A Dor Nos Une

7 Capítulo VII – O sabor da dor


Notas iniciais
Boa leitura! (=

Capítulo VII – O sabor da dor

Temari deitou na areia, olhando para o céu, sua visão estava nublada de lágrimas. O leque enorme apertava dolorosamente em suas costas, mas ela o ignorou. A dor física estava ofuscada pela sensação de aperto em seu coração.

Ela sentiu Gaara se mover um pouco mais para perto dela, acompanhado pelo farfalhar infinito da areia inquieta. Ela olhou para longe dele com determinação, não querendo ver o olhar no rosto do irmão, o triunfo por ter finalmente a feito chorar. Ela podia sentir o calor do corpo dele ao seu lado quando ele se aproximou e ela lutou contra a vontade instintiva de se afastar.

– Me mate! – ela murmurou, sua voz parecendo encarnar seu tormento.

– Você não quer isso de verdade – ele sussurrou baixinho. – Não ainda...

Temari já não podia evitar encontrar os olhos de Gaara enquanto ele pairava acima dela, as palmas das mãos descansando no chão árido, em ambos os lados do corpo dela, efetivamente prendendo-a no lugar. Ela podia sentir o antebraço dele esfregar contra o seu estômago quando ele se inclinou mais perto, os olhos fixos nas lágrimas manchando o rosto feminino. O olhar destacado em seus olhos mostrava que ele não sabia ou não se importava com o quão comprometedor era aquela posição em que estavam. Com vaga tristeza, Temari pensou que Gaara provavelmente nem sequer a via como uma mulher, nunca considerando como ela poderia se sentir sobre tal contato de seu irmão mais novo.

Ele avançou em sua direção com uma lentidão calculada. Temari não podia fazer nada, alem de observar seu rosto enquanto ele se aproximava mais. Por um momento de parar o coração, ela pensou que ele iria realmente beijá-la. O pensamento parecia de repente hilariante para ela. Gaara, o monstro do deserto, ser humano o suficiente para beijar alguém. Temari teve que lutar contra a risada histérica que ameaçava escapar dela. O momento foi rapidamente quebrado quando Gaara mudou de posição, movendo-se em direção ao ombro ferido da loira. Ele franziu a testa um pouco, vendo que o sangue já estava começando a coagular e secar sob a pele clara. Mantendo o antebraço esticado através do estômago dela para garantir que ela não pudesse escapar, ele levantou a outra mão e com cuidado colocou os dedos sobre o corte.

Assim como havia feito antes, ele posicionou o dedo indicador na parte superior da ferida, cravando a unha e lentamente arrastando-a ao longo do comprimento da ferida, forçando a pele a se abrir mais uma vez, enquanto o dedo penetrava na carne por baixo da pele.

Temari gritou, arqueando as costas instintivamente, sem querer, pressionando-se contra Gaara. Ele soltou o fôlego por causa do contato inesperado, olhando para o rosto de sua irmã por um momento antes de voltar seu olhar para o ombro ferido. O sangue estava escorrendo da ferida de novo, não tão forte como da última vez que ele havia visto ela, mas ainda assim, o suficiente para espalhar o calor sob os dedos. Ele se inclinou mais perto dela, observando os filetes vermelhos se formarem na pele clara. O cheiro quase sobrecarregava seus sentidos enquanto os sussurros de Shukaku ficavam cada vez mais fortes na parte de trás de sua mente.

Em um movimento brusco, Gaara substituiu sua mão com a boca, fechando os lábios sobre a uma parte da ferida e fazendo Temari sobressaltar de surpresa quando ela sentiu o calor da respiração dele contra seu ombro machucado. A sensação a deixou atordoada com uma mistura de emoções, percebendo o quão errado isso era, notando que Gaara só estava fazendo isso por causa do sangue, mas ao mesmo tempo sentia-se estranhamente confortada por essa proximidade.

As lágrimas continuavam a deslizar pelo rosto da loira, mas seu corpo começou a relaxar lentamente, entregando-se àquelecontato reconfortante. Temari ficou ainda mais chocada quando sentiu a língua de Gaara traçar ao longo de sua ferida, lambendo o sangue, levando-o até sua boca. A sensação era quase elétrica e o próprio tremor involuntário do corpo de Temari foi combinado com o leve tremor do corpo de Gaara, algo que ela instintivamente associou com ele perdendo o controle.

Ela estava quase preparada para ouvir o rosnado desumano do Shukaku, preparada para ver Gaara se afastar e então ela olhar-lhe nos olhos e ver a íris, já dourada, ou para simplesmente ser dilacerada sem aviso prévio. Quando nada disso aconteceu, Temari percebeu que Gaara estava certo — ela não queria aquilo, ela realmente não queria morrer.

Temari se perguntava se o que Gaara estava fazendo agora significava que ele não iria matá-la, que ele havia dito todas aquelas coisas só para provocá-la, apenas para vê-la chorar. Ela pensou que talvez ele estivesse apenas brincando com ela, vendo as diferentes maneiras em que ele poderia deixá-la com medo. Mas, ao mesmo tempo, ela não podia evitar a esperança de que isso significasse que ele precisava dela, mesmo que fosse apenas pelo sangue.

Enquanto Gaara continuou a trilhar para cima e para baixo ao longo do corte, sua mão de repente se fechou ao redor da cintura da irmã, puxando-a mais perto dele. Sua outra mão deslizou sob a parte de trás do ombro, pressionando a área ferida contra sua boca, suas unhas cravando-se na pele dela com a força de seu aperto. Temari choramingou um pouco, resistindo ao impulso de empurrar Gaara para longe, e em vez disso, decidiu fechar os olhos, entregando-se à sede de sangue do ruivo. Era uma sensação estranha, estranhamente íntima, apesar de seu medo e sua incerteza sobre as intenções dele.

Ela sabia que deveria estar achando isso, no mínimo, desagradável, mas ela simplesmente não conseguia não gostar. Pelo menos ele estava lá, pelo menos ele estava prestando atenção nela. Apesar das milhões de razões que ela tinha para querer fugir, ela não conseguia evitar que seu corpo reagisse diante ao contato dele. Enquanto a língua de Gaara friccionava com cuidado sobre sua pele, Temari não pôde reprimir um gemido de escapar de seus lábios.

Gaara parou ao ouvir o som incomum. Ele nunca tinha ouvido nada parecido antes, pois estava acostumado a choros e gritos de agonia, mas um som feito com tanta suavidade era algo completamente estranho para ele. Ele se afastou lentamente, voltando-se para olhar o rosto de sua irmã, agora manchado de lágrimas secas. Os olhos de Temari se abriram, arregalando um pouco com a visão de sangue nos lábios de Gaara. Ela assistiu, com fascinação amedrontadora quando a língua do irmão deslizou para fora dos lábios, capturando as últimas gotas restantes de sangue, como se estivesse saboreando a angústia dela.

– Eu posso sentir o gosto da sua dor, Temari – ele disse em voz baixa, quase que com tristeza. A mão na cintura dela apertou mais forte ligeiramente.

– É por isso que você está fazendo isso? – ela perguntou sem fôlego, tremendo sob o seu olhar intenso, ainda encontrando-se, inexplicavelmente, desejando que ele não a soltasse.

– Você é quente – Gaara respondeu depois de uma breve pausa, fazendo Temari questionar novamente a sua lógica.

– Por que eu? – ela perguntou em um sussurro, quase que com medo de ouvir a resposta. Com medo que ele fosse repetir o que ele disse anteriormente. – Você já viu muitas pessoas sangrarem antes.

– Você é diferente – ele afirmou, mais uma vez, a voz baixa e rouca. – Sua dor é diferente. Seu sangue é diferente. Isso me faz querer fazê-la sangrar para sempre.

– Isso é tudo o que você quer? – Temari perguntou oprimida. – É tudo o que eu sou para você?

Gaara nem mesmo chegou a considerar se a pergunta valia alguma resposta, ficando apenas em silêncio.

– Você vai me matar? – ela pressionou.

Ele inclinou um pouco a cabeça para o lado, observando-a em silêncio, como se estivesse tentando decidir se ele deveria ou não finalizar a vida dela.

– Você ficaria fria – ele afirmou, por fim.

Temari balançou a cabeça em silêncio, percebendo com tristeza esmagadora que este comentário era provavelmente o mais próximo que ela iria chegar de seu irmão mais novo mostrando qualquer carinho ou compaixão para com ela.

Gaara olhou para a ferida, vendo que já havia parado de sangrar, os filetes vermelhos secando na pele dela. Ele abruptamente soltou Temari, levantando-se e afastando-se dela enquanto ela lutava para sentar-se, seu corpo estranhamente fraco. Ela viu quando, sem dizer mais uma palavra para ela, Gaara formou um selo, se transportado para longe e deixando-a tremendo na ausência de seu calor.

– — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — -

Temari permaneceu na duna de areia por um longo tempo, contemplando o que ela deveria fazer e como ela deveria se sentir sobre tudo o que aconteceu. Ela finalmente sabia a motivação de Gaara e suas intenções, embora ainda não fizessem muito sentido para ela. Ela não conseguia entender por que ele achava que ela era diferente, mas ela decidiu que era melhor não questionar isso. Se ele começasse a pensar que ela era igual a todos os outros, ele provavelmente iria matá-la, agora que ele tinha chegado tão perto dela. Ninguém nunca havia ficado tão perto dele e vivido depois.

Quando o sol começou a se pôr, Temari finalmente fez seu caminho de volta para casa. Ela estava suada e coberta de sujeira por passar o dia todo no sol do deserto.

Assim que ela chegou a sua casa, ela correu para o quarto, largou o leque e se desfez de suas roupas, indo tomar banho. Quando ela terminou, ela ficou na frente do espelho, limpando a névoa que cobria o vidro e examinando a ferida, agora limpa, em seu ombro. Ela franziu a testa um pouco, pensando que iria demorar uma eternidade para o machucado se cicatrizar com Gaara constantemente reabrindo-o. Ela provavelmente teria uma cicatriz agora, com a pele sempre trabalhando, inutilmente, para fechar o ferimento. Temari suspirou com resignação antes de pegar outro rolo de ataduras e cobrir seu ombro mais uma vez.

Ela vestiu roupas comuns antes de descer e ir para cozinha, começando a preparar o jantar. Ela se perguntava como Gaara iria agir agora, depois do que ele tinha feito. Será que ele ficar mais próximo dela, ou ele ainda estar distante como sempre?

Para ela, parecia quase como se eles compartilhassem um vínculo agora. Mas ela achava que ele provavelmente só a via por causa do sangue e não a notava por qualquer outra razão.

Enquanto Temari se movia suavemente em torno da cozinha, de repente, ela ouviu o farfalhar de areia atrás dela. Ela se virou para ver Gaara em pé a apenas alguns passos da porta da cozinha. Ele a olhou em silêncio por alguns instantes antes de sentar-se á mesa.

Temari sorriu levemente.

Parecia que ele iria começar a agir diferente, mesmo que fosse só um pouco. Ela ainda permaneceu por um minuto inteiro, apenas observando-o, desejando mais do que qualquer coisa que ela pudesse falar com ele, perguntar a ele o que ele realmente pensava, ou como ele se sentia sobre ela. Mas ela sabia que seria uma tolice. Mais do que provavelmente ele iria apenas dizer a ela para calar a boca, ou ele simplesmente iria sair para evitar a irritação. Então decidindo que era melhor não provocá-lo, Temari voltou a preparar o jantar em silêncio.

Alguns minutos depois, ela separou a comida em dois pratos, depositando o prato na frente de Gaara antes de se sentar ao lado dele na cadeira. Ela viu quando ele pegou os hashis em silêncio, começando a comer sua comida. Por um momento, tudo parecia quase pacífico, como se eles realmente fossem uma família. Assim que Temari começou a comer também, ela desejava que ela pudesse congelar este momento, e permanecer assim para sempre. Mas o momento acabou muito rápido assim que Gaara abaixou os hashis descuidadamente em seu prato vazio, levantando-se sem sequer olhar para Temari, saindo da cozinha e então indo para cima.

A loira se levantou e pegou os pratos, deixando-os na pia, como sempre. Ela logo começou a se perguntar se Gaara só iria vê-la quando ela estivesse sangrando.

– — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — -

Gaara se sentou na cama, na escuridão de seu quarto, encostado na cabeceira da cama, com os olhos fechados como se estive dormindo. Ele ouviu Temari subir as escadas, escutou-a pausar em frente à sua porta, antes de prosseguir para o seu próprio quarto. Ele passou a língua lentamente nos lábios, lembrando o gosto do sangue dela em sua boca. O sabor metálico e o líquido quente em sua língua pareciam de alguma forma, atados com as diversas emoções dela. Era quase como se ele realmente estivesse bebendo sua vida. A memória era quase o suficiente para fazê-lo segui-la, rasgá-la ao meio, apenas para observá-la enquanto ela sangrava, só para capturar aquele gosto de novo.

Gaara estava surpreso que ele não tinha perdido o controle sobre Shukaku naquele momento, surpreso que ele não foi forçado a matar Temari, nem que apenas para garantir que o sangramento não parasse. Parecia que o Ichibi também tinha gostado deste novo nível de intimidade, uma nova forma de sentir o poder de manter a vida de outra pessoa na palma de suas mãos. Talvez Shukaku assumisse que Gaara iria matar Temari, eventualmente, quando ele tivesse acabado de brincar com ela, quando essa sensação do pulso ansioso dela em seus lábios não fosse mais nova e emocionante.

E talvez ele o fizesse.

Gaara realmente não sabia. A angústia dela era emocionante, seu sangue era quase intoxicante. Isso o fazia querer acabar com ela, destoá-la por completo, afogá-la em seu próprio desespero, mesmo que apenas para absorver a dor, para manter aquilo para ele mesmo.

O pensamento inevitavelmente o lembrou de Yashamaru. O gosto vazio e insignificante de seu sangue, as palavras vazias que carregavam nada além de mentiras — era o que ele achava. Ele nunca se arrependeu desta morte. Se nada, Gaara desejava que ele pudesse fazer tudo de novo, fazê-lo corretamente desta vez. Esmagar o traidor no esquecimento, com a sua areia, em vez de deixá-lo se explodir.

Temari era diferente. Gaara tinha certeza disso, agora que ele tinha provado o sangue dela, observado as lágrimas manchando seu rosto. Agora que ele havia visto o desespero agonizante em seus olhos. Ele não se importava com a explosão de fúria dela mais cedo naquele dia, suas palavras de ódio rancorosas imediatamente foram seguidas exatamente pelo o oposto, que eram afirmações de amor. Aquilo não importava para ele. Ele poderia machucá-la, ele poderia fazê-la chorar.

Isso importava.

Gaara tinha controle sobre ela, ele poderia fazê-la fazer qualquer coisa que ele quisesse. Ela não lutou contra ele quando ele reabriu a ferida no ombro, ela não se afastou quando sua boca estava em sua pele, ela nem sequer pestanejou quando seus braços estavam ao redor de sua cintura. Ela até chegou a lhe oferecer a sua vida. Estava disposta a morrer só porque ele havia dito que ela era desprezível para ele.

Mesmo se ela tivesse medo dele, mesmo se ela fosse, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente fugir dele como todo mundo, agora ela estava completamente em seu poder. Só porque ela duvidava de seu próprio valor, só porque ela se sentia culpada pelos erros do passado. Ele poderia fazer qualquer coisa para ela, e ainda sim, ele tinha certeza de que ela não iria protestar.

Ele brincou com a possibilidade, se perguntando o quão longe ele poderia levá-la antes que ela quebrasse por completo. Ele não deixou de perceber como ela parecia estar desconfortável, apesar do jeito forçado que ela relaxou em seu abraço. Era divertido para ele, realmente. Ele estava predando-a por sua dor, ele disse que iria matá-la, e ela estava envergonhada com o que ele estava fazendo, apenas porque eles tinham laços sanguíneos.

Gaara encontrou-se recordando o gemido silencioso que caiu dos lábios de Temari enquanto sua língua lambia sua ferida. Era um som tão suave, seu próprio tom parecendo falar de sua rendição. Ele poderia quase ter pensado que ela realmente estava gostando do que ele estava fazendo, mas o medo nos olhos dela, dizia o contrário. Ela nunca poderia realmente ficar relaxada em torno dele, ela nunca ficaria calma em sua presença.

E ele não permitiria a ela o conforto de saber se ele tinha ou não a intenção de matá-la. Temari poderia tentar a pretensão de agirem como irmãos normais, sentando-se juntos para o jantar, até mesmo mostrando sua preocupação com ele. Mas ambos sabiam que era uma mentira. Gaara era um monstro, e ele não poderia escapar de sua natureza mais do que ela poderia ignorá-la.

O que quer que seja que eles compartilhavam agora, eles jamais seriam uma família de verdade. No final, eles nunca seriam nada mais do que duas pessoas forçadas a ficarem juntas por mero acaso e a crueldade inevitável deste mundo.

29/03/14

Notas finais
Então... O que acharam? Ah... Sejam bem-vindos, novos leitores! (= O Gaara irá ficar cada vez mais, pior. Por que? Ah... Porque eu simplesmente amo ele assim! E como muitos de vocês, eu gosto quando ele machuca a Temari u.u Mas não posso afirmar ou negar se ele vai ou não começar a sentir, bem depois, mas posso dizer que muitas coisas vão acontecer ainda. Espero que tenham gostado do capítulo! E queria agradecer a todos pelas reviews e pelo apoio! Obrigada, minna!