A Dominação De Lâminas

29 This ain't love, its just a firefight'


Notas iniciais
Ok, eu estou com sérios problemas em fazer capítulos pequenos. Mas desde quando isso é ruim, não? Então, eu demorei pra porra e esse capítulo é como uma redenção. Foi o maior capítulo que eu já escrevi SEGUINDO o maior diálogo que eu já escrevi. Caralho, ele saiu naturalmente. E eu fico feliz com isso. Aproveitem.

A Dominação de Lâminas

Lembre-se de cavar o poço bem antes de sentir sede.

Era com o antigo provérbio em sua cabeça que Cloud observava Layott. Sentado curvado em uma cadeira, seus cabelos tão claros escondiam-se os olhos negros. Mas ele conseguia ver cada movimento do homem de cabelos grisalhos. Via também os outros homens que estavam ali, mas no momento apenas Layott Gruvieg lhe interessava.

Ele se levantou da cadeira com um pesar em suas costas. Espreguiçou-se e andou calmamente até a mesa aonde Layott Gruvieg estava sentado. Olhou para a feição envelhecida que estava confusa com tal aproximação, e encostou-se na beirada da mesa. Não sentaria de novo, sentia-se cansado em ter ficado todo esse tempo em um canto afastado...

Apenas observando.

– Sabe senhor Layott, eu adoraria saber o porquê de você permitir a nossa entrada com tanta... impaciência? – Um sorriso nasceu em seus lábios, mostrando suas covinhas. – Acho que essa seria a palavra. – Apenas o dedo indicador se moveu. Os olhos azuis de Layott seguiram o movimento, mas logo depois voltaram para os olhos negros de Cloud. – Será que eu deveria observá-lo um pouco?

– Você já não o fez? – A pergunta foi seca. Cloud apenas manteve o sorriso, sem desviar o olhar. Layott se levantou com agressividade enquanto olhava para os lados, percebendo que havia estranhamente ficado sozinho com aquele homem.

– Eu imagino que seja porque esconde algo nesse navio. – O sorriso se abriu mais. – Será que... – Uma pequena nuvem vermelha escura engoliu a imagem de Cloud. Poucos segundos depois, quando ela começou a se dissipar, uma garota albina apareceu em seu lugar. –... eu devo te manipular assim?

.·.

– Pare de brincar, Cloud. – A voz de Taynana ecoou pela cabine.

Usando o corpo da garota albina, Cloud virou-se para a origem da voz e a observou no início da sacada. Os longos cabelos escuros e ondulados encontravam-se molhados, mas a assassina não parecia nem se importar ao molhar o carpete marrom claro.

– Eu esperava essas palavras vindo da boca de Aro. – Cloud sorriu e olhou para o homem truculento que segurava o leme. Aro nem sequer o olhou, apenas parecia fitar a face de Taynana. Mas apenas parecia mesmo.

A assassina retribuía o olhar, pensando que ele a encarava descaradamente. Ela observava aquele grande homem branco, com o seu cabelo preto fino caindo no meio da testa branca. Sem dúvidas, aquele homem não combinava em ficar atrás de um leme.

Ainda mais com aquelas intrigantes pupilas avermelhadas, e o contorno de lápis preto que as acompanhava.

Taynana respirou fundo e andou até a mesa onde estava Cloud ainda como a garota albina e Layott. Olhou para a outra presença feminina e ficou intrigada com a beleza da garota que Cloud se transformara. Os cabelos brancos eram finos e iam até o meio das costas, mas não era só o cabelo que era branco. Tudo ali era daquela cor, desde a pele até os cíclios.

Exceto os olhos.

A cor lilás parecia ter um efeito atordoador em qualquer pessoa, e assim que pôs seus olhos sobre os dela, Taynana não conseguiu desviar o olhar.

Colocou com delicadeza a metralhadora que carregava na mesa, como se fosse obrigada a fazê-lo pelo o olhar que Cloud lhe direcionava. Na feição albina um sorriso fraco se abriu novamente, sua boca rosada formando um coração.

Ele olhou para a arma, quebrando o contato de ambos. Seu sorriso aumentou ao ver o silenciador.

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– Metralhado? – O que Talon achou ter sido apenas um pensamento saiu de seus lábios.

Katarina engoliu seco e seus olhos buscaram a feição de Talon. Sua face denunciava que ele estava tão surpreso quanto ela. As mãos lentamente soltaram o rosto dela, mas ele ainda mantinha seus olhos no mastro.

Os segundos que se passaram pareceram ser eternos. Ela podia fitar a face dele, podia observar a pele morena sendo contraída, podia observar os lábios cerrados e os olhos que no momento se encontravam obscurecidos.

Mas ela não o via. Em sua cabeça, um mar de pensamentos a afogava, causando aquele atordoamento inicial.

Só que um assassino não tem tempo de hesitar.

– Como? Eu não ouvi som algum. – Ela se perguntou em voz alta.

Ao ouvir sua própria voz, Katarina percebeu que tinha que começar a raciocinar logicamente. Percebeu que aqueles poucos segundos que travava poderia ter sido seu fim. Assassinos não hesitavam. Assassinos não se importavam se um membro da equipe tinha sido abatido.

Olhou novamente para Angus. O sangue ainda estava fresco e tingia a corda que o segurava. Mas ele havia sido metralhado! Seus pensamentos gritavam em sua cabeça. Como não poderia ficar com raiva? Como não poderia hesitar e ficar confusa ao vê-lo estirado no mastro como... como se fosse um verme? Os orbes verdes voltaram para Talon, o olhando com um brilho suplicante, querendo uma resposta.

Ele apenas engoliu seco ao ser observado.

Katarina suspirou e passou a mão pelos cabelos. Abaixando o olhar ao notar que ele não a ajudaria, ela olhou para o chão de madeira e para os barris ao seu lado. Foi nesse momento que percebeu onde eles estavam e lembrou de quem também estava lá mais cedo.

Automaticamente, a lembrança de ver de longe Taynana e Angus entrarem em seus respectivos quartos veio em sua cabeça. Foram eles que tinham tido a ideia de ir descansar e rapidamente ela os seguiu, procurando uma cabine para também descansar.

Ela sentiu o peso em seu corpo se dissipar, no entanto, outra coisa preencheu aquele vazio.

Ira.

– Retire ele de lá. Agora! – Ela dissera as palavras em tom autoritário enquanto descia rapidamente pela escada.

.·.

Katarina correu pelo salão principal e os homens acompanharam com os olhos a sua correria. Abriu a porta dupla que havia aberto minutos atrás e observou as cabines. As portas eram todas beges e o chão continuava sendo de madeira. Ela parou de correr e começou a procurar o número da cabine de seu dormitório. Mas andando apressadamente ainda, ela via os números de relance até chegar ao trinta.

Se a sua era a 35, a de Angus era a 40.

Eram cinquenta cabines uma de frente para a outra, então a sua dava de frente para a 36. Pulava uma e era a de Angus, número 40. E ao lado da de Angus, era a de Taynana... número 42. Katarina parou ao ver o grande número, seu coração deu uma leve acelerada. Sem tempo para hesitar, ela avançou as mãos para a maçaneta.

Mas sua mão morreu no ar ao ver a porta meio aberta.

Empurrou com força a porta, sem a necessidade para tal ato. Apenas de a abrir, a cama tingida de vermelho chamou a atenção dos orbes verdes. Katarina olhou para os lados, e percebendo que ninguém vinha, entrou e passou a tranca na porta.

Era um dormitório igualzinho ao seu.

A mesma iluminação em cima da cama, mesmo armário pequeno para guardar algumas roupas, mesmo quartinho onde havia um banheiro minúsculo, mesma cama com colchão podre, mesmos lençóis – exceto que o seu não estava pintada de vermelho.

Praticamente tudo igual. Exceto que havia outra pessoa naquele quarto antes, e agora ela estava morta.

E Katarina estava na cena do crime. Mas isso também não a importava. Sem tempo para se lamentar do ocorrido, ela foi até a cama e ergueu os lençóis, vendo os furos no colchão. Ao ver inicialmente, os tiros poderiam ter vindo de qualquer lado. Taynana poderia estar na sua frente enquanto atirava, como também poderia estar na porta – que também não estava tão distante.

Mas algo estava a intrigando. Ela não havia ouvido nada. Ninguém falando alto, nenhuma briga, nada sendo quebrado. Como Taynana poderia simplesmente entrar pela porta e descarregar a sua metralhadora nele sem fazer barulho? Tudo bem que Katarina estava dormindo, mas ela acordava sempre com qualquer coisa.

A porta não havia sido trancada por Angus também, isso deveria ter facilitado a vida de Taynana. Mas como ela sabia que não havia sido trancada? Caso estivesse, ela teria que a arrombar ou até mesmo atirar pela porta. Porém daí as evidências seriam explícitas e ela não teria como se defender. E também não teria segurança nenhuma de que Angus estaria deitado na cama, isso apenas a denunciaria.

Então, como...?

Algo dizia para si cavar mais, ir mais além. Se havia uma coisa que Katarina não menosprezava, isso era o seu instinto. E ele dizia que estando ali ela saberia o que aconteceu.

Ela só viu uma alternativa: Se colocar no lugar.

Sentou-se na cama ao lado da poça de sangue. Katarina imaginou-se cansada, lembrou que ele havia conjurado um dos seus monstros bizarros, aquilo deve ter gasto energia. Encostou-se nos travesseiros e olhou para a porta fechada.

Angus estava deitado quase no mesmo lugar, talvez até olhando para a porta também. Mas como ele poderia não a ver chegando? Como poderia não se defender? Apesar de ele ser apenas um adolescente, ele era um dos melhores assassinos, sua feitiçaria lhe propunha isso. Propunha que ele podia se defender de qualquer coisa, contanto que estivesse consciente.

Foi então que percebeu e abriu os olhos. Não notou que tinha os fechado, apenas encontrou-se submersa aos seus pensamentos, tentando encontrar algo plausível para explicar o porquê da morte dele.

E aquela semi certeza lhe atingiu. Ele não estava consciente. Não poderia estar.

Isso fez com que Katarina lembrar-se de sua raiva e ela voltasse a queimar. Levantou seu corpo apressadamente, estando disposta de novo a recomeçar o seu pensamento. No entanto, ela olhou para a parede bege.

Ela viu um ponto preto. Não sabia se era um besouro ou se era um prego grande. Com o cenho franzido, ela levantou-se e andou rapidamente até ele.

Não era um besouro, muito menos um prego. E assim que ela conseguiu colocar dois dedos dentro, suas perguntas foram respondidas.

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Só de ver o corpo metralhado, Talon já sabia quem havia o feito. Aquilo era óbvio, como Katarina poderia ter demorado tanto pra processar uma informação tão simples?!

No entanto, a pergunta era: Por quê?

Por que a mulher das metralhadoras havia matado Angus? Havia sido uma briga? Um acerto de contas ou simplesmente uma missão?

Talon não sabia, e no momento, nem queria saber. Deixava essa parte no momento para Katarina, ela saberia o que fazer em relação a isso. Porém, a única coisa que passava pela sua cabeça era como tirá-lo de lá. Não poderia o fazer sem passar pela cabine de comando.

Então sua mente se clareou, e ele percebeu que Taynana se encontrava lá. Protegendo o corpo e a sua própria garganta.

Ótimo, um desafio.

Vendo a sacada e depois a cabine, Talon suspirou. Começou a andar pelo convés, indo em direção a popa. Ele poderia subir pelas costas da cabine e retirar o corpo de lá. Aquela era a parte mais fácil de escalar, já que eram dois andares com uma diferença de uns 10 centímetros do andar que servia como base e que ficava por cima.

Mas era também o mais difícil de descer, já que 10 centímetros não era nem o tamanho do pé de Katarina. Sozinho já seria complicado, imagina com um corpo. De qualquer jeito, Talon teria que encarar as pessoas que estava lá. Explicar o porquê de ter um corpo sobre os ombros não seria nenhum pouco legal.

E também daria à Taynana uma possível fuga.

Mas pra onde ela fugiria? Cairia no mar, e Talon não duvidava que a mulher fosse louca suficiente pra isso.

Acompanhado de outro suspiro, ele começou a escalar a parede da cabine de comando. Segurou com as duas mãos aquela pequena diferença entre os andares, encostou o pé em posição na parede, impulsionando seu corpo para cima. Levou o pé livre até os 10 centímetros e novamente se impulsionou para cima.

Quando seu outro pé conseguiu se equilibrar naquele pequeno espaço, ele recomeçou o movimento, com mais cautela dessa vez. Não que se caísse se machucaria, mas faria barulho. E então, novamente com precisão e maestria, Talon segurou de novo o teto da cabine de comando. E seus pés lhe deram impulso.

Há quanto tempo não fazia isso mesmo?

Com seu cotovelo, ele se apoiou no agora o seu novo chão. Instantaneamente seu corpo veio junto e ele se levantou. O movimento do barco não o prejudicava tanto, o que mais o incomodava era o vento que trazia consigo um pouco de neve. Andou até o mastro e pegou o facão em sua bota.

Olhou para Angus. Sua pele já começava a ficar acinzentada por causa do frio. Seus olhos pesaram e ele os fechou, sentindo dó. Ainda nevava. E ele não duvidava nada que aquela vadia teria o amarrado ainda vivo no mastro.

Maldita puta sádica.

Mas quem era ele para falar de crueldade? Era o mesmo homem que havia matado a mulher que o amava e matado o único amigo. No entanto, a história sempre era outra quando ele era o atingido.

Ninguém chorou por Julliet porque ele matara todos. E ninguém chorou por Kavyn porque não havia ninguém que o pudesse fazer.

Era uma simples questão de quem permanece.

Irritado com os pensamentos, ele segurou o corpo gelado do garoto e cortou as cordas, fazendo-o cair sobre si. Talon o colocou no ombro, indo em direção a sacada que dava a cabine de comando.

Como se Angus não pesasse nada, Talon o soltou a dois metros do chão de madeira.

O baque fez barulho e depois Talon o acompanhou, caindo sobre os calcanhares na sacada. O assassino levantou a cabeça e viu a face surpresa de seus companheiros de equipe. Se levantou e olhou uma última vez para o corpo de Angus, agora estirado no chão de madeira da sacada.

Estava feito. Agora era só esperar.

.·.

– O que é isso? – A voz grave de Aro foi a primeira a ecoar na cabine.

– Não sei e adoraria que alguém me explicasse. – Talon andou até eles com o facão ainda na mão.

Não havia ninguém além de Taynana, Cloud, Aro e Layott dentro daquele lugar. Talon imediatamente estranhou aquilo, apesar de Aro estar no leme e os três sentados na grande mesa de rotas.

– O Angus morreu? – Cloud falou com uma voz preocupada. – Eu não consigo entender.

– Ele foi morto. – Talon olhou diretamente para Taynana, que comia um sonho com creme. Ela sentiu o olhar sobre si, mas nem se importou. – Por alguém dessa sala.

– Alguém dessa sala? – O cenho do homem loiro se franziu. – Está culpando algum de nós? – A risada que Cloud soltou foi sarcástica. – Olha, aqui. – Ele andou até Talon e apontou o dedo no peitoral dele. – Não é só porque você é o “líder” que você vai entrar na merda dessa sala e sair fazendo acusações levianas!

Acusações levianas a minha bunda! – Ele empurrou o dedo de Cloud com raiva para o lado. – Ele foi metralhado e foi colocado no mastro principal que só vocês têm aceso.

– Como você diz que ele foi metralhado, querido? – Taynana falou assim que bebeu o restante de seu chá. – Balas são simplesmente balas. Ou só porque eu sou a única pessoa que você viu hoje com uma arma, você acha que eu o matei?

– Eu nunca te acusei, mas se você mesma prefere colocar dessa forma. – Ele respondeu seco.

Taynana bateu o punho na mesa, levantando todos os pequenos barquinhos que estavam em cima do grande mapa.

– Você realmente acha que não há ninguém nesse navio que não tenha uma arma de fogo?!

– Não quando vocês restringem a entrada de pessoas a essa cabine. Ou você acha que eu não vi os antigos ajudantes lá em baixo?

Ela não soube o que falar. Apenas engoliu seco com o brilho em seus olhos transmitindo toda a culpa.

O silêncio fez se presente durante poucos segundos, pois depois ouviu-se uma gritaria na porta dupla de entrada. Todos olharam surpresos para a porta que se moveu um pouco ao levar um grande baque de fora. E depois dele, silêncio de novo.

A porta foi aberta com um chute. Layott deu um pulo com o barulho. Katarina apareceu e quase impossível de se acompanhar com os olhos, ela desapareceu e reapareceu ao lado de Taynana, com as duas adagas prontas para o abate.

– Espere! – Cloud elevou a sua voz e Katarina o olhou com um brilho raivoso nos orbes verdes.

Ela ergueu uma das sobrancelhas, tentando se lembrar de quem ele era e com que autoridade ele tinha para erguer a voz com ela dessa forma. Cloud engoliu seco, percebendo que aquela mulher não estava para brincadeira.

– Vocês perderam a cabeça? – Ele abaixou a voz. – Por que querem a matar?

Katarina apenas o ignorou e encostou a adaga no pescoço de Taynana.

– Eu vi o buraco no seu dormitório. – Ela falou para a mulher enquanto deslizava graciosamente a lâmina. – Acho que você já entendeu que decifrei tudo.

Taynana cerrou os dentes e o punho. Seu olhar estava abaixado, não acreditando que aquela vadiazinha tinha tido a moral de entrar em seu quarto. Ela deveria ter visto o buraco e os dardos também. Tentando não demonstrar insegurança, ela respirou fundo.

E depois empurrou Katarina para trás e correu até onde estava a sua metralhadora.

Ela sorriu enquanto começava os disparos desordenados. A mulher de cabelos vermelhos deu uma cambalhota no chão, desviando dos tiros. Uma kunai voou em sua direção, mas ela arqueou seu corpo e passou de raspão em sua bochecha.

Continuou atacando sem parar, com seus tiros não fazendo barulhos pois ainda estava com o silenciador. Katarina voltou a desaparecer e quando ela viu, a assassina estava em suas costas. Ela lhe passou uma rasteira e Taynana sentiu o seu corpo colidir contra o carpete.

Rapidamente, Katarina subiu em cima de sua barriga e colocou novamente o frio aço da sua adaga contra seu pescoço. Taynana sabia que ela não estava em seu máximo. Sabia que naquele momento ela poderia ter a matado facilmente.

Irritada com isso, ela rangeu e atirou em direção de Katarina. Aquilo poderia ter atingido em cheio aquela carinha bonita se a ruiva não tivesse mexido em seu braço e a fizesse errar a mira.

– Um silenciador na metralhadora. – Katarina se afastou rapidamente, vendo que ela voltaria a atirar. O sorriso que ela tinha em seus lábios mostrava-lhe os dentes, fazendo Taynana perceber que ela era nada mais que diversão e um alimento para o ego. – Você se entrega cada vez mais.

Taynana parou de atirar e olhou para os lados, buscando algum reforço. Aro ainda permanecia concentrado no leme, ele não havia se movido nenhum pouco. Talon e Cloud haviam se afastado do tiroteio, um foi para a sacada e o outro para a porta de entrada. E Layott se protegia com o corpo de Angus.

Katarina acompanhou o seu olhar e ficou irritada com a última visão. Seu semblante mudara. A feição agora estava fechada, completamente sério. Taynana amaldiçoou aquele homem eternamente.

Voltando a disparar em direção da ruiva, Taynana girava no mesmo lugar, dando uma volta quase completa para tentar a acertar. Não obtendo resultado e desviando hora ou outra de kunais, Taynana cansou de atirar no caminho que Katarina fizera e se pôs a atirar em um caminho que ela poderia passar.

E ela apareceu bem na onde ela previu.

Mas a bala não a acertou, e a mulher de cabelos encaracolados sorriu, entendendo como aquela garota poderia ser óbvia. Continuou atacando por onde ela passava e quando mirou novamente outro lugar que Katarina passaria, o barulho de cartucho vazio se fez presente no ambiente.

E foi questão de segundos para que Katarina estivesse em sua frente, com a adaga em sua barriga e não na garganta – como assim ela se defendia achando que ela atacaria.

Sentiu o contato gelado da lâmina e um gemido de dor pairou pelo ar. Ela olhou para Katarina, os olhos chocolate tremendo algo parecido com o desespero. Algo chegou até a sua garganta e cuspiu um pouco de sangue que logo depois se misturou com o que saía de sua barriga.

A adaga havia sido atravessada por inteiro em seu estômago. Podia-se ver o a ponta do aço retalhado saindo cheio de sangue, cortando sua pele e sua roupa, e seu sangue escoando pelo carpete.

Katarina apenas a fitava com um tom de seriedade nos olhos. O tom divertido e sádico havia passado, só ficava agora a sensação de uma justiça deturpada e vingança.

A última coisa que Taynana viu foi aqueles olhos, os mesmos que pareciam serem feitos de mármore verde, de tão indecifráveis que eram naquele momento.

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A porta da cabine 35 foi aberta, e por ela passaram Talon e Katarina. A assassina segurava os braços enquanto escoltava Talon para dentro. Quando entraram, ela acendeu a luz e passou a tranca. Suspirou fundo enquanto ainda olhava para a porta bege. Podia ter dormido um pouco, mas ainda se sentia cansada.

– Por que me trouxe aqui? – Ela ouviu a voz de Talon e virou-se para ele.

– Duas pessoas morreram hoje nesse navio. – Ela lhe respondeu cansada.

– Mais de duas pessoas morreram hoje. Aquela mulher atirou em não sei mais quantos marujos. – Talon também cruzou os braços. – Agora me diga porque me quer aqui.

Ela suspirou de novo.

– Temos que cuidar dos nossos. – Ela andou até a cama e sentou em sua beirada. – Confiar e proteger aqueles que são leais.

– E quem seriam esses além de eu e você? – Ele continuou em pé, com seu corpo fazendo sombra sobre o dela.

– Eu e você. Só. – Katarina abaixou o olhar.

– E Riven?

– Eu não sei. – Ela descruzou os braços e Talon viu o sangue na ponta dos dedos. – Tenho que provar a lealdade dela. Mas no momento, eu vou tomar um banho. Não saía daqui.

Ele ouviu a porta do banheiro bater. Novamente ela usara aquele tom autoritário, e a única coisa que ele podia fazer naquele momento era o obedecer.

.·.

Quando Katarina saiu do banheiro, a primeira coisa que viu foi o corpo de Talon ocupando a cama inteira.

– Me explique porque mesmo você me chamou aqui? – Ele falou piscando duas vezes. Ele estava largado na cama com seus braços atrás da cabeça, ocupando a cama de solteiro inteira. – Por que eu acho que não vamos caber nessa cama.

– Quem disse que você vai dormir aí? – Ela cruzou os braços novamente, franzindo o cenho e fingindo que estava confusa.

Ele se levantou e foi até ela, a olhando por cima.

– Ah é? – Ele também cruzou os braços.

– É. – Ela não abaixou o olhar com a intimidação nítida que Talon lhe dava. – E nem vou te dar o cobertor, estou com frio.

– Também, usando essa regata preta aí. – Katarina olhou para o lado enquanto bufava. Ameaçou desfazer o coque que fizera para não molhar os cabelos, mas Talon a interrompeu. – Por que diabos você tá com uma regata no inverno?

– Eu lavei um pouco das minhas outras duas blusas. – Talon se divertia com os verdes fitando a parede, ela ainda não conseguia o olhá-lo por muito tempo. – Elas ainda estão molhadas.

– Lavar roupa no inverno? Ainda mais quando você tá num navio, Katarina? – Ele riu em sua cara. – Você é uma anta?

A fúria tomou conta dos olhos verdes e ela automaticamente o olhou.

– Eu lavei apenas a manga, seu idiota.

Ele sussurrou um aham quase imperceptível, e o silêncio se fez presente. Katarina percebeu que a conversa morrera. Sentindo frio, ela começou a esfregar as duas mãos nos braços.

– Katarina. – A face de Talon ficou séria, a alertando que era melhor o obedecer.

Mas ela não queria o fazer.

– Eu só estou com frio.

– Você não sabe o que é frio. – Ele falou isso com um pequeno sorriso nos lábios.

– Ah eu esqueci que você sempre diz que odeia o inverno, mas nunca conta os detalhes.

– Eu não sou alguém que conta histórias.

– Oh, mas naquela noite em meu quarto você me contou uma boa história sobre Kavyn. – Ela percebeu o que havia dito depois que as palavras uniram-se ao ar. Mas ela não estava nem aí mais, ele dizia para ela coisas como essa só para a afastar, e não ia ser ela que ia ficar levando patada.

Porém ainda se sentia desconfortável, pois o clima estava tão bom antes.

– Não diga o nome dele desse jeito. – Ela abaixou o olhar, derrotada. Engoliu seco quando não conseguiu definir o tom da voz de Talon.

– Desse jeito como? – Ela recuperou a postura e levantou o olhar, o encarando com um brilho desafiador nos olhos. – Com veneno em meus lábios?

– Você começou a agir igual uma vadia. – Talon expôs a sua opinião.

– O que tem por trás desse tom de reprovação? Caso não se lembre, foi você mesmo quem o matou. – Ela viu as pupilas castanhas serem cerradas um pouquinho. Talon tentava entender o que estava por trás daquela postura arrogante.

E assim o verde e o castanho quase se misturaram. Ambos tentando desvendar o outro.

Talon a pegou pelo braço direito e a sacudiu. Ele observava cada detalhe de seu rosto e com isso ele viu quando ela fechou os olhos rapidamente, franzindo a sobrancelha. Talon estranhou aquilo e olhou para o braço fino em suas mãos, se perguntando se aplicara muita força.

Então ele vê um pouquinho de sangue em sua mão e a solta imediatamente, buscando os olhos verdes e com um brilho culpado nos seus.

Mas ele não diz nada.

– O quê? – Katarina se cansa do silêncio. – Você achou que eu ia mesmo sair ilesa depois de lutar contra a louca das metralhadoras?

– A bala não está aí dentro?

– Foi só de raspão, Talon. – Ela coloca a mão sobre a ferida. – Foi quando eu subi em cima dela.

– Mesmo assim está bem aberta. Você precisa levar alguns pontos. – Ele vira de costas para ela e vê a sua mala. Ele tira um plástico onde havia uma agulha cirúrgica, a linha preta e a tesourinha. – Só não vá chorar.

– Mas o que tanto você traz aí nessa sua bolsa? – Ele balança o pacote no ar e a empurra na cama, fazendo se sentar. Sua face ainda permanecia séria apesar do tom de sua voz.

Ela percebeu nitidamente as máscaras.

– Eu não preciso que você me dê ponto algum. Não preciso da tua ajuda. – Ela ri, sentindo-se idiota por esperar algo dele. – Não quero que cuide de mim porque tocou em minha ferida. Eu também acabei de tocar na sua.

– Ela já se curou. – Ele responde seco. – E eu não vou fraquejar só porque você tocou em um ponto delicado, Katarina.

Ela engole seco e Talon pega seu braço. Com uma tesourinha feita para aquilo, ele pega a agulha e começa a passar entre a pele aberta, unindo as duas extremidades e costurando aquele vazio.

Ele observa as mãos de Katarina segurando o lençol com força, mas ele não a olha. Ele não quer fazer isso. Não quer ter que a olhar novamente e sentir pena por causa de uma ferida.

E ele sabe que ela também não quer ser olhada assim.

.·.

Quando ele terminou de dar os pontos, o silêncio reinou no quarto. Um maldito silêncio pesado, onde nenhum dos dois se atrevia a falar qualquer coisa.

– Como você teve certeza que era ela? – Ele se cansou do silêncio e o quebrou.

– Eu apenas vi um buraco que ligava o quarto dos dois.

– Bem observadora. – Talon soltou seu braço e Katarina o puxou para si.

Algo ainda estava travado em sua garganta, mas ela não sabia como o tornar sua voz.

– Obri—

– Não precisa me agradecer. – Ele a cortou. – Só fiz um favor que qualquer um faria.

– Você não é qualquer um. – Ela falou tão baixo que nem ela mesmo sequer ouviu.

– Eu também sei que você não deixaria qualquer um dar pontos em você. – Ele buscou os olhos verdes, mas ela apenas desviava o olhar.

Ela riu fraco, e Talon suspirou. As coisas pareciam ter se tornado novamente difíceis.

– Você não me olha. Não que eu precise disso, mas eu sinto que você está desconfortável. – Ele se levanta. – Se está assim, por que me chamou aqui?

– Você sabe o porquê. – Ela o olhou seriamente, tentando ignorar a vontade de desviar o olhar.

– Ah, então você já pode confessar que só me chamou aqui porque me queria na sua cama. – Ele tenta quebrar o gelo.

E consegue. Ele sempre consegue.

Katarina sentiu o sangue queimar com a frase. Talon tinha um sorriso divertido nos lábios, como se estivesse brincando com um brinquedo novo.

E apesar de ela ser o brinquedo, Katarina não resistiu a aquele sorriso.

Ela o puxou com força pela jaqueta e uniu seus lábios. Rapidamente o desejo ferveu o sangue de ambos com o mero toque e Talon abriu sua boca, dando passagem para a língua de Katarina passar.

Ah, ela admitia que sentia saudades.

Beijava-o com luxúria, sua língua sendo quente e irresistível. Talon passou as mãos pela cintura fina, aprofundando o beijo e dando adeus ao seu juízo. Seus lábios voltaram a guerrear, como não faziam há dias. Um beijo demorado onde os dois aproveitavam cada segundo.

Katarina soltou sua boca a procura de ar, mas Talon continuava mordiscando seu lábio com força, deixando-o mais vermelho que o normal.

– Eu me sinto como uma bomba... – Ela o puxou pelo rosto novamente para outros beijos. — ... um mero toque seu, e eu me sinto explodir.

No momento em que ouviu suas palavras, Talon a empurra com força contra o colchão e captura de novo os lábios que se separaram no caminho. Suas mãos largam a cintura fina e tatuam o corpo de Katarina.

Mas Talon passa a mão sobre a fileira de pontos e Katarina geme em sua boca de dor. Ele se levanta mais que depressa, encerrando o beijo.

– Esquece, você tá machucada. – Katarina se levanta um pouco e toma seus lábios novamente, dando beijos rápidos.

– Eu não vou aceitar ouvir essa frase de novo. – Ela ri entre os beijos que dá. Mas paralisa ao não ser correspondida. – O quê? – Ela falava contra seus lábios, com seu hálito quente causando arrepios pelo corpo de Talon. – Eu só levei alguns pontos.

– Eu não vou transar com você ferida. – Ele a afasta pelo braço, sem se importar em tocar nos pontos.

– Por quê? – Ela olha para a mão dele e franze o cenho. – Desde quando você se importa comigo?

– E eu não me importo mesmo. – Ele retira a mão, percebendo que aquele ato poderia dar um fim a sua fuga. – Mas nunca dei um ponto tão bonito quanto esse. Não quero o estragar.

Katarina ri nervoso.

– Essa foi a sua pior mentira, Talon. – Ele rola os olhos.

– Só aceita que hoje não vai ter. – Ele se levanta rapidamente e apaga a luz. – E se tentar me seduzir, eu volto para a rede.

Talon deita na cama e sente Katarina se encostando em seu braço, colocando a cabeça em sua clavícula.

– Vai querer dormir de conchinha agora? – Ele levanta a cabeça e encara onde o rosto dela estaria.

– Não, seu idiota. Mas a cama é muito pequena, parece que eu vou cair.

– Amanhã nós arrumamos. – Ele falou passando a coberta em seus corpos e tentando arrumar uma posição confortável onde envolvia Katarina estar quase grudada nele.

– Amanhã dois corpos serão jogados ao mar pela manhã. – Talon sente o hálito quente contra a pele exposta de seu pescoço.

– Sim... – Ele sussurra e percebe algo quente tocando sua pele.

Katarina está beijando seu pescoço, tentando o provocar novamente.

– Não resisti. – Ela ri contra aquela parte sensível ao perceber que ele travou. Talon rapidamente procura seus lábios e o puxa para si, mordendo-o com força.

– Eu também não.

E então, antes de qualquer outro ato vindo dela – ou até mesmo dele, ele solta seus lábios e vira seu rosto para o outro lado. Sua razão voltou à tona, lembrando-se que aquilo era apenas desejo.

Era só desejo, ele fazia ecoar em sua cabeça. E uma hora, o desejo se apagava.

Notas finais
Por que foges, Talon querido? ~~~~~~~~~~~ Enfim, outro personagem novo (não sei se vcs sem lembram né), ainda não sei se essa garota vai ter relevância na fic, tô me perguntando ainda.