Katz levou Robert para longe de Lertus, descendo aquela ladeira com cuidado. A luz na tocha estava se apagando, as escadas de pedra que ajudaram Katz a subir estavam escorregadias na hora de descer. Contos do passado dizem que seis prisioneiros que conseguiram fugir com a ajuda de um guarda, acabaram tropeçando nas escadas e morreram. Os dois chegaram ao final da ladeira, onde dois cavalos os esperavam mais a frente.

–Não importa o quanto você está machucado, nós nunca iremos dividir um cavalo. -Brincou Katz

Katz ajudou Robert a subir em um dos cavalos; Robert se sentia desconfortável ali em cima. Katz então subiu no outro cavalo e pegou uma corda que estava presa ao cavalo do Robert, a corda que Katz usou para guiar os dois cavalos até a prisão.

Os dois cavalgaram devagar até a vila Stern. Era um caminho longo de aproximadamente duas horas, mas nenhum dos dois homens falou qualquer coisa durante o caminho. Robert estava tentando processar tudo que aconteceu com ele naquele dia e Katz não queria conversar com Robert agora, ele preferia esperar até a vila para contar o que aconteceu nestes seis anos que Robert passou na prisão.

No final de seu longo caminho, eles chegaram à vila. Stern era uma vila muito pequena, havia apenas seis casas com dezoito moradores no total. Havia também um bar e uma Forja. Um dos moradores, Revin, é um ferreiro dono da forja e velho amigo de Katz e Robert. Ao saber que Katz queria libertar Robert, ele logo sugeriu levar Robert para sua casa enquanto for necessário.

Katz saiu de seu cavalo e foi ajudar Robert, mas ficou surpreso ao ver que seu amigo conseguiu sair do cavalo sozinho.

–Já está se recuperando? –Perguntou Katz.

–Eu me exercitava na cela... Há muito tempo, mas me exercitava. Eu tinha esperança que conseguiria sair algum dia. Mas ainda assim preciso de ajuda para ir até... Aonde vamos?

–Bar.

No bar Katz pediu um verdadeiro banquete. Uma cerveja pra cada acompanhado de carne de javali e carne de lobo. Robert comeu o javali inteiro. A comida que lhe serviam em Lertus era péssima em questão de gosto e quantidade.

–Espero que tenha gostado do javali. –Disse Katz — Eles estão ficando cada vez mais raros.

–Como assim? Eles sempre estiveram nesta região, nós sempre os caçamos e eu sempre como toda a carne deles e não deixo nada para você.

–Nessa época você era mais gordo que eu. –Brincou Katz

Robert riu.

–Mas porque eles são raros hoje em dia?

A expressão no rosto de Katz ficou séria de repente.

–Eu vou lhe explicar o que aconteceu com o mundo enquanto você estava preso. Os deuses se irritaram conosco.

–Nós dois ou nós os humanos?

–Nós em geral. Não só os humanos, mas também as plantas, os animais, os Garths, os Shivers, todas as espécies que ainda vivem. Eles querem nos matar, Rob.

–Eles são deuses, se realmente quisessem já teriam feito isso.

–Você sabe que não é assim que funciona. Os deuses perdem grande parte de seu poder ao vir para o mundo mortal, eles ainda são mais fortes que o resto, mas nenhum deus conseguiria matar a todos simplesmente estalando os dedos. Eles também não querem eliminar todos os seres vivos um por um, não seria impossível, mas seria uma perda de tempo.

–Então o que eles fizeram para tentar matar a todos?

Katz apontou para cima.

–Você me perguntou hoje mais cedo o porquê de o sol estar escurecido, certo? Bem, este é o motivo.

–Eu até posso sobreviver a falta de luz, graças ao lindo lugar onde fiquei hospedado pelos últimos seis anos. Mas o que tudo isso tem haver com os javalis estarem raros?

–Imaginava que você conseguiria raciocinar isso por conta própria. Sem sol as plantas não se alimentam e morrem. Sem plantas os animais não se alimentam e morrem. Sem animais e plantas nós não nos alimentamos e morremos de fome. Sem nós os Shivers não se alimentam e morrem de fome. Moral da historia: todos os seres vivos morrerão de fome. Os únicos seres que sobreviverão serão os corvos, pois estes se alimentam de cadáveres e bem, logo haverá muitos cadáveres.

Robert ficou em silêncio por alguns minutos pensando em tudo que Katz havia lhe dito. Sua expressão era de puro terror, era como se o mundo inteiro fosse uma Lertus gigantesca. Um lugar escuro e infestado de corvos onde todos eventualmente morrerão.

–Alguns dizem que após toda a vida acabar, os deuses criarão novos seres para nos substituir. –Disse Katz.

–Com a falta das plantas é mais provável que nós morreremos antes por falta de oxigênio, certo? –Perguntou Robert, ignorando os boatos.

–Não, os deuses acham que morrer sufocado seria uma morte cruel demais, então ainda existem plantas que nos fornecem oxigênio... Porém esta grande floresta está localizada em um lugar mais alto que qualquer montanha, ninguém conseguiria chegar até lá. Sendo honesto eu preferiria morrer sufocado a morrer de fome.

Robert balançou a cabeça e olhou para o lado, para os outros clientes do bar. Havia um poeta cantando uma musica para tentar animar os bêbados do local. Robert conseguiu escutar um pouco da letra.

“Nós somos o povo

E nós temos o direito

De nos levantar e lutar

Por uma vida justa.”

Ele era um péssimo poeta, mas as letras chamaram a atenção de Robert.

–Achei que os cantores fizeram um acordo para nunca insultar um deus através da musica.

–Ele não está insultando os deuses. O nome desta musica é “A ultima noite dos reis”.

Robert se calou e escutou mais um pouco.

–Por que eles cantariam uma musica feita para insultar os reis em tempos como estes?

–Boatos dizem que aqueles que irritaram os deuses foram os reis. É provável que não seja verdade, o povo sempre tenta culpar alguém quando a situação fica péssima.

Robert então olhou para os ossos que sobraram do javali.

–Se a comida está ficando cada vez mais rara, os preços dela estão aumentando, certo?

Katz fez que sim com a cabeça.

–Os mercadores acreditam que os deuses irão desistir da ideia e poupar a vida dos humanos. Uma crise é a melhor forma de se enriquecer.

–Então como você comprou este javali? Se me lembro bem eles já eram bem caros antes, você enriqueceu neste meio tempo?

Katz olhou para Lyria, a garçonete do bar. Lyria era uma mulher jovem de estatura média, cabelos pretos longos e olhos azulados. Ela era a mulher mais bonita da vila. Katz sorriu para ela, levantou seu copo de cerveja e deu um gole. Ela sorriu de volta.

–Como eu disse, uma crise é a melhor forma de se enriquecer, metaforicamente no meu caso.

–Como assim?

–Eu disse para Lyria que eu tinha uma conexão com Lestraus graças a minha cicatriz. Eu disse a ela que depois de te resgatar, nós iríamos falar com Lestraus para que ele convença os outros deuses a desistir dessa ideia.

Robert pareceu surpreso

–Nós não vamos? Não foi por isso que você me libertou? Não é por isso que você precisa do bico de corvo?

–Não.

–Você mentiu para Lyria? –Perguntou Robert, indignado.

Katz revirou os olhos.

–Por que você se importa? Vocês tiveram uma noite nove anos atrás, nada demais. Todos os homens da vila já tiveram mais noites com ela do que você.

Robert se irritou com esse comentário.

–E eu não recomendaria que você se apegasse muito as outras pessoas. –Continuou Katz. –Pois todos vão morrer em aproximadamente seis meses.

–Mais tempo que eu esperava.

–O sol fornece pouca luz, mas ainda assim fornece luz o suficiente para que algumas plantas sobrevivam.

–E por que não se apegar? Se todos os outros morrerem, nós morreremos também meu amigo, não somos imortais.

–Ainda.

Katz tirou de seu bolso o bico de corvo.

–Rob. –Continuou Katz. –Você conhece a historia sobre o deus dos Garths, Ytion?

–Sendo sincero eu não sabia que existia um deus dos Garths.

–A maioria não sabe. Ytion sofria de uma doença rara entre os Garths; seus pelos nasciam nas estações erradas. Você sabe que o corpo de um Garth precisa estar sempre mantido a uma temperatura fixa, certo? O que significa que durante o verão ele corria o risco de morrer por causa do calor. Ytion não queria morrer por causa do clima, seria uma morte indigna. Ele então decepou o bico de um dos corvos de Lestraus e de uma das pombas de Irith, a deusa da vida. Com estes dois itens, Ytion entrou no reino dos deuses, e lá, virou um deus imortal protetor dos Garths. Claro, nunca ouvi essa história por completo, mas saber o básico já deve ser o bastante.

–É isso que você quer fazer? Virar um imortal?

–Parece uma tarefa complicada, e vai ser.

–Mas e as outras pessoas? Nós vamos deixa-las morrer?

–Você quer levar um exercito por acaso? Eu também não gosto disso, mas não há nada que possamos fazer.

Robert olhou em volta mais uma vez. Se a ideia de seu amigo funcionasse, ele nunca mais veria nenhuma destas pessoas.

–Eu não sei se quero ser um imortal. –Admitiu Robert. –Viver com os deuses em outro mundo por toda a eternidade... Não parece algo que eu gostaria de fazer. A imortalidade é uma maldição, não uma benção.

–Eu não estou lhe forçando para vir comigo, se quiser ficar aqui e morrer de fome, fique a vontade. Ou prefere que eu corte sua garganta para lhe garantir uma morte rápida?

–Deve ter uma forma de sobreviver sem me tornar um imortal.

–Bem, não existe. Esta foi a única solução que eu encontrei.

Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, até que Katz disse:

–Eu preciso que você me diga se vai ou não. Se você não for, então eu partirei agora sabendo que libertar você da Lertus foi uma perda de tempo, pois você morrerá de qualquer forma. Mas se você for então eu vou esperar você se recuperar.

Robert pensou um pouco. Ele nunca quis a imortalidade, mas também não quer morrer.

–Sim. –Disse ele por fim. –Sim eu vou com você.

–Ótimo. –Disse Katz, feliz. –Nós vamos quando você estiver pronto para partir. Nesse meio tempo nós vamos ficar aqui em Stern, de acordo?

–Sim.

–Ótimo, Revin nos deixou ficar na casa dele enquanto for necessário.

Os dois beberam durante mais algum tempo. Katz resolveu prestar atenção na musica.

“Os senhores e as senhoras

Estão andando pelos corredores

Eles sorriem, riem, e mostram sua felicidade

Eles não entendem que nós esperamos há tempos

E ninguém pode prever

Esta é a ultima noite dos reis!”

Depois deste trecho ele se virou para Robert e percebeu que este olhava fixamente para Lyria.

–Qual é a sua obsessão por aquela mulher?

–Não é bem isso que você está pensando, é só que... –Robert fez uma pausa. –Durante os últimos seis anos tudo que eu via a minha volta eram homens.

–Ah... Certo. Eu posso lhe ajudar com isso.

Katz se levantou da cadeira.

–Espere, não precisa!

Mas Katz já estava andando em direção a Lyria. Os dois conversaram por alguns minutos enquanto ela mantinha um sorriso no rosto. Depois ele voltou para a mesa e jogou uma chave em cima da mesa.

–Esta é a chave da casa do Revin, eu vou até a forja para encontra-lo. Agora vou deixar vocês dois sozinhos, divirta-se. –E foi embora com um sorriso no rosto enquanto Lyria se dirigia a mesa.