A Duel of Minds - Sherlock Holmes vs Arsène Lupin
16 Perguntas em Paris
Paris, França. 10 de Dezembro de 1911.
Hospital Saint Camille.
Quando o cabriolé parou diante do Hospital Saint Camille, um inexplicável arrepio percorreu a espinha de Henrietta Smith. A outrora empregada daquele lugar visitava o recinto em uma situação bem diferente, mas isso não a impedia de ser acossada pelas lembranças ruins dos enormes tempos de dificuldade que passara naquela cidade, e em especial ali. E mesmo que vestida em quase que uma nova pele, Ettie não conseguia disfarçar seu desconforto. Estava agora melhor vestida, a usar um chapéu e vestido elegante, com o cabelo penteado e trançado, e dificilmente poderia ser reconhecida como a faxineira que tanto encerara o piso daquele hospital vinte anos atrás.
-Deseja que eu a aguarde, Madam Holmes?
Ettie riu com a pergunta do cocheiro. Desde que colocara os pés na Cidade-Luz, havia escolhido se apresentar como Henrietta Holmes, numa tentativa de conseguir um pouco mais de distinção e respeitabilidade no hotel de luxo e restaurante que frequentara. Obviamente não dissera a ninguém sobre Sherlock Holmes, mas no fundo sentia-se vingada por usar clandestinamente seu sobrenome, e assim passar incógnita. Esperava agora que suas roupas elegantes, sobrenome distinto e os fios brancos a ressaltar em seus cabelos ajudassem a disfarçar sua real identidade.
-Não será necessário. Obrigada!
O cocheiro prosseguiu, deixando Ettie na porta do hospital. Suspirando profundamente, a mulher prosseguiu seu caminho hospital adentro, e para sua nenhuma surpresa, o hospital parecia congelado no tempo. O piso, as escadarias que davam acesso às outras alas, e até mesmo o pavoroso lustre que ela tivera o desprazer de limpar umas três vezes, todos ali, intocáveis, como se fossem imunes ao passar dos anos. Se não fosse por suas rugas de expressão, poderia acreditar por um minuto que não havia se passado vinte anos desde sua última estadia ali.
Aproximou-se de uma recepcionista, jovem demais para reconhece-la daquela época. Era uma moça sorridente, percebeu Ettie, com sinais de ser prestativa. Talvez pudesse ajuda-la.
-Bonjour! – cumprimentou Ettie, gastando seu escasso francês que aprendera dos tempos de Paris. – Gostaria de informações sobre... Josephine. Er, enfermeira Josephine. Ela era chefe da enfermaria.
A jovem pareceu confusa.
-Curioso... Não temos nenhuma Josephine a chefiar a enfermagem.
-Ah, isso foi há muitos anos atrás. – explicou Ettie. – Uns vinte, pelo menos.
-Nossa! Receio não ter informações dela, mas posso pedir ao diretor. O que deseja saber dela?
-Eu fui uma paciente daqui, há uns vinte anos e, bem... Como estava de passagem por Paris, decidi revê-la. Gostaria de saber como faço para encontra-la.
A jovem recepcionista tomou um aparelho pelas mãos. Aquilo que chamavam de telefone e permitia conversar com pessoas a longa distância, sabia Ettie. Parece que nem tudo nesse hospital ficou congelado no tempo, precisava reconhecer. A recepcionista trocou algumas palavras com o que deveria ser a telefonista e aguardou um pouco.
-A senhora está com sorte, Madame...?
-Holmes, a seu dispor. – apresentou-se Ettie.
-Madame Holmes, o diretor disse que pode falar com você, mas não agora. Pediu para que o procurasse daqui a uma hora pois está em reunião.
-Que ótimo! – aliviou-se Ettie. – Agora, tenho mais um pedido para fazer. O cemitério daqui... Seria possível fazer uma visita a uma de suas lápides?
-Mas é claro que sim! – exclamou a recepcionista. – Não há mais novos sepultamentos por lá há pelo menos uns dez anos, mas ainda é possível visitar os túmulos remanescentes. Um momento, vou pedir para um dos colaboradores te acompanhar...
A recepcionista deixou a recepção por alguns minutos, retornando acompanhada de um homem. Usava uniforme do hospital e tinha as mãos sujas de terra.
-Madam Holmes, este é Jean. Ele é o jardineiro do hospital. Será ele quem vai te conduzir até o cemitério, está bem?
-Merci! – agradeceu Ettie, caminhando lado a lado do jardineiro em direção ao cemitério. Um sentimento estranho pairava no ar, por saber que estaria frente a frente mais uma vez da lápide de seu filho. Doía-lhe saber que estaria frente a frente do nome dele, gravado e esculpido sobre aquela pedra, provavelmente envelhecida pelo tempo. Vinte anos... Era uma vida, literalmente, mas não o suficiente para esquecer.
-Este é o cemitério, madame. Está com esse aspecto abandonado porque não fazemos mais sepultamentos há um tempo. – explicou-se o jardineiro. Ao observá-lo, Ettie sentiu que ele era familiar, e pela idade dele, havia chances de ter trabalhado no hospital na mesma época que ela.
-Perdoe-me, mounsier Jean... Mas por acaso o senhor se recorda de uma enfermeira chamada Josephine?
-Ah, Josephine... Mas é claro que sim! – exclamou o sujeito, mostrando familiaridade.
-Sabe dizer o que aconteceu com ela?
-Ela trabalhou muitos anos nesse hospital, mas depois pediu demissão.
-É mesmo? Quando, saberia dizer?
-Ah, tem pelo menos uns vinte anos... Fizemos até uma festa de despedida para ela, afinal era querida por todos, apesar do seu jeito um tanto... Duro, por assim dizer. E frio. Ela era inglesa, afinal. Normal daqueles bebedores de chá. – comentou, com um riso.
-E ela chegou a dizer o porquê de sua demissão?
-Ela conseguiu o trabalho de governanta em uma cidade... Não lembro qual... Acho que era Bordeaux! Sim, Bordeaux... Olivier não parou de zombá-la por causa do vinho de lá... Ela era uma mulher muito séria e Olivier um grande piadista. Transformava tudo em piada. Disse que seria um grande desperdício ver uma mulher abstêmica morar em Bordeaux, onde é fabricado o melhor vinho da França.
Então, ela foi para Bordeaux... Virar governanta...
-Mas eu não entendo sua curiosidade.
“Tenha cautela. Não confie em qualquer um. Seja discreta. Se necessário, minta.” Os conselhos de Holmes, antes de embarcar para Paris, ainda pairavam na cabeça de Ettie, e apesar de sua facilidade em fazer amigos e se aproximar dos outros, ela sabia que no quesito investigação, o detetive era uma autoridade no assunto e ela não deveria ignorar seus conselhos. Por isso, inventou uma desculpa.
-Já fui paciente dela, há um tempo. Voltei para cá e estranhei seu sumiço. Só isso. Agora, onde estão os enterrados em 1891?
-Por aqui, me siga. – apontou o jardineiro, sendo obedecido por Ettie. Após alguns passos, observando uma ou outra lápide, a mulher deteve-se, quase que paralisada. Lá estava ela. A lápide de seu filho. Era um pedaço de pedra, um tanto rudimentar pois não tivera dinheiro o bastante para mandar fazerem uma lápide bonita para seu próprio filho, mas ela estava ali. Com lodo, graças à exposição à chuva e friagem, e um pouco de plantas daninhas a cobri-la, maltratada pelo tempo, mas ainda era possível ver o nome SCOTT SMITH gravado nela. Colocando-se de cócoras, Ettie passou seus dedos pela lápide, limpando-a grosseiramente do lodo e arrancando um pouco do mato que havia. Quando seus dedos tocaram, uma a uma, as letras gravadas nela, não aguentou e pôs-se a chorar.
-Se a senhora quiser, posso vir aqui pessoalmente cuidar da lápide de seu filho. Por alguns florins, até faço uma manutenção esporádica, para não deixar chegar nesse estado deplorável de descuido. Posso depositar umas flores, também, se for de seu agrado... – ofereceu o jardineiro, interessado em ganhar uma grana.
-Na verdade... – levantou-se Ettie, tentando cessar o choro. – Tenho algo em mente que talvez o senhor seja de serventia. Isto é, se for um homem corajoso...
O jardineiro sorriu.
-Mas é só a senhora pedir que faço. Claro, e pagando bem!
-Pois vou pagar muito bem, sim... – confirmou Ettie, mexendo em sua bolsa. Por fim, suspirou. – Preciso que... Que... Que abra essa sepultura.
O jardineiro Jean arregalou seus olhos azuis, horrorizado.
-Está pedindo que eu viole essa sepultura, é isso?
Ettie suspirou. Só jogar dinheiro na cara do sujeito não seria motivo o bastante para convencê-lo. Teria de se justificar.
-A enfermeira Josephine me disse que meu filho nasceu com profundas deformações. Ela me convenceu de que eram tão horrendas que seria melhor para mim se eu simplesmente nem o visse... Meu filho Scott foi enterrado com caixão fechado, mas hoje tenho grandes suspeitas de que ela mentiu pra mim. A única forma que tenho de confirmar isso é desenterrando meu filho, ou... Ou o que quer que tenha sobrado dele.
Jean parecia abismado. Enxugava o suor da testa, de tão nervoso.
-Mas isso seria um pecado abominável! Desenterrar uma pessoa... Santo Deus...
-Se não tem estômago para isso, certamente encontrarei algum coveiro em Paris disposto a invadir esse cemitério na calada da noite e me ajudar. Mas saiba que vou pagar muitíssimo bem.
O homem parecia refletir. Olhou para os lados.
-Está bem, está bem! – aceitou, ainda que temeroso. – Vou desenterrar esse bebê. Mas já aviso logo... Vinte anos sepultado... Não encontrará nada além de ossos, e olhe lá!
-Vai desenterrá-lo essa noite?
-Valha-me Deus! – horrorizou-se o homem. – Não vou ficar perambulando nesse cemitério de noite, muito menos para desenterrar uma pobre criança! Ninguém gosta de frequentar esse cemitério, então a chance de alguém nos encontrar aqui é muito remota. E o quanto antes eu desenterrar, melhor!
O homem correu até uma pequena saleta, e de lá retirou uma pá. Por sorte, aquela era uma sepultura pequena, feita para um bebê. Não daria tanto trabalho para desenterrar. Arregaçou as mangas da camisa, pegou na pá, fez uma última oração a Deus e prosseguiu em sua empreitada.
Sem dúvidas, Jean era muito prático com tarefas envolvendo o solo. Escavava o solo com agilidade, de modo que não demorou muito até que sua pá batesse em algo duro, no que provavelmente eram os restos do caixão.
-Olha essa madeira, já podre... A terra já deve ter comido tudo, minha senhora... Tem certeza de que... Quer olhar mesmo? – perguntou Jean, incerto se deveria forçar a pá ainda mais contra a madeira apodrecida.
As palavras de Holmes ecoavam na mente de Ettie. Se o bebê realmente tinha deformações tal como Josephine proclamara, estariam visíveis, mesmo que estivesse agora reduzido a um mero esqueleto. Com o coração disparado de medo, Ettie decretou.
-Sim, Jean. – disse, com a voz trêmula. – Continue.
“Se você estiver mesmo morto, meu filho... Me desculpe pela monstruosidade que estou fazendo, Scott. Mas eu não tive escolha. Preciso ter certeza de que você está realmente vivo. Preciso ter certeza, senão eu...”
-Valha-me Deus!
A exclamação de Jean assombrou a Ettie, tirando-a de seus pensamentos tortuosos.
-O que houve? – aproximou-se a mulher, tomando-se de susto.
O caixão estava completamente vazio.
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