A Duel of Minds - Sherlock Holmes vs Arsène Lupin
4 Um Retrato Na Gaveta
Londres, Inglaterra. 16 de Novembro de 1911.
Passava das duas da tarde quando Watson se despediu de seu último cliente do dia. Por sorte, sua agenda naquela semana estava pouco ocupada. Nada além de consultas de rotina lhe aguardavam no consultório, e parte delas poderia ser facilmente cancelada ou adiada se fosse necessário. Entre um paciente e outro, o doutor não parava de pensar no caso envolvendo o ousado ladrão Arsène Lupin, que agora ele sabia ter realmente desafiado Sherlock Holmes. A última vez que um criminoso desafiou Holmes dessa forma foi Moriarty, e no fundo isso preocupava Watson. Algo lhe dizia que deveria ficar mais perto do detetive, para que não se repetisse os eventos que culminaram nas Cataratas de Reichenbach e em três anos de seu amigo dado como morto. Os três anos mais difíceis de sua vida, sem dúvida.
Como estava sem agenda naquele início de tarde, Watson decidiu pagar a Holmes mais uma visita. Ao chegar em Londres acabou surpreendido por ver o apartamento em ordem. Aquele amontoado de papéis e roupas sujas havia desaparecido, as janelas estavam abertas, e tudo parecia incrivelmente arejado e limpo. Será que o filho de Mrs. Hudson havia contratado uma nova senhoria? Bom, já não era sem tempo.
-Papai! O que está fazendo aqui?
Watson surpreendeu-se, ao se deparar com ninguém menos que Agnes, sua filha. Ela estava com as mangas arregaçadas e usava um avental, levemente empoeirado.
-Minha filha! O que diabos faz aqui, no apartamento de Holmes?
-O senhor comentou ontem à noite no jantar que o tio Sherlock está sem senhoria e que o apartamento estava em um estado deplorável. Então, como não tinha nada para fazer essa manhã, me ofereci para limpá-lo.
-Mas minha filha, você não é uma empregada para fazer esse tipo de coisa! Muito me surpreende que meu amigo Holmes tenha permitido fazer isso...
-Então... – pareceu um tanto sem graça a jovem. – Ele ainda não sabe.
-O quê?! Agnes, Holmes é extremamente metódico com suas coisas! Você não pode simplesmente sair limpando o apartamento dele sem ele saber! Espero que não tenha jogado nada de sua estima fora...
-Não se preocupe, papai. Sei que tio Sherlock é um tanto extravagante, por isso só tirei a louça suja, recolhi a roupa suja que ele espalhou pela casa. Nem mesmo joguei fora os jornais velhos, pois sabe-se lá o que alguém como ele pretende com eles...
-Fez bem, Agnes. Por Deus, Holmes vai tomar um susto quando encontrar sua casa limpa e se perguntar quem limpou. Mas afinal, como entrou aqui sozinha?
-Eu peguei sua chave, pai.
-Sabia! Por isso não estava encontrando a minha chave em lugar algum! Agnes, não pode entrar na casa de um solteirão como Holmes dessa forma. Pode trata-lo como se ele fosse um tio seu, mas no fim das contas, ele não é. Você poderia ter visto algo indevido...
-Eu só entrei depois de me certificar de que ele não estava. Compreendo as regras de etiqueta e convivência da boa sociedade, meu pai. – explicou Agnes, dando um beijo na bochecha de Watson, para selar aquela discussão. Apesar de estar um tanto aborrecido com a ousadia de sua filha mais velha, no fundo era um alívio ver um pouco de ordem naquela casa. Esperava que Holmes, ao chegar de onde quer que estivesse, também sentisse mais alívio do que raiva por terem mexido na santidade de seu apartamento sem sua autorização.
Watson sentou-se ao sofá, agora limpo.
-Será que Holmes irá demorar?
-Eu não sei dizer. Estou em casa há pelo menos umas duas horas e ele ainda não apareceu. Soube pelos vizinhos que ele saiu bem cedo. Talvez o encontre aqui, se esperar mais um pouco.
-Vou esperar por uma hora, então. – decidiu Watson, consultando seu caderno de anotações. Muito provavelmente Sherlock Holmes estava na rua, embarcando em sua investigação a respeito de Arsène Lupin. Watson levantou-se, em direção à lareira. Sobre ela, estava o punhal, com inúmeras cartas rasgadas, que era a maneira nada inusitada que Holmes tinha de guardar a correspondência que recebia de seus clientes. Mas chamou-lhe a atenção uns três envelopes, caídos sobre a mesa de centro, com um selo francês. Estavam abertos. Parece que Holmes conseguiu ter acesso à correspondência atrasada devido ao falecimento de Mrs. Hudson.
Tomou as cartas. Estavam em francês. Pena que seu conhecimento do idioma era insuficiente para lê-las, mas tudo que pôde compreender delas foi o fato de estarem realmente endereçadas a Holmes, e assinadas por Arsène Lupin, como o detetive havia presumido. A primeira tinha um conteúdo enorme, que Watson não conseguiu compreender, e as outras duas questionavam o silêncio do detetive quanto ao que rapaz chamava de “desafio”. Então, o roubo à residência do Conde Wellington era isso para o ladrão. Um desafio. Não adiantava insistir em lê-las, sabia Watson. Melhor esperar pelo retorno de Sherlock Holmes.
-Lendo as cartas do tio Sherlock, papai? Que feio...
-São do infame ladrão, Arsène Lupin. Holmes estava certo. Ele estava tentando falar com ele, mas não conseguiu porque a correspondência se acumulou na caixa de correios devido ao falecimento de Mrs. Hudson. Então, cometeu o roubo para chamar a atenção dele.
-Nossa, mas que bandido louco! Não à toa mamãe temia tanto quando você saía de casa madrugada afora para segui-lo em seus casos.
Watson riu com a lembrança. Mary Marston, sua falecida esposa e mãe de Agnes, sempre se preocupava com suas saídas com Holmes, pois compreendia o perigo que elas representavam. Por sorte, ele sempre voltava inteiro de suas aventuras.
-Pois foi graças à minha associação com Holmes que eu conheci sua mãe, Agnes. Ainda me recordo muitíssimo bem do dia que Mary irrompeu em Baker Street, com um caso deveras complicado em mãos. Ela era uma mulher muito bonita, e também inteligente e corajosa.
-Queria ter conhecido a minha mãe... Mas fui justamente matá-la ao nascer.
Watson suspirou. Odiava a forma como Agnes se sentia culpada quanto à morte da própria mãe. Por mais que já tivesse explicado à filha que as complicações de parto que acometeram Mary durante seu nascimento poderiam ter ocorrido a qualquer mulher, Agnes ainda se sentia culpada por sua vinda ao mundo ter provocado a morte de Mary.
-Agnes, minha filha, eu já disse que você não é culpada por absolutamente nada. Por favor, deixe de pensar assim. Sua mãe ficaria muito aborrecida em vê-la assim. O que aconteceu infelizmente foi uma fatalidade e seu nascimento não teve nada a ver com isso. Hemorragias como a que Mary teve após o parto podem acometer qualquer mulher. Não foi por sua causa, minha filha. – consolou-a Watson. – Aliás, já terminou de arrumar essa casa? Pelo visto, sim.
-Sim, finalmente terminei o quarto do tio Sherlock... Estava imundo! Não sei como ele conseguia dormir em um lugar daqueles...
-Agnes... – alertou Watson. – Você não mexeu nas coisas pessoais dele, né?
A jovem riu.
-Não se preocupe, pai. Não achei nada demais.
-Agnes! – esbravejou Watson. Por fim, suspirou em derrota. – Agora compreendo tudo! Você veio aqui arrumar a casa do meu amigo não porque quis simplesmente ajuda-lo, mas porque quis bisbilhotá-lo, é isso?! Mas que feio, minha filha!
A jovem Agnes deu de ombros.
-Não há razões para o senhor estar tão nervoso, papai, dado que não achei nada de comprometedor nas coisas dele. Nem mesmo a infame seringa da solução 7%, que você disse nos livros, eu achei!
Que bom, pensou Watson. Sinal de que ele realmente parou de usar drogas.
-Aliás, você tinha razão em uma coisa no livro.
Watson suspirou. – Que coisa, Agnes?
-A “Mulher”. Ela realmente é muito bonita, na verdade mais bonita até do que imaginei. Não à toa o tio Sherlock mantém o retrato dela até hoje guardado na gaveta de sua cômoda.
-Agnes... – alertou Watson, agora temeroso pelo jeito linguarudo de sua filha. – Pelo amor de Deus, não toque nesse assunto com Holmes!
-Eu acho que ele deve amar muito essa mulher. Você nunca conversou com o tio Sherlock a respeito dela?
Watson massageou as têmporas, descrente com o rumo do assunto que estava tomando com sua própria filha. Mas era melhor que conversasse de uma vez, antes que Holmes chegasse.
-Agnes, seu tio Sherlock é muito reticente quanto a esse tipo de assunto. No início de nossa parceria, quando começamos a dividir esse apartamento, até tentei conversar com ele sobre mulheres, mas ele é muito fechado, reservado. Penso até que, no fundo, jamais se relacionou com nenhuma delas, e muito possivelmente por estar ocupado demais com seu trabalho, preferiu se fechar para o amor. Mas acho que em certo ponto você está certa, sim. Ele realmente deve sentir algo especial por Miss Adler, e penso que talvez nem mesmo ele saiba o que sente exatamente. Vez ou outra ele ficava admirando esse retrato, com o pensamento um tanto perdido... Mas por favor, não fale com ele a respeito desse retrato! Isso pode deixa-lo ainda mais zangado!
-Tudo bem, não vou falar nada. Nunca vi o tio Sherlock zangado com algo, e nem desejo ver!
-Acredite, Holmes zangado é uma das piores coisas a se presenciar na face da Terra!
Repentinamente, a porta se abriu. Era Sherlock Holmes, de início surpreso por ver a porta aberta, e depois abismado por ver seu apartamento completamente limpo e organizado.
-Graças aos Céus, resolveram o problema da senhoria! Já não era sem tempo. – pensou, enquanto depositava sobre a mesa o que parecia ser uma sacola.
-Na verdade, fui eu quem arrumou tudo, tio Sherlock. – explicou Agnes, com um sorriso vitorioso. Holmes pareceu subitamente abismado. Depois, preocupado.
-Você jogou o jornal fora?! – exclamou o detetive, temeroso. Tanto Agnes quanto Watson se entreolharam rapidamente.
-Na verdade, eu os guardei e deixei naquele canto. Estão ordenados por data.
O detetive parecia aliviado.
-Precisava deles para atualizar algumas coisas, ainda bem. Obrigado, Miss Watson. – disse, com gentileza, a ponto de espantar tanto Agnes quanto Watson.
Ainda bem que ele estava de bom humor, pensou Watson. Do contrário, toda aquela arrumação, embora benéfica, certamente acabaria em discussão por não ter recebido sua autorização. Sinal de que sua investigação deveria estar caminhando bem.
-E quanto à carta de Arsène Lupin, Holmes? Conseguiu descobrir o que o detetive quer de você?
Holmes sentou-se em sua poltrona. Com toda a educação, pediu consentimento à Miss Watson para fumar, e após receber um assentimento da jovem, acendeu seu cachimbo.
-Ele quer me destruir, Watson. Nada mais que isso.
-Como assim?! – aturdiu-se o médico. – Não me diga que ele ameaçou te matar... Holmes, se isso for verdade, você precisa alertar à Scotland Yard o mais depressa possível!
-Nada disso, Watson. Conforme conversei com o Inspetor Ganimard essa manhã, Arsène Lupin é muitas coisas, menos um assassino. A intenção dele não é matar a mim propriamente, mas sim a minha reputação. Ele quer provar que é melhor do que eu, e por isso deixou um desafio na primeira carta. Como eu o ignorei, no que ele pensou ser uma recusa minha em participar, ele simplesmente cometeu aquele roubo só para trazer a Scotland Yard para dentro de seu joguinho doentio, e assim me carregar forçadamente para ele. Por sinal, o desafio que ele me impôs deixou bem claro o que ele pretende: revisitar a Guerra dos Cem Anos.
-Por isso o roubo do quadro da Joana D’Arc! Ela foi uma heroína francesa da Guerra dos Cem Anos!
-Sim, o roubo dela foi mais simbólico do que qualquer outra coisa. Com isso, começo o primeiro desafio já perdendo, pois por não ter lido a primeira carta, não pude compreender através de seu enigma que esse quadro seria objeto de seu roubo. Mas o jogo ainda está em andamento, Watson. Tenho certeza de que receberei outra pista dele em breve.
Watson parecia descrente com toda essa situação.
-Mas isso é inacreditável, Holmes! Por que um jovem ladrão como ele, de tamanha infâmia, quer tanto te desafiar?
-Talvez, por não ter encontrado ninguém à sua altura na França. Tal como explicou o Inspetor Ganimard, ele é um nobre decadente, mas não um pobre ladrão em necessidade, como o que costumamos encontrar pelo submundo do crime. Para mim, está claro que ele comete esses roubos mais pela emoção de cometer o crime em si do que com o intuito de simplesmente enriquecer. Por isso roubou o quadro de Joana D’Arc, mesmo diante de itens mais valiosos naquela sala. Tudo para ele é um desafio, um jogo.
-Que imbecilidade! Se quer desafio, competição, por que não pratica um esporte?!
-E ele pratica, Watson! – exclamou Holmes. – Esgrima, boxe, hipismo e remo! Inclusive ganhou algumas competições na França, antes de ficar infame como ladrão.
-Como diabos um garoto desses, que mais parece ter um mundo de oportunidades aos seus pés, decide embarcar por tão devasso caminho...
Holmes sorriu, com certa familiaridade.
-Uma pessoa entediada e talentosa, com uma mente brilhante e sem desafios, pode seguir os mais absurdos caminhos quando em busca de algo que preencha o vazio de sua existência. Não me espantaria nem um pouco, Watson, que se eu não tivesse me descoberto como Detetive Consultor, poderia também ter trilhado o mundo do crime, das mais diversas maneiras.
-Não diga uma coisa dessas, Holmes!
-Mas estou falando muito sério, meu caro Watson! Quando me recordo de Moriarty, às vezes enxergo uma versão diferente de mim mesmo, mas que optou pelo lado da ilegalidade. Por que eu estaria livre disso?
Watson se aproximou de Holmes, com preocupação.
-Não estou gostando do brilho em seus olhos, meu caro amigo. A última vez que vi algo semelhante foi quando justamente você estava enfrentando Moriarty, tal como um desafio. E esse jovem está te desafiando quase que da mesma maneira que o finado professor. Mas há uma grande diferença, meu caro Holmes. Você saiu vivo daquela Catarata, mas quem garante que sairá vivo da próxima?
Holmes suspirou.
-Se esse desafio proposto por Arsène Lupin custar nada menos que a minha própria existência para derrotá-lo, saiba que aceitarei o resultado de bom grado.
-Holmes! – exclamou Watson, horrorizado.
-Eu já estou velho, Watson. Sinto que Arsène Lupin será o último caso de minha carreira. Penso que não poderia vê-la com um término melhor do que derrotando aquele a quem as autoridades já enxergam como o mais infame ladrão a pisar sobre a Europa. E eu vou até o fim com isso. Ele quer me arruinar, não quer? Pois terá que me enfrentar. E que vença o melhor. Agora, será que posso almoçar em paz?
Finalmente Holmes revelou o que havia na sacola. Uma espécie de tigela. A julgar pelo aroma, alguma de suas comidas exóticas, que ele comprava em comerciantes de rua. Como não passava mal quando comia essas coisas, Watson não compreendia. Mas que tinha um cheiro apetitoso, era inegável.
-O que é isso, tio Sherlock? – estranhou Agnes, ao vê-lo segurar o que parecia ser estranhos palitinhos de madeira para comer. Como ele conseguia usa-los para comer, era um mistério.
-Comida chinesa. – explicou o detetive, comendo macarrão com avidez.
-Desde que Holmes voltou dos três anos dado como morto nas Cataratas de Reichenbach, deu para comer essas coisas estranhas. Aposto que aprendeu a comer desse jeito nos estranhos lugares por onde esteve. – comentou Watson, explicando a sua filha Agnes para saciá-la quanto à sua curiosidade.
-Mas eu não entendo, papai. Você disse nos livros que Mr. Holmes não come absolutamente nada quando está trabalhando em um caso, e no entanto...
-Na verdade – interrompeu Holmes sua refeição para falar. – Seu pai exagera muita coisa a meu respeito nos contos dele. Ficar sem comer enquanto trabalho em um caso simplesmente seria uma estupidez sem tamanho de se cometer. O máximo que acontece é quando estou absorto demais e acabo por esquecer alguma refeição, mas como sempre, Watson gosta de florear e preferiu dramatizar um pouco mais esses meus esquecimentos. Muitos clientes até se surpreendem, pois pensam que sou bem mais magro por causa disso.
Após terminar seu almoço, Holmes voltou a falar sobre o caso.
-Estive essa manhã com o Inspetor Ganimard, tão logo li o conteúdo das cartas que estavam na imensidão de papéis na caixa de correio de Mrs. Hudson. Ele reconheceu a caligrafia como sendo de Arsène Lupin e me mostrou alguns papéis escritos por ele. Realmente, as cartas são autênticas, e isso o deixou fascinado. Um pouco assustado, também. Um inspetor como ele não está acostumado a lidar com inimigos imprevisíveis, e até o momento, era muito fácil compreender os objetivos de Lupin.
-Mas então, quais serão seus próximos passos, Holmes?
-Nada mais que esperar, infelizmente. Arsène Lupin me desafiou, e eu perdi a primeira rodada. Duvido que vá parar por aí. Aposto que seu próximo roubo será ainda mais ousado e desafiador do que a casa de um nobre britânico. Algo me diz que será grandioso, com a tendência de piorar cada vez mais.
Watson parecia reflexivo.
-Onde será que esse rapaz irá parar?
-Talvez roubando as joias da Coroa, quem sabe? No fim, não posso deixar que ele vá muito longe. Preciso detê-lo antes, e só vou conseguirei isso quando colocá-lo na prisão.
Watson parecia pensativo. Por fim, ponderou.
-Holmes... Você sabe que se ele for preso e conduzido à França, não terá outro destino naquele país senão a guilhotina. Ainda condenam pessoas à pena de morte dessa forma por lá, ainda que seja cada dia mais raro, mas dado o pouco que conversei com o Inspetor Ganimard, tanto o inspetor quanto metade dos figurões franceses querem vê-lo guilhotinado. Parece que ele deixou muita gente aborrecida em solo francês, e não duvido que queira fazer o mesmo em solo britânico. Pergunto-me onde esse rapaz quer chegar, afinal...
Holmes deu de ombros.
-Não deve ter nada a perder para levar uma vida tão insana. Mas deixemos de pensar na mente claramente imprevisível e indecifrável de Lupin para nos atermos a algo mais concreto. Tanto eu quanto o Inspetor Ganimard acreditamos que ele está escondido em Londres, mas é claro que com alguma identidade falsa. Levei até a Scotland Yard, com a ajuda do Inspetor, uma lista com todos os duzentos e trinta e dois possíveis nomes que pude montar a partir de anagramas das letras de seu nome e sobrenome verdadeiros, para que a polícia vasculhasse cada hotel da cidade, mas temo que ele já tenha antecipado que eu faria isso e muito provavelmente está circulando por Londres com uma identidade completamente aleatória. Parece que ele só se utiliza desse artifício quando deseja deixar sua assinatura.
-Por que não coloca os Irregulares em ação? – sugeriu Watson.
-Porque infelizmente Arsène Lupin é um ladrão sem rosto, Watson. Tal como está em meu dossiê, ele é um verdadeiro mestre dos disfarces e mostrou seu rosto pouquíssimas vezes.
-Mas até pouco tempo ele era um rapaz abastado de boa família, correto? Não há nenhum retrato ou fotografia a seu respeito, mostrando seu rosto de verdade?
-Parece que ele conseguiu destruir o pouco que havia. E mesmo que eu tenha uma foto de seu rosto verdadeiro, seria incerto presumir que ele está andando por Londres com a cara limpa. Pode estar sob algum disfarce, afinal ele consegue se caracterizar de absolutamente qualquer coisa, e inclusive até se veste de mulher de forma muito convincente.
Watson riu.
-Curiosamente, isso me faz lembrar uma pessoa...
Holmes resmungou, um tanto contrariado. Até mesmo Agnes ria dessa observação.
-Esse detalhe só me leva a crer que estou provavelmente diante do caso que irá fechar minha carreira com chave de ouro. Depois que derrotar Arsène Lupin, poderei cuidar de minhas abelhas em Sussex Downs na mais absoluta tranquilidade. Mas agora, nada poderei fazer senão esperar e...
Uma vidraça estilhaçada, a poucos centímetros de Holmes, interrompeu a conversa. Por muito pouco os estilhaços de vidro não caíram sobre si. Todos os presentes foram tomados de susto, incluindo Holmes.
-Mas o que diabos foi isso?! – assustou-se Watson, lamentando não estar com seu revólver. Chegou a pensar ter sido um tiro, tal como aconteceu na época de Sebastian Moran, mas não escutara som algum de disparo. A não ser que o atirador tenha mais uma arma de ar comprimido absolutamente fatal, o que não era impossível. – Holmes, você está bem?
-Estou, sim. Por pouco o vidro não me acertou. Ainda bem que me cobri a tempo.
-O que foi isso, papai?! Um tiro?! – exclamou a jovem Agnes, assustada e debaixo da mesa. Mas logo seus olhos verdes se voltaram ao que parecia ser uma pedra, caída sobre o tapete.
-Agnes, não se levante! – ordenou Watson, preocupado com a segurança de sua filha e também agachado ao chão, tal como ela. – Não sabemos ainda se estamos lidando com um atirador ou... Uma mera traquinagem de criança.
-É uma mera traquinagem de criança, pelo visto. Mas não uma criança qualquer, e sim uma de vinte anos de idade com um senso autodestrutivo. – comentou calmamente Holmes, ignorando os alertas de Watson e caminhando de pé até o centro da sala, retirando a pedra vista por Agnes do chão. Era uma pedra bem grande, mas não foi esse o fato que lhe chamou mais a atenção. Havia um barbante amarrado a ela, e um pequeno pedaço de papel. Holmes sorriu, com satisfação, ao reconhecer de imediato a caligrafia elegante de Arsène Lupin.
-Parece que chegou meu segundo desafio, Watson. O jogo está em andamento, mais uma vez.
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