A prisão Lertus sempre foi conhecida por ser um dos piores lugares para se estar. Lertus foi construída em cima de um desfiladeiro e ela não é formada por nenhum outro material além de pedras. A prisão inteira foi construída para fazer com que seus prisioneiros desejem a morte, os únicos que escaparam dela foram poucos e precisaram de ajuda exterior. Existem apenas quatro tochas espalhadas na prisão inteira e nem todas estão sempre acesas, deixando seus “hóspedes” em uma escuridão eterna. Existem apenas dois guardas e cada um só trabalha por duas horas, um para entregar o almoço para os sobreviventes e outro para entregar o jantar. Eles sabem que os prisioneiros não conseguirão escapar e simplesmente não querem ficar naquele lugar. É completamente imundo, fedido e têm o problema dos corvos. Muitos anos antes quando Lertus estava sendo construída a ideia era que a prisão fosse uma oferenda para Lestraus. Além de deus da morte Lestraus é o criador e protetor dos corvos. Existe uma lenda entre carcereiros e ela diz que após um prisioneiro for morto seu corpo deve ser jogado aos corvos; os funcionários da prisão que deixarem os defuntos apodrecerem serão amaldiçoados a serem sempre perseguidos pelos corvos particulares de Lestraus. Como o objetivo de Lertus era deixar seus prisioneiros sozinhos para sempre, o criador projetou a prisão para que ela não precise de um carcereiro. Algumas celas não possuem tetos, porém são impossíveis de se escalar; fazendo com que os corvos possam entrar sem problemas, e impedindo os prisioneiros de tentarem alguma coisa. Além disso, os corvos poderiam ficar dentro da prisão até encontrar outra cela, pois as barras nas celas foram feitas para que um corvo consiga passar por elas.

Katz estava andando pelos infinitos corredores da Lertus. Ele não é um prisioneiro ou um guarda, mas sim um visitante. Ele havia trazido sua própria tocha, pois sabia da escuridão da Lertus, e esta produzia uma luz tão forte que cegava os prisioneiros pelo qual ele passava. A maioria destes homens não via a luz do sol a mais de dez anos. Katz continuava tentando achar seu caminho sem se importar com os homens, ele não tinha tempo de ajuda-los; ele já estava se arriscando demais. Primeiro por que ele estava tentando fazer o impossível: tirar um homem desta prisão, segundo por causa dos corvos. Enquanto andava ele arrastava sua bota de ferro no chão de pedra

-Merda de corvos- murmurou ele para si mesmo enquanto limpava a bota após ter pisado em uma pilha de excrementos deixado por um dos corvos.

Um grupo de corvos estava parado a sua frente, então ele tentou espanta-los com a luz, fazendo-os voar para longe. Um deles voou em direção ao rosto de Katz com as garras passando ao lado de sua cicatriz, mas Katz conseguiu desviar e ficou vendo o corvo ir embora procurando um cadáver.

Katz passou a mão na cicatriz em seu pescoço, ele nunca se esqueceria de como ele a ganhou, de como ele sentiu a morte se aproximando dele após ter sido esfaqueado. Até hoje ninguém sabe como ele sobreviveu; os céticos dizem que seu oponente o esfaqueou numa parte do pescoço onde não existe nenhum vaso sanguíneo, os crentes acreditam que Lestraus o deixou vivo, pois ainda não era sua hora e ele ainda tinha algo para fazer nesse mundo antes de ir para o próximo. Katz tinha seu próprio palpite de como ainda estava vivo. Ele tentava ficar fora do campo de visão de Lestraus, desviando-se dos corvos por garantia até chegar ao seu destino; Um corredor com uma das quatro tochas iluminando o local.

Katz foi andando até a terceira cela na direita, quando ele parou. Ele havia o encontrado. O homem estava sentado no canto da cela encostado na parede, porém olhando fixamente para o chão, parecendo estar morto. Havia alguns corvos por perto e um tentou atacar sua perna, mas o homem moveu sua perna um pouco, o suficiente para espantar os corvos e, para o alivio de Katz, mostrar que estava vivo.

-Rob. –Chamou Katz

O homem não moveu um músculo

-Robert. –Chamou Katz falando um pouco mais alto

O homem tremeu um pouco, mas depois voltou ao normal.

Não tendo escolha Katz desembainha sua espada. Ela estava meio enferrujada, especialmente na ponta. Katz virou a espada de lado, de forma que ela pareça um porrete, e acerta as barras com toda a sua força fazendo um barulho ensurdecedor para os prisioneiros, mas Robert apenas levantou os olhos para ver de onde vinha este barulho. Ele olhou diretamente para a tocha na mão de Katz e tentou se proteger da luz. Ele teve a sorte de estar em um dos únicos corredores iluminados da Lertus, mas ainda assim olhar diretamente para a luz forte era dolorido. Após se acostumar com ela, ele olhou para Katz e ficou com uma expressão de choque na cara.

-Katz? É você? -A voz de Robert estava fraca

-Estou aqui para liberta-lo. –Katz disse sem compartilhar um sorriso com seu velho amigo.

Robert havia mudado muito nesses seis anos que os dois não se viam, e a maioria das mudanças foi resultado de sua longa estadia na prisão. Sua barba havia crescido, seu rosto parecia muito velho para ter apenas 34 anos de idade e ele, em geral, parecia apenas um cadáver.

Era possível ver sangue no chão e sangue ressecado que estava perto de seu olho esquerdo. Após observar aquele olho por alguns instantes Katz reparou que seu amigo agora era cego de um olho. Melhor cego do que morto

-Ótimo, então me tire daqui!- Disse Robert tendo esperança pela primeira vez em seis anos

Katz pressionou a ponta de sua espada contra a fechadura e a virou para tentar abri-la, mas não adiantou graças à ferrugem na sua espada. Ele olhou Robert e balançou a cabeça

-O guarda provavelmente tem a chave- Disse Robert.

-Eu o matei na entrada pensando a mesma coisa. Ele estava vazio

- Você veio até Lertus para me libertar sem ter um plano?- Robert sorriu enquanto falava e depois sentiu dor. Era a primeira vez que sorria em muito tempo. Ele então apontou com a cabeça para a cela atrás de Katz. –Talvez o velho Hadrick possa ajuda-lo

Katz se virou e viu o tal velho Hadrick, um homem descansando pela eternidade perto das barras de sua cela. Era possível perceber que os corvos já haviam passado por ali e agora o cadáver estava podre. Havia uma faca que aparentemente ele cravou em seu próprio coração. Uma reação perfeitamente compreensível, pois nem todos os homens aguentam ficar na Lertus por muito tempo. Katz fez esforço para retirar a faca do cadáver, que por sorte estava intacta, e a usou para tentar abrir a cela de Robert.

-Você sabe como ele conseguiu esta faca, Rob? –Disse Katz enquanto abria a fechadura, tentando quebrar o silêncio.

-Eu não tenho ideia. Eu sempre conversava com Hadrick para passar o tempo e ele sempre dizia que não aguentava ficar num lugar como esse, mas não queria morrer de fome então tinha que esperar até morrer de alguma doença. Certo dia eu acordo e o vejo cravando esta faca em seu coração. Eu sempre imaginei que um dos guardas deu a faca para ele por misericórdia

-Se ele tinha uma faca, por que não tentar abrir a porta com ela?

Robert bateu fraco duas vezes no seu lado da fechadura.

-É impossível abrir as celas por dentro, as celas só tem o buraco para a chave aí fora.

-Pronto, abri.

Robert se apoiou na parede e tentou levantar, mas assim que tirou a mão da parede, caiu no chão. Katz estendeu seu braço para ajuda-lo, mas Robert balançou a cabeça.

-Isso é algo que eu devo fazer sozinho.

Robert usou toda a sua força para se sentar, depois descansou por alguns segundos e tentou se por de pé. Ele mais uma vez se apoiou na parede e lentamente se levantou. Ao ficar de pé respirou por alguns segundos e soltou a parede, mas imediatamente perdeu o equilíbrio então se segurou nela de novo.

-Se importa se ficarmos perto das paredes? –Perguntou Rob sorrindo

-Tudo bem. –Os dois homens começaram a andar lentamente, procurando a saída.

-O que houve com seu olho?

-Ah, isto? A cada cinco anos as posições das tochas mudam. No primeiro ano eu fiquei no escuro até ouvir boatos que meu corredor seria o iluminado, porém eu fui tolo e fiquei esperando ansioso até o guarda trazer a tocha. Quando ele trouxe, eu imediatamente olhei direto para ela... Mas que péssima ideia. Meu olho direito conseguiu suportar aquela luz cegante, mas já meu olho esquerdo...

-Entendi...

-Por que você não veio me resgatar antes?

-Eu estava ocupado. Graças a minha fama o rei Gerard de Tylion me mandou liderar os exércitos e atacar as Terras Desoladas. Foi uma guerra longa, levou dois anos.

-Você aceitando ordens de um rei?

-Não eram bem ordens, era mais uma troca. Se eu vencesse ele me daria o que eu queria: O bico decepado de um corvo.

-Não foi uma jogada muito inteligente, amigo. Olhe em volta, a Lertus têm mais corvos do que devia; se tu matasses um, a prisão inteira agradeceria.

-Eu nunca tentaria matar um corvo de Lertus

Rob pensou no que ele disse por um pouco e depois perguntou:

-Ainda acha que Lestraus está te procurando?

-Fale baixo, Rob!

A verdade é que Katz temia apenas uma coisa: Lestraus. Ele acreditava que o deus da morte esqueceu-se de levar sua alma no dia em que perfuraram seu pescoço. Desde então ele tenta evita-lo, ficando o mais longe possível de corvos.

-Para quê você precisa do bico?

-Quando sairmos daqui eu lhe mostro, você precisa ver com seus próprios olhos.

Os dois andaram por mais alguns minutos, seguindo o caminho que Katz percorreu para entrar. Robert parecia estar se acostumando a andar, ele já não mancava mais como antes. Além disso, ele agora havia se acostumado totalmente com a luz da tocha, pois antes ele não conseguia olhar diretamente para ela por muito tempo.

Os dois percorreram um corredor e acabaram encontrando o corpo de um dos guardas caído no chão. Sua garganta havia sido cortada.

-Ótimo! –Comemorou Katz. –Já estamos quase fora daqui.

Ele se abaixou e pegou a lança que o cadáver estava segurando.

-Rob, fique com isto e use-a com a outra mão. –Disse Katz enquanto entregava a lança. –Nunca se sabe quando pode precisar.

Robert a segurou e olhou para ela. Seu rosto tinha uma expressão nostálgica

-Faz muito tempo desde que eu não uso uma dessas. Mas por que eu teria que usa-la? Você matou o guarda deste turno, o próximo demorará a aparecer.

-É só por precaução. Estou sentido que te libertar foi muito simples para um lugar que possui uma grande má-fama.

Os dois continuaram seguindo pelo caminho. Katz apertava o passo, ele só estava lá por 10 minutos e já não aguentava mais. Robert estava ansioso para finalmente fugir da Lertus, mas ao mesmo tempo estava com medo. Durante seis anos tudo que ele viu foram as pedras negras da prisão, tudo que ele ouviu foram os gritos de desespero de outros prisioneiros, tudo o que ele sentiu foram os corvos achando que ele estava morto e tentando devorar sua pele. O mundo lá fora estará muito diferente do que o mundo dentro da Lertus; será que ele conseguirá se adaptar?

Lá na frente, Katz parou. Robert tentou andar mais rápido para descobrir o que houve, ao chegar lá ele viu os corpos de quatro prisioneiros jogados no chão fora de qualquer cela.

-Você parece surpreso. Não foi você que fez isso?- Perguntou Robert, confuso.

-Não, eles estavam vivos quando eu passei por aqui. –Katz apontou para um dos corpos. -Na verdade a minha tocha deixou aquele ali cego.

Eles ouviram um barulho vindo de trás, uma voz falando em uma língua não humana. Katz instintivamente olhou para trás e desembainhou a espada, Robert levantou um pouco a lança e recuou para que Katz possa ficar na sua frente.

A voz parecia estar ficando cada vez mais próxima além dela também se ouvia o som de passos pesados, o ser vindo parecia estar usando botas de metal. Katz levantou a tocha para tentar iluminar o tal ser.

Uma criatura humanoide apareceu na luz, vindo de uma ala adjacente ao corredor principal. Katz conseguiu reconhece-lo, era um Garth. Garths são um pouco parecidos com humanos, porém sua aparência física muda com as estações do ano. Eles possuem escamas nas estações mais quentes, mas durante as mais frias suas escamas são encobertas por pelos. Naquele momento a estação era o verão, mas por algum motivo ele estava com pelos. O Garth estava usando armadura completa, o único ponto fraco era uma abertura no seu braço direito, onde era possível ver seu pelo negro, além disso, ele também tinha um machado guardado nas costas e algumas facas em uma bolsa que estava presa na sua cintura. A armadura também tinha três aberturas na ponta do capacete, deixando os chifres saírem do capacete, mas Katz duvidava que conseguiria ataca-los.

-Robert, segure minha tocha e tente iluminar eu e ele.

Robert segurou a tocha e ajeitou seu corpo para conseguir apoiar na parede com o ombro.

O Garth pegou o machado e uma das facas. Ele atirou uma faca e correu na direção de Katz com o machado em mãos, Katz desviou do machado e tentou perfurar o Garth com sua espada enquanto este corria. O Garth conseguiu desviar, mas a espada de Katz perfurou sua bolsa, fazendo com que as facas caíssem no chão. Katz atacou o Garth mais uma vez, mas este conseguiu segurar a espada com a mão, ele então a quebrou com o joelho e tentou usar o machado em sua outra mão para decapitar Katz, mas este segurou o braço do Garth, impedindo que ele conseguisse mata-lo. O Garth era muito mais forte que Katz, então o Garth o levantou e o atirou contra a parede. O Garth se virou para pegar uma das facas e acabou se deparando com Robert. O Garth então começou a andar em direção de Robert, com um olhar ameaçador por debaixo de seu elmo. Robert estava com medo, mas estendeu sua lança. O Garth então rugiu de dor e olhou para trás. Katz havia pegado duas das facas no chão e atirou uma contra as costas do Garth.

-São mais afiadas do que aparentam, não acha? Ou sua armadura é mais fraca do que parece? –Zombou Katz

O Garth andou em direção a Katz e balançou seu machado tentando decapitar Katz. Ele conseguiu desviar e acertou a faca em uma das mãos do Garth, prendendo-o contra a parede e forçando-o a deixar o machado cair. Katz pegou o machado e acertou seu pescoço, porém o machado não conseguiu atravessar a armadura.

-Engraçado, as facas são mais uteis que o machado.

O Garth deu um chute em Katz, derrubando-o, e se desprendeu da parede. Ele então avançou na direção de Katz com uma faca em mãos. Robert assistia a cena de longe e se concentrou no ponto fraco da armadura do Garth. Ele então mirou e atirou sua lança, caindo no chão durante o processo. O Garth rugiu de dor mais uma vez, olhando para seu braço atravessado. Katz aproveitou o momento de distração do Garth e pegou uma das facas no chão. Ele se levantou e acertou sua faca sete vezes no peito do Garth, e depois ele cortou fora um dos chifres. O Garth não parava de se mover, tamanha dor que sentia, até que, por fim, Katz acertou uma facada em sua cabeça, matando-o.

Katz então correu para ajudar Robert a se levantar

-Você está bem? Boa mira.

-Estou bem, e obrigado.

Após ajudar Robert, Katz andou até o corpo do Garth. Ele tirou o capacete do Garth, revelando seu rosto deformado. Katz então retirou a lança presa no braço do Garth, pegou uma faca no chão, guardou-a, e se voltou para Robert, entregando-o sua lança.

-Rob, devolva-me a tocha. E deixa que eu ajudo-te a andar.

Os dois finalmente chegaram à saída, uma porta gigantesca cravada com a imagem de um corvo. Robert olhou para Katz e pediu:

-Me deixe aqui na parede e abra a porta, a melhor forma de me acostumar com a luz do sol é olhando para um ambiente iluminado que está longe.

-Eu não me preocuparia com o sol.

-Katz... Eu não quero ficar cego dos dois olhos.

-Você não vai, acredite.

Katz abriu a porta devagar enquanto Robert tentava se apoiar na parede. A porta se abriu e Robert protegeu o rosto, mas pouco depois olhou para fora com uma expressão confusa. Estava mais claro do que dentro da Lertus, obviamente, mas ainda assim estava bem escuro. Estava de noite, Katz só estava brincando com ele. Robert então olhou para Katz e falou sorrindo:

-Seu maldito, achei que você queria me deixar ceg-

-Parece que está de noite, não? –Cortou Katz

-Espere, que horas são agora?

-Três da tarde

Katz então levou Robert para o lado de fora.

-Mas que merda aconteceu aqui?

Eram três horas da tarde, mas pela claridade eram sete horas da noite. Lá no céu estava o sol, mas ele não estava brilhando e iluminando as terras como sempre fazia, ele estava escuro, como se estivesse em um eclipse. A única diferença é que ele não estava atrás de nenhuma lua, ele simplesmente estava negro. Além disso, a antiga lua que dançava nos céus e fascinava Robert desde que era pequeno, não estava mais lá.

-Foi por causa deste sol que eu te libertei.

-Como assim?

-Eu explico quando chegarmos a Stern.

Notas finais
Esse primeiro capitulo ficou meio longo, mas prometo que os outros serão mais curtos
espero que tenham gostado.