Notas iniciais
Esse é bem mais lento em relação aos anteriores(e o segundo mais longo até então)... não que alguém leia essa bagaça mesmo XP

Após ver Katz e Gerard saindo da cidade com os cavalos, Robert foi para seu quarto. Antes de sair o rei deu um quarto temporário para Katz e Robert, caso eles tenham que ficar por mais tempo. Katz ganhou um dos maiores e mais luxuosos quartos do castelo, um quarto que fica no ultimo andar do castelo e, consequentemente, tem a melhor vista. A cama do quarto tinha cortinas, sendo a única alem da cama do rei a tê-las.

Enquanto isso, Robert recebeu um dos piores quartos do castelo. O quarto ficava no subsolo, não tinha decoração; era só um cubo com uma cama e uma mesa. As paredes eram feitas de pedra negra, o que fazia Robert se lembrar da Lertus. Assim que Robert abriu a porta para ver seu quarto, um rato saiu, passando por cima de seus pés e foi embora.

Robert ficava inconformado com isto, pois não era a primeira vez que algo do tipo acontece. Desde o dia em que seu amigo ganhou sua cicatriz, Katz passou a ser tratado de forma diferente; como se ele fosse um deus em forma física. Robert, diferentemente de Katz, é um cavaleiro de verdade. Ele é o filho mais velho de uma família nobre, ele foi treinado por um príncipe e foi feito cavaleiro por um rei. Katz nunca teve nada disso, ele era apenas um imbecil com uma espada, mas, por algum motivo, todos os reis preferiam a companhia dele à de Robert. Robert tinha certeza de que a ideia de um plebeu qualquer que cresceu e aprendeu a usar a espada era uma ideia que enojava qualquer nobre, então por que a rainha admirava isso? Katz ficaria menos tempo no castelo do que Robert, então por que Robert teria que se contentar com o pior quarto enquanto o luxuoso de seu amigo ficava vazio?

Robert achava tudo isso revoltante, mas não tinha tempo de ficar se lamentando. Ele guardou a comida e as partes metálicas da armadura e saiu do quarto, rumo à saída do castelo. Katz achava que quando Robert disse “eu tenho uma coisa para fazer na cidade.” ele apenas estava querendo seguir a vontade do rei, mas na verdade ele realmente tinha um assunto para resolver na cidade. Aquele mendigo que segurou a rédea de seu cavalo mais cedo, Robert sabia que já tinha o visto em algum lugar. Ele viu aquele homem durante seu segundo ano preso na Lertus.

Ele vivia na terceira cela a sua frente. Certo dia os guardas abriram sua cela e o tiraram de lá, ele estava morto. Robert ainda lembra-se do cheiro de seu cadáver, então como ele poderia ainda estar vivo?

Claro, revelar o belo lugar onde Robert passou os últimos anos poderia não ser a melhor coisa a se fazer quando se está cercado por guardas reais, mas agora Robert tinha mais liberdade.

Perto da saída, a rainha o esperava.

–Milady. –Cumprimentou Robert enquanto saía.

–Espere um pouco, Sir Robert, aonde pensa que está indo? –Respondeu Margery.

–Eu realmente preciso resolver algo na cidade.

–Meu marido ordenou que você cuidasse de mim.

“Queria que ela não fosse tão petulante”. Pensou Robert. Robert não notara isso antes, mas a rainha era linda. Seus cabelos loiros balançavam atrás dos ombros da rainha e, junto com seus penetrantes olhos azuis, traziam cor para um mundo escuro.

–Eu só estarei fora por alguns minutos, minha rainha. Preciso encontrar um velho amigo. –Robert precisava sair logo, então estava começando a ficar impaciente.

–Então me leve com você.

–Pode não ser uma boa ideia para uma mulher da alta sociedade caminhar por uma cidade enlameada.

–Eu ordeno que você me leve junto.

A paciência de Robert já havia esgotado, ele precisava sair logo daquele castelo.

–Eu não sou o seu servo.

Após dizer isso ele saiu do castelo e fechou a porta. Provavelmente se arrependeria disso depois.

Robert foi até a rua onde ele tinha visto aquele homem. Já estava de noite e aquela escuridão combinada com suas roupas pretas o deixava invisível. A única iluminação era a de alguns estabelecimentos com lamparinas do lado de fora. Robert foi até um dos estabelecimentos para ver se alguém vendia uma, pois ele esqueceu a sua no castelo e não queria voltar lá tão cedo.

Após comprar uma nova lamparina, Robert inspecionou as paredes da rua. No exato lugar onde o homem tinha ido se recostar logo após segurar-se as rédeas, havia sangue. Robert tomou coragem para olhar o chão, se um dos únicos homens que conseguiu fugir da Lertus além dele estiver morto... Robert sabia que poderia tê-lo levado para o castelo mais cedo, era só usar uma desculpa qualquer. Ou até mesmo contar sobre a Lertus, qualquer coisa para salvar a vida de um velho conhecido.

Por sorte o corpo que estava no chão não era o do ex-prisioneiro, era o corpo de um guarda. Os ratos dormiam em cima do corpo e por mais que fosse impossível ver alguma coisa na escuridão do céu, era quase obvio que corvos estavam voando ao redor do cadáver, centenas de metros acima. O guarda parecia ter morrido há pouco tempo.

Robert então pensou em algo terrível: quem matou aquele guarda? Robert se virou, atento a tudo em sua volta e ergueu o braço para pegar sua lança, no entanto, lembrou-se de que a deixou em seu quarto junto com as partes metálicas da armadura.

Sem armadura e sem arma para se proteger do que matou aquele guarda, Robert correu até o estabelecimento mais próximo. No meio do caminho ele jogou seu corpo para trás e deitou no chão, em um salto evasivo. Uma lança acabara de passar a poucos centímetros de seu rosto. Robert olhou para o lado devagar, ele esperava que aquilo que atirou a flecha se mostrasse. Ele então se levantou rápido, pegou a lança do chão e ficou em guarda. Era uma lança muito básica, mas tinha que servir.

Robert começou a ouvir barulhos de cavalos e logo viu uma luz vinda em sua direção. Uma carruagem tão bem iluminada quanto o castelo parou a sua frente. Dentro da carruagem estavam a rainha e mais dois guardas.

–Entre. –Disse-lhe a rainha.

Robert examinou bem os guardas e o interior da carruagem, todos pareciam suspeitos com aquelas armas a mostra.

–Perdão, minha rainha. –Disse Robert sem saber como agir depois da conversa que os dois tiveram mais cedo. –Eu ainda tenho que encontrar uma pessoa na cidade.

–Você guardou a armadura e arma para poder andar pela cidade disfarçado de cidadão comum, certo? O problema é que os guardas já falaram de você, boatos sobre você já correram pela cidade. Um Sir caminhando pela cidade sem proteção não é uma das ideias mais brilhantes que eu já ouvi.

Robert parou para pensar no que a rainha disse. Refletindo agora a ideia realmente soava idiota.

–Meu marido provavelmente vai insistir que você e Katz fiquem na cidade por mais um dia, amanhã eu convoco uma equipe de busca para achar essa tal pessoa. –Disse a rainha.

Era bem provável que quem atirou aquela lança estava dentro da carruagem, mas Robert não tinha escolha. A rainha e os servos não tinham nenhum motivo para mata-lo dentro daquela carruagem, então, relutantemente, Robert subiu e sentou-se em frente à rainha.

Robert estava nervoso enquanto a carruagem voltava ao castelo. Ele tentava olhar todos os cantos para ter certeza de que nenhum dos homens ali dentro tinha cara de suspeito. Margery olhava fixamente para seu rosto, e isto estava começando a incomodar Robert. Ele então ajeitou o pano que protegia seu olho cego, o que abriu um sorriso no rosto da rainha que acabou perguntando:

–Como você ficou cego, Sir Robert?

–É uma longa história, minha rainha, e, com todo respeito, não me sinto confortável contando-a.

–Todos os guardas passaram a olhar para ele, desconfiados. Um dos guardas chegou a sacar uma faca sem que Robert visse.

–Que vergonha, soldados. –Disse Margery. –Sir Robert é nosso convidado, além de estar desarmado.

Era verdade. A lança que Robert encontrou estava apoiada contra a porta, longe de seu alcance. A rainha o deixara tê-la depois, mas no momento ele não tinha permissão de toca-la. Todos os guardas voltaram a ignorar Robert e aquele que sacou a faca guardou-a novamente. Robert ficou curioso e perguntou:

–Por que a senhora me ajuda tanto?

–Prefere que eu te deixe morrer?

–Não me entenda errado, minha rainha. Eu agradeço por ter me salvado, mas no castelo parecia que sua majestade queria me ver morto, e agora esta me ajudando.

–Eu peço desculpas pela minha atitude no castelo, Sir Robert. É possível que eu tenha errado em questão de quem é mais interessante.

–O que você quer dizer com isso Marger... –Robert se interrompeu quando percebeu a besteira que estava prestes a falar. Os guardas voltaram a olhar para ele e então ele se corrigiu. –Quer dizer, minha rainha.

A rainha sorriu e disse:

–Me chame de Margery.

Robert parecia confuso, então Margery tentou explicar:

–Eu não pedi para ser rainha, eu queria ser tratada como qualquer outra nobre. Você sabia que a forma mais correta de um cavaleiro tratar uma nobre é chamando-a pelo nome? É normal fazer isso para mostrar que os dois são da mesma classe social.

–Desculpe o desrespeito, senhora. –Robert não sabia mais como chama-la. –Mas a senhora não é uma nobre qualquer.

Margery revirou os olhos.

–A única diferença entre eu e uma nobre qualquer é que eu me casei com o homem certo, mas eu nunca gostei de ser tratada como rainha.

A rainha não tinha dito nada, mas Robert podia ver em seu rosto que ela queria ir embora de Brimwal, deixando tudo para trás.

–Eu gostei da forma de como você falou comigo hoje mais cedo. –Continuou a rainha.

–Eu passarei a chama-la de senhora Margery, tudo bem?

Margery riu e concordou com a cabeça

–Agora me diga senhora Margery. –Continuou Robert. –O que a senhora quis dizer errou sobre quem é mais interessante?

–Hoje mais cedo no castelo, eu lhe disse que Katz era um homem mais interessante por ter nascido pobre e agora poder andar entre os reis. Katz, no entanto, só teve sorte de saber o que falar na frente dos reis. O sucesso de pessoas deste tipo é passageiro, daqui a alguns anos Katz estará pedindo dinheiro em uma cidade qualquer, esperando pela própria morte. Enquanto isso você estará vivendo em um castelo luxuoso, talvez até mesmo como protetor real.

Robert não parava de pensar na frase “daqui a alguns anos.” Será que todos os nobres acham que ainda existe esperança? Mesmo assim, Robert pareceu aliviado com o que a rainha disse. Ela então sorriu e perguntou:

–Você o odeia?

–Não. –Respondeu Robert sem pensar duas vezes. –Mas não entendo como todos o adoram enquanto ele odeia a todos.

–Todos? Inclusive você? –Disse a rainha, se divertindo com a conversa.

–Isso eu só descobrirei se ele voltar. O rei me deixou aqui para testar a confiança de Katz, mas o que o rei não sabe é que se Katz quiser mesmo ficar com aquela bainha, ele vai mata-lo e me deixar aqui.

A rainha sorriu por meio segundo e depois voltou para sua expressão normal, o que deixou Robert curioso. Robert então continuou falando:

–Algumas semanas atrás Katz me ajudou... A me livrar de um determinado assunto pendente. O curioso é saber que ele demorou seis anos para resolver esse assunto. Claro, ele estava ajudando o seu marido na época, mas ainda assim achei estranho. Durante nossa viagem eu pensei sobre isso, e cheguei à conclusão de que ele precisa de mim para alguma coisa.

A rainha pensou um pouco e disse:

– Katz quer copiar o que Ytion fez, certo?

–Certo.

–Mas Ytion fez isso sozinho. Se já é difícil uma pessoa virar um deus, imagine duas ao mesmo tempo.

Robert se silenciou por um tempo, pensando em por que Katz precisara de um ajudante nesta jornada. Devia haver algum outro motivo que não estava claro de inicio. E então... Robert percebeu que não confiava em seu amigo.

–Se ele tentar alguma coisa contra mim, então eu serei forçado a fazer algo que eu não quero.

A rainha sorriu novamente e disse:

–Vocês dois se conhecem há anos, mas ainda assim matariam um ao outro se necessário. Eu mudei de ideia de novo, vocês dois são igualmente interessantes. –Ela então estalou os dedos e um guarda pegou uma garrafa e dois copos. –Vinho?

–Não obrigado, senhora Margery, não acho uma boa ideia beber hoje.

–É só um pouco. Divida este momento comigo, por favor.

Sua beleza combinada com aquele sorriso foi o suficiente para Robert acenar com a cabeça e estender a mão.

A carruagem parou na frente do castelo. Margery conseguiu sair devagar, auxiliada por um dos guardas. Ao tentar sair, Robert caiu a poucos centímetros de uma pilha de excrementos de cavalo. Quantos copos havia bebido? Seis? Sete? Margery ajudou-o a levantar-se e deu-lhe o braço para guia-lo.

–Estão dispensados, senhores. –Disse Margery para os guardas, que voltavam aos poucos para o quartel. –Fizeram um ótimo trabalho esta noite.

De inicio, Margery guiava Robert pelo braço, mas depois Robert começou a usar sua nova lança como bengala. As luzes daquele salão atrapalhavam a visão já distorcida de Robert, então ele correu até a escuridão da varanda. Após respirar um pouco daquele ar sombrio, Robert virou-se e percebeu que o salão estava vazio. Nenhum sinal daquela estranha rinha.

Ele começou a andar pelo castelo. Tecnicamente ainda era o encarregado pela segurança de Margery, então precisava encontra-la. Após procurar pelo castelo durante alguns minutos, Robert pensou na possibilidade de ela estar fora do castelo por algum motivo. Então ele correu até seu quarto para pegar sua armadura e sua outra lança. Ao chegar a seu quarto, ele viu algo que não esperava.

Margery estava deitada na cama enquanto olhava e sorria para Robert. Ele tentou processar o que estava acontecendo ali: Margery estava nua em sua cama. Ela se levantou, andou até Robert e o beijou.

Robert a afastou e disse:

–O que está fazendo?

–Eu disse que achava você interessante.

–Sim, mas não foi isso o que eu pensei!

Robert começou a se desesperar, ele começou a andar pelo quarto pensando em tudo o que ela disse para ver se era possível prever isso. Talvez fosse um efeito do álcool! Era isso, ele estava apenas tendo alucinações.

Ele então parou e se acalmou. A rainha chegou perto e o beijou novamente. Definitivamente não era o álcool. Desta vez ele a afastou só um pouco e perguntou:

–A senhora Margery sabe quando o rei e Katz vão voltar?

–Eu não sei muito bem onde eles foram, mas acredito que o caminho deve levar algum tempo.

Robert saiu do quarto e olhou em volta para ver se tinha alguém por perto. Depois murmurou para si mesmo.

–Se eu for mesmo morrer...

E então entrou e trancou a porta.