A Dança dos Corvos
6 Fora de Brimwal
Katz cavalgava com Gerard e um grupo de soldados indo em direção ao lugar que apenas Gerard e um general sabiam a localização exata. Já era de noite, o que significava que não havia mais luz natural. O sol negro se pôs e não havia mais lua para iluminar aquelas terras. Estar em uma floresta a noite seria o equivalente a estar cego, mas, por sorte cada membro do pequeno grupo levava um archote.
Katz tentou ir mais devagar ao notar que estava na frente do grupo, então passou a cavalgar ao lado do rei. A coroa de Gerard era tão grande quanto a sua cabeça. Katz sabia que todos os nobres se preocupavam pelo menos um pouco com a beleza, porém Gerard exagerava. Para se proteger do frio da noite eterna, o rei estava usando um casaco de pele de leão por cima do manto real já feito de pele (como pele era algo raro naqueles tempos, Gerard precisava mostrar que podia se manter luxuoso que todos não importando a situação). Antes de saírem do castelo, Gerard ficou trinta minutos aparando sua barba e cortando seu cabelo (mandando criados apararem sua barba e cortarem o seu cabelo, para ser mais exato). Em compensação, Gerard agora estava com a aparência de um verdadeiro galã.
Antes do escurecer do sol, Gerard era celebrado como o rei mais luxuoso da região, gastando o dinheiro da corte em festas semanais, melhorias em seus palácios, embelezamento seu e de sua esposa, entre outras coisas. Na época isso era algo interessante e invejável. Manter esse comportamento em momentos como aquele era simplesmente ridículo.
–Ainda falta muito, Gerard? –Perguntou Katz. Ele podia ser um idiota por não entender a gravidade da situação, mas os dois ainda assim eram próximos.
Gerard parecia preocupado e distraído, ele não parava de olhar para a bainha de platina que Katz carregava. Após alguns segundos sem resposta, Katz sugeriu:
–Pode carregar a bainha, se quiser. Eu posso levar minha espada na mão.
O rei pareceu ter acordado de um transe, ele olhou para Katz e disse desesperado:
–Não, não precisa. Apenas me dê esta bainha quando voltarmos ao castelo.
Katz estava começando a ficar nervoso, ele queria voltar ao castelo e descobrir o que havia de errado com aquela bainha.
Pelo caminho eles encontraram carcaças de animais sendo devoradas por corvos. Sempre que passavam por uma, os corvos paravam e olhavam para o grupo. Um pareceu olhar diretamente nos de Katz depois crocitou e voou para longe.
O grupo então parou em frente a uma arvore que... Ainda estava viva? Todas as outras árvores da floresta já estavam mortas, sobrando apenas seu tronco; ou suas folhas não estavam mais verdes. Aquela árvore, viva e verde, deixava Katz no mínimo confuso... E, no fundo, o perturbava.
–Chegamos. –Disse Gerard.
Katz examinou a arvore. Onde estava o conhecido de Gerard? Dentro da arvore?
–E agora? –Perguntou Katz.
–Terry. –Chamou Gerard. –Faça o que precisa ser feito.
O tal soldado chamado Terry sacou um machado, desceu do cavalo e andou em direção a arvore. Em pânico, outro soldado desceu de seu cavalo e ficou na frente da árvore, bloqueando seu caminho.
–Não ouse fazer isso! –Gritou o soldado. Terry abaixou o machado e olhou o soldado com olhar de impaciente. Ele então disse:
–Arch, seu imbecil, eu não... –Terry parou de falar ao ver o rei levantando sua mão, em um sinal que dizia “pare”.
–Você questiona as ordens de seu soberano, sir Arch? –Disse o rei, em tom de humilhação.
O tal homem, que aparentemente era um cavaleiro, rápida e desajeitadamente se ajoelhou e disse:
–P-Perdão, majestade, eu só...
–Você acredita que eu não estou fazendo meu trabalho direito? Que eu não estou liderando vocês como deveria?
–Não é isso meu senhor, é que eu acho que não devemos cortar a única arvore vida deste lug...
–Você se lembra dos votos que fez a mim quando lhe concedi o titulo de cavaleiro?
–... Sim, meu senhor.
–E que votos foram esses?
–... Sempre obedecer a coroa.
–E eu estou ordenando Terry a cortar esta árvore.
Terry estava prestes a se intrometer, mas foi logo interrompido por Gerard.
–Terry, eu quero que você finja que Arch não está ali. Corte a árvore.
Terry olhou para Arch, fazendo uma tolice por acreditar ser a coisa certa, depois se virou para o monarca.
–Senhor... –Disse ele com olhos de súplica.
–Vá em frente, é uma ordem.
Terry relutantemente empunhou o machado e lentamente caminhou até a árvore. O silêncio pairava por entre os soldados, e Katz apenas observava em silêncio com os braços cruzados. Naquele ponto, uma palavra dita num tom errado poderia custar a sua vida, então era melhor não falar nada.
–Terry... –Disse Arch. –Nós servimos juntos, fomos para o campo de batalha juntos, vencemos uma guerra juntos... Não faça isso.
Terry suspirou e disse:
–Saia da frente em quatro... Três... Dois... –E então atacou horizontalmente.
O corte do machado acabou atingindo a árvore, porém, com o seu preço. No chão estava Arch, abraçado a sua mão, que agora estava separada do braço.
Terry olhou o cavaleiro chorando e se contorcendo de dor. Gerard provavelmente o mandaria ser executado ao retornarem. Ou seria apenas Arch, ou seriam os dois.
–Convidados na frente. –Disse Gerard para Katz, ignorando Arch e indo para o lado devagar, abrindo o caminho para o plebeu.
Katz desceu de seu cavalo, tirou as raízes de sua frente e saltou no buraco.
A queda era maior do que Katz imaginava; ao descer, ele se desequilibrou e quase caiu. A caverna embaixo da terra era gigantesca, parecia um novo mundo bem abaixo de seus pés que Katz nunca nem havia ouvido falar. A sua volta havia uma dezena de tuneis, cada um indo a um caminho diferente e no final de cada um, eles se ramificavam em mais tuneis. Se Katz estivesse sozinho, não saberia para onde ir ou o que procurar.
Por sorte ele não estava sozinho, pois logo depois o rei desceu seguido por Terry. Após os três homens entrarem, raízes fecharam o buraco. Katz olhou com curiosidade para o buraco fechado, depois olhou para Gerard. Sua expressão deixava sua pergunta bem clara.
–A árvore cresceu de novo. –Esclareceu Gerard.
Katz pareceu ainda mais confuso. Gerard começou a andar e logo Terry e Katz o seguiram. Após alguns segundos ele explicou:
–Estes túneis foram criados pelos Shivers, como devem ter imaginado. Uma raça tão experiente com ilusionismo que consegue criar uma cópia exata de árvore; com a mesma aparência, cheiro e sensação áspera ao tocá-la.
–Então Arch perdeu a mão por nenhum motivo?
Gerard olhou para Katz, indignado, e então voltou a andar depressa, assumindo a dianteira e guiando os dois homens. Terry se aproximou de Katz e sussurrou enquanto andava:
–O que está fazendo? Você não pode dizer coisas assim para o rei. Especialmente para um rei como Gerard.
–Como assim “um rei como Gerard?”. — Respondeu Katz em voz baixa.
–Um rei que te mataria e me mataria só por estar com vontade.
–Gerard está tentando saber se vai ou não confiar em mim. Então por enquanto ele sabe que se tentar alguma coisa aqui em baixo, eu o mato.
–Ele provavelmente esperaria até chegarmos à superfície.
–Tem razão.
Terry lhe estendeu a mão e disse:
–Nós ainda não fomos formalmente apresentados. Sou Terry, general do exercito e melhor guerreiro de Brimwal... Sem querer me gabar, é claro.
Katz também estendeu a mão:
–Sou Katz e não sou nobre para ter títulos. –Brincou Katz.
–Você é Katz o imortal, certo?
–Eu não entendo o porquê de me chamarem de imortal. Eu posso ser morto como qualquer outro, só dei sorte.
–Alguns diriam sorte, outros, bênção dos deuses...
–Os deuses não abençoaram Arch, aparentemente.
Terry ficou em silêncio por um tempo, até finalmente dizer:
–Eu balancei o machado devagar para Terry sair da frente a tempo. Não é minha culpa se ele foi muito lento.
–Chegamos! –Disse Gerard enquanto parava a frente de uma casa subterrânea feita de terra. –Terry. –Disse fazendo um gesto com a cabeça na direção da porta.
Terry correu e bateu na porta. Um Shiver abriu a porta. Os Shivers são uma raça humanoide de pele azul e com lâminas naturais em seus cotovelos. Ao ver o rosto daquele Shiver, Terry percebeu aqueles olhos completamente negros focando em sua carne, e os dentes pontiagudos se enchendo de fome.
–O que você quer. –Disse o Arthen depois de vê o rei. Reis humanos não tinham o menor controle sobre as outras raças (e vice-versa), mas Gerard gostava de fingir que sim.
O rei entrou na casa com ar de superior. Dentro do lugar existiam quatro outros Shivers, com dois aparentando serem crianças. Esses dois menores pareciam ter medo ou nojo do rei, saindo do cômodo ou desviando o olhar. Katz achou este tipo de comportamento estranho, mas ignorou, pois acabou se distraindo com a própria casa. Parecia que alguém havia roubado moveis da superfície e os levado para o subterrâneo.
O Shiver que abriu a porta olhou para os outros que ainda estavam na sala e imediatamente todos foram para outros cômodos. Ele então perguntou ironicamente com impaciência:
–A que devo a honra de ter sua majestade aqui hoje?
–Meu amigo precisa do bico da pomba. –Respondeu Gerard.
Até mesmo Terry olhou para Katz, surpreso. O rei não havia lhe dito o porquê de Katz ter de se encontrar com os Shivers. Katz ficou tão distraído com seus pensamentos que quase não ouviu o resto da conversa.
–Eu sei que está raro de encontrar alguma estes dias, mas ainda assim se você procurar é possível encontrar. Agora ade... –Disse o Shiver antes de ser interrompido pelo rei.
–Você sabe do que estamos falando, Kerryn, precisa ser uma pomba abençoada pela deusa.
–Bem, eu não tenho. –Respondeu Kerryn. A simples presença do rei naquele lugar incomodava e muito Kerryn.
Gerard se aproximou de Kerryn. Este tentou recuar, mas Gerard pôs uma mão em seu pescoço e gentilmente o empurrou contra a parede. Depois falou pausadamente e de uma forma ameaçadora.
–Cuidado com as suas maneiras. Se continuar assim, o numero de crianças vai diminuir... De novo.
Kerryn tinha o olhar da culpa. Ele então olhou para o rei. Gerard o continuou segurando-o por mais alguns momentos, até finalmente soltar.
–Como eu estava dizendo. –Disse Kerryn. –Eu não tenho... Mas sei onde a pomba está. Tudo que seu amigo precisa fazer é cortar o bico.
–Certo, e onde está? –Perguntou Katz.
–Ferinank.
–Nunca ouvi falar.
–Chegar até lá é simples, apenas siga norte.
A expressão de Kerryn era quase de suplica, e logo que Katz percebeu ele disse:
–Obrigado pela informação, acho que é o suficiente.
–Tem certeza, Katz? –Perguntou Gerard. –Esta informação me pareceu um pouco vaga.
–Não para mim. –Respondeu Katz. –Agora tenho a direção e o nome. Já é o suficiente.
–Neste caso, vamos embora. –Disse Gerard. Terry e Gerard foram à frente; enquanto saía Katz olhou para trás e viu Kerryn balbuciando a palavra: “obrigado”. Depois Katz se virou e passou pela porta.
Gerard, Terry e Katz andaram em direção à saída com Katz não tirando da cabeça as palavras de Kerryn, “apenas siga norte”. Katz começou a sentir algo em sua perna, algo o puxando aos poucos. Ele tentava mover sua perna freneticamente, mas algo continuava puxando-a.
–Tudo bem aí atrás? –Perguntou Terry.
–Sim, tudo ót... –Antes de Katz terminar a frase, ele caiu no chão e começou a ser puxado pelas pernas.
Gerard e Terry tentaram correr atrás dele, mas era tarde, ele estava sendo puxado cada vez mais rápido. Katz sentia dor por causa do atrito de sua armadura e o chão. O archote que carregava preso ao seu cinto caiu e logo tudo a sua volta ficou escuro enquanto passava pelos diversos tuneis.
O que estava puxando-o de repente parou e Katz se viu em um lugar parecido com a entrada; a diferença é que tudo estava iluminado por pinturas fluorescentes nas paredes. Katz se levantou e pôs uma das mãos nas costas para checar o quanto ele havia se machucado. Ao olhar para esta mão, percebeu que sua mão estava ensanguentada, e logo depois começou a sentir uma dor imensa nas costas. Ele então desembainhou sua espada e a usou como espelho, a pele das costas estava com um enorme rasgo que ia do inicio até o final dela.
Katz começou a olhar as pinturas fluorescentes. Elas pareciam se repetir. Era uma imagem mal desenhada, daquelas desenhadas por civilizações antigas, de uma mulher em um vestido branco, com alguns tons de vermelho sangue. Em baixo do desenho estava escrito a frase “Não mais” em vários idiomas diferentes; Garth, Shiver, Celestial, Awreen, etc.
Em um sobressalto, Katz se virou desesperadamente e correu na direção de onde veio enquanto tentava suportar a dor nas costas.
Um corvo apareceu da escuridão, pousando em sua frente. O corvo olhou para ele e começou a crocitar. Katz instintivamente recuou lentamente. Logo dezenas de aves negras apareceram, e voaram pelo pequeno salão, todos crocitando de forma barulhenta e irritante. Eles então pararam o barulho, deixando o lugar em um silêncio ensurdecedor. Da escuridão, um vulto passou a ficar visível enquanto andava em direção a Katz. Ele começou a sentir um frio na espinha, havia anos desde a ultima vez em que Katz experienciara medo, mas desta vez era pior do que todas as outras vezes.
O vulto agora era completamente visível. Era um homem usando vestes negras feitas por penas de corvos. O homem não tinha pele, sua carne ficava a mostra e era completamente negra. Seus olhos eram formados por uma pupila azul com o resto do olho sendo negro. Sua espada era feita de ouro enferrujado e era curvada. Katz sabia quem era aquele individuo. Ele estava olhando para aquele que reclamava a sua vida. Ele estava olhando para a morte.
Lestraus avançava em sua direção lentamente, a cada passo Katz perdia cada vez mais a esperança. Katz ergueu sua espada, mesmo sabendo que não conseguiria fazer nada. Lestraus desapareceu em trevas e reapareceu em sua frente, segurando-o pelo pescoço.
Ele então pressionou Katz contra uma parede e começou a falar em varias línguas diferentes o que parecia ser a mesma frase; primeiro celestial, depois Garth, depois Shiver, até que, enfim, humano:
Qual o objetivo de ser imortal durante a pós-vida?
Katz olhou nos olhos penetrantes de Lestraus. Eles fizeram Katz ter uma visão: o dia em que ganhou sua cicatriz. Katz conseguiu sentir a dor que sentira tanto tempo atrás, quando aquele seu aliado pôs uma faca em sua garganta. Ao cair no chão, com o sangue jorrando para todos os lados, Katz voltou à realidade.
Lestraus chegou mais perto de Katz e falou mais algumas palavras em uma língua desconhecida, e então ergueu o outro braço, tentando tocar em sua cicatriz. Ele chegou tão perto que acidentalmente esbarrou na bainha com a perna. Ele então desapareceu em trevas novamente e apareceu no meio da sala de pedra onde estavam. Lestraus gritava em agonia e logo Katz viu que a perna do deus estava queimando.
Lestraus então olhou para Katz pela ultima vez e desapareceu em trevas, desta vez junto com os corvos. Após eles terem ido, a luz da sala onde Katz estava começou a desaparecer e em poucos segundos ele estava na escuridão.
Poucos momentos depois, Terry apareceu, iluminando a sala.
–Tudo bem ai? –Perguntou Terry, ajudando Katz a se levantar.
–Um pouco. –Respondeu Katz. –O único problema é essa dor... Espere.
Katz percebeu que a dor nas costas havia passado, como se não estivesse mais sangrando. Terry olhou as costas de Katz que ainda estavam ensanguentadas. Katz pôs a mão limpa nas costas e realmente ainda estava sangrando.
–Eu não entendo. –Disse Katz. –Eu não sinto mais dor.
Terry ficou sem palavras para aquele evento estranho. A única coisa que conseguiu dizer foi:
–Vamos sair daqui e quando chegarmos ao castelo vamos imediatamente ver um médico. No caminho você me conta exatamente o que aconteceu.
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