A Dinastia dos Hawklight
4 Capítulo 4
Notas iniciais
No palacete litorâneo na cidade de Telerude, Karyl fora acordado pela sua esposa após ela ter aberto a janela. O Sol bateu forte no seu rosto. O homem abriu seus olhos devagar.
— Bom dia senhor rei – Disse Julianne, sem afeto algum na voz.
— Estava. – Respondeu Karyl.
Julianne Carte já foi um dia uma moça muito bela. Ainda enquanto jovem, seu pai, Rei de Maysten e amigo fiel de Karyl, a ofereceu para ser rainha e prover um herdeiro. Karyl realmente tinha afeição pela moça na época em que a conheceu. Ela tinha apenas dezenove anos e namorava um plebeu com a mesma idade. O rapaz foi condenado à forca por Harllan e o casamento de Julianne e Karyl foi marcado o mais rápido possível. Ela nunca o amara. Nem sequer gostava de ficar perto dele e nutria um ódio pelo pai que duraria a vida, mesmo que esta fosse curta.
Julianne tinha a aparência semelhante à de seu pai, olhos castanhos muito escuros, cabelos negros e lisos e pele bastante branca. Isso era antigamente, hoje em dia, após ataques doentios de ciúme, escravidão sexual e muitas outras crueldades que Karyl cometia, a mulher já estava com a aparência cansada. Cheias de cicatrizes e marcas do sofrimento de alguns anos. Agora ela estava com vinte e sete anos e achava que já tinha vivido demais, não aguentava ser submissa, ser considerada inferior e só mais um mero objeto, principalmente agora que já tinha dado a luz a uma garota, uma bela menina que Karyl educava para ser nojenta e repugnante como ele.
A menina, que recebeu o nome de Sareen, não tinha uma infância brincando com as outras crianças do reino. Ela tinha treinamentos que apenas garotos crescidos deveriam receber, com espadas e escudos. Aprendera com o pai que os escravos trazidos da guerra em Aschë deveriam ser tratados como lixo que eles realmente eram e qualquer atitude que desagradasse deveria ser punida com tortura.
— Já deu comida para Sareen? – Perguntou Karyl, colocando sua bainha e sua roupa de batalha.
— Já sim – Respondeu Julianne olhando pela janela e observando o imenso mar que se estendia. Além dele estava Angris, um reino que não ajudava Karyl e poderia ser sua liberdade. Enquanto isso não acontecia, ela tentava sobreviver sem irritar o “marido”.
— Ela está fazendo o que? – Perguntou, limpando a espada.
— Deve estar matando algum cachorro ou afugentando escravos impertinentes.
Karyl não falou nada sobre isso, mas virou-se para ela e avançou a passos pesados. O coração de Julianne disparou de medo a repulsa.
— Acho bom você estar preparada até quando eu chegar. – Disse, segurando seu queixo com as mãos ásperas – Tenho muito que comemorar. Mesmo que nada dê certo.
Ele saiu e a deixou sozinha no quarto. Julianne não aguentou e correu para o banheiro de empregados mais próximo. Lá, vomitou a comida que havia ingerido no café da manhã. Ela fazia tudo com os empregados, desde tomar o café apodrecido que lhes era servido até usar os banheiros sujos e mal cuidados, por que seu marido não permitia que ela agisse como semelhante a ele. Ela era mesmo tratada como lixo.
Aquele dia era especial para Karyl. Harllan, Ryo, Anne e Marco iriam se reunir para discutir como acabar aos poucos com a praga dos Hawklight e exterminá-los das terras.
Harllan Houck era o Rei de Maysten e pai de Julianne. Sempre fora cruel e seu reinado tinha a marca da violência a todos que não iam a favor de suas imposições. O povo de lá vivia na miséria extrema, sofrendo com o frio das montanhas e a fome por causa da falta de dinheiro. E agora o inverno estava chegando, e as pessoas esperavam sempre pelo pior.
Ryo Rothfuss era o braço direito de Harllan. Nenhuma decisão era tomada sem seu consentimento, ele era um homem forte em batalhas e muito sábio nas vitórias, mas perdia a cabeça nas comemorações. Ele era casado, mas adorava participar de orgias dos piores tipos, nas quais ele mesmo matava algumas cortesãs antes de violentá-las, depois, jogava seus corpos nos rios de águas congelantes que corriam por entre os vales das montanhas.
Marco Hollote era Rei de um reino muito distante. Além das montanhas de Maysten ficava Elethia, um lugar com um clima desértico, que sobrevivia dos serviços de levar pessoas para o Vale dos Reis, que era um paraíso depois do escaldante deserto de sal. O lugar era um mito na verdade, porque metade das pessoas morriam de sede ou de calor durante a viagem.
Todo o povo de Elethia vivia com sérios problemas de água e comida, mas nunca lhes faltara nada, principalmente para Marco, que esbanjava de uma fonte sob seu palácio que regava seus verdes jardins e matava a sede de todos os seus empregados. Enfim, Marco tinha uma vida cheia de excessos e de luxúria, mas não deixando seu povo de lado.
Anne Cratter, esposa de Marco. Ela mandava em tudo no reino. Ordenava ataques, estipulava impostos e tomava as decisões importantes. Ela em si era mais influente e odiada do que o marido, que passava o dia cuidando do pequeno filho.
O encontro não aconteceria ali no pobre palacete em que Karyl passava algumas semanas para fugir do frio do inverno. O governante o achava muito pobre, isso passaria uma impressão de fraqueza aos aliados. Portanto, decidiu fazer a reunião no grande castelo que ele havia mandado construir especialmente para a sociedade. O lugar ficava isolado em uma floresta densa e escura, cercado por altos pinheiros que agora eram cobertos de neve.
A estrada estava difícil de viajar naqueles dias. Apesar de árvores de grande porte cobrirem o caminho, a neve penetrara por entre a folhagem e enchera o percurso de neve. A carruagem de Karyl demorou vários dias a mais para superar a espessa camada de gelo, mas chegou antes de todos no ponto de encontro.
O castelo era realmente imenso. Contava com duas torres muito altas, cada uma com aposentos luxuosos com pequenas janelas de madeira. Cada quarto contava com uma cama coberta com lençóis de seda vermelhos com bordas azuis turquesa, além de móveis esculpidos a mão em carvalhos cor de tabaco.
Atrás das duas torres, estava um prédio que fazia um contorno quadricular em um jardim – que estava congelado agora.
No prédio, havia salas e uma cozinha enorme, de onde saíam pratos variados e de qualidade. Mas o que mais chamava a atenção era o salão que recebia os membros.
O enorme recinto que os encontros aconteciam tinha portas de bronze que deslizavam nas dobradiças com suavidade. Uma mesa grande onde era servido o banquete e onde conversavam as pautas de cada reunião. As cadeiras eram esculpidas de acordo com as vontades dos membros do grupo.
Karyl se instalou no seu aposento e ordenou o que deveria ser servido durante a estadia dos governantes. Cada um tinha o costume de comer algo diferente, então, todos deveriam ficar felizes com relação à comida.
Ele foi até o salão, escolheu sua cadeira e ficou lá até os outros chegarem. A mesa estava coberta de comida. Frango ao vinho, batatas douradas com queijo, peixe com cenoura, massas apimentadas e muitas outras coisas. Karyl gostava mais do frango, mas comia de tudo um pouco. De doces, havia bolos de chocolate, banana e muitos mais.
O primeiro convidado a entrar foi um homem alto, com cabelos negros e lisos, olhos pretos e pele branca como a nevasca que caía do lado de fora. Atrás dele, entrou um homem ruivo com sardas estranhas no rosto, contrastando com seus olhos verdes claros. Harllan e Ryo, respectivamente.
Ambos se sentaram após cumprimentar amistosamente o anfitrião. Os três jogaram conversa fora por vários minutos até que mais dois chegaram.
Quem entrou primeiro foi uma mulher de cabelos vermelhos como sangue, olhos verdes como o mar e pele branca como um floco de neve. Ela se aproximava da perfeição, com um corpo incrível e escultural que chamava a atenção de longe e deixava qualquer homem babando como um cão doente. O vestido que ela usava ressaltava o volume de seus seios e o contorno de sua cintura, além de mostrar parte de suas pernas lisas e definidas. Anne abraçou Karyl de forma provocante na hora de cumprimentá-lo, demorou a largá-lo. Ele entendera que teria uma longa noite nos aposentos da moça
O outro era um homem magro com a pele ressecada, tinha cabelos ralos, escassos e olhos cansados. O rosto estava enrugado e aparentava ter muito mais do que realmente tinha. Marco deu um frouxo aperto de mão em Karyl.
— Quem está faltando? – Perguntou o anfitrião.
— Creio que ninguém. – Respondeu Ryo. – Todos estão aqui.
Karyl assentiu e dispensou os serviçais do salão, a porta foi fechada e trancada assim que o último passou.
— Muito tempo se passou desde que nosso primeiro objetivo se cumpriu. – Começou Karyl. – Gabriel era uma pedra no nosso sapato, mas nos livramos dele. Isso foi ótimo, mas perdemos muita coisa, e você sabem como é difícil aumentar o exército de Wantos.
Todos ouviam com atenção e se remexiam nas cadeiras, menos Marco, que parecia um pouco distraído com a comida que já estava terminando em seu prato.
— A solução é simples – Disse Anne – Aproveitamos o que temos e matamos logo aquela escória.
— Não é simples coisa nenhuma – Retrucou Harllan – Meus espiões disseram que o exército perdido no oeste já foi reposto na Guarda Imperial e que a Evas Invicta já dobrou de tamanho.
— Aposto que seus espiões estão errados – Comentou Anne – Eu estou certa.
Harllan a fuzilou com os olhos até que Karyl interveio.
— Harllan está certo – Disse calmamente – Uma coisa que aqueles bastardos sabem fazer é formar soldados. Ainda mais com ajuda daquele desgraçado do Patrick.
Anne concordou com desgosto.
— Vamos esperar mais tempo. – Anunciou – Precisamos do exército de Wantos reposto, depois então, atacaremos com todas as nossas forças combinadas.
Anne se levantou.
— Se é essa a decisão, vou me retirar, sabem onde me encontrar. – Disse olhando diretamente para Karyl, que acenou afirmativamente com a cabeça.
Anne se virou, destrancou a porta e saiu com passos delicados da sala.
— E sobre essa construção Karyl – Iniciou Harllan – É esplêndida, mais bonita do que meu castelo. Não vejo a hora de vir aqui no verão.
— Será bem vindo Harllan. Acho que todas as minhas serviçais andarão com uma roupa menor no calor.
Os homens riram audivelmente. Aproveitariam que Anne não estava mais ali.
— Quanto custou tudo isso? – Perguntou Marco. – Acho que terei de ajudar nas despesas da construção.
— Tolice, velho amigo. – Disse Karyl – Foi caro, mas isso é por nós. Tenho dinheiro e isso não fará falta.
— Grande Karyl.
— Vamos construir uma parte ainda maior mais aos fundos, um lugar para nos divertirmos mais.
— Teríamos o que?
— Água aquecida para mergulharmos, espaço para jogarmos o que quisermos e mais algumas coisas.
— Falando em diversão. – Comentou Marco – Vou procurar algo, acho que não temos mais assuntos a discutir.
— Creio que também podemos sair. – Disse Karyl – Não tenho mais nada a comentar. Vamos, aproveitem o que o castelo ainda pode oferecer. As garotas têm muito que nos dar.
Os convidados seguiram o conselho e passaram o restante da noite se “divertindo” com as criadas e com os luxos que tinham ali. Todos estavam fora dos aposentos, menos Anne.
Karyl foi ao seu encontro como havia prometido pensado no que faria com ela quando chegasse lá em cima. Isso o fez ir mais rápido a cada degrau. Seu quarto era especialmente decorado em tons de branco e preto. Combinavam com as suas roupas. E eram exponencialmente mais espaçosos. Ficava no lugar mais alto da primeira torre, isso impossibilitava o fraco marido de dormir com ela. Marco dormia no quarto ao lado do de Harllan, na outra torre.
Karyl subiu as escadas e bateu na porta. Não houve resposta por alguns instantes. Bateu novamente e a porta se abriu.
— Por que demorou tanto Karyl? – Disse em tom malicioso. Ela estava sem seu vestido, um curto pijama azul, transparente, que mostrava tudo por baixo, na sua mais perfeita natureza e perfeição.
— Se soubesse que essa seria a recepção... Teria vindo mais rápido! – Disse Karyl, entrando no quarto e trancando a porta. Seria uma noite bastante animada…
***
Na manhã seguinte, Karyl foi o primeiro a se levantar e a tomar café. Ainda era muito cedo, mas ele já começara a arrumar suas coisas.
— Me deixou sozinha essa hora? – Disse Anne, parada e encostada no batente da porta.
— Desculpe, não consegui dormir mais. – Explicou-se.
Ela entrou e fechou a porta. As roupas que Karyl havia levado já estavam guardadas em malas. Anne empurrou Karyl na cama, eles repetiram parte do que fizeram durante a noite e finalmente, já cansada, ela voltou para seu marido, que permanecia dormindo como uma pedra.
Karyl colocou as bagagens na carruagem e aproveitou para sair antes da nevasca. Não se despediu de ninguém. Os cavalos seguiram caminho e no fim da tarde o comboio já se aproximava do palacete do litoral.
Estou sentindo falta daquela vadia. Pensava Karyl.
Embora Anne satisfizesse seus desejos e suas fantasias, ele gostava de “se relacionar” com ela. Julianne era um tipo de mulher diferente de qualquer outra. Ela tinha classe e personalidade forte, isso chamava a atenção dele, além de ter uma beleza única que o deixava hipnotizado ao olhá-la.
Quando a carruagem finalmente parou na porta do pequeno castelo, Karyl desceu. Andou sem falar com ninguém até seus aposentos. No caminho viu a filha, ele teve de parar para lhe falar pelo menos “oi”. Ela estava com as mãos cheias de sangue.
— O que houve filha? – Perguntou como se fosse um pai preocupado.
A garota não respondeu. Então uma mulher que cuidava dela explicou. Sareen havia se metido em uma briga com um servo que fora trazido de Aschë, o servo a segurara pelo pescoço, até um guarda chegar a segurar o pobre escravo. Sareen pegou sua adaga e perfurou a garganta do homem, fazendo questão antes de colocá-lo no tronco de empalação, tirá-lo antes da morte e inserir uma pêra – instrumento de tortura que expande e corta com espinhos – no ânus da vítima.
Karyl ordenou que limpassem a mão da garota, ele estava orgulhoso com o caminho que a filha trilhava, depois seguiu seu caminho até os quartos. Parou na porta pensando no que faria se Julianne não estivesse lá para satisfazer suas vontades. Provavelmente a mandaria ser queimada ou emparedada viva, até mesmo ser eviscerada com um instrumento que ele construíra. Aquilo que lhe causasse maior sofrimento. Mas ele pensou melhor, não tinha nada que a fazia sofrer mais do que uma noite de amor com Karyl. E isso ele adoraria.
Ele abriu a porta, mas infelizmente, ela estava lá. Nua sobre os lençóis. Karyl tirou suas roupas e foi fazer o queria. Não lhe faltava, mas ele estava sedento...
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