A Dominação De Lâminas
5 How long, how long will I slide?
Notas iniciais
A Dominação de Lâminas
Os olhos verdes se abriram lentamente, não havia luz do sol, e sim uma lâmpada. Sua cabeça girava, enxergava duas vezes o mesmo objeto. Talon não teria coragem de drogá-la, teria? Ele havia sido revistado por inteiro quando chegara, tanto que estava quase nu quando ela entrou no quarto.
Katarina o procurou, olhava de um lado para o outro, e sua cabeça ainda pesava. O encontrou sentado do outro lado da cama, dormindo encostado no travesseiro. Levantou, andou até ele, e o observava tentando encontrar algo suspeito vindo dele. Quando ia o acordar, as pupilas castanhas se abriram para a sua surpresa.
— Por quanto tempo eu dormi? – Ela falou desviando o olhar dele.
— Acho que por uma hora... – Ele bocejou e levantou os braços, despreguiçando. – Não quis te acordar.
— Pois deveria, cão. Seu domador o aguarda.
— Não fui eu quem dormiu em serviço. – Ao dizer isso, levantou-se e foi em direção à porta, abriu-a e ficou esperando a ruiva que arrumava a bainha da espada no cinto. Ele a viu passar com um ar superior, mas mesmo assim com vermelhidão na face. A seguiu até que parassem em frente de uma porta de madeira, ela a abriu e o deixou entrar primeiro. Ao entrar viu o rosto impassível de seu pai, os olhos que não tinham mais nenhum brilho, pareciam um lago congelado.
— Quero que nos deixe a sós. – Ouviu a voz grossa falando consigo, abriu a boca em forma de protesto, mas seu pai lhe lançara um olhar reprovador. Saiu pela porta bufando, e a fechando com força.
— Sinto muito pela demora, Du Couteau. – Talon disse sentando-se em uma poltrona preta. O local era decorado com algumas espadas, inclusiva aquela banhada a ouro.
— Olhei vocês dois descansando. – O general se levantou, e ficou de costas pra Talon, observando os livros em uma prateleira atrás de si. – Servirá Noxus. Indiretamente, mas servirá, Talon.
— Estou disposto a pagar com o preço de minha derrota, Du Couteau.
— Me chame de Marcus. Não quero uma relação de subornador e subornado. Não te salvei para isso.
— Por que poupou minha vida?
— Há tempos tenho observado seu potencial, pode parecer confuso e meio doentio, mas estava aguardando sua ascensão. – O general falou enquanto virava e observava o rapaz.
— Ela que vai ser a minha escolta? – Talon apontou para a porta, e depois buscou os olhos do general.
— Pelo o que pude perceber, não mantive as informações sobre você em sigilo absoluto. Katarina te descobriu, e por mais que ela não tenha habilidades para tal ato, ela irá ver com os próprios olhos o potencial que você tem a oferecer. – O rapaz bufou e desviou o olhar. Era submisso, e tinha uma garota daquela de escolta. – Peço que tenha paciência com as atitudes vindas dela. Estamos em um conflito interno.
— Tentarei.
— Os homens que você matou... Tem o direito de ficar com aquilo que conquistou. O dinheiro, as armas, as bebidas, tudo. Quando voltarmos estará em seu quarto.
— Aonde vamos? – Viu Marcus andando até a porta, se levantou e colocou o capuz roxo.
— A sede do Alto Comando, ver um velho amigo. – Dito isso, saiu pela porta e Talon o seguiu. Deixando uma Katarina furiosa para trás.
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Não trocaram nenhuma palavra durante o percurso. Seria a primeira vez que o assassino entraria dentro do Alto Comando Noxiano. Ficava em uma montanha de forma peculiar: uma caveira. Havia um palácio em seu topo, e era para lá que se dirigiam. Não era muito longe da mansão já que a casa Du Couteau ficava em um patamar elevado da massa popular de Noxus. Enquanto passavam, o rapaz observava as ruas escuras.
Nunca mais poderia matar por vontade própria, ou poderia? Sentia-se castrado. Um pássaro em uma gaiola. Em um mundo onde não lhe pertencia. Marcus Du Couteau era um homem rico, tinha tudo o que queria, quando queria. Inclusive ele, aquela habilidade de planejamento que um irresponsável como Talon jamais teria.
Ele queria gritar, queria drenar o sangue de alguém, queria seu cigarro, seu álcool, sua casa e o conforto da única coisa da qual podia confiar: sua lâmina. Sua esperteza havia o traído no momento em que debruçara sobre o homem para quebrar-lhe o pescoço. Havia feito tantas idiotices nos últimos anos, quase havia sido morto diversas vezes, fugira da prisão inúmeras vezes. E agora tinha uma coleira ao redor de sua garganta, o guiando para onde ir. Guiando para um futuro glorioso para Noxus.
— Talvez amanhã você possa vir aqui para ver alguns terrenos próximos. – O general falou, tirando um Talon perdido em pensamentos.
— Como sabe disso?
— Já lhe falei. Eu sei tudo, até mesmo sobre Gauthier, e a filha.
— Foi você que o virou contra mim?
— Não virei ninguém contra você. Foi ele mesmo que decidiu isso, quando começou a dever dinheiro ao Alto Comando.
Ao dizer isso, chegaram ao portão de entrada. O general se apresentou, abriram os portões, e eles puderam prosseguir. Havia um declínio grande até a parte do palácio, mas não dava pra perceber. A paisagem que estava ao redor deles não deixava, era sem duvida, deslumbrante. Dava pra ver uma Noxus inteira dali. Entravam pela porta, e o general foi guiando-o para uma sala enorme. Havia tropas em todos os lugares, não entrava quase nenhuma luz. A escuridão predominava aquele cômodo.
— Tão confortante. – Talon soltou suas palavras irônicas no ar e logo após ouviu passos mancos em direção aos dois.
— Se você se abrir para Noxus, ela lhe confortará em resposta. – O rapaz avistou um homem mancando de estatura baixa, se apoiando em um pedaço de pau.
— Jericho Swain! – O general pôs se a falar, se aproximou do homem e trocaram um cumprimento. – Quero que conheça Talon.
— Esse é o rapaz do qual falava, Marcus? – Swain fez um sinal para que eles o seguissem pelo corredor.
— Sim. Talon, esse é Swain, o mestre da estratégia. Pelo o que pode ver, é um velho manco. – Marcus falou enquanto ria, e o homem riu junto. Talon apenas os ignoravam, perdido em pensamentos e admirando o local. Entraram no que parecia ser um cômodo afastado. Um escritório bem confortável, revestido de prateleiras com livros. Havia dois sofás pretos no qual se dirigiam. Talon e Marcus sentaram em um, e Swain em outro. O rapaz observava a janela quando um corvo entrou por ela, via seu próprio reflexo nos olhos vermelhos do corvo, a cor sangue.
— Beatrice! – Swain estendeu o braço esquerdo e o corvo pousou em sua mão. – Aceita, Talon? – Ele colocou whisky em um copo e ofereceu ao assassino. Ele pegou e tomou em um só gole.
E rápido como um piscar de olhos, Talon ouviu som de lâminas, enquanto uma adaga ia ao encontro das costas do general, rapidamente se moveu até ali, pegando-a com a mão.
— E Swain tenta me matar novamente. – Foi a vez de Marcus virar a bebida.
— Boa pegada. Mas aqui nessa sala, pode abaixar sua guarda. – O mestre sorriu, seus olhos eram iguais aos olhos do corvo, Talon olhou para adaga e suas mãos sangravam. Estava afiada.
— Escolhi bem, não escolhi, Swain?
— Passou no teste.
Swain e Marcus continuaram conversando, mas Talon sabia que cada movimento seu era captado por Beatrice, então ele bebia o que lhe davam para tentar ignorá-la. Depois de um tempo, via um pouco turvo, mas ainda conseguia raciocinar. O general havia se despedido, e o assassino fez o mesmo.
Andaram até a mansão e ao contrário da ida, na volta eles conversavam sobre as armas mais fáceis de combate corpo-a-corpo. Ao chegarem, o general disse que tomaria um banho e desceria para o jantar. Talon ia para seu quarto quando Katarina bloqueou sua passagem.
— Voltaram. – A ruiva afirmou enquanto dava voltas em torno de um Talon parado. – O que Swain te disse?
— Por que tem tanto interesse em mim, garota? – Ele fechou os olhos e os coçou. Via duas Katarinas. Ela o puxou pela camisa, e ele quase foi de encontro ao chão. Percebeu que o ambiente havia escurecido e luzes foram acesas. Estava em seu quarto, viu duas mochilas em cima da cama e depois elas se tornaram uma. Merda, havia bebido demais. – O corvo irá me observar.
— Ele lhe disse isso? – Ela o soltou antes de falar, se virou e olhava o próprio reflexo no espelho e viu as costas nuas de Talon. – Por que está tirando a blusa, idiota?
— Fiquei com calor. – O assassino a olhou, e jogou a blusa em um sofá bege que havia perto da porta.
— Só por isso começa a arrancar a roupa?
— Deve ser. – Ele abriu a mochila e começou a revirá-la, estava cheia de moedas. – Sabe, esse vermelho na sua face combina com você.
— Bastardo! – Ela tentou o ignorar. – Ele te disse isso?
— Não tem graça chamar de bastardo alguém que não tem pais. – Talon revirou a mochila novamente e encontrou uma garrafa de rum. Estava fodido já, mas queria beber mais. Sem ela perceber, pegou uma navalha no cinto de Katarina, abriu a garrafa e ofereceu a ruiva. – Insinuei por contra própria. O corvo me observará.
Ela ignorou a bebida, quente deveria ser horrível. Ele a virava garganta abaixo, via-se as gotas escorrendo pelo papo dele. Em sua cabeça passava que nunca mais teria sua liberdade, seria melhor a morte do que aquela prisão. Enquanto Marcus e Swain se falavam, Talon planejava o seu suicídio.
Ele pegou a navalha da cama e segurando-a firme, cercou Katarina na parede. Encostou a lâmina na garganta branca e talvez o seu erro foi observar aquela imensidão verde. Sua pele nua a tocava, sentia a respiração calma vinho dela. Os cabelos cor de sangue estavam um pouco bagunçados. Não conseguiria matá-la, não conseguia desviar as pupilas castanhas das verdes. Havia algum tipo de mágica que o impedia. A face branca sem nenhum arranhão, os lábios carnudos entre-abertos mostrando um pouco dos dentes brancos. Talon realmente não conseguia. O olhar dela não era superior, não era fingimento, era apenas um olhar que refletia solidão.
Mas depois, sentiu uma descarga elétrica por seu corpo, a visão ficou escura e desmaiou na cama.
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