A Desgracença da Buchada

3 CAPÍTULO III – “NINJAS DANÇARINOS” SE APRESENTAM


Concluídas as explicações, Liluth deu um profundo suspiro, fitou um por um seriamente e disse:

— Bem, então quer dizer que vocês são um grupo de ninjas dançarinos que esperavam por uma líder construtora de armaduras para poder salvar o mundo? E acreditam mesmo que eu seja a escolhida? Desculpa, apesar de ficar feliz por encontrar mais pessoas que como eu desconfiam dos Sábios do Bucho, acho difícil acreditar nesse lance de profecia. Podemos nos ajudar sim, mas sem essa coisa de liderança da minha parte, por favor. Podemos por igual tomar as decisões e... Como caralhos esperam que eu produza seis trajes especiais? Olharam para os meus sapatos e presumiram que eu seria capaz disso? E quanto tempo demoraria uma coisa dessas? Enfim, mesmo achando boa parte disso uma loucura, o mundo já está insano mesmo, não vejo motivo para não me unir a vocês... Não que de cara eu já confie em todos, posso dizer que só estou aqui por ter sentido algo bom vindo da Yanka, não sei se posso dizer o mesmo em relação aos demais. — dito isso, Liluth se sentou no chão e cruzou os braços. Os outros se olharam e em seguida também se sentaram.

Após alguns minutos de silêncio, Yanka tomou fôlego e respondeu:

— Sim, somos ninjas dançarinos, gostei bastante da definição, você deu uma boa ideia para o nome do grupo que até agora estava sem! — e fez uma expressão que claramente demonstrou sarcasmo. — Acreditamos sim que você seja a escolhida e com o tempo você também acreditará, não tenho muita paciência para tentar ficar convencendo ninguém do que é ou deixa de ser, você irá se descobrir. E sobre a dificuldade em produzir trajes, realmente... Isso levará tempo e requer muito material, por sorte estamos cercados por sucata! Não foi pura e simplesmente olhando para os sapatos que presumi que você seria capaz, foi momentos antes de eu te capturar em que a observei no encalço do caminhão. Apesar do péssimo aspecto, deu pra notar que ele é bem funcional e é disso que precisamos! Algo que seja feito com lixo e funcione. Obrigada por ter dito que sentiu algo bom em mim, geralmente costumam me achar uma cuzona... Sobre os outros não posso dizer nada, você terá que correr o risco se estiver mesmo interessada em fazer algo a respeito de todo o caos que tá pegando nesse mundo, afinal de contas se der merda, o que é um peido pra quem tá cagado?

— Hum... OK, não poderia ter recebido respostas melhores, exceto pelo sarcasmo inicial. Se me permitem, posso saber sobre suas histórias também, seus motivos para estarem aqui? — indagou Liluth enquanto abria um cantil para saciar sua sede.

— Sem problemas, já que fui a primeira a entrar em contato com você, vou começar. Assim como nós, meus pais desconfiaram dos Sábios do Bucho e quando eu ainda era pequena me deixaram com uma tia, perseguiram um caminhão dos Carregadores da Carne Contaminada, assim como você, e creio que ou morreram no caminho ou chegaram até a mansão, entraram nela e morreram por lá. Nunca mais eles retornaram... Cresci praticamente sozinha, minha tia não ligava muito para mim, fiquei deprimida por um tempo, mas logo decidi que isso não me levaria a lugar algum e que eu precisava fazer o mesmo que eles, honrar sua vontade de fazer a diferença. Antes que pudesse começar a perseguição, tive um sonho alucinado em que meus pais profetizaram sobre o grupo de seis liderado pela moça inventiva e que eu deveria reunir todos antes de ir investigar os Sábios. Desde então estive procurando por vocês e enquanto isso, treinando. — narrou Yanka e apontou para o sujeito ao lado, o mesmo que as acompanhou até o local. — Neriom foi o primeiro que encontrei, acho digno ele contar a história dele agora, vamos por ordem de chegada ao grupo.

— Eu não gosto de relembrar o início da minha história, mas já que é preciso para te ajudar a se soltar mais com o grupo, então “vamo” lá... Eu nasci na Vila da Sucata, era uma criança animada, brincava o tempo todo e sempre gostei de buchada de bode, ao contrário dos meus pais. Minha mãe aos poucos começou a enlouquecer, tinha acessos de raiva, quebrava coisas em casa, falava aos gritos comigo e com meu pai, chorava toda vez que ia comer e a cada pedaço da buchada que engolia, fazia cara de quem tava comendo merda. Até que num belo dia ela entrou no meu quarto com um facão na mão, no meio da noite, quase que virei picadinho não fosse pelo meu pai que a impediu, segurou sua mão no ar e a jogou contra a parede, com os olhos cheios de lágrimas perguntando “por que está fazendo isso com a gente?!” ao que ela deu um sorrisinho de canto e disse “antes a carne dele do que aquela bosta fedida que somos obrigados a engolir todo dia!”. Meu pai, entre expressões de espanto, desgosto e tristeza, tomou o facão de sua mão, colocou contra seu pescoço e disse “não posso te matar, não faria isso com a mãe do meu filho e a mulher que mais amei, mas não posso aceitar você aqui colocando nossas vidas em risco! Você não é mais a mesma, é outra no corpo da minha mulher! Desapareça daqui ou não serei capaz de me conter se acontecer de novo!”. Tempos depois, recebemos a notícia de que ela se tornou membro importante dos Canibais sem Escolha e meu pai decidiu se converter aos alienados Monges da Buchada. Não demorou muito para a Yanka aparecer na Vila, foi como se ela tivesse uma hora marcada para me encontrar, foi bem depois que tudo isso aconteceu e que eu estava desolado, sem me encaixar em nenhum dos grupos, portanto ela não precisou de muito para me convencer a segui-la. — Ao terminar, Neriom piscou para uma moça altona sentada perto de Liluth, a próxima a se pronunciar.

— Meu nome é Taenya, não sei de nada sobre a minha infância, não sei quem são meus pais, não faço ideia de onde nasci, fui encontrada ferida e desacordada na beira de uma estrada por uma velhinha coletora de sucata. Ela me batizou e cuidou muito bem de mim, amava buchada (mas não venerava de forma doentia como os Defensores), sempre evitou contato com qualquer um dos grupos e infelizmente morreu poucos anos depois de me adotar. Fiquei no barraco dela por pouco tempo até conhecer Yanka e Neriom, que passaram por lá pedindo abrigo e comida por uma noite. Não havia motivo algum para eu ficar vivendo sozinha, sempre tive uma inquietação, uma vontade de sair pelo mundo e quem sabe despertar memórias, portanto os segui sem pestanejar. Não deu outra, quando chegamos nesta Cidade de Ruínas senti que já conhecia o território, com certeza as respostas sobre meu passado se encontram aqui e vou encontrá-las. — ao terminar, acenou para o outro homem do grupo continuar com as apresentações.

— Sou Shael, antes de qualquer coisa, prazer em conhecê-la. Bom, minha vida não foi muito diferente da vida da maioria das pessoas neste mundo desgraçado, perdi meu pai quando ele se atreveu a comer a carne do bode pra ver se realmente faria mal e... O coitado acabou sendo executado. Não faço ideia de como os Sábios do Bucho souberam que ele fez isso, mas horas depois quatro deles apareceram na porta de casa, pegaram meu pai bruscamente pelos braços, dirigiram-se ao centro da vila e gritaram “PRESTEM MUITA ATENÇÃO! Este homem cometeu o terrível erro de comer a carne contaminada, um verme egoísta que colocou todos em risco! Trabalhamos duro para não permitir que uma infecção se espalhe e acontece uma porra dessas! Como punição, infelizmente ele será executado, assim como qualquer um que fizer o mesmo, portanto que sirva de lição”. Ao terminar o aviso, cortaram seu pescoço e o queimaram ali mesmo, diante de todos... Eu nunca conheci minha mãe, meu pai disse que ela morreu um pouco depois de eu nascer, cresci apenas com ele, então fiquei completamente sozinho. Eu nunca tive nenhuma esperança de que as coisas poderiam mudar, até conhecer Yanka, Neriom e Taenya. Minha real vontade era de que este mundo acabasse, eu queria encontrar um botão de autodestruição e mandar tudo pelos ares num segundo. Assim, as pessoas cruéis morreriam de uma vez e as pessoas boas parariam de sofrer, descansariam num piscar de olhos, sem sentir nenhuma dor, sem carregar mais nenhum trauma. Mas como não é possível tal coisa, o máximo que consegui foi esta causa para apoiar, a causa dos seis. — algumas lágrimas rolaram pelo seu rosto e ele abaixou a cabeça.

— Ah, finalmente minha vez! Meu nome é Merialeth, não gosto de falar muito, então vou resumir. Simplesmente não posso aceitar que meu filho continue vivendo num mundo podre como este! Não aguentava mais fugir com ele e meu parceiro de todas as batalhas, de ver chuvas de sangue, de temer canibais alucinados e fanáticos ensandecidos. Encontramos um vilarejo um pouco mais seguro e lá ficamos até aparecer este grupo, que parecia falar muita bobagem sim, mas qual outra alternativa nós tínhamos? Decidimos arriscar, mas não teria como levar uma criança na missão, portanto meu parceiro ficou com ele e eu estou aqui. Depois que o grupo foi formado treinamos arduamente, conseguimos aprender muito uns com os outros e até desenvolvemos uma arte marcial própria. Você foi a que mais demorou a ser encontrada, Yanka não levou nem um ano para reunir os demais. Só a encontramos quatro anos depois.

Por fim, Liluth contou sua história de vida enquanto a noite caía. Todos se alimentaram, beberam e decidiram dormir naquele esconderijo, que não era o definitivo, na verdade eles alternavam entre vários esconderijos para nunca serem descobertos.