A Dança dos Corvos
11 A ponte
Eram três da tarde naquela noite sombria e enevoada. Robert e Terry cavalgaram por horas sem nem ao menos falarem uma palavra. Flocos de neve vindos do céu pingavam na cabeça de ambos e molhavam as rédeas que seguravam.
Ytion dera-lhes cavalos para ajudar na viagem, além de oferecer-lhes moradia e comida por três dias como uma forma de agradecimento por evitar uma tragédia ainda maior.
Os dois viajantes mal conversaram nos últimos três dias. Robert entrara em um estado catatônico; ele não falava com ninguém e comia apenas o necessário para saciar sua fome. Robert passou os três dias em uma cama olhando para a parede.
Terry ficou surpreendido com a morte de seu novo amigo, mas não sentiu-se tão abalado. Para ele, a morte de Katz apenas mostrava o que aconteceria caso falhasse.
“Ferinank está mais próximo do que imaginam. Ela provavelmente estará lá. Conversem com ela. Ela explicará o que devem fazer para continuar a jornada.”
Estas foram as últimas palavras que o Garth dissera antes dos dois continuassem sua viagem. Nenhum dos dois sabia quem o imortal mencionara.
Enrolado em um manto prateado, seu corpo estava jogado na parte traseira do cavalo de Robert.
Os Garths fizeram um funeral coletivo, queimando os corpos de todos os que foram mortos por Lestraus e seus corvos. Robert e Terry decidiram não fazer o mesmo, decidiram dizer adeus ao plebeu a sua própria maneira.
Os dois homens pararam em frente a uma ponte. Dezenas de metros abaixo de tal ponte, o mar se estendida infinitamente, pedindo o corpo do guerreiro caído.
Robert desmontou de seu cavalo, acariciou seu rosto e levantou o corpo de Katz com os braços. Ele o deitou no grande corrimão da ponte de pedra e esperou Terry juntar-se a ele.
–Perdoe-me, mas eu não o conhecia o suficiente para dizer algo. –Disse Terry, cuidadosamente. –Mas acho que ele merece algumas palavras antes de ir
–Ele já se foi. –Retrucou Robert. –Os mortos não podem nos ouvir
O bicos de corvo que Katz guardava em sua sacola agora estava com Robert, o mesmo com a bainha de platina que conseguia ferir Lestraus. Terry aproximou-se e ajudou Robert a retirar o manto prateado. O corpo de Katz já estava frio e pálido. Robert fechou seus olhos e beijou-o na testa. Então os dois empurraram e observaram o cadáver atingir a água.
–Algum motivo em especial par fazermos isso aqui? –Perguntou Terry.
–Ele sempre gostou de água. –Respondeu Robert, agora falando normalmente. –Dizia que o mar era o epitomo de liberdade.
Os dois viraram-se e dirigiram-se até a beira da ponte, onde suas montarias os esperavam.
–Você me culpa? –Perguntou Terry, aproveitando a normalidade de Robert. –Quer dizer, eu fui aquele que permitiu Lestraus em Rassythyu.
–Podemos só não falar sobre isso? –Pediu Robert enquanto segurava o cabresto de seu animal.
Os dois guiaram suas montarias em silêncio pela ponte. Os pilares que seguravam-na não pareciam seguros o bastante. Mesmo sendo de pedra, a ponte parecia que iria desmoronar a qualquer momento. A névoa em volta ficava mais densa a cada passo e começara a adquirir um tom sobrenatural.
–Se as coisas não tivessem ocorrido da forma que ocorreram, nós três seriamos executados por Garths. –Admitiu Robert. –Eu só não quero falar sobre a morte dele.
–Vocês eram próximos? –Perguntou Terry.
–Terry...
–Não estou falando sobre morte, estou falando sobre vida. As vezes lembrar de alguém é a melhor forma de aceitar sua partida.
Robert suspirou.
–Digamos que ele era minha única família.
–Que lhe restou?
–Ainda tenho alguns que carregam o mesmo sangue que eu na veia e estes provavelmente ainda caminham por aí. Katz era meu único irmão verdadeiro. As vezes até imagino que nossa conexão era de sangue.
Com isso dito, Terry decidiu manter-se em silencio.
Robert ouviu Terry sussurrar algo, mas não conseguiu discernir o que o soldado disse.
–Diga. –Disse Robert.
–Dizer o que? –Perguntou Terry, confuso.
–Você acabou de sussurrar.
–Eu fiz o que?
Um zumbido tomou os ouvidos de Robert.
–Você... –Disse ele enquanto tampava suas orelhas com as mãos. –Sussurrou...
–-O que está acontecendo?
–Você não consegue ouvir este barulho? –O rosto de Robert exalava dor e irritação.
–Consigo, mas está muito baixo. E os cavalos também não parecem incomodados.
Robert lentamente afastou as mãos e deixou o som entrar. O zumbido já tinha parado. A névoa agora estava ainda mais densa, combinando-se às trevas e consumindo a ponte.
–Nós devemos voltar. –Sugeriu Robert. –Podemos procurar por outro caminho.
–Agora você quer procurar por outro caminho!? –Perguntou Terry com uma fúria inexplicável.
–O que?
–Se tivéssemos ido a noroeste ao invés de norte meses atrás, nada disso teria acontecido! Agora preciso lidar com um nascido de berço de ouro que não sabe lidar com a morte!
–Lidar com a morte!? E você parece venerá-la! Você matou muitos guardas em Brimwal, muitos que você encontrava todos os dias. Na verdade, você guerreou ao lado de um, e ainda assim cortou seu braço sem dó. Eu sempre soube que a maior ameaça que enfrentávamos este tempo todo era o mesmo homem que viajou conosco por todo este tempo.
–Tudo que eu fiz, eu fiz para minha sobrevivência, e não me arrependo de nada. Não me arrependo de ter cortado a garganta de Marco, não me arrependo de ter arrancado um braço de Arch e deixado ele sangrar até a morte. E estou aliviado com a morte de Katz. Melhor um furo na garganta dele do que na minha.
Robert segurou em sua armadura e socou seu rosto com força. Depois segurou um pedaço da camisa de Terry que estava a mostra perto de seu pescoço, quase levantando-o. Robert então prosseguiu a falar ameaçadoramente.
–Quando estávamos na neve, pouco antes dos Garths atacarem, você desapareceu para ir caçar, ou manter guarda ou sei lá, realmente não me importo. E, a cada segundo que passava com você fora de vista, mais eu torcia para você simplesmente não voltar. Naquela noite eu dormi pensando em diversos lobos devorando a sua carne, enquanto você gritava de dor e por socorro. E, quer saber? Eu sorri enquanto dormia. E sabe o que me decepcionaria se você morresse lá? Eu não teria a chance de dar o golpe final enquanto você era desmembrado por animais. Eu não teria a chance de apoiar a lança contra sua testa e fazer força para que esta lentamente penetre o seu crânio.
–Robert. –Disse Terry, cuidadosamente. –Tem algo estranho aqui.
–A única coisa estranha aqui é o fato de que eu não estou empurrando-te da beira neste exato segundo.
Terry retirou uma flecha de sua aljava e segurou-a perto do pescoço de Robert.
–Não é disso que estou falando. –Disse Terry, olhando em volta. –Por que explodimos apenas agora? Nós tivemos quatro dias para ficar irritados um com o outro, por que toda esta raiva está aparecendo apenas agora?
Robert silenciou-se um pouco e soltou Terry que, por sua vez, guardou a flecha em sua aljava.
–Precisamos sair desta ponte. –Insistiu Robert.
–Agora. –Concordou Terry.
Os dois olharam em volta e perceberam que os cavalos não se encontravam em nenhum lugar. Além disso a névoa os impedia de ver o que estava fora da ponte.
–De que lado viemos? –Perguntou Terry.
O outro balançou a cabeça negativamente.
–Demos apenas uns vinte passos. –Observou Robert. –vamos escolher um lado e, se caminharmos mais do que isso, saberemos que o outro é o correto.
Eles escolheram um lado e contaram vinte passos. Robert sentia algo estranho em seu rosto, como se estivesse sendo presenteado com algo que perdera há tempos.
–20 passos e ainda não vejo nada. –Declarou Terry. –Voltemos?
Robert olhava fixamente para o solo, enxugando sua testa e cutucando o pano em seu olho esquerdo.
–Robert? –Perguntou Terry. –Está tudo bem?
–Sim, só...
Robert desamarrou seu pano, deixando o exterior bater em seu olho.
Robert pôs uma mão em seu olho direito após perceber que sua visão estava melhor do que antes. Seu olho esquerdo agora também conseguia ver o mundo.
Robert agachou, pegou seu pano e pendurou-o na chapa metálica que protegia seu peito.
–Nós precisamos sair daqui agora. –Declarou Robert.
Os dois correram na vinte passos na direção de onde vieram e correram mais vinte passos logo depois. Nada além de névoa existia em volta dos dois.
–É inútil, estamos presos. –Disse Terry sentando-se em um canto.
Robert apertou os olhos, tentando ver ao longe.
–Você sabe que isso é impossível, não é? –Disse Terry. –Quer dizer, sua visão ter voltado.
–Eu sei. –Disse Robert. –Mas aconteceu.
Robert apontou para frente.
–Têm alguém ali. –Disse ele.
–Realmente. –Confirmou Terry enquanto levantava-se. –Devemos ir até lá?
–Temos outra escolha?
A figura na névoa continuou parada na mesma posição enquanto os dois homens se aproximavam com cautela.
A figura foi lentamente tomando forma, até a sua aparência feminina ser revelada. Era uma jovem mulher com um longo vestido negro.
–Vocês cometeram erros. –Disse ela com uma voz calma e um sorriso no rosto.
Terry deu dois passos para trás, mas Robert segurou seu braço, impedindo-o de fugir.
–Nós só queremos sair da ponte. –Disse Robert.
–Nós quem? –Perguntou ela, ironicamente.
Robert olhou para o lado e percebeu que estava segurando o ar. O covarde fugiu para um canto fora do campo de visão de Robert.
–Você sempre esteve sozinho, Robert. –Disse a mulher. –Você agora lamenta pela morte daquele que deixou você preso por seis anos e apenas libertou-te por precisar de sua ajuda.
Robert apenas ficou em silêncio, encarando a mulher com uma expressão nula.
–Nesta jornada que você assumiu por falta de escolhas, tudo o que você fez foi cometer erros. Vamos falar do maior deles, aquele que causou a morte de alguém querido para você.
–A morte de Katz não foi culpa de ninguém. –Disse Robert.
–Não estou falando dele. –Respondeu a mulher. –Estou falando da outra que morreu por sua causa.
Robert ficou surpreso com o comentário e instantaneamente se sentiu mal.
–Você e eu sabemos o que teria acontecido se ela sobrevivesse.
–Eu... Eu não quero ouvir. –Disse Robert, hesitante.
–Sua semente teria se plantado no ventre dela. –Continuou a mulher. –Margery ficaria gravida de seu herdeiro.
–Cale a boca, eu...
–Você queria leva-la em sua viagem ou ficar com ela em Brimwal, dizendo a si mesmo que os deuses desistiriam do que estão fazendo, tudo para ter o que sempre desejou.
Robert agora já não falava mais nada, apenas permanecia de pé, forçando-se a escutar sobre aquele lado que tenta esconder.
–Não quer tornar-se um deus, mas quer tornar-se um rei. Quer imortalizar o seu sangue real, não a sua existência. Como você é inocente, Robert; acreditando que reis ainda podem existir neste novo mundo. Saiba que você seria exatamente como Gerard.
–Silêncio! –Ordenou Robert, atirando sua lança.
A lança parou no ar pouco antes de atingir a mulher e deliberadamente caiu no chão de pedra. Robert caiu de joelhos, respirando ofegantemente.
–O maior inimigo de qualquer um é si próprio. –Disse ela.
–Por que está fazendo isso? –Perguntou Robert.
A mulher manteve-se em silêncio, olhando para Robert com superioridade.
Em algum lugar na névoa atrás dela, uma imagem começava a se formar. Terry corria na direção da mulher com a espada de Brimwal em mãos.
Terry acabou atingindo apenas o ar, pois a mulher deu um pequeno passo para o lado. Ela então segurou o braço do soldado e torceu-o.
–Agora ele é quem irá receber furos no pescoço. –Disse a mulher, revelando uma faca escondida em sua manga.
–Terry! –Exclamou Robert.
A faca encontrou o pescoço de Terry, deixando o sangue jorrar. O soldado tentou tampar a abertura em seu pescoço com as mãos, e depois tentou debater-se para se soltar.
A mulher segurou-o pelo pescoço e o atirou com força contra o corrimão direito. O crânio do soldado foi um pouco amassado no impacto.
Robert tentou correr até o homem caído, mas seu corpo não se movia. O ex-cego respirava pesadamente, incrédulo quanto ao que acabara de acontecer.
–Ele ainda respira. –Disse a mulher. –Pode não ter sido desmembrado, mas acredito que você encontrará prazer nisto.
Robert se viu de pé sobre o corpo de Terry, com sua lança apoiada na cabeça dele. Ele involuntariamente fazia força contra a testa dele. Robert tentava fazer força para cima, mas uma força maior fazia a lança descer lentamente, perfurando aos poucos a cabeça do soldado.
–Me desculpe. –Disse Robert tentando parar a lança.
Uma força em seu rosto fez o cavaleiro cair no chão.
Robert balançou a cabeça e piscou diversas vezes enquanto olhava para o chão. Sua visão já não estava tão boa quanto antes e a névoa a sua volta já não estava tão densa. Ajoelhado a sua frente, Terry estava intacto e com um sorriso no rosto.
–De volta a realidade, não? –Disse Terry ajudando Robert a se levantar.
A mão da mulher estava presa no chão pela espada de Brimwal, que perfurava sua mão e a impedia de se levantar.
–Ilusionista? –Perguntou Robert, recolocando seu pano.
–Sim.–Respondeu Terry. –Uma muito boa, por sinal.
–Como conseguiu sair sozinho?
–Não tenho idéia. Com o tempo, ela simplesmente parou a ilusão.
Terry olhou fundo nos olhos dela.
–Não! Saia de perto! Por favor, não se aproxime! –Implorou ela.
Robert achou curioso o medo repentino dela, mas tentou não pensar muito no assunto.
–Os cavalos estão ali. –Disse Terry apontando para um dos lados da ponte. –E nosso caminho fica para lá. –Disse desta vez apontando para o outro lado.
Robert olhou para aquela mulher; desesperada e assustada. Ele conseguiu encontrar prazer naquilo.
–Ela bagunçou bastante com a sua cabeça, não? –Perguntou Terry, sorrindo. –Se quiser terminar o serviço...
Robert fez que sim com a cabeça e pegou sua lança.
Ele pôs um pé no peito da mulher e apoiou a lança contra sua testa, fazendo força aos poucos.
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