A Dominação De Lâminas
28 Just Survive
Notas iniciais
A Dominação de Lâminas
Se a guerra é a desculpa para a paz, os perdões foram inundados por rios de sangue.
A respiração da mulher foi controlada. Calma, tranquila, digna de aplausos. Ela duvidava que até mesmo o seu parceiro — o qual estava ainda terminando de subir pela corda — poderia ter ouvido. Não mentiria, não havia sido fácil arrumar um ponto cego ao longo de toda a extremidade lateral do navio. Teve que ir com rapidez e cautela enquanto Daiki, da equipe Guepardo, distraía alguns marujos que não estavam na feira que era realizada.
Quando Taynana descobrira por Cloud, o parceiro loiro que subiu pela corda, que algum general havia marcado a invasão justamente para o dia de hoje por causa de uma feira, ela se surpreendeu. Claro, os zaunitas deveriam saber os podres da "gloriosa" cidade ao seu lado, mas ela não imaginava que era para tanto.
O porto estava quase vazio. E isso era o que a preocupava.
O maior navio do porto de Piltover saindo no meio da feira tecnológica mais importante do ano não teria vista grossa. E todos os assassinos esperavam estar em alto mar quando isso acontecesse.
No entanto, o que Zaum mais queria no momento poderia ser realizado: Uma guerra contra Piltover. Seus motivos já eram grandes o suficiente para inflamar o ego de todos os zaunistas. Cada um sendo mais fútil e mais autodestruidor que o outro, esses motivos tinham cada um seu próprio paradoxo. Ganhar de Piltover, sendo até necessário a destruição da própria Zaum.
Quando Cloud terminou de subir, Aro já vinha em direção. Taynana se escondeu ao lado de um barril, avisando que Lince já estava na selva. Avaliou o perimetro que se encontravam todo. As duzentas pessoas que deveriam estar nesse navio poderiam ser menos, visto que essa feira era bem popular. Entretanto, não poderia ter menos que o necessário para que o navio pudesse andar. Caso contrário, a missão seria um fiapo e a fuga daquela cidade seria quase suicídio.
Logo em seguida vieram os assassinos do Guepardo. A mulher de cabelos vermelhos entrou primeiro, analisando o local assim como Taynana havia feito. A morena a observou discretamente enquanto ficava ao lado do barril. Não procurou um esconderijo e isso foi o que mais chamou a atenção. Aquela mulher era a filha de um prestígioso general, Taynana sabia que não era igual ao resto dos assassinos.
Um sorriso indecifrável nasceu nos grandes lábios vermelhos.
Katarina Du Couteau estava parada ao seu lado, olhando para a madeira do navio com uma expressão perdida. Mas a Taynana ela não enganava, sabia que os ouvidos estavam muitos atentos, ouvindo qualquer passo, qualquer respiração, qualquer barulho que pudessem os evidenciar.
Logo em seguida veio o traidor ioniano. Ela sabia o nome do homem, Swain havia deixado claro para todos os que estavam no primeiro encontro no Alto Comando. No entanto, o chamar por aquele sútil adjetivo causava uma noção de inferioridade a ele e a aquele povo. Coisa que deixava claro o ideal de expansão noxiana para Ionia. Aquele era um típico pensamento expansionista, no qual ela sentia repugno em ter. Mas, ela continuava atenta a ele, afinal, ele era um traidor.
Os demais foram subindo em um pequeno alvoroço. Cada um arrumando um canto para que não pudessem ser vistos. Porém, a filha do general parecia estar menosprezando o trabalho daqueles a sua volta, ignorando que ela também deveria se esconder. Taynana observava aquilo quieta, tentando desvendar o que estava por trás daquele ato arrogante.
Mas da mesma forma que um relâmpago cruza os céus em poucos milésimos de segundos, Katarina Du Couteau se virou no momento que o líder da missão pusera os pés no navio.
Os olhos cor de chocolate demonstraram que Taynana não estava deixando nada passar. Observando cada movimento da filha daquele general.
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Talon foi a ultima pessoa a entrar no navio. Depois que Daiki subira, a observação do porto ficou em suas mãos. Não pode dizer que havia ficado irritado com isso, pois isso não acontecera. Mas ele tinha quase a certeza que se importaria um pouco com isso, mas não se importou. Pensara nisso enquanto observava os marujos que passavam. Talvez, aquela palavra trancada dentro de si não fosse tão forte assim. Talvez, para ele aquilo fosse realmente só uma missão e não havia nada de pessoal ali. Ou talvez ele estivesse seguindo piamente o que Daiki dizia, sendo uma constante lembrança da personalidade de Marcus Du Couteau.
A última opção entrou em sua mente quando subia pela corda. Mas ele apenas a ignorou, encarando o começo daquela missão onde curiosamente liderava.
A planta do navio já estava projetada em sua cabeça, escolhera logicamente o caminho mais curto para ir até onde se encontrava as cargas hexplosivas e repassou a estratégia para Riven quando ela ainda estava no carro com Caleb.
Ao pisar no navio, olhou discretamente para todos em seus determinados lugares em forma de aceno. Estavam um distantes dos outros, uns ao lado de barris, outros encostrados na madeira que dava acesso à cabine principal. A extensão do convés era bem grande, o que os escondiam bem. Apenas Katarina estava a vista, e ele sabia o porquê.
Ele não precisou nem olhar em seus olhos. Katarina apenas o esperou entrar para retirar as adagas da mochila e as colocar as duas kodachis nas costas. Sendo a única já armada, ela jogou sua mochila vazia na água.
– Mudanças de plano. Guepardo irá na frente. — A voz bem conhecida de Katarina ecoou no ouvido de Talon, fazendo nascer um leve sorriso em seus lábios.
– Sabe o caminho? — Ele falou enquanto se agachava e tocava a sua mão no chão de madeira.
Katarina não o respondeu, apenas disse um "Siga-me" para seus companheiros de equipe.
A mulher de cabelos vermelhos pegou impulso em um dos seus pés e subiu um pouco a parede externa de madeira da cabine principal, olhando para o outro lado para ver se havia alguém ali. Não avistou ninguém e com isso decidiu sair da toca. Ela andava com leves e rápidos passos até a escada que dava acesso a parte inferior do navio. Daiki e Angus a seguiam desarmados.
O traidor ioniano ainda tinha a katana embainhada ao lado de sua cintura e Angus, o jovem feiticeiro poderia invocar seus animais quando quisesse. Quando chegaram ao lado da escada, a líder observou e ouviu novamente o ambiente ao seu redor. Havia um homem de guarda na escada. Katarina barrou Angus que ia avançando para cima do hmem. Ela lhe mostrou as belas adagas brilhando com o sol de meio de tarde e ofereceu ao jovem assassino um sorriso vitorioso.
Um segundo depois, ela se encontrava atrás do homem, tapando-lhe a boca com a mão livre e pressionando a lâmina afiada contra o pescoço. Ela o arrastou cuidadosamente até o fim da escada, controlando os seus e os passos do homem. Quando viu o ultimo degrau, empurrou o homem para debaixo da escada e enfiou a adaga em sua barriga.
Os seus olhos verdes acompanharam cada segundo a menos que o guarda tinha, enquanto esperava Daiki e Angus chegarem. Lentamente, o corpo foi sofrendo pequenos espasmos, no entanto, ele não conseguia pronunciar coisa alguma. Katarina fora tão certeira que em poucos minutos ele já estaria morto.
– Posso ficar com o corpo? — Uma voz desconhecida até então falou perto de si. O que ela viu foi um garoto magrelo, na faixa dos quinze anos. Seu cabelo era totalmente raspado mas as sobrancelhas denunciavam a tonalidade ruiva. Entretanto, ele não tinha a pele branca como era de costume para ruivos. Era de um moreno queimado de sol, parecido com o de Talon. Esse era Angus.
– E por quê? — Ela fitou as pupilas verdes, tão chamativas e tão brilhantes como as suas próprias.
– Alimento. — Katarina franziu a sobrancelha, lembrando-se do que ele era e ansiosa para ver sua habilidade.
Ela deu as costas, olhando para o grande salão mal iluminado. Havia vários homens ali, alguns estavam deitados em redes, outros bebendo e jogando conversa fora, alguns até comiam algo que vinha da cozinha. Estavam todos distraídos, não percebendo que estavam sendo invadidos.
Respirou fundo. Estar distraído não significava não estar atento. E passar por ali seria um desafio.
– Se vocês não conseguirem ultrapassar esse salão sem serem vistos, Águia já poderá vir.
Olhou para onde estava Angus e viu algo ao seu lado. Aquilo inicialmente a surpreendeu, mas já esperava algo daquele tipo. Aquela coisa não tinha corpo nem forma, era apenas como se o ar estivesse se movendo. Ela conseguia ver por trás do ser que se movia, via a fraca luz que vinha do convés iluminando a carne do homem sendo rasgada e devorada. Mas não havia nada ali. Nada.
Talon desceu as escadas e Riven o seguia. A mulher de cabelos platinados parecia ser a pessoa que mais sofria com a missão, já que a enorme espada rúnica não se escondia. Depois apareceu um homem de cabelos castanhos claros e curtos, levando consigo uma besta em suas costas.
– Quem não conseguir passar, eu dou cobertura. — Angus falara em tom divertido, como se achasse graça em suas próprias palavras.
Katarina olhou para a dupla porta que daria acesso as cabines, logo depois que esse corredor cheio de dormitórios acabasse, havia outra porta dupla onde ao se passar teria uma sala com hexplosivos. Esse era seu objetivo. Ela respirou fundo novamente, iritada por estar demorando a analisar. Deveria ter uns cinquenta homens só nessa parte de baixo. Passar despercebida seria o mais dificil dessa missão.
Quando um homem abriu a porta dupla, Katarina viu sua oportunidade. Mirou nele e foi. Seus passos quase inaudíveis. Quase não sendo vista. Shumpo.
Talon a viu aparecer atrás do homem e cortar-lhe a garganta rapidamente, com a mesma tática rápida anterior. Ele olhou para Riven que estava ao seu lado, ela balançou a cabeça em forma de aprovação e assim ele soltou duas fracas bombas de fumaça em direção à cozinha, correndo em meio ao clarão até onde estava Katarina.
A fumaça começava a se dissipar quando olhou novamente para a escada, procurando o grupo. Seus olhos percorreram o salão tumultuado, esperando os ver. No entanto, só via os homens abrindo as janelas redondas enquanto xingavam as pessoas encarregadas pela cozinha.
Sentiu uma mão em seu ombro e virou-se assustado para o nada, procurando aquela mão. Katarina fechou a porta dupla que interligava os dois ambientes, diminuindo o som dos homens em algazarra.
– Surpreso? — O corpo de Daiki começava a se materializar juntamente com os dos outros. Os pequenos olhos estavam fechados e ele dava um sorriso vazio para Talon.
Ele retirou a mão de seu ombro com estupidez. As pupilas castanhas estavam arregaladas com a surpresa iminente. Riven e Caleb olhavam para seus corpos, tão surpresos quanto Talon.
– Sem tempo para explicar. — Angus falou com a habitual fala descontraída. Katarina trancou a porta e começou a andar na frente pelo corredor cheio de dormitórios.
Talon a pegou pelo pulso, fazendo-a virar no mesmo instante. As pupilas verdes encaravam os olhos castanhos com dúvida.
– Eu sigo a partir daqui. — Ele a avisou. Katarina entendeu aquilo como um jogo de posse, afinal ele ainda era o líder.
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Taynana encontrava-se em um ponto estratégico. Lince havia se dividido. Aro observava a cabine principal, onde o capitão e mais alguns homens conversavam despreocupados. Estava em cima dela em uma parte onde não poderia ser visto, mas observava cada movimento daqueles homens. E também já calculava sua rota.
Cloud estava deitado em cima de uma das madeiras de suporte das velas, no mastro principal. Aquele era o ponto mais alto do navio. Sentia melhor as pessoas naquele lugar. Dali, ele via tudo.
Já a morena estava estirada no chão de madeira da proa, sendo escondida por alguns barris. Sua metralhadora estava apontada para a saída da escada, encarando aquela penumbra com um de seus sorrisos.
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O corredor era bem extenso, tendo várias e várias portas onde havia os aposentos dos homens. Aquele não era um navio pirata, ou até mesmo um navio de comércio comum, assim como todos esperavam. Era um navio que não precisa de velas, mas mesmo assim as usava como suporte. Um navio que não precisava de no máximo cinquenta pessoas, já que não era movido à vapor ou até mesmo movido à força braçal. Eram os hexplosivos que o faziam se mover. Havia cabines e mais cabines e uma sala de lazer para seus marujos. Também havia uma cabine central onde o capitão comandava a rota.
Aquele navio era uma fusão do novo e do velho. E era isso o que os preocupavam.
Quando o corretor chegou ao seu fim, Talon abriu a porta dupla de metal, a coisa mais estranha vista até agora. Riven entrou consigo, enquanto Guepardo ficava vigiando a porta. Angus fazia Daiki e Katarina observarem novamente O Nada comer mais um corpo, O ruivo mantinha seu sorriso nos lábios, como se estivesse feliz pela comida.
Caleb vigiava a outra parte da porta, tendo sua besta já armada para qualquer coisa. Talon andou com passos calmos até onde ficavam os grandes e grossos tanques em formato de cápsulas. Engoliu seco, sabendo que aquilo era exatamente o que ele queria. Eram sete tanques com um metro e meio de altura e mais um metro de diâmetro.
– A Lebre foi caçada. — Ele falou em bom tom para que todos ouvissem.
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Cloud desceu do mastros por uma corda. Os cabelos loiros se movimentaram na descida e deixou exposto uma grande cicatriz rente ao couro cabeludo. Tocou o teto da cabine principal sem o pressionar muito. Olhou para Aro que terminava de passar a a faixa em seus punhos.
– Vamos. — Cloud falou enquanto olhava Taynana ainda estirada no chão, no entanto, ela carregava uma metralhadora e arrumava uma segunda.
Ele andou até o final do teto da cabine e entrou pela sacada. Os homens só perceberam a sua presença quando Aro pulou e caiu na sacada também, fazendo com o barulho os denunciasse. Eram cinco homens sem contar o capitão. Aro, com uma força descomunal, foi para cima justamente do capitão, dando-lhe um soco com força na bochecha, fazendo-o ir para trás.
Os homens que estavam ali partiram para cima do homem. Aro jogou o capitão contra o chão, o socando intensamente enquanto manchava suas faixas. Tentavam o fazer parar, mas ele apenas o socava, destruindo a face daquele homem. Os socos eram cada vez mais rápidos e mais fortes, a face já estava desfigurada, seu punho pingando sangue.
Nada foi feito para que ele parasse.
Quando o capitão já estava quase sem vida, Aro se virou para os outros cinco homens com seus olhos rubis brilhando igualmente aquele sangue em seus punhos.
– Se não quiserem morrer, aceitem-no como o seu novo capitão. — Cloud falou de braços cruzados, atraindo a atenção para si.
Os homens se entreolharam. Eles não deviam nada à ninguém. Não eram fiéis ao dono do navio. Não eram vassalos ou algo que jurasse confiança. Eles eram apenas pagos por aquilo. E se tinha algo que eles não arriscavam, isso era a sua vida.
– Feito. — Um homem de poucos cabelos grisalhos lhe respondera.
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– SE NÃO QUISEREM MORRER, SUBAM PARA O CONVÉS. AGORA! — Taynana gritava pelo auto falante que Cloud havia arrumado para si. Ela repetiu essa frase três vezes, esperando que os homens viessem.
Com as duas mini metralhadoras em mãos, Taynana aguardava impacientemente os marujos. Quando eles começaram a subir a escada, os olhos castanhos brilharam quando eles se sentiram ameaçados pelas metralhadoras. Além das duas pequenas em suas mãos, havia mais duas apontadas para eles, onde Cloud estava ao lado segurando o auto falante.
– SÃO SÓ VOCÊS? — Ela gritou novamente pelo auto falante. Os homens tamparam os ouvidos, com medo de gritarem e serem metralhados. — Se são só vocês. Ótimo. — Saiu de perto de Cloud e começou a andar no meio dos homens. Eles olhavam o seu corpo com deslumbre, o colã preto que usava deixava em evidência as suas curvas. Porém, havia aqueles que saíam de perto dela, com medo dela puxar o gatilho.
Ao chegar na entrada da escada que dava acesso ao andar inferior, ela apontou uma das mini metralhadoras para o céu, dando um pequeno tiro. Atraindo a atenção com isso, ela continuou:
– Vocês estão sob nova direção. Não ousem questionar. Não ousem se rebeliar. Não ousem se comunicar com outras pessoas que estão fora do navio. — Ela deu uma pausa ao perceber o navio começando a se mover. Olhou para a cabine central e viu Aro a observando. — Não ousem matar algum de nós. Não ousem também — Sua voz dessa vez saiu sádica. — se matar. Apenas façam esse navio chegar até Bilgewater e terão recompensas.
Um alvoroçoso foi ouvido depois. Os homens reclamavam por ter ouvido o nome da Cidade-Estado de Bilgewater. Perguntas como quem eram eles, ou o que eles queriam, ou porque eles estavam indo para Bilgewater, eram o que mais se escutava.
Ela atirou no primeiro homem que viu.
– Não ousem questionar.
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O alvoroço só acabou quando o mesmo homem que aceitara Aro capitão falou para a tripulação que agora o navio estava nas mãos deles. Não houve muita aceitação logo de começo, isso era óbvio. No entanto, não era nem por se preocuparem com as cargas que estavam no navio, pois elas eram desconhecidas para os marujos. Era porque eles não tinham descansado nem uma semana.
Porém, Cloud os convenceram que ao pararem em Bilgewater, eles poderia descansar o quanto quisessem. Como se fosse uma promessa de um futuro brilhante, ele também dizia que seriam muito bem recompensados por Noxus.
O que gerou mais um conflito interno. Os marujos quiseram saber os planos. Taynana metralhou mais dois homens.
Quando Guepardo e Águia apareceram para se mostrarem, os homens nem se quer desconfiaram de que as equipes haviam passado por eles. Não eram simpáticos e nem queria saber o porquê demais pessoas para obedecerem, apenas queriam manter suas vidas e voltarem para a casa que tinham acabado de sair.
Aro falou com o homem que aceitou o trato, seu nome era Layott. Não era um homem velho, mas seus poucos fios brancos denunciavam que também não era jovem. Não que ali houvesse se estabelecido uma relação de confiança, mas os dois conversavam sobre o mar e sobre as rotas. Aquele homem a ajuda do capitão morto. Agora, ele seria a ajuda de Aro.
O navio começou a navegar no final de tarde. Pela ajuda de Layott, foi autorizado que Os Céus Bombardeados saísse tranquilamente do porto. A feira que acontecia só serviu para que não houvesse tanta dificuldade em checar a mercadoria.
Mercadoria que eles não sabiam que havia ali dentro.
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O primeiro cair da noite foi a coisa mais estranha que Talon já havia visto. A frequência tênue que o navio tinha o fazia quase ficar calmo, o fazia quase abaixar a guarda. Cada um tinha ido para o seu canto. Ou melhor, cada assassino tinha arrumado um canto para si.
Ele arrumou uma rede, deitou no meio dos marujos e conversou com eles sobre assuntos triviais. Não sabia nada sobre o mar, não sabia nada sobre navegar ou sobre as histórias do oceano. Quando a noite chegava, os marujos contavam suas histórias ele apenas as ouvia. Não ficava maravilhado, mas também não era algo desagradável de ouvir. Era apenas diferente.
Já Katarina havia arrumado um quarto. Por causa da feira, alguns dormitórios estavam vazios. A noite caíra e com ela teve que se acostumar com o balanço do oceano. Já havia navegado algumas vezes com seu pai, mas ela sabia que nunca se acostumaria a isso.
Estava estirada em uma cama de solteira, olhando para o teto onde uma fraca luz amarela iluminava. Havia sido um dia difícil. Claro, não havia pensado nenhuma vez em morrer ou falhar, mas de qualquer jeito havia sido desgastante. A viagem de moto e toda a complexidade para encontrar os hexplosivos a deixaram cansada. Sem perceber, seus olhos foram fechando e fechando.
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Um quarto ao lado de Katarina, estava Angus. E ao lado de Angus, estava Taynana. O quarto dos dois tinha uma falha, na qual a parede tinha um pequeno buraco, um ligando o outro. Assim como todas as outras pessoas naquele navio, quando a noite caiu, ele quis ir descansar.
Se guerras contra outra nação já derramam sangue, guerras internas derrubam muito mais que só sangue.
Taynana olhou pelo buraco do quarto logo após tomar um banho na água fria de inverno. Enquanto secava seus cabelos, um sorriso macabro nasceu em seus lábios, como havia feito o tempo todo. Ela olhou novamente pelo buraco e viu ali o início.
Pegou um dardo tranquilizante e atirou.
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Katarina acordou com sede. Não havia bebido ou comido nada o dia inteiro, apenas quando saíra de casa. Porém, sua casa seria a última coisa que veria em muito tempo. Olhou para a luz amarela no teto e reconheceu que havia dormido daquele jeito, estirada de braços abertos na cama. Piscou várias vezes, se acostumando com a luz e criando coragem para levantar.
Se levantou e olhou para porta que se mexia. Ela ainda se sentia tonta. Sentia vontade de vomitar mesmo não tendo nada no estômago. Quando ele roncou, mesmo com ânsia, ela decidiu sair de seu quarto. Andou pelo corredor e abriu as portas duplas que antes tinha fechado. Olhou para os homens naquele salão. Alguns dormiam, outros continuavam bebendo, outros pararam para a olhá-la. No entanto, a única coisa que ela fez foi cruzar o salão e subir a escada.
Talon não conseguia dormir. Parecia que se abaixasse a sua guarda, ele morreria. Não sabia o motivo, mas tinha essa sensação. Foi quando viu Katarina subir as escadas. Um sorriso nasceu em seus lábios. Ele até já sabia o que ela estava querendo.
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Caía um pouquinho de neve do céu. Katarina estava em frente a proa, olhando o navio rasgando as águas harmonicamente. Pensava no que iria começar a partir de agora. Pensava no que havia deixado pra trás caso não voltasse da guerra. Pensa em Claire, em seu pai, em Cassiopeia. Pensava em tudo, mas não sentia nada. Enquanto o pouco de neve caía, Katarina olhava a sua queda melancolicamente, surpresa por não sentir nada em muito tempo.
– Te trouxe um pão. — A voz conhecida ecoou em sua cabeça, mas Katarina não se virou.
– Eu não quero. — Ela o respondeu sem se importar.
– Você veio aqui para vomitar, não foi? — Talon abriu um sorriso fraco, mas ela não viu.
– Como eu vou poder vomitar algo se eu não tenho nada no estômago?
– Por isso que eu te trouxe pão.
– Então você quer que eu vomite? — Ela riu cínica.
Talon suspirou, se perguntando se fora uma boa ideia ter sido gentil. Ele culpou sua insônia.
– Tanto faz, Katarina. — Ele colocou um grande pão gordinho no suporte de madeira e se virou, voltando para a sua rede.
Katarina olhou para o pão e seu estômago roncou de novo. Suspirou fundo e se virou, desistindo do seu orgulho e indo o agradecer. No entanto, o que ela viu fez o pão cair no chão de madeira do convés.
– TALON! — Ela berrara. Ele se virou imediatamente, a olhando surpresa. As pupilas verdes arregaladas não miravam Talon e sim o mastro.
Ele correu para seu lado e pegou seu rosto com as duas mãos grandes, ela ainda não o fitava, só olhava para cima. O brilho que ele conhecia tinha se dissipado. Ele olhou para o chão e viu o pão.
Quando a olhou novamente, ela apontava para cima, em direção ao mastro. Talon se virou vagarosamente, quase em câmera lenta. O que viu fez as pupilas castanhas também se contraírem.
Angus estava amarrado no mastro principal, o corpo estava todo metralhado e o sangue que escorria formava um rio.
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