A Desgracença da Buchada
4 CAPÍTULO IV – SUCATA, PRODUÇÃO, TREINAMENTO E... “EITA PORRA!”
No dia seguinte, ao acordar, Yanka explicou que todos deveriam cooperar na busca por sucatas, que Liluth além de ter que produzir os trajes, teria que treinar a arte marcial e o uso de armas brancas (que infelizmente não seria possível ela aprender o mesmo tanto que os demais, pois não haveria muito tempo, mas pelo menos o básico para se virar) e, por último, apontou quem seria a próxima pessoa a buscar comida.
— Como você pode ver, nós não temos condições de ir a vilarejos constantemente buscar buchada, portanto Neriom desenvolveu esta receita de miúdos batidos e desidratados, compactados em tiras — e ergueu um saco que continha algumas delas. — Elas são nutritivas e demoram muito para estragar, carregamos conosco o suficiente para comer durante um mês e meio, duas tiras por dia bastam para nos manter. O gosto é ainda pior que o da buchada, mesmo sendo algo feito com os mesmos ingredientes. Agora é sua vez de ir, Taenya, nós já estamos quase sem.
— Ah, que saco! — resmungou Taenya, revirando os olhos. — De todas as coisas que temos que fazer, esta é de longe a mais chata.
Liluth sugeriu que ela pegasse emprestado o sapato agilizador, mas como Taenya era uma mulher muito alta e de pé grande, não caberia nela. Depois de todas as instruções, todos saíram do esconderijo e logo foram coletando o que Liluth apontava como útil, exceto a grandona que foi buscar as tiras. Foram decididos pontos próximos aos esconderijos para guardar tudo o que fosse coletado, pois não seria possível ficar carregando tanto peso sempre que se mobilizassem. Durante cinco horas, todos trabalharam sem cessar até que a fome os acometeu e decidiram parar.
— Ainda bem que em uma das minhas fugas consegui aprender um pouco com um Monge da Buchada a imaginar que estou comendo outra coisa! — disse Merialeth. — Como sou a mais velha do grupo, tive oportunidade de provar outras comidas antes de só restar a buchada de bode. Eu amava comer feijão enlatado, foram dois anos até essa mordomia não existir mais, acabamos rápido com toda a comida que existia em conserva. Mas por sorte ainda existe um método dos monges que anula o gosto e o cheiro no caso de quem nunca provou nada além da buchada e não tenha como imaginar. Entre passar mal com um gosto horrível e não sentir sabor nenhum, é preferível não sentir sabor nenhum.
Após comerem e descansarem um pouco, todos voltaram a recolher sucata até que a noite foi se aproximando. Antes que ficasse completamente escuro, dirigiram-se para o próximo esconderijo, mas quando estavam a poucos metros dele, Shael parou de súbito, fez sinal para todos pararem e murmurou:
— Estamos sendo seguidos.
Todos apanharam suas armas, exceto Liluth que não possuía nenhuma, mas ficou de punhos em riste. Uma sombra ligeira se moveu em direção a eles e Shael logo atirou pra cima dela sua lança improvisada, que parecia ser uma parte de um portão de grade com uma lâmina na ponta. A sombra se esquivou e foi chegando cada vez mais perto, até que puderam perceber que se tratava de um homem, cheio de cicatrizes no rosto, vestido todo de preto e com uma longa capa, segurando o que parecia ser uma corrente. Merialeth avançou com suas duas peixeiras, mas o sujeito era muito rápido, conseguia facilmente evitar todos os golpes. O estranho é que ele não estava atacando, apenas se defendendo e quando Yanka se aproximou com seu espeto de churrasco, ele a desarmou com sua corrente e lhe passou uma rasteira. Neriom tentou acertar a cabeça dele com uma grande e pesada panela de ferro, que lhe servia como uma espécie de marreta, mas novamente o golpe foi evitado.
Enquanto todos estavam lutando, Liluth aproveitou que o inimigo estava distraído desviando das investidas dos outros quatro, pegou um pedaço de concreto dos escombros e, com seus sapatos ligeiros, correu e surpreendeu o homem pelas costas, acertou sua cabeça e ele caiu imóvel no chão. Todos abruptamente pararam e olharam pasmos para ela.
— EITA PORRA! — exclamou Yanka. — Mas guria, de onde que cê tirou essa força? Matou o cara?
Merialeth se aproximou, checou o pulso do estranho e disse:
— O infeliz não está morto, apenas desmaiado. Só acho que a gente devia aproveitar e passar a faca nesse fodido! — e já foi logo descendo a peixeira, mas Liluth segurou seu braço.
— Tenho a impressão de que isto não é necessário. Podemos fugir e nos esconder, não teremos mais problemas com ele.
— Mas e se ele for atrás de nós novamente, menina? Não podemos arriscar, não agora que estamos mais próximos do nosso objetivo!
— Se ele quisesse nos matar, acredito que já teria feito. Ou vocês não perceberam que ele é tão habilidoso quanto qualquer um aqui? Só o vi se defendendo, tentando nos desarmar e derrubar. Foi algo hostil, sim, mas não creio que seja preciso matá-lo por conta disso... Talvez seja apenas um peregrino que por viver neste mundo louco naturalmente desconfia de todo mundo que aparece em seu caminho e para passar por nós e seguir seu destino, teve que nos confrontar.
Merialeth ainda assim estava com sangue nos olhos e decidida a matar o sujeito, discutiu por mais um bom tempo até que a maioria concordou que era melhor deixá-lo e seguir para o esconderijo, não este a poucos metros, mas outro mais distante (por via das dúvidas).
Dias se passaram desde o incidente, Taenya retornou com as tiras desidratadas, todos continuaram recolhendo material para as armaduras, Liluth treinou e surpreendeu o grupo com sua incrível facilidade em aprender e mais nenhuma ameaça apareceu. Em algumas semanas, toda a sucata de que precisava aparentemente já estava no jeito e Liluth deu início ao que sabia fazer de melhor. Uma armadura era elaborada a cada esconderijo, pela mesma lógica de não ter como ficar carregando os materiais, portanto antes de partir a cada dia era preciso escondê-las bem.
Às vezes surgia a necessidade de encontrar mais alguma peça e Liluth decidia ir buscar sozinha com seu sapato, assim era mais rápido, então ninguém se preocupava inclusive por ela estar cada vez melhor nos treinos. Porém, certo dia em uma de suas buscas, a jovem ao tentar pegar uma antena no alto de um prédio escorregou de sua borda e ficou pendurada a mais ou menos 70 metros de altura. Por estar transpirando muito de tensão, uma de suas mãos escorregou e ela não teve forças para subir só com a outra e, quando estava crente de que seria o seu fim, alguém a segurou firme e a puxou. Ainda ofegante e tentando se recuperar do susto, Liluth só conseguia pensar que tinha acabado de escapar de virar uma amoeba estirada no chão, nem conseguiu reparar na pessoa que a tinha salvado. Minutos se passaram e quando ela se deu conta, quem estava diante dela era ninguém mais ninguém menos que o maluco da corrente. Com os olhos arregalados e paralisada, ela perguntou:
— O... O que está fazendo aqui? Por que me salvou? — mas ele não respondeu nada, só a olhava fixamente sem nenhuma expressão no rosto. — Você é surdo? O que está fazendo?! — e nenhuma resposta. Não adiantou perguntar vinte vezes, ele não queria ou não conseguia falar.
Liluth desistiu de tentar fazê-lo responder, enfiou a mão na mochila e retirou algumas tiras desidratadas, entregou nas mãos dele e agradeceu. Ele as olhou com indiferença, guardou-as dentro de uma algibeira, sentou-se na beira do prédio e ficou contemplando o céu. A moça o achou tão esquisito quanto da primeira vez que o viu, mas tudo bem já que desta vez ele salvou sua vida. Mas por qual motivo salvou? Será que ele queria esperar ela partir, segui-la e encontrar os demais para acertar as contas pelo outro dia? Sua cabeça estava a mil, mas ela tratou de pegar a antena e ir embora o quanto antes, contando com a sorte, torcendo pra que aquilo tivesse sido realmente uma boa ação.
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