A carruagem da Scotland Yard sacolejava a cada declive da rua. Chovia forte lá fora, o que tornava as ruas de Londres ruins de se transitarem, mas apesar do mal tempo, os oficiais tinham pressa em chegar. Em meio a cada sacolejar, Dr. Watson trazia em seu caderno as primeiras anotações do que prometia ser um dos casos mais importantes dos últimos anos. Sua letra saía borrada, mas pouco se importava. Depois de tanto tempo a estar absorto em todo seu marasmo de consultório, era bom se sentir de volta à ação novamente. Por isso insistia em registrar em seu caderno cada detalhe da conversa, tanto do mounsier Ganimard quanto com o Inspetor Gregson, que apareceu em Baker Street à procura de Holmes.

Era um caso delicado e que exigia muita discrição, por isso Sherlock Holmes fora requisitado pela Scotland Yard para atuar. Tratava-se do roubo à residência do Conde Wellington, um dos nobres mais próximos do Rei Edward VII, que havia ocorrido logo após um baile promovido pelo nobre em sua casa. Apenas a alta sociedade londrina estava presente, o que reforçava a suspeita de que o ladrão poderia ser um deles, exigindo um sigilo ainda maior quanto à questão. Mas havia um elemento ainda mais perturbador em toda aquela situação.

-Foi como disse, Mr. Holmes. O seu nome foi rabiscado em uma das paredes da casa.

Tanto Holmes quanto Ganimard se entreolharam, confusos.

-Isso não faz parte do métier dele, mounsier Holmes. – explicou Ganimard.

-Dele quem? – estranhou o inspetor. Holmes suspirou.

-Trata-se de outro caso, Inspetor Gregson, mas que pode estar relacionado a esse misterioso roubo à residência do Conde Wellington. Por isso insisti que o Inspetor Ganimard me acompanhasse, pois se o ladrão for quem estamos pensando, ele pode ser de grande ajuda. Veja, chegamos.

Era fácil ver qual daquelas suntuosas residências era a de Conde Wellington, a julgar pela quantidade de guardas a ocupar a calçada. A segurança, como sempre, fora reforçada depois do pior já ter acontecido. Típico da Scotland Yard, pensou Holmes enquanto desembarcava da carruagem.

Por sorte, os guardas não estavam a andar de um lado a outro dentro da residência do Conde Wellington, estragando com seus pés de elefante o que poderiam ser possíveis pistas e evidências do crime. E dentro da Scotland Yard, havia um único inspetor capaz dessa proeza...

-Inspetor Lestrade Júnior. – cumprimentou Holmes, ao encontrar o jovem inspetor, filho de seu velho conhecido da Scotland Yard, a tomar algumas notas. A sala onde havia ocorrido o roubo estava devidamente isolada com cordas improvisadas, com intuito de preservar possíveis pistas que poderiam estar espalhadas naquele perímetro.

A sala onde ocorrera o roubo parecia ser uma sala destinada exatamente à exposição de inúmeras obras de arte e artefatos, claramente provenientes de outros países, que o Conde Wellington, graças a seu trabalho com a diplomacia, deveria obter de estrangeiros, e usava essa sala como um local de exposição para exibi-los com grande orgulho aos seus visitantes. Era possível ver, em expositores protegidos com vidros, o que parecia ser artefatos indígenas de tribos americanas, uma espécie de papiro egípcio com hieróglifos, para não dizer das obras de arte exposta nas paredes, uma mais bonita e significativa que a outra. Era claramente o Conde Wellington um grande colecionador e com grande orgulho de sua coleção.

Ao ver Holmes, o jovem inspetor trocou um aperto de mãos com o detetive. Parecia uma versão rejuvenescida de Lestrade, a quem Holmes sabia que agora ocupava o burocrático, porém importante, trabalho de Comissário de Polícia, após décadas de trabalho nas ruas como Inspetor e posteriormente Inspetor-Chefe. Não foi difícil constatar que seu único filho, o jovem Gary Lestrade Jr. seguiria seus passos, dada a influência que o trabalho afamado de seu pai deveria exercer sobre ele. Pelo que Holmes soubera há uns meses, havia sido promovido a inspetor, e a julgar pelo brilho em seus olhos, sem dúvida esse deveria ser o caso mais relevante em suas mãos, na qualidade de inspetor.

-Soube do falecimento de sua senhoria, Mr. Holmes. Meu pai sempre elogiou a prontidão e gentileza de Mrs. Hudson, por isso gostaria de deixar meus pêsames. Lamento ter de procura-lo em meio ao seu luto, mas diante das circunstâncias, não tive outra escolha.

Holmes apenas concordou com a cabeça, aproximando-se do vácuo enorme na parede, onde claramente havia uma obra de arte em exposição. No meio do vácuo, havia um rabisco escrito à mão vulgarmente, em vermelho. Estava escrito “Ai-je attiré votre attention, Sherlock Holmes?”

-Hum... Significa “Chamei sua atenção, Sherlock Holmes?” em francês. Isso te soa a algo, mounsier Ganimard?

-Como disse, ele jamais fez isso antes.

-Ele quem?! – foi a vez de o inspetor Lestrade Jr. perguntar. – Vocês já têm um suspeito?!

-Ainda é cedo para dizer, inspetor.

Holmes retirou do bolso do paletó uma lupa, e com ela passou a percorrer seus olhos pelas palavras escritas grosseiramente na palavra.

-Foi escrita com um batom vermelho. – disse, continuando a analisar o espaço.

Passou agora sua atenção por entre as extremidades do grande vazio da parede, onde outrora estava o quadro. Ficou a percorrer seus olhos com a lupa por uns bons minutos, para então concluir em exasperação.

-Limpo. Absolutamente limpo. Nenhuma digital deixada para trás, em nenhuma das posições por onde o ladrão certamente precisou colocar as mãos para retirar esse quadro. Pelo visto, o ladrão agiu com luvas.

Tanto Watson como Ganimard faziam suas anotações.

-O que retratava esse quadro?

-O Conde Wellington disse que se tratava de “Joan of D’Arc”, de Harold Hume Piffard. Ele adquiriu essa tela em um leilão em Versalhes, ano passado.

Holmes olhou ao redor.

Aquela sala, embora não fosse das maiores, parecia conter outras obras de arte, algumas até de maior valor do que essa pintura. Como, por exemplo, “O Menino Azul”, de Thomas Gainsborough, um artista britânico de grande renome, que não à toa ocupava a parede central. Claramente a pintura roubada de Joana D’Arc, em uma das paredes laterais, não era nem de longe o grande destaque daquela sala, o que deixava bem claro que dificilmente seria a mais valiosa dali.

-O ladrão teve a oportunidade de roubar algo bem mais valioso, entretanto não o levou... Interessante. – balbuciava Holmes, diante do quadro “O Menino Azul”, de Thomas Gainsborough. Com um suspiro, prosseguiu pelo lugar.

-Chegou a verificar por pegadas, inspetor?

-Sim. Havia duas pegadas. Uma delas pertencia ao Conde Wellington, que foi o primeiro a dar pela falta da pintura. A outra, como o senhor pode ver, deve pertencer a não outro senão o ladrão. O sapato do Conde Wellington é de nove polegadas e meia.

Holmes, que já estava agachado ao chão próximo à pintura, com sua lupa pôs-se a olhar às marcas deixadas sobre o lustroso assoalho. De fato, o jovem inspetor estava certo. Havia pegadas de tamanho de nove polegadas e meia, que a julgar pela sola eram provenientes de um calçado tipicamente inglês, e também de calçado de nove polegadas, estas com o formato de sola que os anos de prática como detetive o reconhecia como sendo tipicamente francês.

-A pegada desconhecida é de nove polegadas, de um calçado de fabricação francesa.

-Mérde! – exclamou Ganimard, aturdido. Ao ver o inspetor francês xingar em seu idioma, Holmes voltou seus olhos para ele, com um olhar satisfeito e ao mesmo tempo empolgado. Aquele era claramente um caso difícil, complexo, e especialmente desafiador. Um misto de sensações percorria-lhe, como há muito tempo ele não se sentia, não quando precisava se ocupar de casos tão estúpidos que batiam em sua porta nos últimos tempos. Aquele roubo era claramente algo muito mais promissor para sua mente cada vez mais entediada e ansiando por desafios.

-Será que vocês podem me explicar o que está acontecendo?! – irritou-se Lestrade Jr., ao notar a troca de olhares entre Holmes e Ganimard. Ao levantar-se, o detetive suspirou.

-Ao que tudo indica, meu caro inspetor, esse roubo é obra de ninguém menos que Arsène Lupin.

-Espere, está falando daquele ladrão francês?

-Esse mesmo. O mounsier Ganimard veio diretamente da França até Londres porque está no encalço dele, e inclusive trabalha para prendê-lo há anos. Parece que Lupin decidiu mudar de ares e escolheu a Inglaterra como seu mais novo reduto. E agora, estamos do que, a princípio, parece ser seu primeiro roubo em solo britânico.

-Mas uma coisa está um tanto fora de lugar, mounsier Holmes. – acrescentou Ganimard. – O que ele escreveu nessa parede... Isso não combina com Lupin. É verdade que ele é atrevido e bastante audacioso, mas nunca desafiou a ninguém diretamente dessa forma. Nem mesmo a nós, policiais que estamos em seu encalço há tanto tempo.

-Mas o que me causa mais estranheza é esse questionamento, como se estivesse querendo chamar minha atenção de alguma forma... Oh não.

Ao ver o detetive de olhos arregalados, como se tivesse se apercebido de algum detalhe, o inspetor Lestrade Jr. estranhou sua reação.

-O que houve, Mr. Holmes?

-Devido à morte de minha senhoria, estou com minha correspondência em desordem há uma semana, pelo menos. Será que Lupin estava tentando se comunicar comigo, e ao ficar sem resposta, resolveu chamar minha atenção de uma maneira simplesmente impossível de ignorar? É bem provável...

-Mas o que ele tanto gostaria de falar com o senhor, Mr. Holmes?

-Eu não sei. Se eu estiver realmente certo, encontrarei a resposta para minha pergunta em uma das cartas que provavelmente estão esquecidas na abarrotada caixa de correios de Mrs. Hudson. Mas vamos às outras etapas. Por hora, não vale a pena se preocupar com o que não está no nosso alcance no momento. Posso falar com o restante da família Wellington?

Holmes caminhou lado a lado com o inspetor Lestrade Jr. pelos corredores da mansão. Atrás deles, Watson e Ganimard trocavam notas e comentários. Por fim, encontraram a família Wellington sentada no sofá da sala. O Conde Welliongton ocupava-se com um cachimbo, enquanto sua esposa e filha conversavam, apreensivas. Natural de alguém cuja casa, até então bastante protegida, fora invadida e roubada na calada da noite.

-Vossa Graça, meu nome é Sherlock Holmes. E esse é o Dr. Watson, meu assistente, bem como o Inspetor Ganimard, que está presente aqui para colaborar com a elucidação desse caso. – apresentou Holmes e seus acompanhantes ao nobre.

-O célebre detetive dos livros... Sinto-me agora mais seguro por saber que esse infeliz incidente está agora em suas mãos. Espero que esse roubo seja enfim solucionado e que o maldito gatuno que fez isso pague por sua ousadia.

Holmes voltou seus olhos levemente para a direção de uma jovem, de longos cabelos ruivos, bem vestida, que a julgar por seus traços físicos, deveria ser filha do Conde Wellington. Chamou a atenção do detetive sua reação, um tanto nervosa quando seu pai mencionou a captura do tal gatuno, Holmes a sentiu estremecida a cada palavra ríspida proferida por seu pai. Saberia ela de alguma coisa? Seu instinto detetivesco lhe dizia que sim. Nada que não fosse elucidado com uma boa conversa, de preferência às sós.

-Preciso que me descreva, com todos os detalhes, como tudo se passou. Pode começar com o momento em que percebera o sumiço do quadro. – pediu Holmes.

E com grande detalhamento, o Conde Wellington descreveu aquele início de manhã, quando ele levantou para descer e tomar café. Comentou que havia esquecido um par de óculos dentro de sua sala de artes, por isso foi até o local para reavê-los. Ao entrar, notou que o quadro havia sumido.

-Soube que houve um baile em sua residência na noite de ontem. Algum convidado teve acesso a essa sala?

-Não, justamente para evitar que esse tipo de incidente acontecesse. Essa sala permanece trancada por quase todo o tempo, e só permito entrar pessoas de minha inteira confiança. Geralmente diplomatas, chefes de estado, nobres... Trabalhei muitos anos com diplomacia e considero essas obras de arte e artefatos como lembranças de minha época.

-A chave estava no mesmo lugar que costuma deixar? Pergunto isso porque não há sinais de arrombamento em nenhuma das portas.

-Sim, e é isso que mais me espanta. Ninguém mais sabe onde guardo essa bendita chave, só eu. A sala estava trancada, exatamente como deixei.

-Como seus empregados cuidam da limpeza da sala? – perguntou Lestrade Jr.

-Eles me pedem a chave, e eu entrego a eles. Depois que a sala é limpa, me devolvem. Mas acho pouco provável que tenha sido um deles.

-Os empregados conhecem a rotina da casa como poucos, e sabem das coisas valiosas que seus patrões mantém... Sempre devemos considera-los suspeitos em roubos assim. – respondeu Lestrade Jr., deixando Holmes um tanto contrariado.

-Por Deus, eles trabalham para minha família há anos! Como puderam fazer isso comigo?!

Ao ver o Conde Wellington nervoso diante da mera possibilidade de ter sido roubado por um de seus empregados, Holmes interveio.

-Não estamos em condições de descartar nenhuma hipótese, mas também não devemos seguir pelo caminho mais fácil por mera conveniência. – respondeu Holmes, com leve irritação. – Iremos conversar com eles também, mas é muito cedo para considera-los suspeitos de qualquer roubo. Quanto ao baile da noite anterior... Houve algum tipo de incidente?

-Não. Era aniversário de dezoito anos de minha filha, Elizabeth, e decidi comemorar com um baile. Tudo transcorreu absolutamente bem. Estiveram presentes em minha residência cerca de cem convidados, todos de meu vínculo mais estreito. Tenho a lista de presença, caso deseje.

-Seria ótimo. E esses convidados tiveram acesso a que áreas da casa?

-Ao grande salão e à sala de jantar, apenas. Ah, alguns de meus amigos mais próximos nos reunimos na biblioteca, para fumarmos e conversarmos sobre negócios, política... Sabe, esse tipo de coisa.

-Vi que possui um lindo jardim. Os presentes no baile também tiveram acesso?

-Não permiti. Coloquei Geoffrey, um de meus empregados, para impedir que qualquer um dos convidados adentrasse ao jardim. Da última festa em que permiti acesso a convidados, alguém estupidamente jogou uma taça de vinho em um vaso de tulipas raras da Holanda, que recebi do Primeiro-Ministro! Depois disso, nunca mais autorizei acesso!

-Compreendo. Se me permite, gostaria de conversar com sua esposa e filha.

O Conde autorizou com sua cabeça. Obviamente, nada de muito novo foi possível arrancar delas. A Condessa Wellington era a típica dondoca britânica, mais preocupada com as fofocas de suas amigas do que com os fatos em si. Mal sabia o que havia sido roubado inclusive, pois chamou a sala onde ocorrera o roubo de “a sala de quinquilharias de Robert”. Já a jovem Elizabeth parecia nervosa, e o Conde atribuiu isso pelo fato da jovem não estar acostumada à presença de policiais ao redor de sua casa. Tão fútil quanto a mãe, a jovem comentou sobre o quão bonito fora o baile em homenagem ao seu aniversário, que dançara com um ou outro jovem de boa família. Holmes pediu para que descrevesse o nome deles.

-Eu não sei dizer, Mr. Holmes. Como convidada, dancei com a maioria dos rapazes.

-Mas houve alguém em especial, não?

Apesar da pergunta insinuante, o tom do detetive era neutro. O Conde gaguejou.

-Estaria o senhor deduzindo que a minha filha...

-Eu não estou deduzindo absolutamente nada, Vossa Graça. Mas é quase impossível não constatar que sua filha está nervosa com algo que possivelmente aconteceu no baile. Senti isso em cada trepidação em seu tom de voz, cada dedo trêmulo em nervosismo, aos senhores falarem sobre o baile, não sobre o roubo em si.

O Conde parecia contrariado.

-É melhor mudarmos o rumo da conversa, Holmes. – pediu Watson, terminando uma anotação. Holmes suspirou. Iria arrancar a verdade, de um jeito ou de outro.

-Bom, vamos ao depoimento dos empregados. – decretou.

Encontrou todos os oito empregados da mansão do Conde Wellington na cozinha. Os depoimentos foram colhidos, um por um, e nada em absoluto traziam de diferente. Eram todos satisfeitos com o tratamento empregado pela família e contaram apenas trivialidades de suas rotinas, sem nada incomum.

Com exceção de Geoffrey Smith. Um rapaz corpulento, de quase dois metros de altura, que mais um pouco e poderia se passar por um viking. Atuava na casa como uma espécie de jardineiro, fazendo alguns serviços mais brutos da casa, como consertar um telhado ou encanamento. Não foi difícil entender porque o Conde o escolheu para vigiar o jardim.

-Houve algum convidado insistente para entrar no jardim? – questionou Holmes.

-Não, naquela noite não. Estavam todos no salão, comendo e bebendo à vontade, o que tornou meu trabalho mais fácil. Não é sempre que isso ocorre. Às vezes, o Conde faz suas festinhas e uns bêbados resolvem usar o jardim para... Enfim, o senhor deve imaginar o quê.

-Não consigo imaginar absolutamente nada, Mr. Smith. Por que não me elucida?

O homem parecia levemente envergonhado.

-Para... Namorar as convidadas. Por favor, não contem isso ao patrão.

-Tudo bem, não vamos contar ao seu patrão. Mas conte-me, houve algo desse tipo nessa festa?

-Como disse, não. Ninguém entrou no jardim.

-Agora o senhor está mentindo.

-Não estou. – disse o homem, com a voz embargada.

Holmes olhou para os lados. Viu que Lestrade Jr. estava a observar a janela, olhando para a rua.

-Geoffrey... – começou Holmes, em um cochicho. – Pelo seu próprio bem, e do bem de seus colegas, é melhor me contar absolutamente tudo que sabe. Entendeu?

O empregado parecia inseguro. Por fim, suspirou.

-O Conde Wellington vai me matar...

-Se ele não te matar, uns bons anos em Dartmoor farão isso, acredite. O inspetor à frente desse caso está louco para achar um culpado, e logo, e lamento dizer, mas você é o culpado perfeito. Ainda mais quando ele souber de sua passagem pelo presídio de Bodmin...

O homem arregalou seus olhos.

-Espere... Como diabos você sabe?

-Deve ter sido dolorido apagar sua tatuagem com queimadura, mas o sinal em sua mão ainda é visível aos meus olhos. Mas ao contrário do inspetor, os seus tempos de presidiário não contam para mim. Entretanto, aconselho você a me dizer a verdade, doa a quem doer.

-Está bem! Eu conto! Por diabos, eu conto! Foi a filha do Conde Wellington, a senhorita Elizabeth! Ela insistiu para que eu a deixasse entrar no jardim, e... Bom... Ela não estava sozinha, como deve imaginar...

-Com quem ela estava?

-Não sei dizer. Era um cavalheiro que nunca vi antes. Tinha costeletas, um bigode, o cabelo castanho... Muito elegante e galanteador. E ela parecia muito encantada por ele!

De repente, irrompeu à porta o Inspetor Ganimard, bastante esbaforido.

-Mounsier Holmes! – disse, nervoso. – Tive acesso à lista de convidados do Conde Wellington e... Não vai acreditar no nome que encontrei!

Holmes levantou-se. Acompanhou o Inspetor Ganimard até a porta, já imaginando qual bendito nome estaria presente na lista. Ou melhor, quais dos benditos nomes, pois Arsène Lupin carregava muitos nomes, em sua maioria anagramas de seu próprio nome.

Watson entregou a lista. Não demorou muito a Holmes percorrer seus olhos por ela, até encontrar algo bastante promissor.

-Paul Sernine... Acaso o senhor o conhece, Conde Wellington? – perguntou Holmes.

-Ah, sim. É um investidor francês, que comprou algumas ações de minha companhia há uns seis meses. Até então, só me relacionava com ele por cartas, mas ele disse que estava de passagem por Londres.

-E quando ele esteve aqui, você mostrou a Sala de Exposição para ele.

-Mas é claro que sim! Inclusive conversamos sobre a abertura de uma empresa de tear em Manchester, e mais uns negócios que ele desejava consolidar em Londres. Então, em nome de nossos negócios, e também para que ele desfrutasse melhor de sua breve passagem pela Inglaterra, decidi convidá-lo para o baile em minha casa.

-Oh, um rapaz muito galanteador, esse Paul Sernine! – exclamou a Condessa, maravilhada. Já a jovem Elizabeth baixou seus olhos, timidamente.

A menção ao nome dele, percebeu Holmes, provocou reações mais animadas nas mulheres. Em seu dossiê, estava ressaltado o jeito galanteador e também a menção à sedução como ferramentas de seu crime. Algumas vítimas de seus roubos, inclusive, chegaram a se simpatizar ou até mesmo se apaixonar por ele! Sem dúvida, Lupin esteve nessa festa, e lançou seu famoso charme sobre as duas anfitriãs. E a julgar pelo depoimento secreto de Geoffrey, a mais seduzida por ele foi, obviamente, a jovem Elizabeth.

-Mounsier, lamento dizer, mas temos fortes indícios de que esse tal investidor francês que esteve em sua casa não seja outro senão o infame ladrão Arsène Lupin. Paul Sernine é um dos codinomes que ele usa para se aproximar de suas vítimas, e se realmente o senhor estiver certo quanto à essas cartas, parece que ele esteve planejando suas ações em solo britânico há muito tempo. – explicou o Inspetor Ganimard.

-Isso explica o rabisco em francês, mencionando Mr. Holmes! – exclamou o Conde. – Agora, ele esteve em minha residência, mas não teve acesso ao restante da casa. Como conseguiu roubar o quadro?

-Alguém pode ter facilitado as coisas para ele, ainda que inconscientemente. – deduziu Holmes. – Miss Wellington, podemos conversar às sós?

A jovem arregalou seus olhos.

-Não sei se isso é apropriado, Mr. Holmes. – interveio o Conde.

-Dado o assunto de minha conversa, seria melhor se a senhorita conversasse às sós comigo, mas se prefere, podemos ter essa conversa na presença de seu pai...

De imediato, a jovem se levantou.

-Eu vou conversar com Mr. Holmes, papai.

-Mas filha! Mr. Holmes é um homem solteiro, e você muito jovem. Não acho de bom tom que fique às sós com alguém como ele... Grace, vá com ela! É melhor! – ordenou o Conde, forçando sua esposa a acompanhar sua filha até a biblioteca.

Com as portas da biblioteca devidamente fechadas, Holmes encarou as duas mulheres. Ambas se entreolhavam-se, aflitas. Claramente estavam escondendo algo, sabia o detetive. Hora de confrontá-las.

-Minhas senhoras. Sei que as convenções impostas às senhoras são as mais severas possíveis, o que torna a minha abordagem ainda mais delicada, mas temo não haver uma melhor forma de dizer isso, senão o fato de que o Mounsier Paul Sernine seduziu a ambas nesse baile, e com relativo sucesso.

As duas arregalaram os olhos, abismadas. Por fim, Elizabeth virou-se para sua mãe.

-Como pôde, mamãe?! Traiu o papai em sua própria festa?!

-E você, sua desavergonhada?! Caiu no primeiro sorriso dele!

-Quietas, as duas! – exclamou Holmes, aborrecido. A idade já havia levado de si o menor traço de paciência, especialmente com mulheres. Em seguida, voltou à si, retomrando sua postura serena e estóica que lhe era tão conhecida. – Deixem as desavenças familiares para outro momento. Agora, precisamos nos concentrar em resolver esse mistério. Qual das duas permitiu acesso a esse Paul Sernine em cômodos restritos da casa? Você, Elizabeth, eu sei que se encontrou às escondidas com ele no jardim.

-Sim... É verdade. Ele disse que eu tinha lábios muito bonitos e que estava louco para beijá-los. Então, lembrei do jardim. Geoffrey não quis me deixar entrar no princípio, mas eu reclamei com ele, disse que também era patroa da casa, e por fim, ele me liberou. E nós nos beijamos lá, e foi o melhor momento da minha vida!

A Condessa Wellington olhou para sua filha com abismação.

-Por isso você sumiu na festa! Porque estava com ele! E de pensar que o Lord Edward não parava de perguntar por você... Que descaramento!

-Agora é a sua vez, Vossa Graça. Já andei pela casa e sei que o jardim não é próximo o bastante para que esse Paul Sernine tivesse acesso à sala que sofreu o roubo. Onde, então, a senhora se encontrou com ele às escondidas...

A Condessa parecia bastante envergonhada.

-Em primeiro lugar... Quero que saiba que nunca, absolutamente nunca, eu traí Robert. Estamos há mais de vinte anos casados e isso nunca me aconteceu, mas aquele rapaz... Ele tinha um sorriso tão bonito e cativante, era tão cavalheiro. Ele não parou de me olhar durante a festa...

-Mentira! – interveio Elizabeth, revoltada. – Ele estava olhando para mim!

-Na verdade... – interrompeu Holmes a briga entre mãe e filha. – Ele estava olhando para as duas. Como toda festa de nobres britânicos, vocês duas, por serem mãe e filha, ficaram lado a lado durante todo o baile, e ele se aproveitou disso para seduzi-las ao mesmo tempo. Cada uma de vocês se sentiu alvo de seu olhar, sem imaginar por um só momento que ele poderia estar olhando para a outra ao seu lado. Quão esperto, devo dizer. Mas prossiga.

-Estava prestes a me recolher em meu quarto quando senti algo bater em minha janela. Ah, um fato que devo explicar. Eu e Robert não compartilhamos um mesmo quarto, na verdade desde sempre, porque Robert prefere dormir sozinho. Enfim, quando ouvi algo bater na minha janela, notei ser uma pedra. Abri, e era ele. Paul Sernine.

Holmes ouvia a Condessa com grande atenção.

-E vocês... Dormiram juntos, eu presumo.

A mulher estremeceu, corando-se.

-Sim. Eu deixei que ele subisse e... Aconteceu. Por Deus, que vergonha... Mas quando acordei, estava sozinha em minha cama. Ele havia sumido, sem deixar rastro algum. E só então me apercebi de meu erro. Me senti a mais devassa das mulheres, por ter dormido com aquele sujeito completamente desconhecido, com idade para ser meu filho. Mas ele era tão cativante...

-Como pôde, mamãe?! – horrorizou-se Elizabeth, mais revoltada, sentia Holmes, pelo fato da mãe ter ido mais longe que ela, a quem só conseguiu alguns beijos escondidos no jardim. – Papai deveria te matar por tamanha desonra! Quando ele souber...

-Por favor, Mr. Holmes! Não conte ao meu marido o que fiz!

Holmes suspirou. Odiava quando seu trabalho adentrava nesses assuntos familiares. E isso quase sempre acontecia.

-Não é meu dever me envolver em problemas familiares de meus clientes, Vossa Graça. Só estou aqui para descobrir quem roubou o seu quadro, e de que maneira. Seu esposo já admitiu que mostrou a Sala onde o quadro estava exposto para ele, em uma visita anterior, e ele encontrou a oportunidade perfeita no baile, depois de seduzir vocês duas, e através da senhora, obteve acesso facilitado à casa. Muito provavelmente abriu e fechou a porta da Sala com uma chave mestra. Agora, me pergunto... Por que ele não prosseguiu seu jogo de sedução com Elizabeth...

A jovem parecia sem graça. Entretanto, explicou.

-Quando estávamos sozinhos no jardim, eu... Bem, eu me assustei com, er... Uma determinada coisa que ele me mostrou.

Holmes teve vontade de rir. Imaginava o que a pobre jovem, mal completado dezoito anos e pouco experiente a respeito da vida, quis dizer com essa tal “coisa” que a assustou. A Condessa pareceu aliviada.

-Ao menos preservou sua virtude para seu futuro marido...