A Dominação De Lâminas
11 She's tonguing splinters of broken halos
Notas iniciais
A Dominação de Lâminas
Talon andava pela floresta densa se lembrando do que carregava em seu pescoço: Sua coleira. Um cordão preto com seu número de procurado do Alto Comando. Chegava a ser irônico usar aquilo. Era realmente um cão, só faltava chegar abanando o rabo e latindo, coisa que aconteceria mais cedo ou mais tarde.
A despedida de Marcus era uma coisa que ele jamais esqueceria. Ele havia lhe dado uma roupa foda, um mapa e um olhar apreensivo. Um estranho olhar que ele conseguiu decifrar. Sabia que o general não era um homem de deixar rastros ou demonstrar suas emoções, mas ele havia deixado Talon entrar e espiar seus sentimentos por uma fina brecha.
E apesar de tudo, aquela roupa azul realmente havia lhe caído bem.
Havia pego a katana de base vermelha, ninguém a usava mesmo. Era uma espada bem peculiar, e Talon considerou a probabilidade de estar apaixonado por aquela lâmina encurvada. Não sabia muito bem como utilizá-la, mas tentaria já que aquela seria a chance de utilizá-la em alguém. Caso não desse certo, em sua bota preta tinha um facão afiado. Sem contar com as inúmeras shurikens espalhadas pela roupa toda e nos bolsos.
Mas sempre as coisas tinham tudo para dar terrivelmente errado, não contaria com sorte. Não havia muito que fazer em sua primeira missão, mas seu arsenal corpo-a-corpo estava preparado. Talon estaria sempre preparado de agora em diante desde a lâmina atravessada em seu abdômen.
Seus passos pela floresta densa eram rápidos e precisos, quase que uma corrida. Era em um território longe do centro desenvolvido noxiano, mas não passava da fronteira com Demacia. Horas e horas andando sem parar, e às vezes, correndo. Tudo isso para proteger a assassina noxiana.
Perdeu-se em seus pensamentos quando passou rapidamente por uma estrada de terra onde uma mãe e um filho pequeno caminhavam. Cogitou a ideia de assaltá-los, mas pela primeira vez, Talon ignorou o alvo. Vendo aqueles dois, ele pensou em como deveria ser ter uma vida decente. Riu de seus próprios pensamentos enquanto continuava andando. Sua vida era decente, a vida dos outros era monótona.
Não havia melhor sensação do que achar que iria morrer.
Era o momento em que seu sangue fervia, o momento em que mais se sentia vivo. Nada mais importava naqueles minutos, era como estar dentro de uma multidão ou como ser atingindo pelo quebrar de várias ondas. Conseguia pensar em tudo e não pensar em nada. E ganhar era sempre necessário para que aquela não fosse sua última vez tendo aquela adorável sensação.
Andava devagar, sentindo o ar longe das fábricas puro entrando por suas narinas. Raramente respirava daquela forma, o ar de florestas. O ar da podridão humana já era familiar. O caminho para aquela praia que tanto gostava era uma estradinha de terra, sem árvores nenhuma, que inicialmente não se levava a lugar algum e que só tinha rocha. Mas sabia que algum dia aquele lugar já tinha tido várias árvores.
O farfalhar era quase acolhedor. Não que o assassino não gostasse da vida que foi lhe imposta, mas não a trocaria pela normalidade. Na verdade, não a trocaria por nada. Havia muita diversão. Matava sim para sobreviver, ou já havia matado algum dia. Com vinte e um anos, Talon já havia sido tudo da vida. Desde assaltante de comerciantes com uma faca de cozinha até matador de aluguel.
E como se fosse o destino no qual ele não acreditava, sabia que agora era oficial: A Sombra da Lâmina fazia sentido. Era a sombra do general Marcus Du Couteau. Ele não precisaria mais sujar as suas próprias mãos, era a vez de Talon. Não que o assassino ligasse. Era seu ápice, o momento em que se sentiria vivo. O general havia tomado sua liberdade, mas lhe deu um quarto e comida. O teto que tanto queria já estava ali, feito, como se fosse totalmente para ele. Como se algum dia fosse se acostumar. Mas ele sabia que era questão de tempo para que tudo desmoronasse.
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Talon ficou perdido em seus devaneios pelo dia que se passou inteiro. Havia pensado, se cutucado e entendido muitas coisas. Coisas que estavam no fundo de sua alma, guardados para que ele mesmo não tivesse acesso para que não houvesse mais danos. Só que Talon não ligava mais para suas coisas fúteis, tudo arderia do jeito que teria que arder. E o que mais importava era onde ele estava no momento, já que parecia que a floresta não acabava.
Perdera a conta de quantas vezes se perguntou se estava perdido. A bússola e o mapa diziam que não. Foi quando viu tochas acessas. Eram duas horas da madrugada, havia passado o tempo que Marcus lhe falou. Doze horas na mata fechada com a maior parte do tempo correndo.
Aproximou-se e viu três tendas amarelo pardo. Havia uma grande que simbolizava ser a central e duas ao seu redor. Não havia estandartes, eles não seriam tão burros de erguerem essa coisa nojenta sobre solo noxiano, mas o amarelo das tendas era o mesmo das histórias.
Na do meio havia vários soldados de escolta. Talon franziu o cenho estranhando, era muita movimentação para duas horas da madrugada. Percorreu o perímetro vagarosamente três vezes, calculando cada posição, cada armamento e buscando por fim, Katarina. Mas não encontrava. Subiu em cima de uma árvore e esperou. Não havia indícios de lutas ou de sangue, não havia sinais de Katarina. Esperou por muito tempo sem sequer saber se ela estava realmente ali.
Eram quase três horas da madrugada quando seu desespero inicial começou a bater. Katarina falhou? Desistiu ou fugiu? Ela conseguiria viver com o seu fracasso? Faria isso com seu pai, com a sua nação? Os olhos negros de Talon buscavam euforicamente os cabelos vermelhos. Sentiu seu estômago se contrair, sentiu ânsia, nojo dela. Sua primeira missão falhara.
Mas tudo se dissipou, aliviando-se ao ver a sombra de um corpo se retorcer dentro da tenda e os longos fios vermelhos entrando nela. Talon via as sombras causadas pelas lamparinas, vendo-a matando silenciosamente cada soldado demaciano, cada corpo caindo como se a gravidade fosse brincadeira daquela garota. Via as duas adagas dela se movimentando com precisão e habilidade, os fios vermelhos dançando pelo ar a cada passo, ouvia os gritos desesperados e via a tenda amarela ser pintada de vermelho.
Sentia prazer em vê-la matar.
A prova que Katarina era uma boa assassina estava ali, enquanto ela rodopiava e manchava o tecido pesado de uma forma da qual os demacianos sempre se lembrariam. Quando Talon viu alguns reforços chegando, imediatamente pulou da árvore e correu para a porta da tenda principal. Bloqueando a passagem, ele não deixaria ninguém a interromper.
Arrancou a katana da bainha com a mão esquerda, fazendo-a dançar graciosamente pelo vento. Um sorriso macabro nasceu em seus lábios, desafiando aqueles soldados. O primeiro corajoso o ameaçou com uma bela lança, mas não tão mais bela quanto aquela espada. Talon riu e voltou a katana para si, lambendo o aço frio. Linda. Cuspiu seu sangue na cara do soldado e ficou em posição defensiva, com seus olhos escuros brilhando sadismo na noite.
O soldado tentou novamente atacá-lo com a lança, Talon desviava rápido não só dele como dos outros onze soldados que conseguiu contar. O sorriso em seus lábios se estendia cada vez mais com o vento batendo contra seus cabelos negros, sussurrando em sua orelha. Olhou fundo nos orbes verdes do soldado com seu sangue, vendo as gotas quase imperceptíveis que saíam deles.
Patético.
Desviando de todas as espadas que tentavam perfurar suas costas e barriga, correu até o soldado com o seu sangue, aparecendo atrás dele enquanto a lâmina da espada rasgava-lhe levemente a garganta.
— Te pouparei. – Talon sussurrou em seu ouvido e logo depois moveu seu braço para a esquerda, cortando a garganta dele. O modo como o olhou demonstrou a satisfação, não deixando de ser macabro.
Por o que pareceu um segundo eterno, ele fitou a lança que o homem já morto segurava. Ele a ouvia chamar o seu nome, sendo a sua barra dourada quase uma tentação. Não resistindo, colocou a katana na bainha e pegou a lança com os pés. Aquela morte aumentou o seu apetite, e para controlá-lo do jeitinho que ele queria, a velocidade seria singular. Andando rapidamente e perfurando as pernas, braços, barrigas, pescoço dos soldados, Talon só soube que tivera um frenesi quando viu os corpos ao chão, logo após que a sua visão pode desnublar. Mas não havia matado quase nenhum, exceto aqueles que acertara os pontos vitais.
A velocidade só servia pra fazer deles uns espetinhos.
Ouviu os passos apressados e se virou em direção da tenda do lado esquerdo. Mais reforços. Dessa vez nem quis contar. Os elmos escondiam as faces assustadas, mas no fundo Talon sabia que eles estavam surpresos. Alguns soltaram palavrões, enquanto outros que se aproximavam não acreditavam no que viam, tinha também alguns imóveis devido ao espanto. Doze corpos no chão se revirando e apenas um homem coberto de sangue.
Talon soltou a lança no chão e retirou de sua mochila uma bolinha com um pino. Ainda ofegante e coberto de sangue, o assassino não pensou duas vezes antes de facilitar a morte de todos presentes. Correu em direção a eles e arrancando o pino com os dentes, Talon lançou em um soldado que não conseguiu ver mais. Quando a fumaça foi subindo, dificultando a visão dos soldados, ele começou sua movimentação. Foram cercados por um breu cinza que os impedia de ver e que os faziam tossir. O assassino levantou o pano ao redor de seu pescoço, camuflando-o da fumaça.
Os soldados escutavam a lenta risada sinistra abafada, e com os olhos de um predador, Talon observava cada rosto pálido e assustado.
Retirou novamente a katana e segurando-a firme com as duas mãos recomeçou a carnificina. Desferindo golpes e mais golpes em qualquer um que cruzasse seu caminho, manuseava a espada rapidamente, rasgando as armaduras e peles demacianas. Ferindo cada vez mais fundo, parecia que tinha um pincel em suas mãos de tão leve que cortava. Cortava também aqueles que estavam já no chão, e cabeças rolavam. A lâmina estava totalmente afiada. O cheiro do sangue que estava em suas roupas o deixava louco, e sua adrenalina poderia ter caído ao perceber que lutaria o último soldado em pé.
Ele também portava uma katana. E a cada tintilar do aço frio, seu sangue fervia. A sensação de estar em perigo o dominava,a competição e o instinto animal falavam mais alto e seus olhos arregalavam-se a cada movimento. Olhava dentro dos olhos negros do soldado, via a alma que ele arrancaria do corpo. Mas por ter sido o qual mais resistira, Talon se orgulhava dele. Aquilo não era apenas um soldado pago, ele com toda certeza tinha algum motivo para viver. Só que Talon não se importava com toda essa merda.
Desviou de um corte habilidoso que o atingiria em cheio no braço esquerdo, e deu um contra golpe, enfiando com dificuldade a espada em seu coração. Viu um pequeno sorriso amargo nos lábios do soldado, como se ele o agradecesse por uma batalha justa onde não houve a oportunidade de ter terceiros ou algum golpe baixo.
Foi até o chão com ele enquanto via o rio que se formava de sangue. Levantou-se e sacudiu a katana, limpado todo o sangue impregnadi nela. Ao ouviu novamente o som do bater das lâminas, virou-se imediatamente para a tenda, buscando por Katarina.
— Diga-me teu nome, noxiana! – A voz era grave e confiante. Talon viu pelas sombras o tamanho do homem e o julgou talvez ser o seu dobro. Vendo as sombras dos dois, pareciam estar em uma dança frenética em busca da vitória. O som das lâminas batendo já era familiar, soava como uma música que não parecia acabar.
— Katarina Du Couteau, verme. Não que seja necessário para você. Poderia até sonhar em me ganhar, mas os mortos não sonham! – Katarina berrou enquanto rodopiava atirando adagas e mais adagas. A confiança em suas palavras de sempre dominava o seu ser. O assassino rondava a tenda, tetando acompanhar os movimentos de ambos.
— A propósito, me chamo Garen.
Esse era o alvo de Katarina.
Talon viu os dois por um rasgão na tenda. O lugar estava destruído, já havia muitos corpos lá dentro. Poderia ter até mais do que fora da tenda, não conseguiu contar por completo. Olhou para Katarina, ela não atacava, apenas defendia. Então ele viu, escondido pelos fios vermelhos, o sangue que escorria desde seu rosto até sua barriga nua¹, podendo ele ser até confundido com o seus cabelos. Garen avançou com sua espada, arrancando e jogando de lado as adagas das mãos dela. Talon estava quase entrando, achando que ele iria dar o golpe final.
Mas sua espada perfurou o chão, Katarina apareceu em suas costas já com as adagas na mão, raspando-as na garganta de Garen. Reaparecendo em outro lugar, ela pegou a cabeça de Sion que estava ao lado de uma mesa quebrada e foi em direção da saída. O demaciano correu até ela, retirando-a da tenda com um empurrão extremamente bruto.
Katarina tentou se levantar com dificuldade e sentiu algo em suas costas. Talon viu sua face gemer de dor ao perceber o que era. Tinha um taco grosso de madeira em suas costelas. Respirou fundo e antes que Garen levantasse, arrancou-a de suas costas. Ouvindo o urro dela, Talon hesitou em ajudá-la. Não poderia deixá-la morrer, mas sabia que aquele não era o limite da assassina, então apenas observava.
Mas ela não morreria ainda. Estava preparada para a morte, mas não morreria naquele lugar. Ela era Katarina Du Couteau, filha do melhor assassino de Valoran inteira.
Sorriu e pegou uma kunai de sua coxa enquanto andava com dificuldade tentando acertar Garen que também andava mancando. Vestida por sangue, ela fugia da morte com tudo que tinha. Continuava atacando as últimas kunais que lhe restavam, e quando elas acabaram, reapareceu novamente atrás de Garen, ignorando o sangramento de suas costas. Tentou cortar-lhe mais um pouco sua garganta, mas não o conseguiu matar. Viu vários soldados indo em sua direção e correu para a floresta, tentando repor o ar que faltava em seus pulmões. Mas antes havia sussurrado para Garen que aquilo ainda não havia acabado.
Correu mancando pela floresta com tudo o que tinha, querendo que o que tivesse acabado de fazer fosse mentira. Mas não era. Não se importava com a dor física, apenas ecoava em sua mente a palavra fracasso.
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