Notas iniciais
To achando que a história ta ficando meio corrida... ainda assim, digam o que acharam

Katz caminhou pela floresta até o lago; o limite oficial da vila e local onde a forja permanece. A maioria das arvores já estavam mortas há tempos, e as que ainda estavam vivas não durariam muito. Verde é uma cor que estava ficando cada vez mais rara.

Ao chegar ao final da floresta, Katz viu seu amigo Revin parado no píer. Ele se virou e olhou para Katz.

–Você não é um homem muito silencioso, sabia disso? –Disse Revin.

Revin era um homem de cinquenta anos de idade com cabelos grisalhos e barba raspada; além de ser um homem corpulento, provavelmente o resultado de suas décadas de trabalho na forja. Ele nasceu em Stern e é o padrinho de Katz. Revin têm uma esposa e um filho que moram na cidade; os dois odeiam Katz. Eles dizem que Katz é a reencarnação de Lestraus e ele sempre está por perto, pois está esperando a hora de Revin chegar.

–Nunca tive um motivo para querer ser mais silencioso. –Respondeu Katz enquanto caminhava em direção ao píer.

–Conseguiu libertar Robert?

–Sim.

–Ele aceitou sua proposta?

–Sim, mas com relutância.

–Isso é ótimo.

–Agora ele está se recuperando, em uma ou duas semanas nós já vamos poder partir.

–Onde ele está agora?

–Está no bar fazendo algo que não faz há muito tempo.

Revin balançou a cabeça e riu um pouco.

–Vocês dois não tem jeito. –Disse enquanto ria.

–Sim nós não temos. Como vai o braço? –Disse Katz mudando de assunto.

O braço direito de Revin estava enrolado em um pano, só era possível ver a ponta dos dedos.

–Veja para descobrir. –Disse Revin enquanto desenrolava o pano.

O seu antebraço estava completamente negro e esburacado. Seus ossos eram visíveis em alguns desses buracos, tamanha profundidade.

Há pouco tempo, Revin havia aceitado a proposta de Katz e os dois iriam até Lertus juntos, mas seis dias antes de partirem, seu braço ganhou uma coloração escura, uma maldição dos deuses. Ele não conseguia mais manejar uma arma com a mão direita; algo que, para um homem destro, é algo inaceitável.

–Eu já lhe disse, se você precisar eu te ajudo com isso. –Disse Katz.

–Pela ultima vez, K. –Disse Revin em um tom sério. –Eu não vou deixar você cortar meu braço.

–Você sofre dores constantes por causa dele.

–Mas eu ainda posso usa-lo.

–Sim, por enquanto. Ele está piorando aos poucos, se você não fizer algo a respeit...

–Eu não vou fazer nada a respeito. –Cortou Revin. –Pois é exatamente o que eles querem que eu faça.

Revin olhou para o lago a sua frente e gritou:

–Ouviram seus putos?! Eu não vou arrancar este braço não importa o que vocês façam!

A água do lago se agitou um pouco e o lago começou a borbulhar. O braço de Revin começou a coçar e seus buracos começaram a abrir aos poucos. Em pouco tempo Revin estava se contorcendo de dor no chão enquanto Katz se desesperava, procurando uma forma de amenizar a dor de seu padrinho. Após alguns segundos, os buracos no braço diminuíram um pouco, mas ainda estavam maiores que antes, e a dor passou.

–Nunca mais insulte os deuses. –Disse Katz. –Especialmente em um lugar como este.

Tzar Vern, ou “Lago do Arrependimento” no idioma dos humanos, é um lago sagrado protegido por Wheaver, o deus das águas. A lenda diz que quando Wheaver ainda estava no útero de sua mãe, ele tocou-a por dentro e acidentalmente retirou toda a água de seu corpo. Sua mãe era a guardiã das águas antes de Wheaver e não nasceu uma deusa, o que lhe dava poderes era a água divina que estava em seu corpo. Quando Wheaver a tocou, a água divina saiu de seu corpo e ela acabou morrendo. Anos depois quando contaram para Wheaver o que havia feito antes de nascer, ele tentou se afogar neste mesmo lago. Obviamente ele não conseguiu, pois aquele deus não pode ser morto na água. Mesmo assim, o lago foi dado o nome de Lago do Arrependimento. Hoje em dia o lago é um dos lugares sagrados onde Wheaver pode ver tudo em volta.

–Diferente de você, meu afilhado, eu tenho motivos para odiar os deuses. –Disse Revin enquanto se distanciava do lago. –Mais motivos que a maioria pelo menos, se os deuses desistirem de eliminar todos os seres vivos, como alguns dizem que irão; eu ainda assim provavelmente morrerei.

–Eu já te disse o que fazer para evitar a sua morte.

–Eu me recuso a viver com os deuses. Eu lhe apoio por tentar sobreviver e agradeço por ter me convidado, mas muitas coisas aconteceram nestes últimos dias. Eu não me perdoaria se eu me tornasse um deus e tivesse que viver ao lado daqueles que fizeram isto comigo.

–Então pelo menos deixe que eu leve seu filho ou esposa.

–Os dois que te odeiam?

–Não significa que quero vê-los mortos.

Revin não respondeu. Katz continuou olhando para ele até mudar de assunto.

–Você já imagina o porquê de eu ter vindo aqui.

–Novos equipamentos?

Katz mostrou para ele sua espada quebrada.

–Encontramos um Garth na prisão.

–Eu ofereci uma espada nova antes de você partir, lembra? Lembra-se do que você me respondeu?

–Eu disse que ela aguentaria e que eu não teria que usa-la

–Que isto lhe sirva de lição: quando ferreiro disser que a espada não vai aguentar, ela não vai aguentar.

Os dois andaram um pouco até encontrar a forja do Revin. O lugar estava todo bagunçado, com armaduras e armas jogadas no chão. Quando Katz era pequeno, Revin tentou ensina-lo a fazer armas. Não deu muito certo, pois Katz nunca conseguiu fazer uma arma perfeita, todas as que ele fez se quebraram após alguns acertos numa arvore. Mesmo não sendo bom em criar armas, nesta forja ele aprendeu a maneja-las, e acabou ficando muito bom nisso.

–Quanto tempo vocês ficarão aqui mesmo? –Disse Revin pegando as armas e os materiais

–Umas duas semanas.

–Adicione mais uma se quiser novos equipamentos.

–Você não pode pegar as armas e armaduras que estão no chão?

Revin revirou os olhos.

–Claro, pegue as armas que quiser e seja morto antes de conseguir o bico da pomba. Se você usar uma armadura muito leve será morto em um golpe, e usar uma muito pesada se cansará rápido demais e será morto do mesmo jeito. E sobre as armas, as que estão aqui são perfeitas para enfrentar pessoas, porém humanos serão a sua menor preocupação.

–A minha maior preocupação seria tempo.

–Se isso fosse verdade, você teria ido sozinho três meses atrás.

–Certo, mas então o que fazer em relação às armas? Cada raça tem fraqueza a uma coisa em particular, e duvido que seja possível criar uma arma que tenha vantagem contra tudo que vamos enfrentar.

–Me dê três semanas que eu conseguirei criar a melhor espada e a melhor lança que você já viu.

Em dois dias Robert pôde andar e correr sem problemas, além de ter ganhado o habito de cobrir seu olho cego com um pano. Em quatro dias Robert começou a praticar com sua lança. Em uma semana todos os seus ferimentos terminaram de ser tratados e sua pele parecia nova. Em duas semanas ele já estava pronto para ir, havia cortado o cabelo e aparado a barba, havia comido o bastante para não parecer tão magro quanto antes e treinou o suficiente para que fosse quase tão bom quanto antigamente. Em três semanas Robert e Katz visitaram a forja para pegar seus novos equipamentos, pois estes demoraram um longo tempo para ficarem prontos e tempo não era algo que eles tinham de sobra.

A forja estava muito mais arrumada do que antes, Katz percebeu que enquanto fazia os equipamentos Revin limpou-a. As armaduras dos dois estavam presas na parede, a única parte que estava faltando eram os elmos.

–Eu resolvi não fazer os elmos, é estrategicamente melhor. –Disse Revin.

–Como? –Perguntou Robert.

Revin ia responder, mas Katz falou antes:

–Em viagens longas é uma péssima ideia, pois você nunca terá visão total usando um elmo. E numa batalha a pouca visão também pode te prejudicar, se forem vários inimigos.

–Bem, eu já vejo pouco. –Disse Robert apontando para seu olho vendado. –Ver um pouco menos não vai me prejudicar se isso salvar minha cabeça.

–Não é só isso. Já reparou que em nenhuma batalha eu usei um elmo? É que a falta dele serve para enganar o oponente. Vendo que a cabeça está desprotegida, é obvio que todos os ataques serão em direção a ela. Desta forma é mais fácil bloquear e desviar de ataques.

–Muito bem, K. –Parabenizou Revin. –Você ainda lembra o que eu lhe ensinei anos atrás.

Revin andou até as armaduras, apontou para uma delas e disse:

–Katz, você fica com esta. É uma mistura de couro com metal negro. O metal da armadura esta em lugares específicos para proteger os órgãos vitais sem te deixar mais lento.

Depois apontou para a outra e disse:

–Robert, se eu não estiver enganado você é mais sorrateiro que Katz.

–Sim, não que seja algo difícil. –Zombou Robert.

–Vá se foder. –Respondeu delicadamente Katz.

–Ótimo, pois a sua armadura é parecida com a de Katz. O detalhe é que tem menos metal para te deixar ainda menos lento, espero que isso não te atrapalhe tanto. Graças a este sol ninguém te verá; então isso é uma vantagem.

Ele então andou até a outra parede, onde tinha uma espada e uma lança.

–Katz, você ainda é muito teimoso para usar um escudo?

–Escudo é uma coisa para covardes, mesmo que eu só use a espada com uma mão, eu ainda posso usar a outra para distração.

–Imaginei que você diria isso, por isso eu só te fiz uma espada. Se tu lembras-se bem, eu estava tentando achar uma forma de fazer com que a espada tenha vantagem sobre todas as raças. E consegui. De um lado ela é feita de metal, do outro é feita de prata, o pomo é feito de ouro e a bainha é feita de platina.

Depois olhou para Robert e disse:

–Eu não consegui fazer nada parecido com a sua lança, então tive que improvisar. Eu coloquei um veneno especial na ponta dela, com um corte o inimigo fica paralisado em menos de três minutos.

Os dois vestiram as armaduras, pegaram os equipamentos e as sacolas de viagem repletas de suprimentos deixados por Revin e agradeceram por toda a ajuda dele. Depois foram até o centro da vila onde tinham dois cavalos esperando.

–Por que ele não vai com a gente? –Perguntou Robert.

Katz olhou para a casa de Revin, durante três semanas ele teve que conviver com a esposa e filho dele, o ódio entre eles e Katz era recíproco, mas ainda assim Katz não hesitaria em convida-los a ir com ele. Dava para entender o motivo de Revin não querer ir, mas por que ele não deixa a família ir?

E então Katz olhou para o cadáver de urso que ficava de decoração ao lado da casa. Havia anos que aquilo estava ali; o urso agora não era nada além de uma pilha de ossos. “Ah sim”. Pensou Katz. “Esse é o motivo”.

–Você viu o braço dele? Como ele poderia nos acompanhar? –Disse Katz enquanto subia no cavalo.