uma ajudinha nela — disse a duquesa com seu ar de sarcasmo.

— Sabia que queria explorar meu dom. É só isso que faz. Me explorar — o tom da voz de Holly não era de bom agrado para uma dama, mas ela já havia mostrado que não se encaixava nos padrões de dama da sociedade Vitoriana, outras vezes.

— Não diga bobagens. Só queremos arrecadar bens para nossa família. Isso também é benefício para você.

Holly bufou.

— Não tente me enganar com essas falsas verdades. Você sabe muito bem que esta não é minha família e que eu nunca vou me enquadrar aqui. Sabe que não é totalmente certa. Sabe que trair o duque com o duque de Albeny não é certo, mas faz! — gritou ela. A garota estava tão exaltada que mal notara que havia falado de mais.

— Duque de Albeny? — questionou o duque olhando de forma ameaçadora para a duquesa.

— Foi. Foi só uma vez — a duquesa tentou se justificar.

Holly estava prestes a dizer algo quando a mão do duque lhe tampou a boca. Ela se questionou porque ele fizera aquilo, mas não hesitou.

— Falamos disso mais tarde — o tom de ameaça era explícito em sua voz. Holly sabia que havia cometido um deslize fatal ao contar sobre o relacionamento extra conjugal de Costance e Leopold. Ela sabia que estava errada, por isso se silenciou.

★★★

Holly se concentrava o máximo que podia nos cavalos da partida de Hipismo. Costance, a duquesa e Hugh, o duque, haviam apostado no cavalo número 24. A jovem animaga se concentrava no belo corcel negro. Se Holly não tivesse uma boa concentração, não notaria as pequenas pintas na sua pata dianteira; ela era detalhista com cada vírgula em sua vida.

A duquesa Constance estava cutucando de uma forma sútil o seu dorso para lhe chamar atenção. Holly fez uma cara de insatisfação e se virou para sua mãe adotiva forjando um sorriso; de tanto fazer isso, já era experiente na questão.

— Vejo pretendentes à vista, minha querida filha. Tem um garoto de cabelos negros do outro lado do semicírculo que está te olhando — Constance deixou claro o tom de animação em sua voz.

Holly arqueou as sobrancelhas, assustada.

— Creio que está enganada, duquesa. O jovem pode preferir algo mais ultrapassado e estar olhando para a senhora — disse Holly, com seu ar de ironia.

— Oh, que indelicadeza. Não seja insolente, lady Holly — retrucou Constance.

— Estou sendo apenas realista, duquesa.

— Se acha isso… agora volte sua concentração para o jogo e faça favor de ir até o jovem após a partida — ordenou a duquesa Constance.

O corcel de Holly já estava em seu aquecimento. Seu montador também se exercitava de forma bem atraente, mas este não era o objetivo daquela partida. Cada olhar que Holly dava para o cavalo era como um suspiro. O cavalo era bem lindo e atrativo, ela sentia que tinha um elo com ele, mas em partes poderia ser verdade, por causa de seu dom da animagia. Ela podia entrar na mente do cavalo e até se transformar em um, mas seus pensamentos eram outros. Se a duquesa quer que eu atrapalhe o jogo, pensou Holly, atrapalhar irei.

— Boa tarde, senhoras e senhores. Vamos começar mais uma partida emocionante de hipismo. Primeiro gostaria de dizer que temos uma família ilustre hoje aqui conosco — disse o locutor, interagindo com a platéia.

A mão de Holly foi puxada pela duquesa; era educado para os mencionados se levantarem para receber a ovação do resto da platéia e foi o que a família da garota fez. Todos se levantaram, ela, a duquesa e o duque, para serem ovacionados por toda aquela platéia efervescente de clamor. Por fim, eles se sentaram e o locutor deu continuidade.

— Hoje nosso banco de apostas está lotado. Até mesmo nossos convidados apostaram — disse o locutor, ansioso. — Se segurem em seus lugares, senhoras e senhores.

Holly estava tão concentrada em seu corcel que mal notou quando o locutor chamou o primeiro cavalo para fazer as provas de salto e aquelas outras burocracias feitas em um jogo de hipismo. A jovem animaga dispersou a sua atenção do corcel apenas quando um belo cavalo amarelo estava tendo um ótimo desempenho. Ela sentiu seu corpo estremecer e se conectou à mente do cavalo. Ela lembrou de cada passo dos treinamentos da duquesa. Primeiro, se concentre no animal e entre em sua mente. Segundo, tente pensar no corpo do animal. Terceiro, você agora está no controle, faça o que quer. Holly seguiu minunciosamente todas dicas da duquesa; foi um pouco difícil, porém ela conseguiu. Estava no controle do cavalo amarelo e antecipou o salto fazendo o animal colidir. Pelo fato de estar dentro do cavalo, Holly sentiu a dor em sua barriga, um pouco menos dolorosa, mas sentiu.

— Parece que o cavalo número 13 sofreu uma contusão, incitando assim sua desclassificação. Boa sorte ao seu montador e até o próximo ano — informou o locutor.

Holly se preparou antes mesmo do cavalo que os duques apostaram entrar no centro da arena. Ela já estava no controle do animal quando o locutor o chamou. Eles — Holly que manipulava o animal e o cavalo que estava preso em algum lugar do seu cérebro — começaram num ótimo ritmo, com uma boa cavalgada. Pulou todos os obstáculos com destreza e por fim, houve a catástrofe. A garota tentando incitar a duquesa começou de uma forma bem grotesca a avançar enfurecidamente contra o locutor na fase de dressage. O locutor tinha uma estatura consideravelmente, mediana, porém era um anão comparado ao belo corcel negro. O corcel — ou Holly — corria atrás dele como se estivesse querendo caçá-lo. A situação só finalizou quando Holly sentiu sua mente se desconectar do cavalo e ele desmaiar. Ela sabia que havia algo de errado, aquilo nunca acontecera.

— Sua danada! — A duquesa beliscava o dorso de Holly trazendo ela à realidade novamente. Holly só teve uma reação. Correr. Ela correu desesperada para a saída da arena, lágrimas escorriam dos seus olhos. Ela era forte, porém tinha vezes que tinha de esvaziar seu reservatório.

A garota sentiu uma mão impedi-la de passar, ela pensara que era um dos guardas da arena, muito pelo contrário. Era um jovem vestido com um colete e por cima, um paletó. Ele tinha uma bengala, não por necessidade e sim por moda. Holly logo reconhecera o garoto de cabelos negros que a observava enquanto estava na arena.

— Holly Grosvenor? — questionou o garoto.

— Pra você é lady. Lady Grosvenor — corrigiu Holly.

— Em meu mundo, você seria apenas mais uma servente do reino.

— Seu mundo? Que eu saiba, só existe esse mundo em que estamos.

— Está ligeiramente certa, mas quando digo meu mundo, quero dizer minha realidade; meu país — explicou o garoto.

— Ah... francês? — tentou adivinhar Holly.

— Muito errado. Sou zookaniano, assim como você.

Holly arqueou a sobrancelha.

— Como eu? A duquesa estava certa, alguns jovens tendem a ser meio lunáticos — zombou Holly.

— Já vi que não está entendendo. Nosso país não está localizado em nenhum mapa de humanos normais. É um país bem pequeno. São pessoas com dons, iguais ao seu e ao meu.

— C-como sabe do meu dom? — gaguejou Holly.

— Sabia que um corcel orientado como aquele não poderia se desorientar de uma hora para outra sem alguma influência. Foi então, que tirei sua influência dele e o deixei estável.

— Agora está explicado o porquê de ter me desconectado da mente do corcel. Você deve ter bastante experiência — Holly tentou de certa forma, elogiá-lo.

— Eu sou o rei do nosso país. Sou o rei de Zookos. — O garoto deu uma piscadela. Só agora, Holly havia notado que os olhos do garoto tinha um tom bem bonito. Ficava entre o azul turquesa e o meia-noite.

— Rei? Então, o reino de Zookos tem o mesmo sistema que aqui? Monarquia Constitucional? — indagou Holly.

— Sim, sim. Agora queira me acompanhar. — O garoto estendeu a mão.

Holly estava relutante quanto a decisão de ir com o garoto; mal o conhecia. Quando estava prestes a lhe apertar a mão. Uma jovem de cabelos negros como os do garoto puxou a mão dele interrompendo a ação.

— Quem é essa, Jim? — questionou a garota de cabelos negros.

— A enviada de Animalion. Ela é com certeza, a pessoa certa — respondeu o garoto. A garota sorriu para o garoto de forma carinhosa. Por breves momentos, Holly cogitou a ideia de serem namorados, mas decidiu abolir a ideia por causa dos cabelos negros.

— Prazer Amelie Dauphinhorse e esse é meu irmão, James Dauphinhorse. Jim para os íntimos, apenas. — A garota se apresentou sem ao menos um cumprimento. Com certeza, em seu país as damas não era como as de Londres.

— Eu sou Holly Grosvenor, o prazer é todo meu. — Holly agiu com a mesma frieza de Amelie.

— Então, vai vir comigo? — indagou James.

Holly parou por alguns segundos e começou a pensar sobre a questão. Seu pensamento foi interrompido por um grito.

— Sua travessa, volte aqui, Holly — a voz era familiar para ela. Um grito exasperado da duquesa Constance.

— Dessa vez você vai? — perguntou James à irmã.

— Pode deixar comigo — o tom de Amelie era de animação. Ela seguiu em direção à duquesa e a levou para um local onde Holly perdeu a visibilidade sobre as duas.

Levou alguns minutos até Holly indagar sobre o tal acontecimento.

— O que ela foi fazer?

— Espere. 5...4…3...2...1. — James sorriu enquanto contava.

Ao final da contagem de James, Amelie reapareceu com um sorriso sádico estampado no rosto. Ela abraçou o irmão, felicita.

— O que fez com a duquesa? — Holly perguntou; ela era uma garota bem curiosa.

— Morta. E ela não é bem uma duquesa. É um Kopoido. Um monstro sugador de dom. Assim que o possuinte do dom completa 17 anos, eles sugam seu dom dando assim mais cem anos de juventude para eles — explicou Amelie; o sorriso sádico se manteve intacto a cada pausa.

— Sempre senti algo estranho nela. Minhas dúvidas agora estão confirmadas.

— Vai comigo ou não? Essa é última vez que pergunto — disse James.

— Vou. Quero conhecer mais sobre se… Nosso mundo. Quero conhecer uma nova vida, uma vida fora da sombra dos duques. Quero ser livre, apenas isso e acho que essa é oportunidade, então, vou agarrá-la.

James sorriu e lhe estendeu a mão. Ele a segurou e a conduziu para fora daquela arena. Durante o percurso lhe avisou: — Saiba que pra minioria este é um caminho com volta. Esteja ciente — James impusera um ar de amedrontamento em sua voz.

Holly olhou espantada para James, mas depois colocou um sorriso um pouco forçado em seu rosto. Sabia ela que se quisesse aprender mais teria que seguir com ele. Independentemente dos perigos e obstáculos. Independentemente de tudo.

Notas finais
O que acharam do capítulo? Deixem seus comentários. Beijos Animo.