Notas iniciais
Bem vindos a Aschë! Entrem agora na vida de Rei Gabriel IV e de toda sua família, vejam o desenrolar desta história que, na minha nada humilde opinião de autor, é épica.

O Rei Gabriel IV recebeu notícias de seu mensageiro particular, vindas diretamente de Losche, cidade portuária de fronteira das terras de Aschë, seu reino.

— Senhor, é uma emergência! – Disse o homem franzino meio ofegante, deixando aparente a longa jornada que fez as pressas e após entrar correndo no grande salão onde Gabriel IV cuidava de tarefas comuns ao rei – Temos uma invasão de Wantos na área do leste, os exércitos não estão aguentando um ataque grande como esse.

— Quantos homens estão lá? – Perguntou o homem de ao menos um metro e oitenta e com voz grave e retumbante, aparentava ter no mínimo cinquenta anos, com barba e cabelos grisalhos, mas não tanto, e algumas marcas do tempo na pele corada. A expressão cansada do mensageiro, o deixava ainda mais preocupado.

— Cerca de oitocentos da Guarda Imperial – Falou depois de tossir um pouco. – Eles estão na defensiva há alguns dias, tentando esvaziar Losche – Fez uma pausa para respirar e tossiu novamente – O que devemos fazer?

— Prossigam a evacuação da cidade e mande a Evas Invicta, não toda. Acho que eles estão mais perto e podem dar conta do recado. – Gabriel IV com sua responsabilidade e honra preocupou-se com seu povo com o mesmo afeto com que lidava com sua família.

— Sim senhor. Vou mandar mensagens agora mesmo. – Disse o mensageiro pedindo licença para retirar-se da sala.

— Não meu amigo. – Começou o rei com complacência. – Você fez uma longa jornada e deve descansar um ou dois dias. Mandarei outro mensageiro a Losche. – Gabriel IV virou-se escrevendo uma mensagem rápida com uma pena alta num papel amarelado. Depois a enrolou e entregou para um criado bradando sereno, porém pensativo. – Leve a Hunter, e diga para entregar apenas para o comandante da Evas Invicta.

— Sim senhor! – O criado assentiu e se retirou da sala.

O mensageiro lhe fez uma reverencia e também deixou o grande salão. Gabriel pensava incrédulo.

— Por que depois de tantos anos, Karyl quis mandar um ataque? – Perguntou Gabriel IV ao seu conselheiro e amigo, Patrick Cronin. Um homem alto e jovem, apenas com vinte e seis anos, mas muita experiência na Evas Invicta, lutou lá desde seus quinze anos, subindo ao posto de Major da Guarda Imperial com vinte e dois. Patrick aparentava muito mais idade por conta do estresse do posto, tinha no alto do rosto uma cicatriz pequena sobre a sobrancelha e sempre trazia um semblante severo e imutável, mas sempre que se empolgava, falava tudo que sabia com muito entusiasmo.

— Não tenho ideia. – Disse depois de alguns instantes de pausa. – Rhotrus não nos ataca desde a derrota para o Rei Júlio há duzentos anos.

Rhotrus era o reino vizinho a Aschë. Nem sempre foram inimigos, tornaram-se durante o reinado de Augusto, que pagou feiticeiras para darem mais forças aos seus soldados e cloná-los, porém, eles se voltaram contra o Rei, tornando-se criaturas horrendas e se autodenominando Wantos. Após isso, muitos reis tentaram conduzir o reino, mas apenas Karyl Gorlan conseguiu a simpatia dos monstros, após convencê-los de atacar Aschë em busca das malditas que fizeram aquilo com eles e ainda ficar com uma terra enorme em mãos.

Karyl de alguma maneira não envelhecia, muito menos morria. Há duzentos anos, ele liderou uma marcha em direção à Aschë, mas foi derrotado após quatorze anos de batalhas pela Guarda Imperial de Júlio, um rei igualmente sábio ao que agora governava Aschë.

Ambos os amigos permaneceram discutindo por mais alguns minutos sobre o novo ataque, possíveis motivos, novas investidas e estratégias, quando foram interrompidos por um tumulto de passos ritmados e fortes — como uma marcha — e um homem entrando com mais de sete seguranças, todos uniformizados de azul escuro com o brasão de uma coroa de louro num escudo prateado. O escudo prata representava a riqueza de metais do reino em tempos remotos, e o azeite sem igual produzido na região apesar do clima hostil. Era Argame, Rei do domínio também vizinho a Aschë, Nigtan.

— Gabriel! – Vociferou o homem de pele branca, cabelos castanhos claros um pouco compridos, muito alto e forte. Com a vestimenta idêntica a de seus vigias, mas com um pequeno detalhe, as braçadeiras prateadas– Como você me explica esse ataque em massa de Karyl?

— Como soube? – Perguntou Gabriel IV com um tom sério, sem deixar sua preocupação ser percebida.

— Como eu soube? – Fez uma pausa e bufou, como era típico de seu temperamento impulsivo – Talvez pelo motivo de meu reino estar sendo atacado por mais de trezentos mil Wantos em pontos diferentes ao sudoeste, desde a fronteira com Angris. E acabo de ser informado que você também está sofrendo ataques.

— Já mandei uma das minhas legiões para Losche, onde eles estão tentando entrar. – Disse Gabriel com a mesma preocupação.

— Eu já mandei mais de centenas de milhares de soldados a cada ponto, mas o Wantos não param de avançar. Precisamos fazer algo! – Impôs altivo.

— Eu já estou cuidando das minhas fronteiras, deve haver mais de quatrocentos mil homens a caminho das fortalezas de Losche e de Louise. – Apesar de aliados, Gabriel não suportava os momentos em que Argame decidia que era superior.

— Mas e eu, como fico? E a nossa irmandade? – Indagou com o tom desafiador reduzido consideravelmente ao medo de que seu reino fosse tomado e ele ficasse nas mãos daquelas criaturas.

— A Evas Invicta ainda está lá em Calebre, pelo menos grande parte dela, pegue alguns soldados e leve-os para as batalhas, junto com um número considerável de soldados da Guarda Imperial. – Disse o rei de Aschë ao ver que o desdém de Argame continuava a sumir quando numa situação precária em que precisava de ajuda, assim como quando eram jovens. – E não se preocupe tanto, provavelmente Nigtan não é objetivo deles.

— Minha filha está prestes a nascer, e o seu filho ainda é uma criança de colo, precisamos nos proteger. – Disse Argame. – Mandei minha esposa ao forte na montanha de Dorum, sugiro que faça o mesmo com Elene e seu filho.

— Leonard será forte como um touro. – Gabriel lembrou-se do pequeno garoto, gordo e grande que deixara em seus aposentos na companhia da esposa, Elene. Ele a beijara com ternura e também, depositara na testa de Leonard um sublime beijo.

—Devemos manter viva a irmandade. – Disse Argame interrompendo os devaneios de Gabriel IV.

Argame virou-se e foi embora, mas antes, Gabriel IV o chamou.

— “Nós somos os outros”.

— “Nós somos os outros”– Respondeu Argame, a amizade que tinham fulgurava em seus olhos naquele momento difícil.

Argame fechou a porta e voltou para seu reino.

***

Passaram-se alguns duros anos de guerra árdua, nesse tempo. Gabriel IV treinava cada vez mais tropas e Leonard crescia saudável, forte. Seu pai o treinava da melhor maneira possível, lhe ensinando cada coisa que aprendera durante sua vida. E cada vez mais, ganhava a simpatia do povo pelos seus esforços para conter o povo de Rhotrus.

Neste tempo nasceram mais dois filhos, Ariel e Tuomas, dois amados filhos. Durantes os treinos de espada e arco, Ariel já tinha idade para treinar junto com o irmão, enquanto o mais novo só olhava, de longe.

Um soldado entrou rapidamente na sala do Rei, estavam apenas os dois.

— Senhor. – Disse, curvando-se em reverencia. – A situação está gravíssima, todos os nossos exércitos não conseguem mais conter o avanço dos Wantos, vamos ser derrotados, sem chances! – Bradou com decepção por admitir o mal resultado diante do homem que jamais lhes decepcionava.

— E as outras Legiões? – Perguntou Gabriel sem conseguir conter sua tristeza eminente.

— Todas extintas, apenas sobrevive a Evas Invicta, mas ela está contendo soldados em Nigtan. – Informou–lhe o soldado.

— A Nona, a Iris... Todos foram mortos? – Gabriel se virou para a fonte atrás de si, olhando para o reflexo da água em ondulação, com igual agitação a que se encontrava seu reino.

— Sim senhor, pelo menos não mandaram nenhuma noticia. Pelo que sabemos, não há sobreviventes.

— Então, você fica aqui, treine o máximo de homens e rapazes que consegue, peça ajuda de Patrick se preciso. – Disse Gabriel iluminando sua mente, lembrando-se que nos momentos difíceis, nas ondulações de uma rija tempestade árdua, o clarear de ideias vem da sabedoria.

Gabriel IV não se atrasou em preparar a cavalaria que o acompanharia até Losche. Despediu-se de Elene e dos filhos pequenos.

— Pai me deixa ir com você. – Dizia Leonard com apenas dezesseis anos.

— Leonard. – Gabriel estava orgulhoso pela coragem de seu primogênito, sabia que se o pior lhe acontecesse, Aschë teria um governante bravo, mas também estava ciente do absurdo daquela proposta. Por mais que a situação fosse precária, Gabriel IV nunca permitia que crianças fizessem parte de seu exército. – Sei que você é capaz, mas ainda é muito jovem.

Ele deixou Aschë com tristeza, mas sabendo que cumpria seu dever.

***

— Senhor, nosso emissário já está em Losche há dias, não mandou nenhum mensageiro e nem um sinal de vida.

— Ele deve estar ocupado, Patrick vai esperá-lo aqui. – Gabriel tentava se convencer do que dissera.

Eles montaram em seus cavalos e saíram para o oeste. Visitariam primeiro Louise, um pouco mais ao sul e depois iriam para o norte, onde estava Losche.

Seguiram a trilha construída por contrabandistas da antiguidade, um caminho traiçoeiro cheio de penhascos e abismos, contudo era a mais rápida para chegar às fortalezas. Gabriel IV não parou nem em meio a tempestades, rios turbulentos, ignorando as noites frias ou dias de calor escaldante. Cavalgaram por dez dias ou mais até avistarem a cidade montanhosa de Louise. Os prédios antigos em ruínas e o grande palácio que abrigava seu governante em chamas.

— Senhor, a cidade está deserta– Informou um dos soldados.

— Como assim? Louise era a segunda maior cidade da província do noroeste, não pode estar vazia. – Gabriel se decepcionava cada vez mais consigo, em saber o quanto seu povo sofria. Ele imaginava as atrocidades feitas com aquelas pessoas e sabia que a chance de que houvesse sobreviventes nas fortalezas era uma esperança inútil.

— Devem ter evacuado a cidade nos últimos dias – Comentou um dos companheiros.

Gabriel IV parou, balançando a cabeça em um sinal negativo, mas mantendo sua esperança.

— Vamos ver.

Eles passaram por entre as grandes portas da cidade, destruídas agora, provavelmente por um aríete ou pela força dos soldados Wantos.

Louise estava vazia, com falta de almas vivas. Todos estavam mortos, as mulheres e as crianças também, todos violentados, mutilados e destroçados sem nenhuma demonstração de piedade ou misericórdia. As casas estavam quebradas e os maiores monumentos estavam em ruínas. A maioria ainda em chamas.

Saíram em direção à Losche, no caminho encontraram pequenos grupos de Wantos, prontos para executar vagarosamente os soldados remanescentes, que foram salvos pelo grupo de Gabriel IV, o restante da Guarda Imperial.

— Senhor, destruíram a cidade! – Relatou um deles segurando o ferimento no braço tentando conter o sangue.

— Eu vi, fui até lá, mas e Losche? – Perguntou Gabriel, ordenando a seu médico que olhasse o ferimento do homem.

— Não sabemos, estávamos indo para lá agora. – Continuou, torcendo o rosto quando o curandeiro examinava suas feridas. – Esse grupo de Wantos nos seguiu.

— Vamos logo, sabem que Losche precisa da nossa ajuda! – Disse Gabriel IV, levando sua cavalaria pela estrada.

Foram três longas horas até Losche. A cavalaria observava a beira da estrada, a destruição que encontrariam em Losche. Casas de camponeses, estalagens, estábulos e plantações, não só destruídos, mas completamente destroçados, como se nunca tivesse existido nada além de vestígios do que um dia fora realmente.

Gabriel viu que os esforços foram inúteis. Tudo estava destruído na cidade. O cheiro acre da carnificina, dos corpos moribundos fazia os soldados torcerem o nariz. Alguns corpos estavam mutilados, outros com membros faltando. Mas ninguém restou vivo. Nenhum ser sequer fora poupado.

Entraram na cidade, o cheiro de carne humana queimada emanava das casas e das igrejas em chamas, junto a fumaça negra que cobria o céu cinzento de uma chuva que ameaçava cair. As muralhas que outrora foram as maiores do reino, agora se amontoavam em pilhas de entulho marrom manchado de sangue. Em alguns espaços, braços pendiam, em outros, cabeças pegando fogo espetadas em lanças.

— Foi um massacre, os que não morreram em batalhas foram mortos na fogueira. – Disse um dos soldados que foram encontrados no caminho com uma expressão triste pela perda inestimável.

Andaram por algumas ruas de Losche, até Gabriel parar.

— Vamos embora, não nos resta nada aqui além de desejar que nossos companheiros descansem em paz. – Ele não podia mais ver tanta destruição.

O grupo virou, mas foi surpreendido com um batalhão inteiro de Wantos, liderados por Karyl pessoalmente, o homem imortal sorria sarcástico e satisfeito, olhando diretamente para Gabriel.

— Vamos homens! – Gritou Gorlan. – Matem todos, menos Gabriel! Este é todo meu.

Os Wantos partiram gritando para atacar. Os soldados de Aschë desembainharam as espadas e os machados brilhantes e bem afiados. Embora muita vantagem de treinamento dos soldados Legionários, os Wantos estavam em esmagadora vantagem numérica, e a derrota era eminente.

Quem sobrevivia aos ataques múltiplos, contra atacava com vontade e entusiasmo, mas logo era atingido e sucumbia à morte. Vários homens foram decapitados, outros tiveram a garganta cortada e o sangue escorrendo até abandonar completamente o corpo. As horrendas criaturas assistiam a tudo com prazer e sensação de dever cumprido.

Gabriel lançava flechas venenosas feitas pela sua esposa, conseguiu manter-se longe de Wantos por bastante tempo, até que eles cravaram uma machadinha no dorso de seu cavalo que urrou de dor e caiu morto. Ele desceu da cela e começou a lutar. Sua espada de bronze foi usada para perfurar vários abdomens, desmembrar Wantos e se proteger. Matou um com um hábil golpe no ombro, além de defender vigorosos ataques em seguida, tudo com astuta agilidade apesar da idade.

Foi desarmado e preso após ser derrubado por um grupo de Wantos com pelo menos oito criaturas. Os homens que ainda viviam também foram presos e jogados na fogueira, seguindo o destino dos outros. Os Wantos levaram-no para Karyl.

— Ora meu velho amigo! – Disse o homem, descendo do cavalo negro. – Muito tempo que não nos víamos.

Gabriel cuspiu no chão, olhando para Karyl com desdém e repugnância.

— Decisão errada Gabriel, – Começou a andar girando a espada recém-desembainhada cortando o ar a sua volta. – Sabe, essa guerrinha já está me enchendo o saco! Não é legal ver seus soldados morrerem um atrás dos outros... – Fez uma pausa, com uma expressão de como se sentisse muito as perdas do inimigo – Mentira, é sim!

Riu alto.

— Não vai conseguir o que quer Karyl, tem mais homens chegando aqui, o suficiente para te trucidar e acabar com seu exército. O povo é livre e sempre será!

Gorlan olhou com desprezo.

— Não me importo, já consegui o que queria. – Falou, segurando sua espada de prata e a empunhando. – Vá para o inferno Gabriel.

— Te vejo lá. – Respondeu com dignidade o rei das terras distantes de Aschë fechando os olhos e pensando em sua família, antes de morrer com uma profunda perfuração no crânio. Os Wantos gritaram e Karyl levantou a cabeça do falecido rei Gabriel IV.

— Este é o começo do fim da Dinastia dos Hawklight! – Bradou. – Voltemos para Rhotrus!

Karyl jogou a espada no chão, a cabeça do Rei rolou, e por pouco não foi pisoteada pelos Wantos.

O grande exército saiu da cidade e rumou para as montanhas escuras e frias das terras de Rhotrus. Nada estava bem.

Notas finais
Próxima parte: 24/12/2017.