Londres, Inglaterra. 11 de Dezembro de 1911.

Delegacia de Whitechapel.



Hopkins e Muller começaram a trabalhar no mesmo dia, na Delegacia de Whitechapel. Hopkins pertencia à provável milésima geração de sua família a morar em Whitechapel, enquanto Muller era filho de imigrantes alemães que havia escolhido Londres como uma oportunidade de ter uma vida melhor. Tinham histórias de vida bem distintas, mas algo muito forte em comum: amavam sua profissão.

Quis o destino que justamente naquele início de expediente monótono, quando os dois estavam a aguardar o início de turno, que uma aparente briga de arruaceiros fizesse ninguém menos que o infame Arsène Lupin fosse parar justamente em seus pés, depois de ter levado a pior em uma briga. Seu agressor havia fugido, mas havia esperança que um dos rapazes da Scotland Yard conseguisse apanhá-lo, mas esse era um detalhe que pouco importava agora. Os dois guardas olhavam para o prisioneiro de cabelos vermelhos com grande animação. Uma captura desse tamanho sem dúvida alguma renderia uma boa promoção.

-Ele desmaiou mesmo... Será que não era melhor chamarmos um médico? – comentou, ao tentar colocar o homem sobre a cadeira. Estavam na sala de interrogatório, longe das vistas dos demais policiais. Queriam avisar da captura de Lupin apenas quando o inspetor-chefe da delegacia chegasse.

-Besteira! Até onde sei, pode estar fingindo.

-Ele tomou muitos socos, Muller! Pode ser que tenha afetado os miolos! Lembra-se do açougueiro da Barty Street? O cérebro dele virou um mingau de tanto apanhar na cara!

-Depois a gente pensa nisso, Hopkins! Depois! – decidiu Muller. – Agora, vamos ver se essa cabeleira ruiva é mesmo dele ou só uma peruca...

Hopkins ajeitou a cabeça de Sherlock Holmes, que mal conseguia permanecer sentado naquela cadeira. Ao puxar seu cabelo, alegrou-se ao ver que era realmente uma peruca, revelando o que seria cabelos negros, mas quase grisalhos em sua totalidade.

-Nossa, mas esse Arsène até que é um tanto velho!

-Mas os jornais diziam que ele tinha vinte anos! Tem certeza de que é ele mesmo?

Hopkins pôs-se a analisar seu rosto. Havia muitas marcas de expressão, sinais de que o sujeito diante de si já deveria estar em seus quarenta ou cinquenta anos. Pôs-se a mexer na barba, tão avermelhada quanto a peruca que acabara de arrancar. Deveria ser falsa, pensou. E pouco a pouco começou a arrancá-la, revelando um rosto limpo e barbeado por trás.

-Bom, já sabemos que esse homem não é quem aparenta ser... Senão, não estaria disfarçado...

-Mas o que diabos estão fazendo com o Mr. Sherlock Holmes?!

Tanto Hopkins quanto Muller deixaram de dar atenção ao homem diante de si e voltaram seus olhos para a porta, que repentinamente se abriu, revelando a presença de algumas pessoas. Entre elas, um rosto bem conhecido. O Inspetor-Chefe Morgan, da Delegacia de Whitechapel, e também o homem a fazer aquela exclamação repentina.

-Senhor... Nós pegamos Arsène Lupin! Ele está aqui!

-Arsène Lupin coisa alguma! Esse é o Mr. Sherlock Holmes, o detetive de Baker Street! – esbravejou outro sujeito, enfurecido. Era o mais jovem da sala, bem-vestido e tinha o cabelo na altura dos ombros.

-De fato, rapazes. Conheço bem o Mr. Holmes, e sem dúvida alguma é ele! – precisou concordar o Inspetor-Chefe Morgan.

Os dois guardas se entreolharam, incertos. Coube a Muller explicar.

-Estávamos na calçada da delegacia, prestes a começar nosso turno, quando uma briga chamou nossa atenção. Eram dois homens, do outro lado da rua, brigando. O sujeito que está aqui foi o que levou a pior, por isso está nesse estado.

-Mas o que fez pensar que se tratava de Arsène Lupin?

De repente, um homem loiro e de bigode adentrou à sala.

-Holmes! – exclamou o loiro, se aproximando do sujeito desmaiado às pressas. Ele carregava uma maleta médica. Mexeu em alguns itens, e por fim tirou um frasco com um líquido incolor. Ao destampá-lo, fez-o passar pelas narinas do sujeito, imediatamente o acordando.

-O que diabos aconteceu, Holmes? Esses guardas estão dizendo que encontraram você sendo espancado, perto da delegacia, que você estava falando o nome “Lupin”.

Holmes esfregava os olhos, tentando aliviar a tontura e dor de cabeça. Mas nada disse. Ao ver que Lestrade Jr. estava prestes a insistir mais uma vez, Watson o deteve.

-Inspetor, dê tempo a Holmes. Ele estava desmaiado até pouco tempo. Se realmente sofreu lesões na cabeça, precisa passar por uma avaliação médica e...

-Não preciso, Watson. – retrucou Holmes, levantando-se da cadeira. – Estive frente a frente com Arsène Lupin essa madrugada, mas não consegui detê-lo. Não faço ideia de quanto tempo se passou, mas espero que ainda seja possível detê-lo de...

O inspetor Lestrade interrompeu a Holmes com um pigarreio. Por fim, voltou seus olhos aos demais presentes.

-Meus senhores... Sei que estou na delegacia de vocês, mas por acaso poderiam me dar a liberdade de conversar em privado com Mr. Holmes? – pediu Lestrade Jr. Para seu alívio, foi atendido pelo Inspetor-Chefe Morgan, bem como os guardas Hopkins e Muller, um tanto desapontados por ver a chance de uma promoção virar pó.

Já sozinhos na sala de interrogatório, Lestrade Jr. suspirou.

-Esqueça, Mr. Holmes. – começou o inspetor. – A delegacia de Westminster foi assaltada no meio da madrugada. Só percebemos agora de manhã. Meus homens notaram que a Sala de Evidências foi furtada e que os únicos objetos retirados lá foram os pertences de Arsène Lupin. Melhor dizendo... Seu kit de disfarces.

-Droga! – exclamou o detetive, enfurecido. Watson parecia assombrado.

-Está nos dizendo que ele assaltou uma delegacia, é isso?! – exclamou em pasmo o médico. Por motivos óbvios, Lestrade Jr. não queria dar mais detalhes. A essa altura, já deveria ter dado conta do sumiço de seu molho de chaves da delegacia, e a julgar pela facilidade com que Lupin deve ter tomado de volta seus pertences, sabia que fora o ladrão o responsável pelo roubo de suas chaves.

-Senhores, preciso que esse fato fique no mais absoluto sigilo. A opinião pública irá massacrar a reputação da Scotland Yard se isso chegar nos ouvidos de algum jornalista...

-A reputação da Scotland Yard, ou a sua, meu caro inspetor? – questionou-lhe Holmes, dando claros sinais de que sabia de tudo.

-Holmes, o inspetor Lestrade Jr. já parece deveras aflito pelo ocorrido em sua delegacia. Não vale a pena ficar conjecturando, ou apontando culpados desnecessariamente...

-Meus apontamentos estão longe de serem desnecessários, meu caro Watson. Se nosso colega inspetor não tivesse sido tão imprudente a ponto de levar sua filha a um passeio em Whitechapel, Lupin jamais teria afanado suas chaves de uma forma tão estúpida.

Watson apavorou-se com aquela revelação.

-Você levou a minha filha Agnes para Whitechapel?! A minha menininha preciosa, Agnes, naquele bairro asqueroso?! Como pôde fazer isso?! Aquele lugar é um antro de perdição e imundície! Agora parece que muito me enganei a seu respeito, inspetor. Pensei que fosse um homem de boa reputação, alguém digno de receber a mão de minha única filha, a única lembrança viva que tenho de minha Mary, mas pelo visto... Pelo visto o senhor não passa de um, de um...

-Agora é minha vez de interpelar, Watson. – interrompeu-o Holmes. – Deixemos as brigas familiares para outro momento, de preferência quando longe de mim. O fato é que Arsène Lupin não mais está em desvantagem, e apesar de todos os nossos esforços, não conseguimos impedi-lo de se recuperar, muito menos captura-lo antes que assim conseguisse. Não tenho dúvidas de que ele vai retornar ao jogo e muito em breve agirá novamente. Bom, já que perdemos a nossa vantagem, não nos resta outra alternativa senão esperar por seu próximo movimento.

Lestrade Jr. parecia impaciente com a aparente calma estampada no rosto de Sherlock Holmes.

-Isso tudo pode soar muito divertido a você, Mr. Holmes, mas para mim, se tornou um jogo de vida ou morte!

O detetive negativou com a cabeça.

-Estive frente a frente com ele, Lestrade Jr. Ele não vai parar até destruir a minha reputação, não a sua. Deixou isso bem claro, nas poucas palavras que trocamos. Mas agora eu sei qual é a sua cartada final, e já estou tomando as minhas previdências para anulá-la.

-Então...

-Estou com outra investigação em paralelo, é tudo que posso dizer. E assim que ela for concluída, ele não terá qualquer chance de me destruir, tal como pretende. Mas até que ele decida lançar essa última cartada, temo que não teremos outra escolha senão dançar conforme sua música. Bom, meus senhores. Se não me importam, irei retornar à Baker Street, tomar um banho, ler um bom jornal e... Descansar. Seria de bom tom se fizessem o mesmo, pois muito em breve teremos mais trabalho pela frente.