Os três foram recebidos no local com olhares pesados, como se todos quisessem matá-los antes mesmo do julgamento em si acontecer.

Por fora o tribunal era como qualquer construção, apenas um pouco maior. Por dentro, no entanto, o lugar era feito de madeira. Havia um longo caminho reto entre as duas fileiras de bancos localizados nas extremidades da sala. Acima dos bancos estavam diversas janelas gigantescas, decoradas com uma palavra cada uma. Nenhum dos três conseguia dizer o que estava escrito, mas imaginavam que fosse algo como “justiça” ou “ordem”.

Ao fim do caminho, após subir dois degraus, estava localizado um trono também feito de madeira negra que parecia não estar lá mesmo à luz de velas.

Sentado no trono estava um Garth que atraía a atenção dos viajantes. Mesmo dentro da cidade, ele ainda possuía longos pelos cinzentos, com tufos escondidos por baixo de placas metálicas que servem como armadura. Em seu colo estava um grande machado de aço com uma lâmina de um lado e um espinho do outro, ambos decorados com imagens cravadas. Sua postura fazia com que todos quisessem se ajoelhar por respeito.

E foi o que Arkath e os dois Garths fizeram.

–Eu não tenho o direito de estar à sua frente. –Recitaram os Garths. –Mas tenho a sorte de estar.

Ytion levantou-se de seu trono com seu machado em mãos e disse com uma voz que ressoava pela sala.

–Povo unido. Raça unida.

–Povo unido. Raça unida. –Repetiram todos os Garth no recinto.

–Sim... Raça. –Repetiu novamente Ytion, andando de um lado para o outro em seu tablado. –A única raça que sobreviverá a longa noite!

A multidão gritou, concordando com seu deus.

–E estes bárbaros assassinaram dois de nós a sangue frio!

E, mais uma vez, a multidão concordou aos gritos.

–Não foi assim que aconteceu! –Exclamou Katz. –Fashir nos atacou em Lertus e Sayad atacou Terry na neve! Estávamos apenas nos defendendo!

–Fahir! –Corrigiu Ytion com raiva. –Você o mata e nem ao menos tem a decência de lembrar o seu nome!? Inclusive carregas contigo uma faca Garth, como alguma espécie de prêmio!

–Por quê se preocupas tanto com isso, uh... Vossa... Majestade? –Perguntou Terry. O deus manteve-se em silêncio, esperando o soldado terminar. –Um de seus Garths saiu da cidade para morrer há poucos minutos e tudo que importa vossa majestade são dois já mortos?

–Não posso fazer nada pelos velhos e doentes. –Disse Ytion. –Eles sabem o que devem fazer e entendem o porquê. Porém, para os mortos, posso trazer-lhes justiça. Isso é algo que um bom líder faria e é algo que estou fazendo.

–Bem, eu não saberia dizer o que é um bom líder. –Respondeu Terry apontando para Robert. –O rei que eu servi matou o brinquedo dele e me forçou a cortar o braço de alguém que servia comigo.

Robert lentamente virou-se para Terry, enfurecido.

–O que você disse sobre Margery ser meu brinquedo, seu filho da puta?

–Se você tivesse mantido seu membro em suas calças, eu não estaria morrendo de fome agora!

–Calados! –Exclamou Katz. –Os dois!

Ele então virou-se para Ytion e começou a suplicar:

–Por favor, me escute. Eu estava torcendo para encontrar-te nesta viagem. Nós precisamos da sua ajuda e de seu conselho.

–Em relação a que?

Katz segurou a respiração e falou, decididamente:

–Estamos tentando recriar o seu feito de décadas atrás e precisamos de ajuda.

O tribunal permaneceu silencioso por algum tempo. Os que estavam presentes tentavam acreditar que o forasteiro não tinha falado aquilo. Até que, por fim, um Garth no fim do local gritou:

–Heresia!

Em seguida outro fez o mesmo. E depois outro e assim por diante até o tribunal xingar e vaiar em uníssono. Arkath virou-se para os três, levemente preocupado.

–Silêncio! –Ordenou Ytion. –Vocês desejam tornar-se deuses? Em uma era onde deuses estão tentando matar os vivos?

–Apenas imortais já é o suficiente. –Disse Robert. –Queremos apenas sobreviver. Nada mais, nada menos.

–Vocês querem migrar do primeiro para o terceiro plano? Se deixarem-me executar vocês, passarão para o segundo. Serão infinitos de qualquer forma.

–Eu permanecerei com meu corpo para sempre. –Retrucou Katz. –Meu corpo e minha alma serão infinitos, não apenas o segundo.

–Isto é algo além de seu controle.

–Pode não ser se você nos ajudar.

Ytion gargalhou e olhou para os Garths no recinto.

–O bárbaro quer minha ajuda, senhoras e senhores! –Todos riram, acompanhando seu líder.

Terry prestou atenção em dois Garths a sua direita que não estavam gargalhando. Um deles, que parecia macho, tocava levemente as costas da outra, que parecia fêmea e abatida.

–Você está bem? –Perguntou o macho.

–Sim, eu... Vou ficar. –Respondeu a fêmea, pondo a mão em seu peito.

–Curioso... –Comentou Terry em voz baixa.

–O que é curioso? –Perguntou Robert no mesmo tom.

Terry fez um sinal com a cabeça que apontava para os dois Garths

–Isso não é um bom plano. –Replicou Robert ao finalmente entender o que o soldado quis dizer.

–Isso não é um plano. –Rebateu Terry. –Isso é apenas o destino sendo amigo ou inimigo.

–Amigo ou inimigo?

–Só o tempo dirá com certeza.

Ytion finalmente cessou as gargalhadas com sua mão e disse:

–Tolo! Eu nunca ajudaria assassinos de raça errada! –O deus deu-lhes as costas e caminhou de volta a seu trono. –Leve-os para o gelo e finque suas cabeças em lanças. Isto deve afastar outros bárbaros.

A multidão aplaudiu e vibrou. Arkath, o que lera a sentença e o que carregava as armas começaram a empurrar Katz e segurar seus braços, enquanto outros soldados faziam o mesmo com Robert e Terry.

–Me perdoe. –Disse Arkath enquanto segurava Katz pelo pescoço.

Terry olhou para o casal de antes. A fêmea agora apertava seu peito com força e sua expressão de dor era visível. O macho parecia desesperado.

–Por Ytion, eu preciso avisa-lo! –Disse ele em pânico.

–Não. –Respondeu a fêmea, tentando imitar um tom calmo. –Não. Não. Não. Não. Eu estou bem. Não precisa chama-lo. É só uma dor passageira. –A Garth tentou dar um sorriso.

–Você precisa enrola-lo mais um pouco, K. –Disse Terry, tomando cuidado para que os soldados não escutassem. Robert achou estranho, ninguém além de Revin chamava-o por sua inicial.

–Eu posso ajudar-te com Lestraus! –Exclamou Katz.

Ytion parou de caminhar. Então virou-se e ordenou:

–Parem!

Todos no local silenciaram-se. Os soldados e Arkath ainda mantinham os três presos, mas já não os empurravam. Ytion desceu os dois degraus e andou pelo tribunal até parar à frente de Katz. Este sentiu-se pequeno e fraco em relação a divindade.

–Prossiga. –Disse o deus.

–Você quer parar esta... Esta longa noite, certo? Nós também, mas precisamos de poder. Por favor, deixe-nos adquirir poder. Um deus e três imortais... Cacete, talvez até quatro deuses contra ele! Podemos reverter esta situação, mas precisamos de ajuda! Já temos o bico do corvo e sabemos onde conseguir o da pomba, mas precisamos saber o que fazer com eles.

Ytion aproximou-se de Katz. Era possível sentir seu terrível hálito.

–É por isso que eu não irei lhe ajudar. Você é muito cego para perceber que isso já aconteceu. Diversas vezes, para ser honesto. Até mesmo antes da longa noite. Mas, como se derrota aquele que controla a morte?

Um grito de agonia veio do lado direito. A Garth feminina agora estava caída no chão, com ambas as mãos em seu peito.

–Ajudem! –Disse o Garth macho. –Alguém ajude!

–O que está acontecendo aqui? –Perguntou Ytion.

–Ela parece estar tendo um ataque cardíaco. –Disse Terry inocentemente.

–O que!? Leve-a para fora da cidade!

–Senhor... –Argumentou Arkath.

Ytion segurou-o por sua roupa de linho.

–Não colocarei todos em risco.

–Senhor. –Disse Arkath, tentando acalma-lo. –A cidade é muito grande. Não vai dar tempo.

Ytion empurrou-o para longe e abriu caminho entre os Garths. Ele ajoelhou-se próximo ao corpo da mulher e começou a fazer força contra seu peito.

–Você não partirá! –Gritou ele. –Não aqui, não agora!

–Senhor, ela...

–Ela já está morta, senhor. –Disse o que passara a sentença.

Ytion fechou os olhos do cadáver e lentamente se afastou, finalmente expirando o ar preso em seus pulmões. Todos em volta permaneceram em silêncio. Seu medo pairava no ar. Todos naquilo tribunal sabia o que isto significava. O fim de quatro meses de paz.

O silêncio foi quebrado por um som agudo que congelava a espinha de todos no lugar. Vinda de um vão na porta de entrada, uma sombra negra pairava pelo local, voando perto dos bancos e finalmente pousando no centro do tribunal.

Todos viraram sua atenção para o animal de penas negras que crocitava e bicava o chão. Em poucos segundos, mais sons surgiram dos lados de fora.

Um dos Garths fechou a porta, desesperado. Katz olhou para as janelas em volta. Elas não aguentariam o que viria a seguir.

–Me dê minha espada. –Disse Terry para aquele que carregava as armas.

Ele fez que não com a cabeça, tremendo com o medo.

–Filho da... Alguém me dê uma arma! –Gritou Terry.

–Afastem-se das janelas! –Advertiu Katz.

–Ou apenas quebrem minhas correntes! –Continuou Terry. –Qualquer coisa!

O som ficou mais alto e mais bagunçado.

–Terry, se abaixe. –Ordenou Robert.

–Joguem-me minha espada! –Insistiu Terry.

O som agora parecia muito próximo.

–Terry! –Gritou Robert enquanto atirava-se contra ele, derrubando-o no chão.

–Afastem-se das janelas! –Repetiu Katz enquanto se abaixava.

Todos os vidros foram quebrados imediatamente depois, deixando entrar as trevas em forma de aves. Dezenas de corvos voavam dentro do tribunal, atacando aqueles presentes no local.

Alguns se atingiam no ar e caiam no solo combinados, como que se juntassem e formassem uma criatura humanoide formada por penas e carne. As tais criaturas eram magras, altas e possuíam um bico no rosto, alem de longas garras em cada um de seus dedos.

Ytion olhava em volta, horrorizado. Ele andou até Katz, Robert e Terry com seu machado em mãos.

–Vocês três... –Disse o deus enquanto levantava Katz pelo pescoço. A divindade e o plebeu trocaram um longo olhar, até Ytion ceder a aqueles longos olhos castanhos e cortar as correntes do viajante.

–... Ajude-nos. –Completou, cortando as correntes dos outros dois.

Terry correu até o Garth que carregava as armas. Tudo que sobrara dele era o corpo, pois a alma já havia partido. Um de seus olhos estava no chão e Terry acidentalmente esmagou-o com o pé. Ele espantou os corvos que se alimentavam do cadáver e pegou as três armas.

–K! –Disse ele jogando a espada embainhada para seu dono. Katz pegou-a no ar, mas não fez nada com ela, apenas continuou observando o massacre ao lado de Ytion. Ambos esperavam o deus dos corvos aparecer.

–Caolho! –Disse Terry enquanto jogava a lança para Robert.

Este a pegou com cuidado para não tocar em sua lâmina envenenada e virou-se para uma das criaturas. Em meses ele mal precisara usar sua arma e em seis anos mal praticara com ela.

A criatura correu em sua direção com os braços esticados. Robert girou para o lado e perfurou-o na perna. Revin disseram que o veneno da lança paralisaria o inimigo em menos de três minutos, mas Robert não sabia se isso se aplicava a seres não-pertencentes ao primeiro plano.

Robert tentou perfurar suas costas para confirmar a morte, mas o grande corvo pulou para frente e aparou a lança, empurrando-a para o lado. Robert usou a defesa de seu oponente como um impulso e girou mais uma vez, cortando ao meio a mão do corvo. Este contorceu-se de dor, tentando juntar sua mão e torná-la uma novamente.

Robert então lhe deu um golpe de misericórdia, perfurando seu Crânio. Uma sombra negra projetou-se atrás do cavaleiro. Robert virou-se para encontrar uma garra a poucos centímetros de seu rosto.

A criatura então parou de se mover por alguns segundos, até Robert perceber o torso do corvo escorregar lentamente e atingir o solo. Atrás dele erguia-se Terry, com a espada de Brimwal suja de sangue.

–Considere isso um “obrigado”. –Disse ele.

Ele virou-se e avançou em direção a outro corvo. Pela simples forma de se lutar, era possível ver o status social de uma pessoa.

Robert foi o escudeiro de um rei, aprendendo a lutar em um castelo. Por isso ele não aprendeu a lutar, aprendeu a dançar com seu oponente. Esperar o ataque do outro para desviar e atingir um ponto sensível foi a forma a qual ele foi ensinado. Para Robert, agilidade vencia força.

Terry pensava de forma diferente. Este precisou aprender a lutar sozinho, entrando na guarda real por mérito próprio. Terry era um monstro, mesmo sem sua espada histórica, ele conseguia arrancar membros com um movimento. Ele botava força o suficiente para que cada ataque fosse o último.

Robert percebeu que isto era um problema. Ele botava muita força e esforço em ataques fáceis de desviar. Robert preparou sua lança. Terry balançou sua espada verticalmente, mas atingiu o solo. A criatura aproveitou a brecha e avançou contra seu pescoço, mas foi interrompido por um objeto.

Robert caminhou até o corpo para retirar a lança de seu pescoço.

–Me salva na próxima. –Brincou Robert.

Katz era o único que não estava com as mãos em sua arma. Mesmo Ytion enfrentava os corvos que se formavam, enquanto Katz apenas observava o massacre a sua volta. Ele queria estar preparado para o que viria a seguir.

–Lestraus! –Gritou ele, impaciente.

Até que, por fim, múltiplos corvos se formavam perto da entrada. Aos poucos, uma figura sem pele de vestes negras começou a surgir com uma espada curva dourada em mãos. Ele parecia levemente decepcionado.

–Eu não tenho assuntos a tratar com você. –Falou fluentemente na língua dos homens o deus dos corvos. –Saia de meu caminho.

Katz apontou sua espada embainhada para o rosto da própria morte.

–Você cometeu um erro em não me matar oito anos atrás. –Não havia mais medo no coração do aventureiro, apenas determinação. –E, graças a sua falha, você nunca levará minha essência de vida.

–Você era destinado a cair apenas depois. -Disse Lestraus sacando sua espada. -Dois meses, para ser exato. Mas posso fazer uma exceção.

Lestraus desapareceu e reapareceu a poucos centímetros de Katz, com sua espada curva quase tocando a cicatriz. Katz saltou para trás e atacou-o verticalmente. Lestraus defendeu e contra-atacou, e logo Katz fez o mesmo. Ambos sabiam que se a bainha de Katz acertasse Lestraus, este primeiro tomaria a vantagem.

O plebeu desembainhou sua espada e empunhou sua bainha como uma arma secundaria. Ele avançou contra o deus, agora usando apenas a brutalidade para não lhe dar descanso. Lestraus conseguia defender todos os golpes como se estivesse apenas praticando.

Lestraus atacou para frente, tentando perfurar o peito de seu oponente. Katz não tentou desviar totalmente do ataque, apenas deu um pequeno passo para o lado. A espada perfurou seu ombro, porem Katz conseguiu encostar sua bainha na mão do deus, forçando-o a deixar sua arma cair.

Ambos deram um passo para trás e se estudaram. Katz deixou sua bainha cair. Ele mal conseguia sentir seu braço esquerdo. Lestraus olhou para o ferimento de seu oponente e depois olhou para sua mão, agora queimada pela platina.

–Somos parecidos, apesar de tudo. –Disse Lestraus.

–Dói, Lestraus? –Perguntou Katz agressivamente.

–O que?

–Saber que um mortal é parecido com um deus e saber que esta já é a segunda vez que eu te firo?

Lestraus abriu um sorriso.

–Você sabe qual o seu pecado, mortal? Orgulho. Você não pode mais usar sua mão esquerda, o que facilita esta luta para mim. Você acha que conseguirá me ferir uma terceira vez?

A espada de Katz escorregou de sua mão e atingiu o solo.

–Você está certo, orgulho realmente é o meu pecado. E não é só isso, a vida que eu levo nunca foi o suficiente. Eu queria me tornar imortal antes mesmo da noite chegar, apenas para mostrar que eu conseguia. Eu quero me tornar um deus. Quero ser adorado pelas raças que povoam o mundo agora ou pelas raças que o povoarão no futuro.

Lestraus observava atento enquanto Katz continuava. O mortal agora parecia mais focado em seus arredores, mais especificamente em um ponto acima de Lestraus.

–Pode dizer que sou um péssimo ser. Que mereço ser morto e ser punido por todas as almas que já matei e puni. Mas... –Katz pegou a bainha de platina com sua mão direita. –Eu não serei. Eu não cairei aqui. Eu não cairei em nenhum lugar. Sou orgulhoso o suficiente para lutar sozinho contra um deus e por duas cicatrizes em tal divindade. Porém... –Katz jogou a bainha para cima. –Não sou burro o bastante para terminar a luta sozinho.

–Lestraus! –Exclamou uma voz que vinha de cima.

Ytion caía com seu machado em mãos. Ele atingiu a bainha no ar com seu machado e levou-a até Lestraus.

O solo explodiu com o impacto, levantando poeira e diversas tabuas de madeira.

Lestraus reapareceu flutuando fora da cratera recém-formada. Sangue pingava de sua nova queimadura no peito. A divindade ofegava e parecia em dor. Ytion saiu da cratera com o machado em uma mão e a bainha em outra.

–Katz! –Gritou Ytion. –Preciso da sua ajuda!

O que surpreendeu Katz não foi o fato de um deus precisar de sua ajuda novamente, foi o braço do Garth.

A mão que tocava a bainha estava queimada, exatamente como os ferimentos de Lestraus.

–Platina não afeta apenas Lestraus, ela queima todos os imortais. –Murmurou Katz. –Revin, você é um gênio.

Ytion atirou-lhe a bainha e Katz fez força com o braço direito para pega-la. Ele então embainhou sua arma e ficou a meia distância dos dois deuses.

Corvos cercaram Ytion, mas este fez um movimento com as mãos, fazendo com que os corvos lentamente começassem a suar até, por fim, entrarem em combustão espontânea. Ytion não era apenas protetor dos Garths, ele também era deus do clima, podendo controlar o calor e o frio até certo ponto.

Katz atacou Lestraus com sua espada, distraindo-o enquanto Ytion atingia sua perna. O deus dos corvos urrou de dor. Ele lutava com a mão queimada protegendo sua barriga.

Robert e Terry não conseguiam se juntar aos outros, eles estavam ocupados em sua própria batalha. Cada vez mais corvos se juntavam, o que significava que os dois tinham cada vez mais trabalho a fazer.

A cada ataque eles conseguiam dar uma olhada no que estava acontecendo. Terry cortou a mão de uma criatura e virou-se para ver Lestraus desviando dos golpes dos dois.

Robert chutou um corvo e perfurou seu crânio logo antes de ver Katz errando por pouco uma estocada.

Um alto número de corvos apareceu na frente dos dois, o que forçou-os a ficar sem assistir durante um tempo, sendo forçados apenas a ouvir.

Um som de lâmina cortando carne fez com que as criaturas voltassem a ser corvos e voassem pelas janelas.

–Ah não! Merda! –Exclamou uma voz grossa que parecia ser de Ytion.

Robert e Terry viraram-se para ver a cena.

Ytion estava ajoelhado ao lado de um corpo, gritando:

–Não ainda! Alguém ajude!

Do outro lado do tribunal erguia-se Lestraus totalmente ferido. Ele cuspiu um pouco de sangue no chão e disse:

–Não cumprirá sua promessa.

E desapareceu com seus corvos, como se nunca estivesse lá.

Robert não conseguia falar uma palavra. Mesmo com todos os cadáveres no local, aquela era a pior cena.

Todos olhavam, chocados, Katz se debater por uma última vez, enquanto sangue jorrava de seu pescoço.