A Dinastia dos Hawklight
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Argame visitava o novo rei com bastante frequência, mal saía da capital de Aschë. Na verdade, passava mais tempo ao lado de Leonard do que do seu povo e de sua família, e sempre que podia, fazia questão de lembrar o jovem rapaz da cara de assustado e desesperado que ele havia feito durante a cerimônia de coroação improvisada.
— Pode se preparar para algum discurso, aquilo foi apenas uma enrrolação. – Comentava Patrick, enquanto preparava o treinamento dos novos recrutados ao exército da Guarda – Vamos fazer uma cerimônia de coroação verdadeira e com todos os luxos, mimos e moças que o rei merece.
Leonard tentava ver alguma necessidade de fazer todo um cerimonial novamente, ainda mais incluindo luxo. Não conseguia enxergar algum ponto positivo ou útil nisso tudo. Ariel era o que mais gostava da ideia, com sua jovialidade e ânimo exacerbado com situações bobas ou patéticas, disse que Leonard era o rei mais forte que já havia visto.
Tirando meu pai. Pensava Leonard. A dor da morte do seu pai ainda era forte, ele sentia o mesmo sofrimento de semanas atrás. Estava sempre ocupando sua cabeça nas aulas de filosofia, nas quais ele aprendia sobre a melhor maneira de governar, história, que ele lia tudo sobre os antepassados e feitos notáveis. Os capítulos que ele mais gostava eram aqueles que lhe mostravam como o reino havia se formado e as histórias de cada parte das terras ganhara suas características. E nos treinamentos para aprimorar suas técnicas de luta com a espada e sua mira com o arco, ele parava de pensar em tudo. Essa era a parte que ele realmente mais amava, se tornava melhor a cada dia, e se sentia pronto para a guerra.
A espada que Leonard usava já não lhe servia mais, estava muito pequena e gasta. Então, agora como novo Rei, encomendou uma espada nova com o mesmo forjador que fizera a espada de seu pai. Era um velho com mais de setenta anos, mas que tinha uma mão forte e firme o suficiente para forjar as melhores armas de metal que o reino poderia ver. Além de muito equilibradas, eram leves e fáceis de manusear, sem perder a força ou a resistência durante uma luta de verdade. Ariel também encomendou uma nova após recusar-se a usar a velha lâmina cheia de sulcos que pertencera a Leonard.
— Eu não quero essa porcaria cheia de buracos e riscos. – Reclamava para o irmão. – Faça uma de ferro para mim, ou de algum metal mais leve.
Então, as espadas ficaram prontas em menos de algumas semanas. A de Leonard parecia ter sido projetada pelos deuses mais talentosos. Era feita de uma liga de vários metais, muito leve e muito forte como ele queria. A lâmina reluzia como prata polida e o cabo tinha detalhes um ouro e prata, além de uma enorme pedra de rubi no gume. O desenho do cabo encaixava perfeitamente na mão do novo Rei. A espada de Ariel era feita do mesmo material, mas era menos rica em detalhes e em luxo.
Tuomas passava todas as manhãs chorando. Tanto pela morte do pai quanto por que não podia ter uma arma igual a dos irmãos. Isso estava fazendo o garoto ficar rancoroso e inseguro, mas apenas Argame percebia isso, então, apareceu com um presente em algumas de suas visitas ao rei.
— Pequeno Tuomas, já está na idade de aprender a lutar. – Disse, puxando uma sacola estranhamente ajeitada para perto. – Aqui está!
Tuomas tirou um pequeno machado feito de madeira leve e nem um pouco afiado. O garoto riu e pulou de alegria, sacudindo a pequena arma pelo ar.
— Agora já posso lutar com meus irmãos? – Perguntou para a mãe.
— Vá lá fora, quem sabe eles não te ensinam algo.
O garotinho concordou. Saiu correndo pelos corredores até o campo de treinamentos, onde os irmãos estavam. Argame, Elene e Kristin ficaram sozinhos no recinto.
— Elene, quantos anos têm os três? – Perguntou Kristin.
— Leonard está perto de fazer dezessete, a mesma idade que você, Ariel tem quatorze e Tuomas tem apenas seis.
Ela assentiu com a cabeça. Depois ficou ouvindo os dois adultos conversarem sobre estratégias de como deixar os soldados mais felizes e mais satisfeitos antes de irem batalhar. Vários criados limpavam o chão e outros consertavam a fonte que ficava no centro.
Todos pararam quando viram Leonard ajudando Ariel a andar entrando no salão, com Tuomas rindo logo atrás.
— Criança idiota, se eu pudesse arrancava essas linguiças gordas nas mãos que você chama de dedos um por um. – Bradava Ariel, revoltado, enquanto tentava não encostar a perna no chão.
Ariel estava com um hematoma disforme na canela e um ferimento que sagrava bastante. Leonard ria do irmão que reclamava de dor e fazia ameaças cada vez mais infundadas ao irmãozinho.
— O que aconteceu? – Perguntou Elene se aproximando e ajudando Leonard a carregar o irmão.
— Tuomas chegou com uma machadinha dizendo que queria aprender a lutar. – Explicava o mais velho, risonho. – Ariel se propôs a ensinar, mas o baixinho quebrou a machadinha na canela dele.
Todos riram, e Tuomas soltou uma risada ainda mais alta. Leonard não havia reparado na presença de que estava ali na sala. Quando viu Argame e Kristin, sentiu sua pele ficar quente novamente e apenas os cumprimentou com um rápido aceno de cabeça, tentando e vão não repassar a vergonha que estava sentindo.
— Deixe-o aqui. – Disse a mãe dos garotos. – Tuomas, vá buscar algo para seu irmão colocar na perna.
Leonard largou o irmão perto da fonte e saiu. Kristin foi logo atrás dele, desapercebida.
— Como Tuomas quebrou aquilo na perna de Ariel? – Perguntou quando eles chegaram à varanda do palácio.
— Não sei. – Respondeu um pouco sem jeito e assustado. – Tuomas deverá ser um garoto tão forte quando os outros da família.
— Modéstia passou bem longe desse seu comentário, senhor rei.
Os dois riram. Leonard a levou para a torre do palacete, onde costumava ficar para olhar o por do Sol. Passaram o restante do dia jogando xadrez e conversando sobre livros que já haviam lido.
— O senhor já leu muitos livros pelo que vejo! – Comentou Kristin.
— Sim, mas pare de me chamar de “senhor”, isso aumenta em alguns dez anos a idade que tenho, e faz parecer que… Você não é minha amiga.
Eles riram. Levantaram-se e assistiram ao pôr do sol. Leonard nunca havia se sentido tão bem ao lado dela.
— Sabe Leonard. – Disse ela, agora em um tom muito mais formal enquanto se encostava ao guarda-corpo. – Acho que você será um grande Rei. Talvez até maior do que o seu pai.
Aquele comentário gerou um ligeiro desconforto em Leonard. Ouvir falar de seu pai ainda era difícil para o rapaz, principalmente quando fosse para fazer possíveis comparações.
Kristin percebeu isso.
— Desculpe. – Disse ao novo Rei. – Não quis te colocar em uma situação difícil, sabe… Comparar e tudo mais.
— Tudo bem! – Respondeu. – Acho que não posso ser melhor que meu pai. Ele era um homem incrível.
Kristin assentiu.
— Você também pode ser Leo. – Ela nunca o chamara assim. – E será.
Ela sabia que Leonard não havia superado por completo a morte do pai. Ariel lhe contava que as únicas coisas que o faziam feliz era pensar nos treinamentos, no reino e numa família que ele iria criar para prosseguir a dinastia.
Leonard estava com um olhar perdido. Parado no guarda-corpo da varanda da torre. Kristin encostou-se ao seu lado e observou a mudança de coloração do céu. Estava avermelhado próximo ao horizonte e azul escuro logo mais acima. As primeiras estrelas começavam a surgir como pontinhos que piscavam no céu.
A moça sabia que ele nutria por ela uma paixonite que tinha tudo para ser incentivada. Ela também sentia algo por ele, não era por menos.
Além do caráter digno do nobre que ele é, Leonard era um rapaz diferente de todos os outros de vários reinos. Igualmente seu pai, tinha cabelos pretos como a noite, levemente ondulados, mas não os deixava crescer cacheados. Os olhos eram grandes e penetrantes, da mesma cor que seus fios. Ambos contrastando com sua pele branca. Ele era grande para sua idade, com mais de 1,80 metros, impunha respeito aonde quer que chegue, além de força física.
Embora grande e bruto em batalha, Leonard era um típico cavalheiro. Aprendera com seu pai como tratar as pessoas, principalmente as mulheres. Sempre era gentil e delicado. Sério quando necessário, aprendeu quando usar suas qualidades mais gritantes.
Kristin colocou suas mãos sobre as dele, que estavam apoiadas no ferro da grade. Ele a olhou desconcertado enquanto ela esboçava um sorriso. Ambos estavam absolutamente envergonhados com a situação, mas o interesse de Leonard somente foi mostrada de fato ali, quando ele virou e a beijou na boca.
Naquele momento, Leonard superou em parte toda a timidez e a insegurança. Envolveu–a com os braços fortes e a manteve perto em um abraço quente e demorado, o qual nenhum dos dois estava dispostos a desfazer. Até que por fim, Leonard falou.
— Sabia que hoje eu tenho uma certeza. – Disse ele, acariciando seu rosto com o polegar. – Eu tenho certeza que você seria uma ótima rainha.
Ela sorriu debilmente. Suas bochechas estavam mais rosadas e ela tentava desviar o olhar.
— Só pelo reino que você ficaria comigo?
— Não. – Respondeu. – Você também seria uma ótima esposa, e uma mãe muito amada
Kristin estava sorrindo como boba. Ela tinha tanto a dizer. Mas as palavras não saíam. A única coisa que ela fazia era sorrir.
— Não vejo a hora de poder contar isso ao meu pai. – Comentou ela. – Mas vamos deixar isso para a próxima visita que eu fizer aqui. Pode acreditar. Não vai demorar.
Leonard riu. De fato, do jeito que ele conhecia Argame, o homem não tardaria a voltar. Mas agora ele estava chamando a filha de volta ao lugar que eles estavam. Provavelmente para embarcarem de volta a Nigtan.
A comitiva de Argame partiu já com a lua iluminando o caminho. O clima estava frio e seco, apesar da manhã chuvosa. Kristin estava usando várias peças de lã e couro que Leonard havia emprestado. Após despedirem-se de todos, os dois entraram na diligência puxada por fortes cavalos de tração, já acostumados com longas viagens e bem alimentados. O trote dos cavalos fora se afastando, até o momento que não era mais possível ouvir o andar dos equinos.
De volta ao castelo, Leonard encontrou Ariel deitado e gemendo de dor enquanto os médicos do reino continuavam tratando do ferimento.
— Como você é mole Ariel! – Zombou Leonard.
— Cale-se Leo. – Advertiu – Tenho certeza que posso vencer você num torneio.
— Veremos na primavera, sabe, teremos uma competição, e eu vou poder te derrotar na frente de todos. – Desafiou.
Ariel concordou em disputar, mas Elene interviu na discussão para que eles não começassem a batalha ali mesmo.
Embora houvesse uma constante disputa entre os irmãos, eles dois eram muito unidos. Passavam dia noite treinando e conversando. Ariel era a única pessoa que já estava sabendo sobre o que Leonard sentia por Kristin, e era o que mais apoiava.
Ariel adorava Kristin. Ele a considerava a melhor cunhada do planeta. A moça ensinou-o a gostar de romances clássicos, de filosofia e temas sociais, o instruíra sobre como jogar xadrez e outros jogos de estratégia. O que ele mais gostava era que ele já estava usando o que aprendera com o irmão nos treinamentos em campo de batalha.
Mas claro, como um bom irmão mais novo, Ariel também adorava fazer gozações com o irmão. Leonard aguentava firme na maioria das vezes, mas perdia a paciência depois de um tempo e partia para cima do irmão.
***
No dia seguinte, Leonard acordara com a luz do Sol da manhã no rosto. Era um começo de dia bastante frio. O céu estava claro e alaranjado. Uma brisa suave fazia os pelos dos braços do rapaz arrepiarem-se.
Leonard estava sem fome. Saiu do palácio logo assim que colocou suas vestimentas de treinamento. Naquele dia ele tinha aulas de linguagens e treino de arco, também iria aprender a tocar alaúde e flauta. Ele particularmente não gostava de tocar, mas apreciava quando tocavam. Isso o acalmava e o trazia boas lembranças.
O músico que se apresentava na praça do palácio sempre atendia aos pedidos de Leonard, que sempre requeria uma música chamada "Canção de mim mesmo", a letra dela lhe fazia relaxar e pensar com mais clareza. Entre muitas outras, essa era a qual ele mais apreciava, também pedia outras interessantes e românticas, para sempre se lembrar de Kristin e seus modos mais que delicados.
Passando pela porta e atravessando os jardins, Leonard não via a hora de conhecer os novos exércitos que Patrick havia treinado. Segundo ele, os rapazes estavam mais fortes e aprenderam técnicas novas bastante rápido. A soma dos exércitos já estava quase repondo as perdas nas batalhas do oeste. A Evas Invicta também estava se reconstruindo aos poucos e começando a andar com as próprias pernas.
A Evas Invicta não tinha apenas um exército vitorioso de soldados. A Legião do norte também fazia fortunas com mercadores. Vendiam de tudo, armas pequenas, grãos, roupas, em todos os lugares, no norte ao sul, do leste ao oeste, eles movimentavam uma enorme frota de carruagens de transporte tanto de cargas quanto de pessoas, que aumentavam sua própria economia e seu poder aquisitivo.
Leonard saiu tranquilamente dos jardins do palácio. Mas sua calma passou assim que viu três cavalos se aproximando rápido. Em um deles, Argame e Kristin pararam de frente ao rapaz.
— Meu jovem, entre agora, precisamos conversar. – Disse Argame. Seu tom era urgente. – Vocês três ficam aqui. – Disse aos soldados que desmontavam de seus cavalos.
Argame atravessou os jardins a passos largos e rápidos. Subiu as escadarias que levavam ao salão na entrada do palácio e parou. Leonard pensou que ele fosse falar do relacionamento entre ele e Kristin.
— Rapaz, você é Rei agora. – Começou – Não pode ficar sem saber do que acontece no seu reino, então eu vim aqui lhe falar.
Leonard estava parado sem entender onde Argame queria chegar.
— Temos um problema nas nossas fronteiras. – Prosseguiu – Fomos assaltados, mas conseguimos voltar até aqui sem sermos perseguidos.
—Quem fez isso?– Perguntou Leonard.
— Foram homens, mas devem ser subordinados de Karyl. Seria melhor se você mandasse alguns desses novatos até lá para espantá-los.
— Eu já estava indo para o quartel, fique aqui com Kristin e rearranje as coisas para viajarem, eu vou até lá e mando algumas tropas.
Argame deixou Kristin no palácio, mas acompanhou Leonard até centro de treinamento. Chegando lá, encontraram Patrick ensinando estratégias a um grupo de jovens soldados.
— Leo! – Disse num tom amistoso – Argame, o que lhes devo a visita?
— Temos um grupo de bandidos fechando algumas fronteiras. – Disse Argame, sério – A fronteira em questão é com a província do norte. Eu estava voltando para Nigtan quando me deparei com eles, são muitos acabaram matando alguns dos meus soldados e roubaram minha mais bela carruagem.
— O que exatamente eles queriam?
— Acho que só causar confusão, mas temos que ir lá. Vai que eles são subordinados de Karyl.
— Concordo. – Disse Patrick. – O que acha Leonard?
Leonard concordou também e escolheu a dedo um grupo de homens que saíram quase imediatamente para tratar do problema.
Depois de eles partirem, outro grupo chegou com uma carroça carregada de um objeto estranho. Parecia muito pesado. Era cilíndrico, feito de um grosso metal preto e fechado na parte de trás, onde tinha rodas grandes de madeira para ser movido.
— Que diabo é isso Patrick? – Perguntou Leonard.
— Isso? Isso é a mais nova invenção daquele grupo de malucos que você contratou. – Explicou. – Números e mais números, alguns sem braço e é isso que eles mandam para gente.
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