A Droga da Minha Vida
4 4. A filha do sol
Notas iniciais
Segunda-feira.
Nós estávamos na fuça do segundo bimestre e sem um professor de matemática. Pelo menos até hoje. Pelos boatos, uma professora tinha chegado. Aquilo era música para os meus ouvidos. Seria difícil recuperar nota se essa nova professora não tivesse chegado do céu pra me salvar.
O sinal já tinha tocado e eu ia me arrastando para o corredor de exatas.
Era uma boa organização, fácil de entender. Três corredores a escola tinha, um para humanas: história, geografia, filosofia e etc; um de exatas: matemática, física, química e etc e um para códigos: português, espanhol, inglês e etc.
Vi umas pessoas da minha turma entrarem na sala 29, a nossa aula agora. Entrei nela sem prestar muita atenção e sentei numa carteira do lado da porta.
Girei pro lado e a nova professora de matemática estava bem no centro da sala, esperando que todos sentassem. Comecei a fazer um perfil dela.
A cara dela era séria, bastante carrancuda, e ela ser baixinha não a impedia de botar medo só com o olhar. Mesmo com um tamanco alto, ela ainda era uma anãzinha. Eu já conseguia ouvir as piadinhas idiotas. Era negra, a cabeleira curta escura presa num rabo de cavalo, com uma das mãos na cintura, que dava um ar autoritário.
O povo não calava a boca, e foi aí que ela impacientemente, bateu na carteira da Beatriz, que estava sentada bem na frente com um apagador. Ela deu um pulo e eu comecei a rir. Agora ela tinha conseguido chamar a atenção de todo mundo.
— Eu sou a nova professora de matemática de vocês, 3° ano C. — ela falou alto, ajeitando a postura. — Só para deixar bem claro: eu não estou aqui pra moleza. Quem estiver aqui pra fazer algazarra — apontou em direção a porta. —, pode sair da sala sem nenhum problema.
Silêncio.
Olhei em volta, nunca achei que poderia ver aquela matilha de cães loucos acuados.
Adorei ela!
Desatei a rir pela cena, mas acabou saindo mais alto do que o planejado. A sala toda se virou na minha direção, a rabugenta fez o mesmo.
— Tem algum palhaço aqui, senhor...?
Sorri pra ela, desafiando.
— Ahoy, e você?
— Meu nome é Solange — ela falou pra todos. —, mas as criancinhas podem chamar a tia de Sol.
A sala inteira caiu na risada. Sorri mais uma vez pra professora Sol.
— Eu tava só pensando, Sol — disse, olhando bem no fundo dos olhos castanhos. —, que já tenho um profundo sentimento pela senhora por colocar moral já no primeiro dia com a gente.
Ela era impenetrável.
A face continuou dura e o resto da sala já não prestava mais atenção em nós dois quando ela caminhou até a minha carteira. Ela apoiou a mão na mesa, chegando mais perto.
— Eu agradeço, senhor Sorridente, mas o que eu quero aqui não são sentimentos. — o que eu tinha a dizer sobre essa professora que eu mal conhecia e já amava? Seria maravilhoso soltar algumas farpas e ver ela dar umas duras nos bagunceiros. — O que eu quero aqui são bons resultados. — e saiu andando pro centro da sala.
Sol ensinava bem. Era difícil, como tudo no 3° ano, mas ela explicava de uma forma que grudava na cabeça que nem chiclete no cabelo.
Tava fazendo o criptograma que do professor Tibério tinha passado tranquilamente enquanto Sol olhava alguns papéis com cara nojo, apoiada na porta quando alguém deu um grito, se destacando das outras conversas. Virei pra trás, junto com a Sol e uma das panelinha tava morrendo de rir.
— E aí professora, qual o nome da sua filha? — outro garoto perguntou em seguida.
Filha? Virei pra professora. Ela olhou na direção da pessoa, mas me concentrei só nela.
Ela talvez tivesse idade pra ter filhos, mas por que alguém tocaria nesse assunto?
— Minha filha não está à venda pra ficar sendo anunciada, criancinha! — Sol rebateu, indo até sua mesa do outro lado da sala.
Ela jogou uma pilha pesada de papéis, fazendo um barulho alto, que fez a menina sentada na cadeira dar um pulo.
Encarei a garota. Cabeça baixa, fone de ouvido vermelhos, lápis em uma mão e um caderno no outro. Me perguntei quem era aquela alma viva que se atrevera a sentar na MESA DA PROFESSORA. Ela levantou a cabeça, tirou os fones e olhou pra Sol, e a professora fez... nada.
TINHA UMA ALUNA SENTADA NA MESA DA PROFESSORA E ELA NÃO FEZ NADA!
O mundo está insano.
A garota falou alguma coisa e tudo que consegui pegar foi a palavra "mãe". É O QUÊ?
Uma aluna filha de uma professora na mesma turma? Mas ela não tava de uniforme. O que diabos aquela garota tá fazendo aqui?
Por milagre de Deus, a garota virou pra mim enquanto eu a encarava, sem entender nada.
E quem tava lá, na cadeira da professora Sol, quem era a filha da professora, quem veio parar bem na minha sala: Bianca Robbie.
Ela tava me seguindo, não tinha outra explicação.
Eu devo ter feito uma careta horrível pra expressão em resposta. Ela parecia confusa, com a cara franzida e a boca meio aberta. Cara de quem tava congelado de surpresa.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, mudo, rindo de nervoso.
— Eu é que te pergunto! — respondeu de volta, muda também.
Foi glorioso quando o sinal tocou. Finalmente intervalo! Guardei minhas coisas na mochila, joguei num ombro e andei despreocupadamente pra fora da sala. Robbie viria até mim, certeza, e eu tava morrendo de ansiedade pela nossa conversa. Aquilo ia ser divertido...
Sentei no bloco de cimento que segurava um mini jardim retangular, de frente pra sala. Fiz a cara mais cínica que deu quando ela veio andando na minha direção. Ela tava sorrindo (aquele sorriso simples) quando perguntou:
— Você tá me seguindo?
Quando eu ri, ela já tava sentada do meu lado. Olhei pra ela.
— Acho que eu que deveria perguntar isso. — me inclinei na sua direção e cochichei: — Você é que está na minha escola, mocinha.
— Não estou seguindo você. — ela riu e depois foi sua vez de cochichar perto do meu ouvido. — Pra falar a verdade, se soubesse que você estudava aqui, eu teria me arrumado muito mais.
Nós dois rimos.
— Você não acha que esse segundo encontro inesperado já não é o suficiente para você me contar algo sobre você? — decidi dar uma pressionada nela pelo o interrogatório da última vez.
Bianca Robbie pensou um pouco enquanto as pessoas transitavam passando por nós, rindo e jogando conversa fora.
— Me convenceu. — ela se decidiu. — Pergunte, Ahoy.
AEOWWWWWWWWWWWWW!
Ok, bora lá.
— Me conta o básico de você. — pedi.
— 17 anos, — a garota começou, olhando pra frente. — filha adotiva da professora ali e outro professor aposentado, trabalho com uma amiga fotógrafa... Hmm...
— Você trabalha com fotografia? — eu interrompi, sem conseguir me controlar.
— Calma aí, ruivo. — Bianca falou, sorrindo, aí que eu percebi que tava com um sorrisão na cara. — A minha amiga é a fotógrafa, eu só faço a maquiagem nas pessoas com quem ela vai faz o ensaio.
— Ahhhhh, entendi. — exclamei. — Mas é legal de qualquer forma e deve render um bom dinheiro. Trabalho moleza desses...
Bianca sorriu.
— É bem legal mesmo, principalmente pra mim que adora mexer com isso de maquiagem. — ela concordou. — Tenho fé que algum dia minhas economias serão bem gastas.
— Azul é minha cor preferida — Bianca continuou com o guia básico depois do meu sinal pra ela prosseguir. — e eu não consigo dormir sem o barulho de algo. — sacou seu celular. — Tenho até um aplicativo de barulho de chuva pro caso de estar muito frio pra ligar o ventilador. Luto pelo o que eu quero, acredito e amo. Ou seja... uma garota normal. — gesticulou com as mãos. — Nada desses clichês literários do tipo: "Ai, eu não sou uma garota como as outras!" ou "Ai, como eu sou diferentona!", mas também isso não quer dizer que eu seja burra ou um comum desinteressante...
Ri, balançando a cabeça.
— Eu to falando sério! — Bianca exclamou, quando me viu rir.
— Acredito. — declarei, me rendendo, segurando o riso. — O que vai fazer quando for adulta?
— Quero ser botânica. — ela falou. — Sou totalmente apaixonada pela flora.
Minha cabeça foi na mosca pra Toco de Gente. Maya curtia da flora também, tanto que tinha feito o próprio jardim, ou pelo menos tinha tentado. Ficou bonitinho pra uma garota de sete anos, só as flores laranjas que precisavam de alguma água.
Uma lâmpada ascendeu encima da minha cabeça.
— Ei, depois daqui você não quer ir dar uma olhada no jardim da Maya? — convidei.
— Claro! — ela respondeu na mesma hora. Como ela era disposta... Estranho. — Mas e aí, qual faculdade você quer fazer?
Tentei pensar um pouco. O tapado logo no terceiro ano do ensino médio não tinha se perguntando aquilo antes.
— Olha... — refleti. — Eu gosto bastante de fotografia. Então, talvez fotografia.
É! Talvez fosse fotografia mesmo. Era algo que eu tinha prazer em fazer, apesar de não ter câmera profissional. Eu imaginava/imagino possíveis situações que gerariam boas fotos. Seria um máximo ter uma câmera...
— Acho incrível a capacidade de congelar um momento num pedaço de papel. — Bianca indagou, gesticulando. — Nunca alterado, feito ou desfeito. É eternizar aquilo. — se virou pra mim e balançou a cabeça. — É uma ótima escolha.
Eu sorri.
— Poetisa, é?
— Não. — ela riu. — Só alguém que tem umas vibes de reflexão de vez em quando.
O sinal tocou.
— Eu tenho que correr que se não quisesse pedir desculpa em espanhol pra professora. — informei, me levantando.
Robbie levantou também e ficamos frente à frente.
— Então a gente se vê na saída? — Robbie perguntou.
— Uhum. — respondi. — Se não for problema pra você ir até lá em casa à pé, fofinha.
Chamei ela assim pra provocar mesmo, mas a expressão em resposta foi o que me deixou chocado. Bianca Robbie sorriu. Sem malícia, sem ousadia. Eu esperava no mínimo um insulto de baixo calão...
Ela era muito linda daquele jeito, bem espontânea.
— Sem problema. — falou. Ela olhou por sobre meu ombro. — Melhor ir, vai acabar se atrasando.
Virei quando ela fez o mesmo.
Eu já tinha dado alguns passos quando girei a cabeça pra trás. Bianca Robbie ainda não tinha entrado na sala da sua professora-mãe. Grudei os pés no chão. O corredor estava quase deserto.
— Bianca?
Ela ouviu e girou.
Uau.
O cabelo longo veio junto a toda velocidade, batendo no rosto quando seus olhos encontraram os meus. De onde eu tava, com aquelas poucas pessoas andando de um lado pra outro, transitando pelo corredor, daria uma foto espetacular, com Robbie como o núcleo central.
Me recompôs e tentei pensar em algo para dizer. Falei a primeira coisa que me veio a cabeça naquele momento:
— Alguém já te disse que você é muito gata, Bianca Robbie?
A garota riu. E antes de entrar para dentro da sala da professora Sol, falou, sorridente:
— Quase isso.
Eu ri, e saí correndo pra minha aula de espanhol.
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