A Dominação De Lâminas

21 Tell me what's worth fighting for


Notas iniciais
Tá, eu tô muuuuuuito atrasada. Desculpa, gente. ^^ Mas acho que vocês entendem que eu tava sem tempo né? Ao cap... Bem, eu acho que ficou bem legal, deu pra recompensar o atraso. Agora que eu estou quase de férias, eu planejo postar mais uns dois antes das aulas voltarem. Espero que vocês tenham paciência comigo, e fiquem tranquilos que eu não esqueço de vocês não. XD Obrigada por lerem, boa leitura!

A Dominação de Lâminas

A garota de cabelos negros arfava tão ofegante que sua respiração era ouvida – e sentida – por todas aquelas árvores que a cercavam. As grandes e monstruosas árvores cobertas pela neve deixavam-na com medo e esperta com cada movimento daquele labirinto onde estava. O verde de seus olhos era apagado pelo brilho das lágrimas que escorriam pela sua face quase involuntariamente. Com medo, a mão que segurava o punhal tremia conforme escutava os barulhos que vinham daqueles paredões.

Corria, e corria muito. Seu pequeno e frágil corpo em roupas pesadas e poucas para aquela estação a deixavam com a aparência de um menino. Os cabelos eram curtos até o ombro e negros como aquela noite sem lua ou estrelas. Às vezes, em sua correria, tropeçava em algum galho e caía na neve, sentindo sua face congelar. Olhava para trás e seus olhos verdes mostravam bem nitidamente o medo. Escutou um uivado e parou. Travada, congelada, imóvel. Foi quando ela o viu. Os pelos eram negros e de sua boca saía uma gosma branca. Seus olhos amarelos refletiam a face daquela que seria sua caça. Rosnava para ela, e sentia o cheiro do medo em volta da floresta inteira, dando aquele labirinto a monstruosidade que era necessária.

A garota se colocou em posição de defesa, a lâmina de seu punhal tinha um estranho brilho azul, refletia os olhos da fera. Ela mais que rapidamente o atacou, colocando em prática aquilo que levara anos e anos para aprender. A fera desviara, ágil. E a pequena garota tremia de medo e frio. Seus golpes eram amadores e lentos, o que dava uma brecha para a fera atacar o seu braço direito. Ela sentiu os caninos entrarem em contato com a sua carne, sentiu o sangue escorrer e a única coisa que fez foi engolir o choro. Se aproveitando do momento, ela enfiou o punhal no coração da fera. Ela se debateu e avançou para seu rosto, dando-lhe uma unhada na bochecha. Sentiu novamente seu sangue quente, dessa vez em sua própria face. Cravou o punhal o máximo que conseguia na fera, e depois de alguns segundos de tensão, ela começava a se acalmar.

Quando o bicho estava se contorcendo no chão, ela viu refletido naqueles olhos amarelos a dor e o sofrimento, e a única coisa que fez foi o arrastá-lo pelo rabo até o final daquele labirinto.

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As brasas se misturavam com a neve. Se consumiam, se devoravam a luz de um luar em que a inocência se perdia. A verdade era que a inocência de todos já estava perdida nas lacunas do tempo há anos. Uma cigarra fazia seu canto da morte, infortuna, solitária. Fora isso, o silêncio, a escuridão, as chamas, o desespero. Katarina caíra de joelho em frente a casa, e Talon, perdido em memórias.

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Em um segundo, sua respiração era calma, tranquila, passiva. No outro, ofegante, descompassa, eufórica. A corrida na neve era algo perigoso e aquele jovem de quinze anos sabia que aquilo acabaria em tragédia. Corria, pois toda a sua vida dependia de seus pés. O primeiro assalto falho, Talon nunca errava. E seu destino... Naquele momento só pensava em fugir.

Os passos escorregadios, o vento que sussurrava o frio em seus ouvidos, ele considerava aquele o sussurro da morte. Seu ódio causado pelo orgulho ferido aumentava seus passos, frases desconexas e apenas palavras estavam em sua cabeça.

Foi quando viu as águas verdes e viu seu fim. Talvez aquele sempre fora o final de seu caminho. O rio Salleron¹ estava bem ali, gelado, a sua frente lhe esperando. Os garotos vinham atrás e apenas acelerou os passos, indo em direção ao rio.

– Era menos doloroso atirar na cabeça. – Um dos garotos falou enquanto via o corpo de Talon afundando.

Ele sentiu o contato com as águas vorazes. Em um momento estava a toda velocidade, como estivera sempre em sua vida. Em outro, quieto, afundando, desistindo da miséria que Noxus podia lhe oferecer. Fugiu, como era de costume, de ter que crescer e viver. Riu com seu pensamento. Crescer mais que aquilo?

Sua consciência ficou fora por poucos minutos. Alguns lampejos onde tentava nadar invadiam a sua cabeça. A largura do rio não era pouca e Talon contrariara a si próprio, querendo e não querendo morrer. Aquelas águas o sufocava, desnorteava sua cabeça, deixava-o em uma espécie de atordoamento, e a única coisa que queria era que acabasse – não necessariamente a sua vida. Nadou com muita dificuldade até a margem do rio, e quando chegou nela, Talon começava a entender o significado do sofrimento.

A respiração voltava a ser calma, porém não da forma com que ele esperava. Sentia o frio como nunca havia sentido antes. Parecia que haviam sugado todo o seu sangue, e aquilo que corria por suas veias era gelo puro. Respirar congelava suas narinas e queimava seu pulmão. Em alguns minutos, Talon já não mais se mexia, o frio não permitia. Sua pele ia ganhando um tom azulado e sua mente continuava naquela espécie de transe misturado com loucura. O que possibilitara a continuidade de sua vida após isso se chamava Edmond Gauthier.

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– Katarina. – Talon conseguiu escapar de suas memórias. Apesar de ser apenas um episódio, aquilo mudara o rumo de sua vida. – Katarina! – Berrou quando percebeu que havia sido ignorado e que Katarina estava ajoelhada na neve.

– Eu falhei. – Os cabelos vermelhos cobriam a sua face. – Até quando vou deixar minhas emoções controlarem o meu trabalho? – Ela sorriu amargo por sua desgraça.

– Pare de se lamentar. – Aquelas palavras foram para Katarina igual uma navalha, fina, afiada, mortal. Sua pulsação acelerou e se levantou.

– Lamentar? – Seu cabelo estava em cima do olho direito, deixando a cicatriz nítida. Talon sentiu um frio na barriga, e naquele instante percebera que não se iniciava só uma guerra civil, mas também uma guerra entre os dois.

– Eu tive que ir atrás de VOCÊ! Se você não estivesse ficado para trás, nós dois estaríamos lá para protegê-la! — Ela berrou com tudo o que tinha. – Eu fui irresponsável! Eu ignorei a minha obrigação enquanto estava com VOCÊ! Quer que eu diga o que? Que a culpa é só minha?! Não Talon, você foi a causa de tudo isso! – Katarina respirou ofegante, sentiu as lágrimas chegarem em seus olhos, e olhou para cima, controlando-as.

– Não culpe os outros por seus próprios erros, Katarina. – Talon falou seco, olhando-a no fundo os olhos verdes.

– Vai à merda, Talon!

– É só isso que a sua cabeça de gênio consegue pensar?

– Pare de fazer pouco caso! Admita que a culpa é sua!

– Não quando você quer jogar o peso em cima de mim como se fosse conseguir dormir a noite por causa disso! – O silêncio dominou o ambiente novamente. Katarina não conseguia desviar o olhar das pupilas castanhas. Ali ela via seu erro claramente definido. Deixou, por fim, escorrer uma lágrima. – Em momento algum eu sabia qual era a missão. O erro é só seu. Você matou a Claire, aceite.

– Eu te odeio! – Katarina virou um tapa nele.

– Você deveria odiar a si mesma. – Katarina tentou virar um soco nele, mas Talon segurou seu pulso.

Ambos ficaram se olhando por longos minutos, a raiva que sentiam estava os consumindo. Como as chamas daquela casa, subindo lentamente por suas veias. Katarina tentava controlar as lágrimas, seu corpo inteiro tremia e não conseguia pensar em nada que fosse coerente. Talon por outro lado, observava Katarina como se fosse arruiná-la.

Katarina cedeu, desviou o olhar e se soltou de Talon. Andou até perto das chamas, observando de perto aquele fogo que a chamava. Mas dentro de todo aquele calor, ela pode sentir. Sentiu a ponta de um florete em suas costas, perfurando suas roupas. Antes que conseguisse virar para trás, foi encurralada com uma adaga em seu pescoço.

– Não chore criança, ela está melhor. – Uma voz feminina sussurrou em seu ouvido, soando gélida e arrogante.

– Esme. – Katarina concluiu.

– Para você é Lady Bayle, Katarina. – Ela riu seco.

– Diga o que quer com todo esse derramamento de sangue.

– Sempre direta, não? – Os lábios vermelhos de Esme deixaram transparecer um sorriso. – De quem você puxou isso, Kat?

– De você que não foi. – Katarina sentia o suor escorrer pelo seu corpo.

– O general Du Couteau será o grande responsável pela invasão à Ionia. Matar a suas preciosas filhas... O deixaria desestruturado. – Esme continuava a rir.

– Meu pai não se deixa levar pelas emoções. – Katarina falou com dificuldade, a adaga começava a cortar sua garganta.

– Não igual você, certo? Marcus Du Couteau não se deixaria levar por uma simples paixãozinha...

– Eu não estou apaixonada! – Katarina rangeu.

– Então porque Claire está morta agora? – As palavras ecoavam dentro da cabeça de Katarina como um tambor. Claire estava morta por causa dela. Porque ela fora irresponsável. Porque preferira estar com Talon a estar cumprindo seu dever.

– Ela não está morta! – Katarina berrou e se virou, pegando rapidamente o florete com uma mão e perfurando a barriga de Esme.

– Por que você sempre atira no escuro, Katarina? – Esme falou enquanto cuspia sangue. – Por que mesmo assim sempre acerta?

– Passei muito tempo na escuridão. – Katarina terminou de cravar totalmente o florete. Esme foi para trás até tocar nas chamas.

– O que houve? – Talon veio andando tranquilamente. Olhou Esme na entrada da casa que pegava fogo, seu corpo lentamente queimava e ela não dizia uma só palavra. – Era Esme Bayle?

– Claire está viva. – Katarina deixou o florete cair e ajoelhou novamente.

– Se ela está viva, onde ela está? – Talon estendeu a mão para ela. – Eu odeio te ver de joelhos. Levante.

–Por que? – Ela o olhou com uma cara de sofrimento.

– Simplesmente odeio. Te faz parecer fraca. – Ele sacudiu a mão no ar. – Vamos achar a Claire. – Ela tocou a mão dele com as luvas emprestadas, pegou impulso e se levantou. – Aonde você acha que ela deve estar?

– Não muito longe... – Katarina gemeu em pensamentos.

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Os passos eram apressados. Não chegavam a ser uma corrida, mas Talon e Katarina não apreciavam mais a lua que estava no céu. Cercados por aqueles paredões biológicos, ambos não sabiam se o arrepio causado era por causa do frio ou do labirinto. Katarina conseguia lembrar nitidamente de cada sensação que teve há oito anos. Não que elas fossem as mesmas, mas eram tão parecidas que poderiam ser confundidas e tão marcantes que não poderiam ser esquecidas.

Já para Talon, cada nova sensação era única. Aquele labirinto confundia a sua mente por todas as árvores serem bem parecidas, ele se sentia dando voltas em torno de si. Como se estivesse em uma espécie de ciclo do qual ele apenas observava como um espectador distante. Não raciocinava desde que entrara no labirinto, sentia-se em um transe calmo, iludido por apenas escutar seus próprios batimentos cardíacos.

– CLAIRE! – A voz de Katarina foi como o desabrochar de uma lótus para ele. Foi calma, lenta. Mas no fundo, ele sabia que a voz havia saído desesperada, desamparada. Mas havia algo no ar que o deixava quase flutuando, como se estivesse no mundo onírico. – Talon! – Ele leu os lábios de Katarina, mas a voz dela se tornava quase que inaudível. Tudo o que ele podia sentir era o doce gosto da noite, parecia uma mistura de sangue com neve. O frio abraçava-lhe como uma mãe. A mãe a qual Talon nunca teve a oportunidade de ter ou até mesmo conhecer. Aquele labirinto era, sem dúvida, a experiência mais atordoante que ele já havia presenciado. Sentido na própria pele. Era a mesma sensação de quando havia se jogado contra as águas do rio Salleron, e lá no seu inconsciente, ele sabia que era por isso que ele odiava o inverno.

Katarina estava parada o olhando. A face de Talon estava relaxada, totalmente extasiada. Ele olhava para a lua, seus lábios estavam abertos e eram quase que tentadores. Ela via a barba começando a nascer, via os olhos castanhos quase sem vida. Os cabelos negros dançavam no mesmo ritmo da queda da neve, sendo levado pelo vento em uma doce melodia. Katarina sentia levemente o início da sua loucura, com pensamentos que ela não conseguia evitar.² Antes que caísse em um poço sem fundo, a única coisa que ela fez foi jogar o feitiço contra o feiticeiro. As mãos que tinham em si uma luva preta pegaram a face gélida de Talon, Katarina virou o rosto para si e encarou os olhos vazios. Aquele olhar foi como um trovão estrondoso, cortando o céu que era o seu coração. E determinada por tirar aquele vazio de ambos, tocou-lhe os lábios delicadamente, com medo de estar caindo em alguma armadilha.

– Para... – Ela ficou na ponta do pé para aprofundar o beijo não correspondido. – Por favor... – Sentiu o contato gélido com uma língua que não a acompanhava. – Talon... – Katarina sentia a loucura brotar como uma espécie de parasita sobre a sua pele. Aquilo andava por baixo de seu ser, corroendo um pedaço da sua essência e a fazendo se perder. – Volta.

Não que um beijo parasse a guerra, ou fizesse a fome passar. Ou até mesmo mudar tudo. Mas, aquele simples contato que foi o único contato de ambos dentro daquele labirinto ilusório. Talon foi redobrando a consciência lentamente, enquanto Katarina se afastava e colocava o cabelo atrás da orelha. Talon a olhou como se estivesse a olhando pela primeira vez. Estava levemente corada, e sua face demonstrava inquietação. Ele soltou um sorriso vazio, alegre por estarem bem e irritado por ter caído em uma armadilha que entrou em sua mente. Mas Katarina parecia mais bela depois que eles brigavam.

– O que foi isso? – Ele perguntou sério, escondendo toda aquela admiração que ele odiava ter.

– Isso? – Ela colocou a mão nos lábios. – Eu te beijei.

– Isso eu sei, Katarina. – Ela abaixou o olhar, envergonhada. – O que foi... tudo isso? – Ele suspirou, demonstrando por fim sua indignação.

– Eu não sei quando começou... Mas há tempo esse labirinto tem esse poder de confundir a mente das pessoas. – Katarina começou a andar e ele a seguiu com os braços para trás. – Na primeira vez que eu vim pra cá, há dez anos... Eu fiquei perdida. Pra minha sorte, era inverno também. – Ela sorriu seca. – O primeiro dia deveria ter sido o pior, mas na verdade foi o ultimo. Alguma coisa fedia dentro desse labirinto, e a minha missão era matar um lobo... Eu entrei quando escureceu e só consegui sair quando o dia clareou... Eu fiquei um bom tempo vagando em minha própria mente, numa espécie de além parecido com um ciclo.

– Parece ter sido difícil. – Talon indagou. – Acho que todos temos um trauma. Consegui lembrar bem dos meus no dia de hoje.

– Sinto muito. Noyon é uma vila muito carregada, eu fico me perguntando quantas coisas já aconteceram aqui... – Katarina falou ao vento, atenta a todos os movimentos.

– Por que você abaixou o olhar aquela hora?

– Ahn? – Ela instantaneamente o olhou.

– Quando você disse que me beijou, você abaixou o olhar.

– Ah, isso... – Ela voltou a desviar o olhar.

– Não consegue me encarar? – Ele riu nervoso, e colocou a mão nos seus bolsos.

– CLAIRE! – Katarina gritou e saiu correndo ao ver uma mão sobre a terra antes de uma rampa começar. Viu o corpo gelado de Claire e a sacudiu algumas vezes.

– Katar-

– Quieto! – Ela disse sacudindo ainda mais o corpo de Claire. – Ela não... Ela não pode estar morta... Claire, acorda!

Talon se ajoelhou no chão ao lado de Katarina. Olhou para o rosto sereno e branco de Claire, e ouviu os urros que Katarina imitia. Virou-a pelos ombros e a encarou enquanto via as lágrimas escorrendo dos olhos verdes dela. Aquilo não era só culpa, não era só arrependimento, havia uma dor que entrelaçava os dois. O erro era algo que não deveria ser citado naquele momento. Mas sem dizer alguma palavra, ambos estavam ali, olhando para uma Claire gelada e sentindo a morte rasgando a alma.

– Kat... – A voz de Claire foi fraca, mas o estandarte da esperança era fincado no chão com aquela voz. Uma chama queimou dentro de ambos, e aquilo que acharam que estava perdido, estava mais nítido que antes. Claire abriu um olho com dificuldade e sorriu fraca. E tanto Talon como Katarina, sabiam que nada estava perdido ainda.

Notas finais
1. Salleron é um rio da França. 2. Trecho da música "Nothingman", Pearl Jam.