A Dor Nos Une
6 Capítulo VI – Só você me faz chorar
Notas iniciais
Capítulo VI – Só você me faz chorar
Temari não tinha ideia de quanto tempo se passou enquanto ela permanecia no chão do banheiro. Quando ela finalmente resolveu se levantar, sua ferida havia parado de sangrar, o sangue seco agora com incrustado em sua pele e manchando os azulejos brancos do chão.
Temari ficou na frente do espelho de novo, arrancando o pano manchado que lhe cobria os seios e molhou-o na água quente antes de limpar cuidadosamente o sangue de sua pele. Quando ela terminou, ela usou o mesmo pano para limpar o chão, finalmente, pegando as bandagens descartadas e jogando os dois pedaços de tecido na lata de lixo. Ela pegou o kit de primeiros socorros de uma das gavetas do balcão, tirando um novo rolo de ataduras e cobriu seu machucado, mais uma vez, antes de colocar sua camisa.
Finalmente Temari saiu do banheiro, sem fazer barulho, descendo as escadas de volta para a sala de estar. Ela encontrou todas as luzes ainda acesas, e caminhou até a cozinha, encontrando o prato vazio de Gaara em cima da mesa, como sempre. Ela pegou o prato e colocou-o na pia.
Temari se forçou a comer sua própria comida fria antes de pegar todos os outros pratos restantes e leva-los até a pia. Quando a cozinha estava impecável, mais uma vez, ela apagou as luzes e subiu para o quarto dela. Ela tomou banho, vestiu roupas comuns e deitou-se em sua cama, incapaz de manter qualquer linha de pensamento coerente enquanto ela lutava para descobrir o que deveria fazer. Querendo saber como ela deveria agir na próxima vez que ela visse Gaara.
Mas a próxima vez não veio.
Gaara não estava lá na manhã seguinte quando Temari desceu as escadas. Ele não apareceu durante todo o dia. Naquela noite, ela trouxe uma bandeja de jantar para o quarto dele, deixando-a do lado de fora da porta, como sempre, apenas para descobrir que a bandeja ainda estava lá na manhã seguinte. Ela foi forçada a pegar o objeto e jogar a comida fora.
Mais três dias se passaram sem qualquer sinal de Gaara, e Temari começou a se perguntar se ele tinha finalmente estourado e abandonado à aldeia. Ela estava grata que pelo menos Kankuro não estava lá para questioná-la sobre o que havia acontecido, embora ela não pudesse imaginar o que ela diria se Gaara ainda não tivesse voltado quando seu outro irmão chegasse da missão para a qual fora designado.
No entanto, os seus temores revelaram-se infundados, quando na manhã do quinto dia ela viu Gaara entrar na casa, mais uma vez usando a porta da frente.
– Onde você estava? – Temari perguntou imediatamente, sentada no sofá, esquecendo por um momento com quem ela estava falando.
Ela viu Gaara se voltar para ela e franzir o cenho em questão.
– Naze? – ele perguntou.
– Eu estava preocupada – Temari admitiu. Os dedos entrelaçados um com o outro, as mãos descansado sob seu colo quando ela olhava para baixo.
– Com o quê? – Gaara perguntou com indiferença. – Que eu fosse destruir a vila?
– Não! – Temari exclamou, olhando para ele de novo. – Estava preocupada com você.
Gaara fez uma pausa, considerando-a em silêncio, sua expressão ilegível.
– Você espera que eu acredite nisso? – ele disse finalmente, com uma voz afiada.
– É verdade – ela respondeu com um encolher de ombros. – Eu me preocupo com você, Gaara.
– Esqueça isso, Temari – Gaara respondeu friamente. – Eu não me importo. Se você me incomodar, eu vou te matar.
Temari ficou sem palavras enquanto observava Gaara subir as escadas, desaparecendo no segundo andar. Ela olhou para o espaço vazio por alguns minutos, antes da raiva começar a crescer dentro dela. Isso não era justo. Isso tudo era tão injusto. Ela não merecia ser a irmã de um monstro, um irmãozinho que poderia matá-la sem hesitação. Ele não merecia ser aquele monstro. Sua mãe não merecia morrer para fazer este horror se tornar uma realidade. Seu pai não merecia carregar tais fardos silenciosamente.
Por que ela deveria ser a única a se importar? Por que era ela quem sempre deveria tentar se aproximar dele, apenas para ser afastada duramente de novo? Por que ele tinha que ser sempre tão distante? Por que ela deveria sempre se importar em se aproximar de todos eles, tentando ser uma família de verdade?
Temari levantou-se com um gemido frustrado, seus passos ecoando ruidosamente no chão enquanto ela se movia em direção à porta dos fundos, saindo para o quintal cercado por grandes muros pedrosos. Ela tirou algumas kunai que estavam sempre escondidas atrás das costas e lançou-as uma a uma em cima do muro com tanta força que a pedra da parede quebrou em torno das lâminas. Temari olhou para as kunais, achando que aquilo não era o suficiente. Ela queria destruir algo, ela precisava destruir algo. Ela queria ver um caos total na frente dela, e por um momento ela pensou que até entendia como a sede de sangue de Gaara deveria parecer.
Ela caminhou de volta para dentro da casa, batendo a porta atrás de si, abandonando o cuidado usual com que ela se movia. Naquele momento, ela não se importava se ela deixaria Gaara irritado com os barulhos. Pelo menos, em seguida, ele pode finalmente acabar com ela. Ela subiu as escadas como uma tempestade, chutando a porta de seu quarto, pegando seu leque antes de dirigir-se novamente ao andar de baixo. Ela abriu a porta da frente, pronta para sair quando uma voz sem emoção, descendo às escadas a fez parar em seu lugar.
– Achei que você não deveria treinar – ele disse calmamente, sem realmente se importar.
– Por que você se importa? – Temari rebateu, olhando para seu irmão mais novo, furiosa.
Gaara não respondeu enquanto ele descia lentamente os degraus, vindo em sua direção de forma constante. Quando ele já estava na frente dela, sua mão subiu e fechou a porta, forçando Temari a se afastar para o lado.
Gaara se aproximou. As palmas de suas mãos descansando contra a parede em cada lado da cabeça de Temari. Ela apertou as costas contra a superfície dura, olhando para Gaara com expectativa, esperando que ele dissesse alguma coisa, ou simplesmente a matasse. Mas ele continuou a observá-la em silêncio, com o rosto inexpressivo.
– Eu tenho que sair daqui – ela disse desesperadamente, esperando por um momento que ele realmente fosse libertá-la, que fosse deixá-la sair.
– Naze? – ele perguntou, parecendo desinteressado na resposta.
– Eu te odeio – Temari disse com amargura, com a voz vacilante entre a dor e a raiva, a indiferença dele levando-a ao seu limite. – Eu odeio cada lembrança da sua existência. Eu odeio esta casa, odeio esta aldeia, eu odeio o Kazekage por ser nosso pai, odeio Kankuro por ser nosso irmão, eu me odeio por ser sua irmã! Odeio cada maldita coisa que tem qualquer coisa a ver com você!
Assim que ela terminou seu discurso colérico, ela imediatamente se arrependeu. Mas o olhar nos olhos de Gaara nunca mudou. Ele não se afastou, assim como ele também não se moveu para matá-la.
– Eu sei – ele simplesmente disse, como se as palavras dela fossem algo natural.
– Por que você não fica bravo? – Temari gritou, de repente ainda mais frustrada do que antes. – Você não se importa que a sua própria irmã te odeie?
– Não – Gaara respondeu com indiferença. – Eu não me importo se você deveria ser minha irmã, e eu não me importo com o que você pensa.
– Então por que você está fazendo isso? – ela perguntou com os dentes cerrados.
– Eu já disse a você – ele respondeu calmamente. – Você é quente quando você está sangrando.
– Eu não estou sangrando – Temari zombou com raiva, revirando os olhos.
Gaara olhou para o ombro dela e Temari seguiu seu olhar, vendo uma mancha escura se espalhando em sua camisa. Ela percebeu que ela deveria ter rasgado a ferida novamente em seu surto de raiva. Ela olhou para Gaara, seu corpo começou a tremer de fúria, as palmas das mãos pressionadas contra a parede para impedir-se de tentar empurrá-lo para longe dela.
– Vá se ferrar! – ela gritou. Seu medo evaporando de sua face, sendo substituído por frustração. – É tudo com o que você se importa. Você nem percebe que eu realmente me importo com você. Droga, eu te amo, Gaara! O Kankuro te ama! Nosso pai te ama, mesmo que ele não demonstre, ainda sim, ele te ama! Isso não significa nada para você?
– Não – ele respondeu novamente, sua expressão nunca mudando. Nem se importando com o escândalo que ela fez. – Você não se importa.
– Vá se ferrar – Temari repetiu, desta vez mais fraca, a luta parecendo estar deixando-a. – Apenas me deixe ir. Ou me mate. Faça o que você quer fazer, mas apenas acabe com isso.
Ela viu Gaara sorrir maldosamente quando ele olhou para ela. Em um piscar de olhos, os braços dele estavam envoltos em torno de sua cintura, pressionando-a contra ele. Temari ofegou, desorientada pela ousadia do ruivo, ao mesmo tempo, de repente sendo dominada pelo calor do corpo dele contra o dela. Ela olhou nos olhos do irmão com incerteza quando a areia começou a envolvê-los, fechando-os completamente.
Assim que seus pés tocaram o chão novamente, Gaara imediatamente a soltou, dando um passo para trás. Temari olhou ao redor, encontrando-se em uma duna de areia a alguma distância de sua casa. Ela olhou para Gaara interrogativamente e ele apenas deu de ombros rapidamente.
– Você disse que queria sair – ele falou, impassível.
Temari ficou pasma ao vê-lo escorregar para o chão, se sentado de pernas cruzadas na areia, olhando para longe dela. Ela não se atreveu a dizer que “sair” significava ficar longe dele. Ela não conseguia entender sua motivação. Será que ele estava realmente estava tentando fazer algo por ela? Se esse fosse o caso, ela não fazia ideia do por que dele fazer isso depois dela ter acabado de gritar com ele. Mas ela encontrou-se incapaz de fazer qualquer coisa, alem de sentar-se ao lado dele e olhar para frente, observando-o com o canto do olho.
– Tire suas bandagens, Temari – Gaara falou com calma. A declaração havia sido mais uma ordem do que um pedido.
– Nani? – Temari perguntou, chocada com a petição que ele lhe fez. Ou melhor, com a ordem lhe dada.
– Faça isso – Gaara sussurrou, virando-se para ela com um olhar fulminante.
Temari tremeu quando ela olhou para ele, o medo veio à tona novamente, agora que sua raiva ia, aos poucos, diminuindo. Ela suspirou com resignação, muito exausta e emocionalmente perturbada para discutir com ele, ela deslizou a camisa para baixo do ombro, começando a desembrulhar lentamente as bandagens.
Gaara observou o ferimento quando o mesmo estava finalmente livre. O machucado agora estava uma linha menor, mais fechada, mas ainda constantemente liberando pequenas gotas de sangue. Ele acenou com a cabeça um pouco antes de se virar para longe dela novamente. Temari estava um pouco surpresa, perguntando-se por que ele iria fazê-la mostrar sua ferida só para se afastar dela.
– Por que você quer que eu me importe com você, Temari? – Gaara perguntou em voz baixa.
– Porque eu me importo com você – ela respondeu, desejando que ele apenas deixasse o assunto de lado. Desejando que ela não tivesse dito qualquer uma das coisas que ela havia dito mais cedo.
– Isso não importa para mim – ele respondeu com firmeza. – Você é insignificante.
– Então por que você está aqui? – Temari perguntou novamente.
– Eu já respondi isso – Gaara afirmou com indiferença.
– Você não está fazendo nada – ela falou com frustração, se arrependendo de suas palavras assim que Gaara virou-se para ela novamente.
– Você quer que eu faça alguma coisa? – ele perguntou calmamente.
– Não foi isso que eu quis dizer – Temari respondeu rapidamente, e Gaara apenas deu de ombros, afastando-se mais uma vez.
Ficaram em silêncio por alguns minutos, Temari estava começando a se incomodar com a situação, sentindo-se desconfortável. Ela não conseguia entender o que Gaara estava pensando. Parecia quase como se ele estivesse mostrando alguma ilusão de se importar com ela, a não ser pelo fato de que as palavras dele contradiziam completamente isso. Ela começou a realmente desejar que ele fizesse alguma coisa, só para que ela pudesse entender o que estava acontecendo. Por fim, a voz impassível dele quebrou o silêncio.
– O que faz você pensar que eu deveria me importar com você, Temari?
– Nani? – ela perguntou, sendo trazida para fora de seus pensamentos.
– Você acha que você merece isso? – Gaara perguntou calmamente, ainda olhando para longe dela. – O que você já fez por mim para fazer com que eu me importe com você?
– Gaara... – Temari sussurrou com voz trêmula, sem saber o que dizer a ele. – Me desculpe se eu te machuquei...
– Você não machucou – ele afirmou, cortando-a antes que ela pudesse terminar a frase. – Você não pode me machucar, você não tem importância para mim.
– Eu sou sua irmã, Gaara – Temari falou desesperadamente. – Como você pode ser tão frio?
– Eu nunca a considerei uma irmã – ele respondeu com indiferença. – Você nunca agiu como tal.
– Eu tentei! – Temari afirmou com exasperação. – O que poderia fazer quando você sempre ameaçava me matar?
– Você tem medo de mim – Gaara afirmou friamente. – Assim como todos os outros.
– Você acha que eu não deveria ter? – ela perguntou timidamente.
– Não – ele respondeu com o mesmo vazio em sua voz. – Você deve ter. Eu vou te matar.
– Naze? – ela sussurrou, com os olhos arregalados de medo.
– Porque eu quero – ele disse naturalmente.
– Eu não entendo você, Gaara – Temari suspirou com frustração. – O que você está tentando fazer?
– Ninguém entende – ele respondeu com calma, finalmente virando-se para olhar para a irmã. – Ninguém fala comigo. Ninguém se aproxima de mim, exceto para tentar me matar.
– Então por que me matar quando eu estou aqui falando com você? – ela perguntou com descrença, ficando apenas mais confusa com a sua lógica.
– Você é diferente, Temari – ele respondeu. Sua voz de repente começou a ficar mais leve, tornando-se quase íntima. – Seus olhos não são como os de todos os outros. Você sente dor, mas não como eu. Você se sente machucada porque você acha que falhou. Você acha que não tem importância, pensa que é inútil. Você treina duro, mais do que qualquer um para provar que isto está errado, para provar que você tem valor. Você age com crueldade e arrogância para fazer parecer que você é confiante, mas você está quebrando por dentro. Você quer que alguém a reconheça.
– Eu quero que você me reconheça – ela murmurou quase um sussurro, enquanto lágrimas começaram a brotar em seus olhos.
– E eu quero quebrar você – ele sussurrou entre dentes cerrados. – Eu quero ver a dor em seus olhos crescer até que você não tenha mais nada sobrando. Eu quero ser o único a tirar a sua última esperança, o único a fazê-la desistir. Eu quero que você me peça para te matar.
– Naze? –Temari perguntou, piscando para conter as lágrimas.
– Porque você é desprezível para mim – Gaara respirava com algo semelhante à paixão. – Mas a sua angústia, o seu desespero... São quase tão fortes quanto o meu ódio. E eu quero isso, eu quero sentir isso.
Ela se afastou dele, incapaz de suportar a fome de seus olhos enquanto ele olhava para ela, sabendo que ele só viu as lágrimas que agora começaram a fazer os seus caminhos por suas bochechas. Ela cravou os dedos na areia, apertando forte, como se ao fazer isso ela poderia fazê-lo sentir o quanto ele a estava machucando.
– E se eu pedir... – ela disse com uma voz oca, vazia. – Você vai me matar?
– Você saberá quando você perguntar – ele respondeu cruelmente, mostrando nenhum sinal de se importar se ela vivia ou morria.
– É assim que você realmente se sente? – Temari murmurou, sua voz agora tremendo com tentativas fracassadas de sufocar as lágrimas. – Você acha que eu falhei? Você acha que eu deveria desistir?
Gaara não disse nada, apenas continuou observando-a com uma intensidade queimante. Os olhos acompanhando o progresso de cada lágrima pelo rosto delicado da garota. De alguma forma, o silêncio dele era ainda mais doloroso do que suas palavras. Se ele tivesse dito que sim, então ela poderia ficar com raiva, poderia argumentar contra, poderia lutar contra o que ele disse, mas se ele disse que não, ela saberia que ele estaria mentindo.
Mas essa falta de resposta era como se a questão nem mesmo valesse sua atenção, e isso era como uma faca cortando direto o coração dela. Temari deixou um gemido de dor interna lhe sair dos lábios e caiu de costas na areia, seu corpo tremendo com cada soluço angustiado, as unhas cravando-se em suas mãos, fazendo formas de pequenas meias-luas aparecem em suas palmas.
– Se é isso o que você pensa, então me mate – ela respirou em um sussurro sem vida.
Lágrimas obliteravam sua visão, o que tornava impossível para ela ver o sorriso satisfeito e sádico que se espalhou pelo rosto de Gaara enquanto ele se movimentava lentamente em sua direção. O único som que chegou aos ouvidos dela era o farfalhar suave de areia.
21/03/14
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