A Dominação De Lâminas
10 Walking a road of no return
Notas iniciais
A Dominação de Lâminas
O vento que soprava levando as folhas das árvores era a única coisa que era possível escutar. O silêncio não confortava, apenas dilacerava. Katarina reprimia lágrimas que ardiam guardá-las, mas as demonstrar era fraqueza. O abraço que Talon havia lhe dado a deixou atordoada, mostrando-lhe que sua falta de controle emocional a fazia ficar instável. Muito diferente do homem que tinha seus braços ao seu redor.
Não havia o visto em alguma crise ou perder sua pose. Sempre decido, ele não parecia hesitar. E também não era só o toque de Talon que a confortava — se ela podia admitir aquilo -, juntava o seu cheiro e o calor que emanava para ela mesmo sendo fria a pele que a tocava.
Não conseguia mais ver em Talon alguém que deveria matar ou menosprezar. O assassino tinha uma coisa que há tempo não se via em Noxus: Honra.¹ Quando ouviu de longe que serviria apenas aquele que pode o derrotar isso foi perceptível. Ficou tudo tão claro, tão límpido como água quando ela parou para pensar. Ele era sim merecedor de servir a Casa Du Couteau. Mas o pior de tudo foi descobrir isso em seus braços.
Tentei te fazer forte. Mas como posso exigir de você algo que nem eu tenho?
As palavras ecoaram e Katarina travou ao escutá-las, ouvindo as batidas desenfreadas de seu coração romper o silêncio. Aquela sensação de rapidez doía. Deixava-a desnorteada, sem ar e sem reação. Apenas se afundou na escuridão dos cabelos negros de Talon, querendo fugir do que fazia, querendo que aquela aproximação fosse uma mentira. Ah... Mas ao mesmo tempo sabia que poderia morrer sufocada por aquele calor viciante, naquele lapso momento ela nem se importaria com isso. Queria sumir, queria se afundar cada vez mais de baixo da terra, ir para um lugar onde a vergonha e a frustração não fizessem dela uma fraca. Só que em vez disso, apenas fez com que os dois deitassem na grama, afundando sua cabeça no peito de Talon para que ele não pudesse vê-la.
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Ele não se lembrava dos acontecimentos anteriores. Quando Katarina o jogou na grama, a única coisa que fez foi ficar junto dela em silêncio. Se fosse necessário, estaria ali. Em algum momento, Talon fechou os olhos, a claridade o impedia de deixá-los aberto por muito tempo. Mas ao se perceber acordar, ele estava atirado na grama sem ninguém. Não havia nenhum vestígio de Katarina, nem sabia se ela estivera realmente ali, nem sabia quantas horas se passaram e nem sabia que horas eram. Notou que escureceria.
Olhou para a lua que começava a pencar no céu e tateou seus bolsos, procurando por seus cigarros. Não havia nenhum. Soltou um palavrão ao ar e decidiu voltar para a mansão. Era uma boa caminhada até lá, Talon não teria a mínima ideia em como encontrar o lugar se Marcus não tivesse lhe falado. Mas ao chegar perto da cabana, um criado veio em sua direção, como se estivesse o esperando.
— O general deseja falar com você. – Ele falou e Talon imediatamente lembrou-se das palavras de Marcus, enquanto andava hesitando até o escritório.
Pensei que eram as armas que lhe prendiam aqui, mas pelo visto é uma de minhas filhas.
Marcus poderia saber dos beijos trocados com Katarina? Mas mesmo assim, beijos continuavam sendo apenas beijos. Eram simples libertações de desejo. Aquela garota era linda, e no entanto, sabia que não deveria ter correspondido as súplicas daquela boca, não importando o quão tentador fossem seus lábios.
Seus passos vacilaram ao ver a porta de madeira e ele limpou suas mãos na calça ao se perceber suar frio. Havia sido um erro, mas não conseguia voltar atrás, parar talvez quem sabe. Girou a maçaneta e entrou na sala. Decifrou as pupilas verdes mergulhadas na apreensão e engoliu seco com isso.
— Tenho uma missão para você. – Os braços do general estavam sob a mesa e suas mãos unidas encostavam em nos lábios cerrados.
O general estava sério, fazendo Talon hesitar em se sentar. O olhar que ele lhe lançava era dominador, confiante, como se ele soubesse de todos os passos do assassino, fossem ele no passado ou no futuro. Teve vontade de fugir, de não querer voltar nunca mais para aquela casa. Aquilo começava a o sufocar, desgastando a calma que presava por manter.
— Não estou confiante em relação à missão de Katarina. – Ele começou a falar e Talon pode sentir sua musculatura se relaxar. – Foi acrescentada a morte de um soldado demaciano, Garen Crownguard. Duvido que ela tenha lhe contado, mas essas horas ela já está chegando ao acampamento. – Ele o viu dar uma pausa para beber o whisky que estava em cima da mesa. – Sua missão é trazê-la sã e salva. Como pai, devo garantir sua segurança. Então, não falhe.
— Sim. – Talon escutou atentamente cada palavra dita. Soldado, Garen, acampamento, sã, salva. Repetiu em seus pensamentos para não esquecer o nome.
— Suas vestes e mochila estão em seu quarto. Há um mapa dentro dela e as armas você sabe onde estão, pegue o que achar necessário.
O assassino concluiu que sim com a cabeça, em seguida virando-se e andando até a porta. Mas o general voltou a falar, fazendo com que ele parasse de costas.
— E Talon, boa sorte. – Marcus ao dizer isso, fez nascer um sorriso nos lábios de Talon, um sorriso que ele não pode ver. E essa era a primeira vez que o cão sorria tão espontaneamente para seu dono.
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Quando chegou em seu quarto e viu a roupa estirada na cama, o sorriso em curva voltou para seu rosto. O azul escuro o dominaria. Não era como se gostasse daquela cor, mas aquela capa acariciou muito o seu ego. Cortada em tiras grossas, existiam grandes lâminas afiadas em suas pontas, eram shurikens prontas para serem atacadas que quase arrastavam seu aço ao chão. O capuz também continha um ornamento em metal, dando peso ao pano não mostrar a sua face.
Era o maldito de um lindo presente.
Parou de analisar a roupa quando alguém bateu em sua porta. Depois de aberta por completo, ele viu a empregada daquele dia indo bater na madeira novamente.
— Senhor Talon! – Ela fez uma reverência e lhe estendeu uma caixinha preta. Talon franziu o cenho, estranhando aquilo. – O general está te dando isso.
— Hm. – Ele apenas pegou a pequena caixa e ela fez outra reverência, dando-lhe as costas. Mas quando já estava no corredor, Talon a chamou. – Qual teu nome?
— Mirian, senhor. – Ao dizer isso, abaixou a cabeça e desapareceu com pressa na escuridão do corredor.
Observando-a desaparecer, continuou olhando o corredor escuro.
Era interessante. Parecia tudo tão calmo, tão quieto. Sem Katarina ali. Mas salvaria a princesa. A missão havia mudado e Talon esperava que ela não precisasse de sua ajuda. Jogou a caixa em cima da cama e entrou no banheiro, olhando o reflexo no espelho. Seu cabelo crescia, não havia mais tantas olheiras causadas pelo sono, ganhava massa e não sentia mais fome.
Tudo por causa de Marcus Du Couteau.
Isso realmente sairia de graça? Sua estadia, sua presença, seu corpo, seu trabalho? Se pôs a ligar o chuveiro, a água quente que caía sobre os músculos o arrancava suspiros. Obviamente não. Roubava sua liberdade. Se tornaria igual Mirian? Ele nem havia visto as pupilas azuis dela, ela apenas olhava para baixo como uma boa serva. Mas o que exatamente era aquilo que ele chamava de sua liberdade? Matar por si próprio? Matar quem queria e quando queria, comprar a porra de um terreno e levantar algum dia daquele solo imundo uma casa? Ter domínio daquela vida de merda como ele sempre tivera? Não. Talvez ele precisava disso. Talvez era necessário essa dominação. Precisava ser dominado. Precisava deixar-se ser dominado para que conseguisse se lembrar e sentir falta da liberdade.
Ele via a água escorrendo por seu corpo, o vapor quente tampando-lhe o resto da visão. Teria uma missão. Amanhã cedo partiria para o acampamento demaciano vigiar e trazer Katarina Du Couteau.
Terminou seu banho algum tempo depois, saindo com a toalha enrolada em sua cintura e sentando-se na cama. Não tinha sono, dormira fora de horário, e o pior, dormira na grama com Katarina em seus braços. Automaticamente lembrou-se do calor do corpo dela, de seu cheiro, como se fosse um kit que acompanhava aquele nome. Não conseguia descrever, mas aquilo era doce. Um perfume enjoativo, mas não deixando de ser embriagador. Claro que era embriagador, ele se afogava em si mesmo quando estava com ela.
Mas diante do sorriso que brotara em seus lábios, o assassino percebeu a movimentação de sua alma. Pensava nela demais. Marcus estava certo, não parecia ser o seu subordinado e sim o de Katarina. Balançou sua cabeça tentando afastar aquelas ideias, fugindo do que não queria que viesse. Decidiu ir para o bordel, não era justo com o coração que ele não tinha. Mas antes de sair, viu a caixinha preta. Pegou-a e a abriu. Sorriu ironicamente ao ver o conteúdo interior.
Todo cão haveria de ter uma coleira.
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Ao chegar lá, Talon sabia que poderia ter qualquer uma que estivesse ali já que tava pagando. Mas para que sua cabeça ficasse leve novamente, teria que ser alguém do extremo oposto de Katarina. Não havia mais Monique, soltou o ar frustrado. Sentou em um canto onde ninguém parecia o notar. Vestido de preto por completo, Talon se camuflava na escuridão do bordel.
Foi quando ele viu sua presa. Ela era alta e seus cabelos eram dourados, olhos negros e vestia as peças intimas vermelha. Era uma típica puta, mas ele a queria exatamente porque não parecia em nada com a bela assassina noxiana. Chegou perto dela, e pegá-la pela nuca foi a coisa mais difícil a se fazer.
O que veio a seguir foi apenas Talon se recordando de seu tempo de liberdade. A levou para fora do bar e encostou-a na parede. O sexo na rua sempre foi algo ainda mais prazeroso para o assassino que já não tinha nada a perder. Só queria meter nela para retirar toda a frustração que Katarina deixava nele. Mas a cada estocada o rosto da puta ia se misturando com a lembrança da face de Katarina, e até chegar um ponto em que não houvesse mais diferenças, Talon chegou por um instante a acreditar que estava fazendo aquilo com Katarina. Urrou o nome dele em seu frenesi.
Então viu nos olhos da puta o brilho de lágrimas reprimidas por fazer sexo pensando em outra mulher. Não que aquilo fosse comum, só não era normal ver putas chorando. Afinal putas são putas. O que ela recebeu em respota foi apenas um olhar de desprezo, sexo interrompido e um Talon sem pagar.
Ele realmente tinha que parar de pensar naquela garota.
Acordou cedo mas se pôs a sair tarde, chegaria no que estava programado para ser o ápice de Katarina. Mas não entendia, se ela era tão boa assim porque ele iria? Marcus não confiava em Katarina assim como ela não confiava nele. A falta de confiança dos dois era escondida de baixo dos panos.
Ao contrário do diceminado, noxianos também tinham vergonha. Mas não era tanta hipocrisia como em Demacia, não era a tentativa de encontrar o perfeito. Afinal, para noxianos ele sempre esteve presente. A força bruta resolvia tudo, o poder resolvia tudo. O macabro era uma divindade, e aqueles que não aceitavam eram hereges e morriam pela violência.
Noxus se resumia no lado obscuro de Valoran, não perdendo para a Ilha das Sombras, e a cidade-estado tinha o poder necessário para guerrear contra Ionia. Um noxiano era apenas o homem nu, não revestido por máscaras de ética, ele era a parte mais brutal e mais selvagem do ser humano. Os mais fortes emocionalmente, noxianos consideravam a fraqueza motivo de execução.
Porém, na opinião do resto de Valoran, os noxianos eram os mais carentes de humanidade. O ser humano sempre vê como fraqueza a violência, tido como imoral, irracional, impulsivo. Os noxianos apesar de continuarem sendo seres humanos, são aqueles que se preservam diante de uma criança morta, diante de ideais ilusórios de paz, nunca haverá paz. O forte de espírito que não deixa coisas como o ciclo abalar sua sanidade. Viver é morrer, e é a única certeza. Não é lutar pela vida, é apenas aceitar e seguir as coisas com elas mesmas são: selvagens e inquietantes.
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