A Dança dos Corvos
9 Rassythyu
Terry sacou a espada de Brimwal, raspando-a em sua bainha. Sayad percebeu que o lobo a seu lado entrou em uma posição agressiva. O Garth sacou uma espada curva, na tentativa de intimidar os dois.
–Abaixe sua arma, soldado de Brimwal. -Disse Sayad. Terry não trocava sua armadura a tempos, já estava na hora de ele mostrar que não servia mais ao rei.
O lobo então avançou no calcanhar de Sayad, que, em um reflexo, chutou o focinho do animal. Terry avançou contra seu pescoço, mas o Garth deu um passo para trás, desviando quase totalmente do golpe. A espada de Brimwal atingiu seu pescoço de raspão, no entanto. A pele de um Garth é composta por duas camadas, uma primeira onde está localizada as frágeis escamas e os pelos, e uma segunda, revestida por uma armadura natural.
Isso não impediu o Garth de sangrar um pouco. Sayad pôs a mão em seu pescoço sem perder a calma. O Garth olhou para Terry, com seu pequeno chifre no nariz decorado com a neve que caía. Seu rosto era deformado a ponto de parecer ter um focinho e seus pelos eram cor vermelho-rubi.
Sayad tirou a mão de seu pescoço, deixando o sangue escorrer por sua armadura. Ele então sorriu com escárnio e disse:
–Foi muito bom que meu elmo tenha caído, agora esta é uma luta justa.
–Está brincando comigo? -Respondeu Terry, abaixando a sua guarda. -Você é jovem. Você não têm idade para se sentir superior
–Silêncio.
–Provavelmente ainda nem fez seu Ritual ao Frio e Calor, ou seja lá qual seja o nome daquela inutilidade. –Zombou ainda mais Terry.
–Silêncio, já disse.
–Quantos anos têm, pequeno Garth? Nove?
–Eu vou quebrar todos os seus membros! –Exclamou o Garth, já revelando sua fúria.
–Já acasalou? –Disse Terry, desta vez andando de um lado para o outro. –Já sentiu uma fêmea? É assim que vocês chamam as suas mulheres, não? Garths são apenas animais selvagens, é claro que falam fêmeas...
–Silêncio! -Disse Sayad correndo na direção de Terry com sua lâmina curva. Terry deu um pequeno passo para a direita, atingindo o pescoço de Sayad com o punho da espada.
O Garth caiu no chão com um estrondo. Terry fincou sua espada no chão, pôs um pé em cima de seu oponente e puxou seu arco mirandopara o rosto do Garth caído.
–Seu povo se ofende muito facilmente. -Zombou Terry. -Agora diga: de onde veio aquela horda?
–Que horda? -Disse Sayad, nervosamente. Ele desviava o olhar, procurando algo que tirasse o pé de Terry de cima de sua armadura. O Garth esticou seu braço, tentando pegar a espada de Brimwal a sua frente.
Terry pegou a espada e fincou-a em sua mão. Sayad respondeu com um urro de dor. O soldado então voltou a apontar seu arco para o rosto daquele ser.
–Não teste a minha paciência. O próximo será seu estômago, e será fatal... Porém, lento.
–Aquele grupo está atrás de Katz e Robert. -Disse Sayad. O pânico em sua voz começara a ser aparente. -Se você me disser aonde estão, eu falo para eles não te procurarem.
–Você não sabe negociar.
–Você estará livre de problemas durante toda a sua viagem. –Sayad ainda parecia calmo e confiante, mesmo com a mão perfurada.
–Não, não estarei. -Disse Terry pouco antes de acertar o pescoço de Sayad com uma flecha. A vida se extinguia dos olhos de Sayad à medida que o sangue jorrava.
Terry pegou sua flecha de volta e guardou em sua aljava enquanto murmurava para si mesmo:
–Muito jovem. Armadura muito fraca.
Ao olhar em volta, Terry percebera que o lobo havia sumido. Seus pelos devem ter se camuflado na brancura da neve. O soldado agora estava sozinho no deserto de gelo.
Robert acordou com um tremor que vinha de baixo.
Enquanto Katz dormia perto do fogo, Robert decidira recostar-se a uma árvore, para manter um olho naquele que mantinha um olho neles. Eventualmente, o cansaço acabara derrotando-o e seus olhos se fecharam.
Agora ele já não sabia onde o soldado estava. Será que julgara que a jornada não valia à pena e foi embora?
O som agora era quase constante e estava ficando cada vez mais alto. Robert levantou-se e foi acordar seu amigo.
–Katz. –Disse Robert balançando o seu braço de leve.
–Já sei. –Respondeu Katz com umaorelha colada no chão. –Pelo intervalo entre os sons, parece o trotar de cavalos.
Katz levantou-se e ficou de pé ao lado de Robert enquanto o vento dissipava a neblina a frente deles, revelando seres montados a cavalo que iam à direção dos dois.
Os cavaleiros passaram pelos lados dos viajantes, cercando-os. Alguns dos montados estavam sem capacete, revelando suas caras deformadas.
–Devemos sacar as armas? –Sugeriu Katz em voz baixa.
–Dois homens cansados, famintos e sem proteção contra um grupo de aproximadamente quinze Garths? Não, obrigado.
Katz e Robert esperaram enquanto os cavaleiros formavam um circulo completo entre eles. Um dos Garths desceu de seu cavalo com um papel em mãos. Ele o abriu e leu em voz alta o que estava escrito.
–Robert de Farshal e Katz, vocês foram sentenciados a julgamento pelo assassinato de Fahir de Rassythyu. Nós lhe levaremos ao lugar de origem da vitima e vocês terão a chance de se defender contra as acusações.
Fahir? Pensou Katz, mas limitou-se a dizer:
–Não matamos ninguém.
–Este nem mesmo é o nosso nome. –Mentiu Robert. –Sou Revin de Tylion e este é Aylon XXII de Farshal.
–Há relatos de que vocês dois foram vistos em Brimwal dois meses atrás como convidados de honra de Gerard IV. Todos na cidade falavam de Katz e Robert, os convidados do rei, o que prova que, de fato, vocês são Katz e Robert. E todos sabem que o rei Aylon não teve filhos.
Não havia forma de escapar da situação politicamente, e nem por combate, então os dois decidiram se render. Enquanto os Garths prendiam suas mãos, ouvia-se um pequeno barulho. Até que,por fim, Terry apareceu rolando abaixo em um pequeno monte de neve. Suas mãos estavam acorrentadas uma na outra. Outro Garth de armadura desceu o monte a seu lado.
–Masherier. –Disse ele forçando Terry a se ajoelhar e apoiando uma lâmina contra seu pescoço. –Acabo de ver este matando Sayad a sangue frio. Devemos fazer o mesmo?
–Vamos levá-lo para Rassythyu também. –Disse aquele que estava lendo o papel. –Ele será julgado com os outros dois bárbaros.
Os três então foram forçados a caminhar pela neve densa. Os Garths levavam de volta para a cidade o cavalo que pertencera ao tal Sayad, mas não deixavam ninguém montar nele. O corpo daquele Garth fora deixado para trás, por algum motivo.
As armas dos três estavam sendo carregadas pelo Garth da retaguarda, incluindo a faca que Katz possuía e os sacos de viagem de todos. Aquele grupo de Garths acreditava que os costumes funerários dos humanos eram baseados em queimar ou enterrar suas armas junto a seu corpo para preparar a alma para sua pós-vida. Eles não sabiam que ninguém usava aquele costume desde o novo calendário.
A neve acabava abruptamente. O deserto de gelo cessava para dar espaço a um deserto de areia. O frio também dava espaço para um clima quente. Katz manteve uma expressão de espantado enquanto olhava para a linha eu dividia a neve da areia. Como aquilo era possível?Pensava ele.
Um Garth sem camisa os esperava. Suas escamas eram negras e ele não possuía pelos.
–Nahemsaed, shahad! –Disse ele em sua língua de origem.
–Shahad. –Repetiram os Garths em uníssono, enquanto retiravam suas armaduras. Um mais jovem começou a guiar os cavalos por seus cabrestos até os estábulos deixando apenas um, enquanto outro levava as armas da horda para o ferreiro mais próximo. A maioria dos Garths adentraram a cidade, deixando apenas aquele de pelos negros, aquele que leu a sentença e aquele que carregava os equipamentos dos três viajantes.
–Venha conosco. –Disse o de escamas negras, pondo os três em uma fila com Robert na dianteira, Katz no meio e Terry no fim.
A cidade era construída quase exclusivamente por mármore amarelo, que camuflava as construções mais distantes, fazendo a paisagem parecer plana. Garths podia ser vistos por toda a cidade e de diversas formas; machos e fêmeas, crianças e anciões.
–Você poderia ter prestado mais atenção na região em volta. –Disse Katz para Terry em tom baixo.
–Eu fui caçar. –Respondeu Terry. –E você? Qual a sua desculpa?
–Eu estava dormindo.
–Parece que ganhei esta discussão.
Katz respondeu com uma risada. Uma criança aproximou-se deles e disse algumas palavras em seu idioma com um tom suplicante enquanto mantinha sua mão estendida.
–Ele está pedindo por uma moeda. –Disse o de escamas negras. –Uma moeda bárbara.
–Deve ter uma em minha bolsa. –Disse Robert.
–É sério? –Contestou Terry.
–Não passamos por uma cidade a meses. O pouco dinheiro que temos nos é inútil.
Um dos Garths na retaguarda abriu uma das sacolas e tirou de lá uma moeda, jogando-a para a criança.
Ela agradeceu múltiplas vezes e foi embora correndo para casa.
–Você tem um coração gentil. –Disse o Garth de escamas negras. –Sou Arkath.
Robert manteve-se em silêncio por algum tempo, até finalmente dizer:
–Robert.
Ao longe, era possível ver uma família conversando. O mais velho, que já usava bengala, abraçava uma mulher de idade semelhante que estava chorando, enquanto três outras mais jovens demonstravam sua tristeza com os olhos.
–O que está acontecendo ali? –Perguntou Robert.
–Ele está doente, então está se despedindo de sua companheira e suas filhas. –Respondeu Arkath.
–Em minha cultura, isso ocorre em seu leito, pouco antes da morte estender-lhe a mão.
Arkath deu uma risada sarcástica.
–Na minha também, mas aqui é diferente.
–Diferente como?
–Esta cidade é protegida pela benção de um deus. Ela não só garante calor a esta região, mas também a protege de... Deuses mal-intencionados.
–Lestraus. –Disse Katz.
Arkath fez que sim com a cabeça.
–Uma barreira divina protege esta região dos corvos e do próprio Lestraus. No entanto, tal barreira pode ser quebrada se acontecer algo dentro da cidade que favoreça Lestraus. Ou seja, se alguém morrer dentro da cidade, ele consegue penetrar nossas defesas uma vez. Por isso aquele ancião está saindo da cidade. Ele está indo morrer fora de nossas bordas.
–Espere. –Disse Terry. –Que deus fez esta barreira?
Arkath parou e apontou para uma construção no fim da rua em que estavam.
–Ytion, o criador desta cidade, protetor dos Garths e guardião do clima. Além de ser o juiz de seu julgamento.
Fale com o autor