Os dois cavalgaram para longe de Stern. No caminho Katz explicou para Robert sobre a maldição que os deuses jogaram sobre Revin. Alem disso Katz contou para Robert muitas das coisas que aconteceram enquanto ele estava preso. A maioria foi relacionada à política; contando quais reis morreram, o nome de seus sucessores e se houve alguma grande batalha neste meio tempo. Robert escutava em silêncio, pensando em como nada daquilo importava na situação em que estavam.

Eles cavalgaram por horas na direção oeste. A fraca luz da lamparina que Robert carregava não conseguia iluminar direito a tarde escura. Depois de algum tempo Robert perguntou:

–Você tem alguma ideia de para onde nós estamos indo?

–Sim, vamos para Brimwal falar com Gerard, eu te falei isso duas semanas atrás.

–Então fale de novo, pois eu me esqueci.

Katz revirou os olhos.

–Depois que eu o ajudei na guerra, Gerard de Tylion se mudou junto com a rainha para Brimwal, que não fica muito longe daqui. Eu ganhei a guerra e ele me deu o bico do corvo, eu agora vou tentar fazer com que ele me dê o bico da pomba.

–Você não pode só encontrar uma pomba e arrancar o bico dela?

–Eu já te falei, não é qualquer pomba.

–E o que te faz achar que ele tem o bico da pomba?

–Ele tinha o bico do corvo.

Robert parou o cavalo.

–Isso não faz o menor sentido.

–Se ele sabia onde estava um, no mínimo sabe onde esta o outro Agora pare de reclamar, já estamos perto.

Olhando de longe o castelo parecia ser tão grande quanto a própria cidade. No topo do castelo havia a estatua de uma cabeça de dragão. Isso simbolizava o dragão de duzentos anos atrás que atacou a cidade e foi morto pelo rei. A cabeça real do dragão ficou presa no topo do castelo durante seis semanas e a espada que o decapitou ainda está na sala dos tesouros do rei. Tocar nela garante pena de morte

Os guardas na entrada da cidade logo abriram o portão ao ver Katz montado no cavalo, depois se ajoelharam.

–Levantem-se, guardem essas reverencias para reis e lordes, não para um soldado. –Disse Katz. –Agora avisem Gerard que eu vim falar com ele.

–Mas senhor, sua majestade não está esperando por visitas. –Respondeu um dos guardas.

–Neste caso diga que é uma visita surpresa.

O guarda correu desajeitadamente para contar ao rei, enquanto dois outros escoltaram Robert e Katz até o estábulo da cidade.

Brimwal já teve seus tempos de glória, os heróis de guerra eram tratados melhor que reis, a cidade era limpa, fome e miséria não existiam. Tudo isso mudou quando Gerard se mudou para Brimwal e rebaixou o antigo regente a conselheiro. Outras cidades enfrentam apenas a fúria dos deuses, enquanto em Brimwal os habitantes têm que lidar com os deuses e o rei. Como um rei conseguiu mudar uma cidade tanto em dois anos era algo que Katz não conseguiria compreender.

Um homem na rua correu em direção a Robert e segurou a rédea de seu cavalo. O homem parecia que não se barbeava, cortava o cabelo ou tomava banho há muitos anos. Era tão magro que parecia um esqueleto. Ele olhou fixamente para o rosto de Robert; seus olhos pediam socorro.

Um dos guardas sacou sua espada, mas Robert fez com a mão para que ele abaixasse a arma.

–Ele já vai soltar apenas lhe dê tempo. –Disse Robert.

Robert o olhou nos olhos e depois de alguns segundos o homem soltou o cavalo e se sentou perto da parede; eles voltaram a andar e ignoraram o velho.

Após deixar os cavalos nos estábulos, Katz, Robert e os guardas andaram em direção à entrada do castelo. Ao chegar à porta, Katz abriu-a sem a permissão do rei ou de nenhum dos conselheiros.

–Cuidado senhor. –Disse um dos guardas. –Você pode ter sido um herói de guerra, mas, para o rei, apenas certos homens podem abrir a porta do castelo.

Katz ignorou o aviso do guarda e entrou no castelo. Robert deu uma moeda de prata para cada um, desculpou-se pelo transtorno e virou-se para seguir Katz.

Diferente da cidade o castelo parecia mais bonito do que nunca, todo o dinheiro da cidade era usado para decoração do castelo e para alimentar seus moradores. A quantidade absurda de lustres simulava a luz do antigo sol, o chão estava tão limpo e brilhante que parecia um grande espelho sem fim. Mais a frente estava a varanda, esta apontava para o lado oposto da cidade, para uma longa campina que antigamente era verde. Um casal estava admirando a vista enquanto conversavam.

O homem escutou o barulho que Katz fazia enquanto andava e se virou, ao ver Katz ele ficou furioso.

–Katz! O que te dá o direito de invadir meu castelo sem ser convidado? E quem deixou você entrar?

–Eu tenho assuntos inacabados com você, Gerard, e entrei porque quis.

Robert tentou acompanhar a caminhada rápida de seu amigo, enquanto se perguntava no que Katz estava pensando para fazer a burrice de falar assim com um rei.

Katz então parou e ficou encarando o rei Gerard por alguns segundos, até que Gerard começou a rir e balançar a cabeça. Por fim, Gerard disse:

–Mesmo depois de tantos meses você continua sendo atrevido com seu rei.

Gerard então deu um abraço amigável em Katz, nenhum rei era tão próximo de uma pessoa a ponto de lhe dar um abraço, e Katz sabia disso.

Katz deu um passo para trás e apresentou Robert:

–Este aqui é Robert, um velho amigo meu.

Robert se ajoelhou e disse:

–É uma honra, meu rei.

–Esta daqui é minha esposa Margery. –Disse Gerard.

Robert manteve-se ajoelhado, mas logo viu que seu amigo permanecia de pé. Robert o puxou e forçou-o a ajoelhar-se. Não importava o quanto Katz era próximo daquelas pessoas, Robert achava uma ofensa não tratar reis e rainhas como devem ser tratados.

–Ouvi falar muito de você, senhor Katz. De como salvou meu marido da morte nas Terras Desoladas.

Katz pensou: “E graças a isso eu fui feito de refém pelo inimigo por duas semanas, até sair sem ajuda. Obrigado por nada, rei.” Mas apenas disse:

–É uma honra, minha rainha.

Ela então olhou para Robert.

–Eu nunca ouvi falar em você, senhor Robert.

–Sir Robert. –Corrigiu Robert. -... Minha rainha

–É um cavaleiro? –Disse a rainha. –Então não me surpreende que eu nunca tenha ouvido falar de você. Quando um nobre brande uma arma e vai para a guerra, ninguém fica surpreso. Mas quando um órfão que morava numa vila faz a mesma coisa, é muito mais impressionante.

Katz se segurava para não rir, era a primeira vez que uma rainha humilhava Robert.

–Sigam-me. –Disse Gerard. –E me contem o que querem aqui.

–O senhor sabe o que queremos. –Disse Katz enquanto o seguia pelo castelo.

–É verdade, eu quase me esqueci de seu plano louco.

–Eu não o chamaria de louco

–Vocês querem se tornar deuses. Só porque um Garth conseguiu, não quer dizer que vocês também vão.

–Não necessariamente deuses, eu me contento com a imortalidade. Só estamos tentando não morrer de fome.

–Eu os garanto que se continuarem nessa jornada, morrerão antes que possam sentir fome. Eu o convidei antes para ficar aqui no castelo, onde temos comida de sobra.

–Me perdoe pelo desrespeito, meu rei. –Disse Robert. –Mas a comida não vai durar para sempre.

–Eu sei disso, mas tenho o suficiente para sobreviver até os deuses desistirem de nos matar.

Katz e Robert se olharam, eles sabiam que os deuses não desistiriam, mas discutir sobre isso com um rei seria perda de tempo. Reis odeiam estar errados.

–De qualquer forma, meu rei. –Disse Katz. –eu queria pedir que sua majestade me desse o bico da pomba de Irith.

–Eu não tenho e não sei onde encontrar uma pomba de Irith.

–Que perda de tempo. –Disse Robert em voz baixa.

Gerard olhou para ele e disse:

–Mas conheço alguém que sabe.

–Ótimo, quem? –Perguntou Katz.

–Você acha mesmo que eu vou simplesmente te falar?

–Eu sou um pouco ingênuo às vezes.

–Eu quero alguma coisa em troca.

Robert e Katz se olharam mais uma vez.

–Mas meu rei, nós só temos um pouco de comida para a viagem e nossos equipamentos. –Disse Robert.

–Eu tenho estado de olho nesta sua espada, Katz.

Katz desembainhou a espada e a mostrou ao rei. Gerard não parecia muito impressionado.

–Esta sua bainha, para ser mais exato. –Disse o rei

O rei estava falando da bainha feita de platina que Revin criou. Katz ainda não entendia o objetivo daquilo. “Um material para a fraqueza de cada raça” lembrou-se Katz. Seria mais simples se Revin tivesse explicado contra quem a platina levaria vantagem, pois Katz não sabia, e naquele momento o bico parecia muito mais importante que uma bainha.

–Quer a bainha? Então pode ficar com ela. –Disse Katz enquanto entregava a bainha.

–Fique com ela por enquanto. –Disse o rei. –Nós vamos descobrir onde a pomba está primeiro, depois você me entrega.

–Quando nós vamos? –Perguntou Robert.

–Eu e Katz vamos quando ele estiver pronto, você ficará aqui.

–O que? Por quê?

–Se vocês dois forem encontrar meu conhecido, é bem provável que vocês fugirão com a minha bainha logo depois de descobrir onde a pomba está. Então, Sir Robert ficará aqui para garantir que Katz não fuja com a bainha. E, além disso, eu preciso que alguém cuide de Margery até eu voltar.

Katz e Robert se esqueceram de que a rainha estava acompanhando os três. Ela estava calada, apenas ouvindo a conversa sem se intrometer. Então Katz disse:

–Mas senhor, eu juro que nós não iremos fugir com a bainha, e...

–Seria um prazer ficar no castelo, meu rei. –Interrompeu Robert. –Eu tenho uma coisa para fazer na cidade, então ficar aqui parece a melhor escolha para todos.

–Então está decidido. –Disse Gerard. –Eu e Katz sairemos o mais rápido possível.