Uma, duas, três rápidas batidas na porta foram o suficiente para acordá-la, no mínimo, fazia três horas desde que tinha adormecido naquela banheira, a água estava fria, o banheiro gélido e já escuro, levou uma das mãos molhadas ao rosto apoiou e a outra à beira da banheira para se apoiar tão branca quanto à própria pele e só então percebeu o quão parecida estava com uma uva passa.

—Já estou indo! – ela gritou para quem quer que estivesse á porta

Quando se levantou teve a sensação de ter cada nervo, cada centímetro do corpo congelado e começou a tremer imediatamente, enrolou a toalha no corpo o mais rápido que conseguiu e foi até a porta procurando com os olhos a mala pelo quarto e a encontrou aos pés da cama, bufou antes de correr até ela deixando as roupas que despira mais cedo no chão, se agachou com todo seu ser protestando de frio ao lado dela

—Quando foi que esfriou tanto? – mais três batidas rápidas na porta – Apenas aguarde! – ela passou a resmungar para si mesma enquanto revirava a mala o mais rápido possível — Vai morrer se esperar?

Aos poucos foi encontrando o que precisava e se amaldiçoou mentalmente por não ter feito isso antes, uma calcinha, um sutiã, uma leggin preta, meias e luvas, uma camiseta larga e uma jaqueta velha e enorme, jogou tudo sobre a cama, fechou rapidamente a mala com as pontas dos dedos praticamente congeladas e as unhas completamente roxas pelo frio, a cada passo que dava os pés ardiam com o toque do chão, se enfiou o mais rápido que pode nas roupas,com a base dos cabelos ainda molhados o pescoço se arrepiava a cada toque suave do ar gélido, os soltou para tentar aquecê-lo, compridos com a raiz escorrida e pontas em perfeita espiral e negros totalmente ao contrário dos olhos cinzas que eram quase transparentes de tão claros, como dois diamantes, por fim se dirigiu finalmente a porta ainda tremendo na esperança de aquecer as roupas o mais rápido possível.

—Tudo bem, quem é e o que quer?

—Capitã? – a voz era calma e até mesmo a respiração por trás da porta parecia controlada, calculada

—Alícia? – ela destrancou a porta, mas não abriu – Algo errado?

—Sim e não – aquilo foi o bastante para que abrisse a porta

Abriu espaço para que Alícia passasse por ela, olhou para os corredores, ninguém, ouviu, nada, trancou a porta e aguardou mais alguns instantes antes de se aproximar dela que já tinha se sentado na beira da cama. Colocou-se a sua frente de braços cruzados, aguardando que ela dissesse o que já tinha certa suspeitas, porém o olhar da ruiva se deteve na bagunça dentro do banheiro, ergueu uma sobrancelha evitando abrir a boca, Lizzy apenas bufou antes de fechar a porta e se apoiar nela.

—Invadiram nossos quartos enquanto dormíamos – um sorriso começava a se formar em seu rosto enquanto Lizzy continuava uma mascara de beleza fria – Eles caíram direitinho, eu tinha estranhado o fato de você não ter pedido para colocarmos as armadilhas ou trocarmos as fechaduras, mas não questionei

—Alícia, você mais que os outros, sabe que não faço nada sem um propósito e é por isso que não devem questionar minhas ordens ou fazer qualquer coisa sem que eu tenha ordenado, enfim, agora – ele se afastou da porta onde estava apoiada para se aproximar e baixar ainda mais o tom de voz –Devem estar achando que não fazemos ideia do que fizeram e vão tentar novamente, aquilo foi um teste para saber se poderiam voltar e vasculhar quando bem entendessem, por hora vamos deixar que pensem assim, que entrem mais uma vez, quero ver até onde isso vai, depois vamos jogar da mesma forma – Alícia fez uma pequena reverencia com a cabeça concordando – Algo mais?

A mulher se endireitou deixando o rosto sério e encarou Lizzy de cima a baixo, parou em seus olhos, calculando se deveria falar

—Sei que não deveria estar falando sobre isso – o olhar ainda mais sério de sua capitã caiu sobre si

—Então não fale – ela estremeceu e passou a encarar o chão até encontrar forças para continuar falando

—Você é a mais nova de nós, é nossa comandante e por isso nos preocupamos, eu me preocupo...

Ela fez uma pausa ao erguer a cabeça e encará-la novamente, apesar do olhar impassível e da postura bruta, olhando daquela forma, se não soubesse de tudo o que ela era capaz, diria que era apenas uma garota, na maioria do tempo quando estava sem aquele uniforme escrevendo relatórios, parecia até mais nova

—Nós matamos pessoas sem problema algum é verdade, mas ainda temos uma noção de que te envolver nesses jogos dele...

Os lábios repuxaram para trás enquanto ela agarrava a borda da cama, como se evitasse voar no pescoço de qualquer lembrança que estivesse passando por seus olhos, Alícia encarou sua capitão mais uma vez um sorriso parecia se repuxar ali, mas ela deixou que a imediata continuasse:

—Não acho que deveríamos voltar para ele... Estamos longe o suficiente para que nunca mais nos ache! Estaríamos livres

—Esta me dizendo que quer fugir do seu contrato? – ela se segurava para não rir – Me usando como motivo?

—N-não

—Escute bem – ela a pegou pelo queixo fazendo-a encará-la – Essa foi uma das suas piores desculpas, já inventou muitas melhores, se preocupar comigo? A única coisa que nos mantêm juntos é um contrato infeliz que tem nossas vidas nas linhas pontilhadas – ela se aproximou ainda mais apertando o dedão e o indicador em seu rosto fazendo a ponta dos dedos ficarem brancas – Mas vão em frente, fujam – ela a soltou e recuou um passo – Vou adorar caçá-los, cortar um por um por tudo o que tive que aguentar até agora, sabe, se não tivessem sido estúpidos e pegos, essa unidade não existiria e eu estaria onde deveria, acorrentada ou em uma forca, eu dei a ele especificações, um tipo de pessoas específicas com quem eu trabalharia, jamais achei que ele seria capaz de pegá-los – Alícia fez uma careta

—Não pode me culpar por tentar – ela deu de ombros antes de levantar

Era bem maior que Lizzy além de mais velha, mas tratou logo de mudar o tom de voz e a postura, ali ela era bem inferior, dois anos foram mais que o bastante para que a garota mostrasse aos quatro que merecia seu medo e respeito

—Estaremos de pé ao nascer do Sol para o reconhecimento, equipamentos, armadilhas, tudo já esta pronto, enquanto as armadilhas dos quartos... ?

—Como eu disse, vamos deixar que pensem que somos tão idiotas quanto eles pensam, depois eu me entendo com eles e quem sabe intero vocês na diversão, por enquanto – ela deu as costas caminhando em direção a janela onde a neve ainda caia e o sol tinha praticamente sumido no horizonte atrás da montanhas que rodeavam a região – Esta dispensada e espero que não aja mais nenhuma gracinha da sua parte, capiche ?

—Sim... – com uma leve reverencia ela se afastou para a porta, mas parou subitamente – Dois anos e você serve á ele como um animal de estimação, sempre me perguntei o que aconteceu naquele salão, quando todos nos conhecemos e você se recusou a servi-lo, o que realmente aconteceu, capitã? Ele lhe prometeu ouro? Ou o trono? – uma risada abafada e contida

—Tenho a cara de quem precisa de ouro? Ou de alguém que quer um trono para ficar ainda mais acorrentada? Talvez eu apenas goste de ser o monstro de estimação dele, de poder matar sem me preocupar, agora, sai – o trinco da porta foi o único som por alguns instantes – Alícia?

—Sim?

—Tenha em mente que essa é a última vez que permitirei esse tipo de afronta, se necessário a cabeça de um de vocês pode acabar nos portões daquele maldito palácio como exemplo

—Sim, perdão pela audácia, não vai se repetir – a porta se fechou e meio segundo depois Lizzy já a tinha trancado para dormir

Pouco depois Rogue apareceu para entregar os relatórios que ela havia pedido mais cedo, era um arquivo extremamente pequeno, em poucos minutos já tinha lido e decorado as informações mais relevantes.

Com o quarto completamente escuro, as nuvens cobriam qualquer luz que a lua pudesse proporcionar, a cama era mais macia do que podia esperar, depois de procurar por um tempo, tinha encontrado cobertores grossos feitos com a pele de algum animal que ela não reconheceu e não se importou, as vezes sentia que ao dormir, algo deveria tomar sua consciência pelas coisas que tinha feito, mas sempre dormia como uma pedra.

Já fazia um tempo que não se importava, essa parte que um dia sentiu qualquer coisa tinha ficado em Kishi o reino vizinho ao qual ela obedecia agora, lá vivi o povo Luna governados pelo Rei Anslo, irmão do rei dos Solli, antigamente os reis eram escolhidos por seu poder, e o poder escolhia seu rei, o povo Luna tem compatibilidade com o luar, a lua é o regente deles e aquele que os governa é chamado de Clamador do Luar é comum eles term os olhos um pouco acinzentados, mas nada comparado com os de Lizzy e os Sollis se dão bem com o dia e sua luz, seu rei normalmente é tratado como um Deus e único, os reinos sempre se deram bem, aliados desde sempre através da afinidade com a luz, agora eram tempos difíceis e uma guerra estava cada vez mais próxima, a única certeza era que Ternna o reino da Herdeira das Sombras era o maior alvo. Com o passar dos anos a magia começou a desaparecer somente os governantes, “os merecedores” a tinham, seu povo era extremamente dependente dela e quando ela se foi por completo, todos caíram, reinos inteiros faliram, outros acumularam dividas imensas e para pagar começaram a exigir impostos de seu povo e quando não podiam pagar, eles se tornavam a moeda, eram vendidos como escravos para os cobradores, a fome e a miséria se instalaram e a cada dia ódio e ignorância aumentavam, qualquer um que tivesse magia, era considerado traidor, era caçado e morto brutalmente por abandonar e apoiar a desgraça de seu próprio povo e então as Bestas imergiram, como uma carta final e cruel do irônico destino, Lobos feitos de pura Escuridão, quase do tamanho de um urso, mas não impossíveis de matar e assim Catherine, a Herdeira das Sombras, foi incriminada pelo surgimento repentino dos animais, o problema é que eles já existiam, apenas não atacavam com frequência, eram mais uma lenda, agora tinham visto uma oportunidade, as pessoas precisavam de alguém para culpar sobre tudo aquilo e encontraram, a rainha em resposta, simplesmente se fechou para o resto do mundo que agora desabava.