Londres, Inglaterra. 15 de Novembro de 1911.

Vinte anos depois...



-Irmãos e irmãs, celebrando nossa fé na ressurreição, rezemos uma última vez em torno de nossa irmã, Martha Hudson, que encerrou sua caminhada entre nós....

As primeiras pás de terra começaram a ser lançadas sobre o caixão de pinheiro. Como chovia, a terra mais parecia lama do que terra propriamente, e sujava as flores que tinham sido depositadas sobre eles. Alguns presentes, lacrimosos, ainda insistiam em depositar mais algumas flores, a lança-las sobre o caixão, em meio à terra que continuava a ser lançada pelos coveiros. A chuva havia dado uma trégua naquele momento e era nítida a pressa deles em terminar logo o sepultamento.

-Confiemos a Deus a nossa dor, ouçamos sua Palavra, expressemos também nossa gratidão pelo bem que Martha pôde realizar em vida. Elevemos nossa súplica ao Senhor para que a acolha na comunidade de seus santos. Amém.

Martha Hudson era absolutamente querida em sua vizinhança, por isso seu enterro estava tão cheio. Todos os moradores e comerciantes de Baker Street estavam reunidos ali, desde o padeiro da esquina até os demais moradores do número 221, também inquilinos dela. Mas nenhum deles era mais antigo que Sherlock Holmes, que morava naquele apartamento de inicial B há mais de trinta anos. Mesmo John Watson, que deixara Baker Street há décadas, recebia o consolo de seus antigos vizinhos.

E é claro, uma pergunta não faltava entre eles: a ausência de Sherlock Holmes. Watson não sabia o que dizer para justificar a ausência do detetive em um momento tão significativo, de modo que optou pelo caminho mais fácil. Disse que Holmes não gostava de comparecer a enterros – mas quem diabos gosta? – e que preferiu passar seu luto em casa. Como todos pareciam conhecer as extravagâncias do detetive, foi o suficiente.

A verdade é que nem mesmo Watson sabia o porquê de o detetive estar ausente no enterro de sua senhoria, alguém com quem ele conviveu tanto pelas últimas décadas. Talvez sua desculpa fosse verdade, ou talvez... Talvez sua ausência fosse explicada por outra coisa. Esperava que não fosse o que estava suspeitando. Holmes não tinha mais idade para se afundar outra vez na cocaína ou morfina. Para completar, estava abstêmio dessas “recreações” há anos. Seu organismo poderia não aguentar ser submetido a elas, como nos velhos tempos.

-Papai, o senhor está bem?

Era sua filha mais velha, Agnes Mary Watson. A jovem, de cabelos loiros e vibrantes olhos esverdeados, era sem dúvida a que carregava mais traços do pai dentre os filhos de Watson. E também um certo favoritismo perante os outros filhos, por ter sido a única filha que Watson tivera com sua falecida segunda esposa, Mary Morstan. Não que amasse menos seus outros dois filhos, Charles e Peter, frutos de seu terceiro casamento, mas Agnes acabava por ocupar um lugar especial dentre eles.

-Estou sim, apesar de tudo. Eu fui próximo de Mrs. Hudson por muito tempo e é lamentável o falecimento dela, apesar da idade avançada que ela já tinha. Creio que a nossa natureza humana nunca nos deixa prontos para despedidas definitivas, e nem as décadas de prática na Medicina me tornam alguém preparado para elas. Bom, acho que é melhor irmos para Baker Street, ver como está Holmes. Esperava vê-lo aqui no cemitério, mas...

-Talvez o senhor esteja certo e ele não goste de ir a enterros.

-Eu também espero estar certo, Agnes. Espero mesmo. Bom, não adianta ficarmos a conjecturar aqui. Melhor fazermos uma visita a Holmes, ver se ele está precisando de algo. Agora, onde estão os seus irmãos?

A jovem rolou seus olhos verdes.

-Adivinhe, papai? Paquerando a florista na porta do cemitério.

Watson riu. Se Agnes era a mais parecida fisicamente com ele, seus irmãos a superavam na semelhança com sua personalidade. Charles era o mais galanteador deles, desde cedo dando trabalho a Watson por colecionar namoradinhas, enquanto Peter, por ser o mais novo, acabava colado em seu irmão mais velho tal como uma sombra, a imitá-lo em muita coisa. Entretanto, o que impressionava Peter era seu porte atlético, graças à sua prática de esportes, como remo. Não tinha dezoito anos completos, mas já havia demonstrado o desejo de servir ao Exército de Sua Majestade, tal como fizera Watson. Ao menos esperava que o jovem não passasse pelas mesmas adversidades que ele no Afeganistão, que lhe rendeu uma bala alojada na perna, dolorosa nos dias mais frios. A dúvida era qual dos dois filhos seguiria a carreira médica, mas isso só o tempo poderia dizer.

E a jovem estava certa. A florista, uma jovem moça que mal deveria ter vinte anos, parecia tímida diante dos dois rapazes a disputar sua atenção. Um pigarreio do médico despertou-lhes a atenção.

-Vamos? – pediu Watson, enquanto Agnes se ocupava em chamar um cabriolé. Os meninos disseram um último gracejo à moça, que por fim separou duas flores pequenas de seus buquês e entregou aos dois rapazes.

-Está vendo, Charles? Ela me deu a flor mais bonita!

-Mas é claro que não! A minha flor, além de ser mais bonita que a sua, foi também dada com um sorriso!

-Mas ela também sorriu para mim, e o tempo todo!

-Mas ela estava sorrindo mais para mim do que para você!

-Tolo seria ela, se estivesse interessada por um fedelho magricela como você!

-Fedelho?! Mas você só é um ano mais velho do que eu!

-Será que os dois podem parar, por favor? – interrompeu Watson, no que seria mais uma briga entre os dois irmãos. Mais um pouco e certamente os dois meninos estariam se estapeando no meio da rua. Por serem tão parecidos, os dois acabavam quase sempre entrando em conflito.

Com seus três filhos já embarcados no cabriolé, Watson pediu que o cocheiro prosseguisse seu caminho até Baker Street.

-Vamos à casa do tio Sherlock? – animou-se Charles. Watson sabia bem o porquê dessa animação toda do menino. Ele gostava de ver os experimentos no laboratório pessoal de Sherlock Holmes, e ainda que o detetive não o deixasse mexer em suas coisas, o menino ficava fascinado só em observar.

-O tio Sherlock não gosta de ser chamado de tio Sherlock, Charles. Pelo menos não na frente dele. – pediu Agnes.

-Será que ele está ocupado com algum caso? Como daqueles que o papai escreve?

-Bom, esse seria um bom motivo para ele estar ausente no enterro de Mrs. Hudson. – respondeu Watson diante da curiosidade de Peter. – Rezo aos céus para que sua ausência seja justificada por isso...

Quando o cabriolé parou diante de Baker Street, Watson e Agnes desembarcaram primeiro que os meninos. Ao ver sua filha a acompanha-lo, Watson a deteve.

-Filha... Eu não sei em que estado posso encontrar Holmes. É melhor que você e seus irmãos retornem para casa e me esperem por lá.

A menina parecia compreendê-lo. Natural. Já deveria imaginar bem o que seria esse tal “estado”, pois lera todos os livros e se recordava das passagens a respeito dos vícios nem um pouco ortodoxos de Holmes.

-Está bem, papai. Farei como o senhor está me pedindo. Pode deixar que cuido dos meus irmãos. – consentiu Agnes, logo impedindo seus irmãos de desembarcarem do cabriolé. Apenas ao ver o cabriolé já dobrando a esquina de Baker Street, Watson sentiu-se seguro em prosseguir.

Suspirando fundo, diante da porta de carvalho de número 221, Watson bateu à porta. Tocou também o sinete, para só então se recordar de que, com a morte de Mrs. Hudson, não haveria senhoria para atende-lo e abrir a porta. Por sorte, ainda tinha uma velha chave de Baker Street, de seus tempos de inquilino junto a Holmes, e assim pôde abrir a porta principal da casa.

Subiu os degraus que levavam até o apartamento que por anos dividiu com Sherlock Holmes, e uma sensação de nostalgia lhe acossava a cada degrau que enfrentava. Quantas vezes descera e subira essa escada às pressas, ao lado de seu amigo Holmes, porque havia algum caso em andamento... Mesmo sua perna problemática não parecia ser um entrave àquela vida intensa que levara em Baker Street, mas o mesmo não poderia ser dito agora, subindo as escadas com ligeira dificuldade. O frio explicava a rigidez de sua perna, mas sem dúvida o passar dos anos levara a melhor sobre si.

Não encontrava Holmes há quanto tempo? Talvez uns seis meses, quando o detetive bateu em sua porta numa manhã de domingo, para convidá-lo para acompanhar um caso importante, que infelizmente estava ainda reduzido a um rascunho pela falta de tempo em escrevê-lo adequadamente. Desde então, o detetive não dera mais notícias, e sua vida atarefada e dividida entre consultório e paternidade tornavam uma visita à Baker Street sempre como algo que inevitavelmente ficava para depois. Agora, com a morte de Mrs. Hudson, talvez fosse melhor que eu ficasse mais presente, pensou Watson ao dar as primeiras batidas à porta.

-Holmes! Sou eu, Watson! – pediu, ao não receber respostas. Nada mais que silêncio recebera em troca. Isso o deixou apreensivo. Deu mais algumas batidas à porta, bem fortes. Sempre que batia à porta desse jeito o detetive ficava irritado. Se não aparecesse em segundos, furioso, sem dúvida algo de errado estaria acontecendo, ou mesmo o detetive não estaria presente. Como não recebeu resposta alguma, coube a Watson usar sua chave antiga e entrar no apartamento 221-B, mesmo que sem ser permitido.

-Mas que bagunça! – exclamou, tão logo a visão da sala chegou às suas vistas. A mesa de centro, que no máximo tinha um jornal ou cinzeiro, consistia agora em uma pilha de pratos e talheres sujos, desordenados. Havia tanto jornal acumulado ali que parte deles havia despencado no chão. Sobre as poltronas e sofá da sala, roupas e cobertores estavam pendurados. E mal dava para contar as canecas de chá, sujas, espalhadas por cada canto do cômodo. O que a falta de uma senhoria não faz... Pelo que soube no enterro de Mrs. Hudson, ela estava internada no hospital há uma semana, após um enfarto, e infelizmente não resistiu. Com isso, o apartamento de Holmes estava sem seus cuidados há exatamente uma semana, mas foi tempo o bastante para tornar o lugar uma grande bagunça.

-Holmes? – chamava Watson, desviando-se de cada objeto caído sobre a sala. Caminhou até o quarto dele. A porta estava encostada. Ainda que fosse errado, Watson sentia que era seu dever, não só como amigo mas também como médico, em verifica-lo. Abriu a porta, finalmente encontrando-o deitado à cama, no que parecia ser um sono profundo.

Olhou ao redor. Havia seu inseparável cachimbo, ainda fumegante. Um livro em idioma estranho, aberto na metade, e mais uma xícara suja. Nenhum vestígio de drogas, entretanto. Isso o deixou levemente aliviado, mas não o bastante para presumir que Holmes estava bem. Passava de meio-dia e o detetive não tinha o hábito de estar à cama tão tarde.

-Holmes... Acorda, Holmes... Sou eu, Watson... Acorde, vamos...

No início, recebeu do detetive alguns resmungos. Mas depois de alguns chacoalhar de ombros, finalmente o detetive abriu os olhos. A primeira coisa que Watson fez foi examinar seus olhos cinzentos, com atenção. Suas pupilas não estavam dilatadas, como nos tempos da solução 7%. Ao menos isso, pensou. Entretanto, tal fato não passou despercebido por Holmes.

-Eu não estou drogado, se é o que deseja saber.

-Bom dia para você também, Holmes. Ou melhor, boa tarde. Acaso já viu o horário? – questionou Watson, enquanto abria a cortina do quarto, deixando a luz do dia adentrar àquela escuridão. Abriu também a janela, para deixar o ambiente mais ventilado. Havia um forte cheiro de tabaco que tornava o ar quase inalável.

-Não vi e nem me interessa ver. – resmungou o detetive, incomodado com a claridade. Afundou sua cabeça no travesseiro, tal como uma criança emburrada.

-Holmes, eu vim visita-lo para ver se está tudo bem com você, e pelo jeito não está. Pensei que iria encontra-lo no enterro de Mrs. Hudson...

-Eu não gosto de ir a enterros, Watson. – respondeu o detetive, com a voz abafada pelo travesseiro sobre o seu rosto.

Então, minha hipótese estava certa. Menos mal.

-Mas a julgar por seu estado e também pela situação de profunda desordem dessa casa, penso que você não está lidando muito bem com o falecimento de Mrs. Hudson. Você precisa de alguma ajuda, meu amigo? Talvez uns dias em sua casa de veraneio em Sussex Downs lhe façam algum bem...

O detetive não o respondeu. Jogou o travesseiro em um canto, levantando-se. Sabia que Watson não o deixaria permanecer na cama por mais tempo. De pé e vestindo seu velho pijama, o médico notou que Holmes havia emagrecido bastante.

-Holmes, como tem se alimentado nos últimos dias? – perguntou seriamente preocupado, enquanto o detetive buscava por algumas roupas em seu armário. Resmungou, pois havia poucas peças. Com a ausência de Mrs. Hudson, era nítido que suas roupas sujas estavam acumuladas, o que restou poucas roupas limpas a serem usadas.

-Não gosto desse terno. – disse, batendo a porta do armário com força. Claramente estava descontando no pobre móvel seu aborrecimento. – Espero que a família de Mrs. Hudson providencie uma senhoria urgentemente. Você os encontrou no enterro?

-Sim, encontrei o filho dela. Mrs. Hudson não falava dele com frequência, mas do pouco que deu para conversar com ele, notei que ele mora em algum lugar da América, e não me pareceu muito interessado em morar em Londres. Mas como estava abalado com a morte repentina da mãe, preferi não prolongar muito a conversa. Não sei como consegue viver em um ambiente tão bagunçado... – resmungou Watson, retirando do sofá o que seria uma pilha de livros. Chamou-lhe a atenção que eram todos recentes, ainda com o recibo de compra, e falavam do mesmo assunto: Apicultura.

-Pelo visto, encontrou um tópico de seu interesse. Está relacionado com algum caso em andamento, Holmes? – perguntou o médico com a voz alta, pois seu amigo estava em seu quarto, de porta fechada, a se trocar.

-Estou pensando em cultivar abelhas.

-Aqui, em Baker Street?! – surpreendeu-se Watson.

-Impossível cultivar abelhas em um apartamento no coração de Londres, Watson, a não ser que eu queira irritar meus vizinhos e arranjar problemas com a polícia. A minha ideia na verdade é cuidar de abelhas em Sussex Downs. – explicou o detetive, já saindo de seu quarto. Não foi difícil entender porque odiava o terno que precisou vestir, pois era um terno marrom de tecido tweed, uma coloração bem diferente e destoante da cor negra, que como um bom vitoriano predominava em seu guarda-roupa.

-Isso vai demandar bastante tempo de você... Como vai fazer para se dividir entre Londres e Sussex? Oh. Não me diga que você...

-Exatamente, Watson. Londres está agora abarrotada de detetives particulares, e isso muito se deve ao sucesso de seus livros. De vez em quando eles me procuram pedindo ajuda, mas a verdade é que meu renome fez com que minha clientela fosse cada vez mais restrita à gente rica, o que é uma pena, pois os casos mais interessantes que tive em minha carreira vieram da camada mais pobre da população, que acaba recorrendo a esses detetives de menor fama, achando que devo cobrar uma fortuna. É o preço que se paga pela fama, não é?

Watson tomou-se de pesar.

-Não pensei que minhas histórias fossem te atrapalhar tanto, meu amigo.

-Não precisa se desculpar, Watson. Já estou com 57 anos de idade. Esse frio rigoroso de Londres está fazendo cada vez mais mal aos meus ossos, e já não tenho a mesma disposição para aventuras como nos últimos tempos. E depois daquela surra que levei dos capangas do Barão Gruner...

Watson suspirou, em pesar. Esse caso, que se tornou um manuscrito ainda engavetado de nome “O Ilustre Cliente”, havia acontecido no ano passado, mas o detetive ainda estava com o orgulho ferido por não ter sido capaz de se defender do ataque de dois capangas, que em outros tempos seriam facilmente derrotados graças às suas habilidades com boxe e bartitsu. Já havia embarcado em brigas e até mesmo apanhado algumas vezes, mas não com aquela gravidade.

-Holmes, você estava em desvantagem naquela noite, e no fim das contas, todo esse jogo sujo do Barão Gruner não o impediu de resolver o caso. Mas penso que esteja certo. Uma mudança de ares nesse momento seria o melhor a se fazer e...

Watson interrompeu-se, ao ouvir o sinete tocar.

-Será um cliente? – perguntou-se o médico, mas antes que pudesse se levantar do sofá Holmes já estava na janela, a espiar pela cortina. Deveria estar sem casos relevantes há um tempo, e sua mente cada vez mais entediada parecia clamar por um caso novo. Dada as atuais circunstâncias, talvez fosse o melhor para ele.

-Um homem de estatura mediana, de aproximadamente 1,70m de altura. Hum... É estrangeiro... Francês. Provavelmente do litoral. Acabou de desembarcar de Charing Cross. Veio diretamente para cá, sem nem pensar em ir a um hotel. Sem dúvida um caso em andamento, e urgente.

-Como sabe que ele é francês? – questionou Watson. Mesmo com o passar dos anos, permanecia sempre abobado com as frenéticas deduções de Holmes. Esperava que o amigo lhe esclarecesse como chegou a elas, e de modo tão rápido, com um mero vislumbre das janelas. Ao vê-lo bater mais uma vez à porta, Holmes bufou. Por estar sem senhoria, teria o mesmo que descer e abrir a porta. Ah, como você faz falta, Mrs. Hudson...

O homem já estava pensando em desistir quando a porta se abriu, revelando Holmes e Watson. Pareceu aliviado em vê-lo.

-Bonjour, cavalheiros. – disse o homem, com forte sotaque francês. – É aqui que reside o Mounsier Sherlock Holmes?

-Pois o senhor fala com o próprio! Entre, por favor.

O homem pareceu aliviado. Claramente, não estava acostumado com o rigor do frio de Londres àquela época do ano. Vestia um sobretudo cinzento e cartola articulável, amarronzada. Estava levemente úmida, devido ao chuvisco que agora caía na cidade. Deixou tanto sobretudo e chapéu no cabideiro à porta, mas insistiu em subir com a mala, que claramente parecia ser pesada.

-A que devo a visita de um policial vindo de tão longe?

O francês parecia maravilhado. – Como sabe que sou um policial?

-Ao tirar seu sobretudo, pude ver que usa um broche da Gendarmerie na lapela de seu colete. O fato de ser francês é óbvio pelo seu forte sotaque, mas o que me fez deduzir sua nacionalidade foi o formato de sua cartola, com desenho tipicamente francês. Sua tez levemente queimada de sol também justifica isso, pois não faz sol forte em Londres há quase dois meses, mas conjecturo que deve vir das partes mais quentes da França... Marselha, eu diria?

-O mounsier só pode ser um demônio! Realmente, sou um policial da Gendarmerie, mas não sou exatamente da Marselha, e sim de Nice. Acabei de chegar em Londres, o que não é difícil de presumir por causa da minha mala, e o motivo de minha urgência é que não tenho qualquer tempo a perder aqui. Mas que modos os meus! Permita-me apresentar aos senhores. Meu nome é Edmond Ganimard...

-Ganimard! – exclamou Holmes, maravilhado. Ambos trocaram um vigoroso aperto de mão. Claramente o detetive o conhecia de algum lugar. – Perdoe-me por não tê-lo reconhecido antes. Trocamos correspondências algumas vezes, não?

-Exatamente, mounsier Holmes. Mas isso faz tanto tempo... Até pensei que não tivesse respondido meu telegrama por ter se esquecido de mim!

-Espere... Que telegrama? – questionou o detetive, sem compreendê-lo.

-Ora, mas eu mandei um telegrama a você semana passada! Como não ouve resposta alguma, pensei que tivesse me esquecido, por isso decidi ir pessoalmente até Londres para conversar com o senhor, pois trata-se de um caso de natureza urgentíssima!

-Mas eu não recebi nenhum telegrama e... Oh, agora compreendo! Perdoe-me, é que recentemente minha senhoria faleceu, e agora presumo que há uma fila incontáveis de correspondências abarrotando a caixa de correios.

-Meus pêsames, em primeiro lugar. – disse o homem, tentando buscar um lugar para se sentar em meio à tamanha bagunça. Coube a Watson retirar o que seria um amontoado de roupas jogadas sobre uma poltrona e limpá-la, para deixa-la o mais apresentável possível para que o francês pudesse se sentar.

-Mr. Ganimard, perdoe também o estado em que se encontra esse lugar. Como disse Holmes, sua senhoria faleceu recentemente e ainda não há alguém para substitui-la em suas tarefas. – pediu desculpas Watson, quase como se aquela casa também fosse sua.

-Uma senhoria realmente faz falta, especialmente quando se trata da casa de um solteirão. Compreendo perfeitamente. – disse o francês, em uma ligeira troça. – Agora, permita contar aos cavalheiros o motivo de minha visita. O nome Arsène Lupin lhe diz alguma coisa, mounsier Holmes?

O detetive, sentado sobre a poltrona oposta, parecia ligeiramente ocupado em recolher as folhas de jornais espalhadas ao seu redor, mas ouvia as palavras de Ganimard atentamente.

-Sim, me recordo dele a partir de algumas reportagens dos jornais ingleses. Acho inclusive que já conversamos a respeito dele em uma dessas nossas trocas de correspondências, não?

-Sim, mounsier Holmes. O senhor, ocupado como deve ser, não deve se recordar, mas foi graças aos anagramas do nome Arsène Lupin que o senhor me enviou por carta que eu pude descobrir uma série de falsas identidades que Lupin estava usando por toda a França.

Watson parecia não compreender a conversa.

-Esse nome não me é estranho, mas... Afinal, quem é esse tal Arsène Lupin?

-Um dos ladrões mais afamados da França, meu caro Watson.

-Quanto a isso, temo não ser mais apenas “da França”, mounsier Holmes. – interveio Ganimard, claramente preocupado. – Tenho evidências de que Arsène Lupin está agora em Londres. Por isso estou aqui. Para alertar tanto ao senhor quanto às autoridades britânicas a me auxiliarem em sua captura.

-Você acha que esse tal Arsène Lupin irá passar a roubar em solo britânico? – assombrou-se Watson.

-Em se tratando dele, tudo é possível. Já fez muitas vítimas entre a alta sociedade francesa com seus roubos espetaculares e furtos que mais parecem truque de mágica, e toda essa infâmia ao redor de seu nome o tornou alguém muito marcado por lá. Pode estar mudando de ares para voltar a atacar com mais liberdade.

-Então, ele é um ladrão.

-E nem um pouco comum, meu caro Watson.

Holmes estava de pé, no armário onde constava seus arquivos. Naquele armário, havia uma enorme quantidade de pastas, com as fichas contendo os nomes dos criminosos mais famosos da Europa. Obviamente, Arsène Lupin estaria entre um dos criminosos catalogados ali.

-Encontrei seu arquivo, Watson. Vejamos... Lupin, Arsène. Criminoso, especialista em roubos de jóias, obras de arte e itens de grande valor. Conhecido por roubar com excepcional cavalheirismo suas vítimas, utilizando-se de carisma, sedução e boa oratória... Nascido em Bordeaux, no ano de 1890, portanto, com exatos 21 anos de idade nesse momento. Proveniente de uma família abastada produtora de vinho... Agiu sob codinomes e identidades falsas por um bom tempo, até ser descoberto pela polícia...

-Graças ao senhor, mounsier Holmes! Eu mandei por carta o codinome que esse ladrão usou para roubar suas vítimas, pois estava desconfiado de que se tratassem da mesma pessoa, e o senhor percebeu que os nomes falsos eram na verdade uma série de anagramas de um mesmo nome: Arsène Lupin. Foi assim que a polícia francesa conseguiu descobrir o nome por trás dos roubos.

-E presumo que fizeram da vida da família dele um inferno, não?

Ganimard deu de ombros.

-Os pais dele faleceram há anos, na verdade, e Lupin não tem irmãos. O vinhedo está praticamente falido devido à baixa produtividade agrícola de suas terras, mas Lupin levava uma vida nem um pouco austera para os poucos recursos que deveria receber pela venda de vinhos de sua propriedade, o que confirmou nossas suspeitas. Descobrimos que estava sustentando sua vida de luxo e ostentação através dos roubos. Atualmente, o vinhedo está sob custódia do governo, o que infelizmente não é o suficiente para cobrir os prejuízos que ele causou.

-Mas afinal, o que fez pensar que ele está em Londres?

O som de uma carruagem a se aproximar chamou a atenção de Holmes. Mais ainda porque ele conhecia bem esse som. Levantou-se até a janela e suspirou. Era uma carruagem da Scotland Yard, e viu desembarcar dela um jovem rapaz, que a julgar por suas vestimentas, era um inspetor de polícia. Caminhou até a porta, acompanhado de outros dois guardas. Todos os três pareciam apreensivos com algo, com aquela velha agitação policial de quem não tinha muito tempo a perder por estar envolvido com algo muito importante.

-Creio, meu caro mounsier Ganimard, que teremos notícias de Arsène Lupin mais breve do que poderíamos supor. – comentou Holmes, ainda a observar o movimento de sua janela.