A Dança dos Corvos
7 Brimwal - Final
Notas iniciais
No exato segundo em que chegaram a cidade, Gerard cobrou a bainha de Katz. O rei entregou para o nobre plebeu uma bainha comum de couro. Katz não tentou discutir ou barganhar, promessa é promessa. Além disso, naquele momento ele tinha algo mais importante com o que se preocupar: suas costas. Katz já não sentia mais dor, mas isso não significava nada. Chegar até ali só para morrer por causa de uma ferida exposta não era algo que Katz poderia aceitar.
A enfermaria ficava no subsolo, alguns corredores de distancia do quarto do Robert. O médico do lugar era um homem gordo e de uma aparência macabra (especialmente com varias facas, bisturis e outros instrumentos pontiagudos jogados em cima da mesa), mas no geral era um homem decente. Katz estava sentado em um banco de três pernas enquanto o médico checava as suas costas.
–Você poderia tirar sua armadura, por favor? –Pediu-lhe o médico.
Katz fez exatamente isso, removendo primeiro as partes metálicas, que pendiam amarradas no couro, e depois o próprio couro, retirando-o como se fosse uma camisa. O médico andou para trás, com um olhar cético.
–O que houve? –Perguntou Katz.
–O que aconteceu aqui? –Perguntou o médico.
Katz contou o que aconteceu apenas para Terry, então inventou uma desculpa qualquer para o resto (no caso, um animal qualquer o arrastou pela caverna).
–O que você está vendo?! –Perguntou Katz, desesperado.
O médico respirou fundo e disse:
–Nada.
–O que?
–Com a exceção do sangue em suas vestimentas, você está bem.
Katz passou uma das mãos em suas costas.
–... Têm certeza?
–Absoluta.
–Então explique estas cicatrizes.
–... Cicatrizes?
–Estas. –Disse Katz enquanto passava a mão em duas cicatrizes verticais que agora estavam em suas costas.
O médico deu uma olhada em silêncio, depois foi até o armário e pegou um pequeno espelho.
–Cicatrizes? –Repetiu o médico provando para Katz que não havia nada lá além de suas costas nuas.
Após alguns minutos olhando para baixo em silêncio, Katz pegou sua armadura, vestiu-se e foi embora. Antes que o médico pudesse falar alguma coisa, Katz fechou a porta e foi em direção ao quarto de Robert.
Katz estava tão desatento a sua volta enquanto caminhava que chegou a derrubar duas criadas. Ele precisava sair daquele castelo, daquela cidade, daquela região; rumo ao norte. Katz parou na entrada do quarto de Robert e abriu a porta sem bater.
Ele imediatamente se arrependeu de fazer isto
–Pelos deuses! –Exclamou Katz tentando desviar o olhar.
Ao ver Katz, Robert parou o que estava fazendo e se cobriu com os lençóis. Ele também cobriu a rainha ao seu lado.
–Katz! –Exclamou Robert, envergonhado. –Vocês já chegaram...
–Idiota. –Disse Katz em voz baixa enquanto desviava o olhar. –Se vista e me encontre em meu quarto. E Margery... Ponha algumas roupas e vá falar com seu marido. A essa altura ele deve estar te esperando em seu quarto, não é comum uma mulher como a senhora não estar no quarto em numa madrugada.
Margery parecia muito envergonhada, mas disse.
–Eu vou daqui a pouco, apenas me dê alguns minutos.
Em pouco tempo, Robert saiu do quarto e foi falar com Katz. Margery resolveu ficar lá por mais algum tempo para pensar em como agir e o que falar na frente do rei.
Robert subiu as escadas e entrou no quarto de Katz, onde foi cumprimentado por seu amigo com um soco forte no rosto. Após balançar a cabeça, em uma tentativa de fazer a dor ir embora, Robert disse:
–Para que você fez isso?
–Para que você se lembre de controlar onde você enfia esse seu... Membro.
Katz começou a andar nervoso pelo quarto, então olhou a janela e começou a falar:
–Olhe, eu entendo o seu ponto de vista. Também faz muito tempo que eu não estive com uma mulher. Mais tempo que você, na verdade. E sim, a rainha é uma mulher muito bela, mas... — Ele se interrompeu.
–O que?
–Nada. Só... Não faça isso na próxima cidade que visitarmos.
–Descobriu onde a pomba está?
–Rob... Preciso que você me prometa.
–Tá, eu vou controlar o meu membro. E ai? Descobriu?
–Sim; um lugar chamado Ferinank, no norte. E, além disso... –Katz se interrompeu novamente.
–O que? –Perguntou Robert, impaciente.
–Lestraus está próximo, Rob.
–O que? –Agora Robert perguntou chocado.
–Eu conto no caminho, primeiro faça suas malas e vamos embora. Encontro-te nos estábulos.
Katz viu Robert correr escada a baixo, e então, após pegar sua sacola com suprimentos, começou a correr em direção à sala de tesouros. Ele já estava pronto para sair, tudo que faltava era quebrar um acordo. Naquela sala estava guardada a espada que decapitou o dragão duzentos anos antes. Katz não tinha interesse na espada, mas tinha certeza que a sala possuía outros tesouros, incluindo o seu próprio.
Gerard era um homem incrivelmente metódico. Para ele; sua esposa deve dormir no lado esquerdo da cama, todos os convidados próximos ao rei devem dormir no quarto localizado no ultimo andar, suas roupas devem conter pele de um animal morto (este era realmente essencial) e todos os objetos valiosos devem ser guardados na sala do tesouro.
Antes de Katz saber o que a platina poderia fazer, ele não tinha planos de rouba-la de volta. Por mais que a platina seja um material valioso, ela parecia inútil para sua jornada. Agora as coisas mudaram; Katz nunca mais deixaria alguém tocar naquele valioso objeto.
Os passos de Katz chamaram a atenção de alguns servos que estavam andando pelo castelo. Um destes era Terry, que havia desaparecido ao sair da enfermaria. Ele e Katz levaram Arch até o médico; logo depois, Katz foi se encontrar com o tal médico gordo e Terry desapareceu de vista.
Ao ver Katz caminhando rápido pelos corredores, ele começou a segui-lo de forma silenciosa, deixando o outro servo sozinho.
Quando Katz estava em frente à porta da sala, Terry o chamou.
–Estive procurando por você.
Katz se virou para ver Terry, o mentiroso. Ele havia conhecido o homem uma hora atrás, e graças a isso não confiava muito no general. Ele apenas contou para Terry sobre a caverna pois achava justo; uma vida por uma informação interessante. Porém, o único motivo de Terry ter ido resgata-lo foi para garantir que Gerard tenha a bainha, e Katz sabia disso.
Porém havia algo estranho com ele desta vez. A expressão em seu rosto era de pura ambição. Como se, naquele momento, Katz era o ser mais importante que Terry já havia encontrado em sua vida. Terry agora estava desarmado, usando apenas sua armadura, mas Katz sentia que o olhar penetrante daquele homem poderia perfura-lo a qualquer segundo.
Katz e Terry ficaram bons quinze segundos olhando um para o outro. O General não descia as escadas para avisar alguém, mas Katz não podia se arriscar.
–Você sabe como Arch está? –Perguntou Katz, usando benevolência como disfarce.
–Não sei, vêm checar comigo?
Katz não se moveu ou disse uma palavra. Terry lhe deu um sorriso malicioso e disse:
–Não importa, importa?
–Olhe, pode correr para Gerard e contar o que estou fazendo se quiser, mas eu vou abrir esta porta. –Disse Katz antes de se virar.
Presa em nas amarras da ombreira direita de sua armadura, estava a faca do Garth que Katz havia pego tanto tempo atrás. No entanto, parecia que aquela pequena arma afiada não era o suficiente para abrir a porta. Katz parou o que estava fazendo ao ouvir um tilintar vindo de trás.
Ao se virar, Katz se deparou com a visão de Terry brincando com um molho de chaves, jogando-o para cima repetidamente.
–Sabe. –Disse Terry. –Acho que o que o criador das fechaduras tinha em mente era a ideia de abrir portas com chaves. Vamos dar uma tentativa?
Terry deu um passo a frente e abriu a porta com uma grande chave negra. Ele então olhou para Katz e fez um sinal com os braços, convidando-o a entrar.
–Por que está fazendo isso? –Perguntou Katz.
–Porque você me contou essa sua história com Lestraus e todo esse plano de se tornar imortal e... Bem... Talvez sua jornada possa precisar de um terceiro membro.
–Absolutamente não.
–Prefere que eu fale com Gerard? Acredite em mim, se ele descobrir o que está acontecendo agora, nem você nem o seu amigo sairão daqui com vida.
Katz revirou os olhos. Ele então empurrou Terry contra a parede e apoiou a faca do Garth em seu pescoço.
–Você vai mesmo ameaçar um homem armado? –Perguntou Katz, ameaçadoramente.
–Lâminas não são o único tipo de arma que existe. –Respondeu Terry, sem mudar o seu sorriso de divertimento. –Informação pode ser tão mortal quanto qualquer arma. Por exemplo; antes de seguir você, eu informei a um guarda qualquer que eu ia dar uma olhada no que você iria fazer. Também pedi a ele que viesse me procurar se eu demorasse mais de três minutos. Já disse que pedidos também são uma excelente arma?
Katz soltou Terry, guardou sua faca e deu um passo para trás.
–Que seja. –Disse Katz enquanto os dois entravam juntos naquele grande salão.
Katz nunca adivinharia que o chão da sala de tesouros era feito de mármore. Para ele, o chão era formado por milhares de moedas de ouro, prata e bronze jogadas no chão. Em algumas das pilhas de moedas, estavam centenas de taças, joias, cordões e outros objetos valiosos.
–Aparentemente, Brimwal não está com tantos problemas financeiros. –Disse Katz.
Terry deu uma única risada e disse:
–Antigamente, essa sala era só para tesouros importantes, como você deve saber. As moedas ocupavam um andar inteiro.
No centro da sala, quase soterrado pelas moedas, estava um pódio feito de ouro. Dentro de tal pódio, protegida por um vidro e descansando em uma almofada, estava a espada de Brimwal.
–Não deve ser muito difícil achar a bainha aqui. –Disse Terry. –Enquanto você procura eu vou... Me armar.
Terry passou pelos montes de ouro, quase escorregando de animação. Enquanto Katz procurava platina entre pilhas de ouro, Terry quebrava o vidro com seu cotovelo. Antes de tocar a espada que não fora tocada em duzentos anos, Terry se interrompeu. Havia algo... Um som além do de Katz. Terry virou-se e viu o guarda que estava o acompanhando minutos antes.
Ele caminhava cuidadosamente entre o ouro e mantinha uma expressão que era uma mistura de cautela e surpresa.
–T-Terry? –Disse o homem.
Katz levantou os olhos e viu aquele soldado assustado. A reação óbvia e muito útil de Katz foi permanecer imóvel. Talvez ele não percebesse que Katz era um ser vivo, nunca se sabe.
–Marco. –Disse Terry. –Volte ao seu posto.
–Por que a espada de Brimwal está fora do vidro? –Perguntou Marco.
Terry não respondeu. Katz virou para ele e disse:
–Às vezes, a melhor arma pode se virar contra o dono, não?
–Calado. –Respondeu Terry.
A mão direita de Marco encontrou o cabo de sua espada e, então, desembainhou-a.
–Vocês dois vêm comigo. –Disse de forma autoritária.
Katz levantou-se, sacou sua excelente espada de sua péssima bainha temporária e a apontou para Marco, com o lado feito de ferro apontado para cima.
–Eu te dou três opções, garoto. –Disse Katz. –Primeira: você cruza espadas comigo e acaba perdendo alguns membros. Segunda: você tenta fugir e têm seu ultimo suspiro quando uma faca arremessada atinge suas costas. Terceira: você abaixa essa sua espada antes que acabe se cortando e fica sentado no canto enquanto eu e Terry pegamos o que é meu por direito. Honestamente, eu recomendo a terceira opção.
Marco sorriu e disse:
–Prefiro a quarta opção: punir o péssimo hóspede.
E então, antes que Katz pudesse ter qualquer reação, Terry o pegou com uma chave de pescoço. Katz tentou brandir sua espada, mas Terry atingiu sua articulação do braço, fazendo com que o guerreiro cicatrizado soltasse sua arma. Ele então derrubou Katz e trocou golpes corpo a corpo com o homem.
A luta foi encerrada quando Marco apareceu com uma corrente. Após pisotear Katz com sua enorme bota de ferro, ele prendeu seus braços em uma pilastra, imobilizando-o. O pobre Katz, que agora estava com o rosto ensanguentado, ficou parado, sem esperanças, enquanto via o traidor e seu amigo rirem juntos.
–Foi bem sincronizado, Marco. –Disse Terry, ofegante.
–Concordo. –Respondeu Marco ao se abaixar para pegar a espada de Katz. –Vamos contar ao rei?
–Só um segundo. –Disse Terry enquanto pegava a faca de Katz. Os dois trocaram um olhar de ódio, que apenas parou quando Terry se virou com uma faca de Garth em mãos.
–Nunca se sabe. –Disse Terry por fim, enquanto caminhava até a saída.
–Feche a porta. –Ordenou Marco.
–Para que? Nós vamos voltar aqui depois mesmo.
–É, tem razão.
–Alguma novidade quanto a Arch?
–Ele não está bem, Terry... Ele pode não sobreviver.
A expressão de Terry ficou nula enquanto eles já estavam perto das escadas. Marco então tentou mudar de assunto.
–O que exatamente esse tal de Katz estava procurando?
–A bainha dele.
Marco parou no corrimão logo antes das escadas e começou a gargalhar escandalosamente. Ele logo foi acompanhado por Terry, que foi contagiado pela risada do outro guarda.
O som da risada combinada dos dois homens foi a penúltima coisa que Marco ouviu em sua vida.
A ultima foi o som de sua garganta sendo rasgada por uma faca.
Enquanto o sangue jorrava e sujava o tapete, Terry arrancava dois pequenos pedaços de pano da roupa de Marco. Ele então empurrou Marco escada abaixo, que a esse ponto, não mais vivia, e caminhou de volta para a sala enquanto limpava a faca do Garth com um dos panos.
–Como eu a dizendo, procure sua bainha enquanto eu me armo. –Disse Terry ao libertar Katz das correntes.
Katz levantou-se, encarou-o por um segundo e disse:
–Isso foi mesmo necessário?
–Sim, se você lutasse contra ele, acabaria fazendo muito barulho; e atirar uma faca nele tinha chance de não dar certo. Você não é um homem muito silencioso, sabia Katz? –Disse Terry enquanto jogava o outro pano para Katz, que o usou para limpar o sangue de seu rosto.
–Claro, porque empurrar um cadáver escada abaixo é uma coisa muito sutil.
Terry ignorou o comentário e andou até o pódio. Katz resolveu mudar de assunto enquanto procurava sua bainha.
–Você não teve nenhum arrependimento?
–O que?
–Quando você cortou a garganta daquele homem... Você parecia não ter nem uma gota de arrependimento. Matar um conhecido nunca é algo que eu anseio fazer.
–Se o que você e... Porra, todos com um mínimo de inteligência estão dizendo é verdade, então ele já estava morto de qualquer forma. Na verdade, todas as pessoas estão mortas no exato momento em que nascem.
–É uma forma de pensar sobre a vida, eu acho.
–Eu quero mudar isso Katz. Eu nunca vou morrer. –Disse Terry enquanto empunhava aquela espada tão antiga. Ao passar o dedo por sua lâmina, percebeu que ainda estava afiada. –Esqueça o que eu disse antes, lâminas são, sem duvida, a melhor arma.
Katz riu. Se fosse forçado a ter um terceiro acompanhante na viagem, que fosse alguém como Terry.
Jogada em uma pilha de moedas, estava a tão bela bainha de platina. Katz pegou-a e deu para Terry a bainha de couro (que retribuiu o favor devolvendo a faca do Garth).
Os dois desceram rápido as escadas e se surpreenderam com o que estava acontecendo no térreo.
Pessoas corriam de um lado para o outro em pânico, criados e criadas corriam tentando abandonar o castelo e, no centro do salão de entrada, um rosto conhecido estava ajoelhado, com sangue cobrindo seu rosto e vestimentas. Em volta dessa pessoa, estavam vários guardas apontando lanças, machados e espadas contra o seu rosto.
Katz e Terry desembainharam as espadas e correram até o salão.
Minutos antes.
Após se despedir de seu amigo, Robert caminhou até seu quarto para pegar suas coisas e ir embora. No caminho se perguntava se deveria chamar Margery para ir junto. Diferentemente de Lyria, Margery parecia honestamente se importar com ele. Ela poderia ajudar na viagem, disfarçando Katz e Robert como meros guardas levando a rainha para outro lugar ou... Não importava! Robert queria que Margery fosse, e não descansaria até convencê-la de que se ficar para trás, morrerá de fome.
A essa altura, Robert já tinha até esquecido da lança que quase atravessou seu corpo.
Ele parou na frente de seu quarto. Algo o impedia de abrir a porta. Será que Margery ainda não tinha saído e continuava nua na cama? Não, não poderia ser isso. Seja lá o que fosse Robert resolveu ignorar e abriu a porta.
Ao fazer isso, o queixo de Robert atingiu o chão e ele instantaneamente se arrependeu de tudo que fez naquela cidade. Melhor, ele se arrependeu de ter posto os pés naquela cidade maldita.
Em sua cama, Margery continuava deitada e nua, mas dessa vez Gerard estava lá também. Ele sorria e afagava os cabelos de sua amada esposa com a mão esquerda. Com a outra mão ele acariciava as costas nuas da bela rainha. A cada acariciada que o rei fazia com o seu punhal na mão direita, mais sangue jorrava do corpo da rainha. No chão, uma poça de sangue poluía o piso.
Gerard virou o rosto. Uma expressão de tristeza e amargura dominava o rosto do rei. Ele então esfaqueou o cadáver da bela rainha, abaixou a cabeça e disse:
–Não era para ter sido assim... Não era o que eu queria... Me desculpe. –Nesta ultima frase, algumas lágrimas escorreram pelo rosto de Gerard. Ele então virou-se para Robert e, em um momento de fúria, gritou. –É tudo culpa sua! Você me fez fazer isso! Você trouxe desgraça para meu reino e para minha vida!
Robert estava em choque. Ele não conseguia abrir a boca para responder, e nem mesmo pensar em algo para responder. Lágrimas caíram incansavelmente do rosto de Gerard. Algumas caiam em Margery, dentro dos ferimentos deixados pelas apunhaladas.
–Esta sem palavras agora? –Disse Gerard. –Você precisou de palavras para seduzi-la?
Robert queria sair dali, mas estava paralisado. Não conseguia correr para dentro e pegar suas armas, não conseguia ir embora e encontrar Katz. Ele então percebeu Gerard se levantando e andando na direção de Robert, com o punhal em mãos.
Robert, sem pensar, correu pela sala em direção a sua armadura e suas duas lanças, porém, estava tão abalado que não conseguia prestar atenção onde pisava, e acabou escorregando na poça de sangue. Gerard ajoelhou-se sobre o corpo de Robert e pôs a faca em sua garganta.
A lâmina não fazia nada, apenas permanecia apoiada na garganta de Robert. Até Gerard mais uma vez romper-se em lágrimas. Ele atirou a faca para o lado e deu um abraço em Robert, chorando em seu ombro como se esperasse que Robert o consolasse. Logo a tristeza de Gerard transformou-se em ódio, e ele deu um forte soco no rosto de Robert, seguido por outro, e outro, e mais outro enquanto falava:
–Você não merece uma morte rápida! O punhal seria muito menos do que você merece!
Robert não conseguia se levantar ou se proteger do festival de socos no rosto, ele estava paralisado novamente. Porém, desta vez, a causa de sua paralisia não era o choque ou nada parecido, era a culpa.
Quando uma pessoa já aceita a sua inevitável morte, ela tem muito mais tempo para pensar e entender quando tudo deu errado. Se Robert tivesse apenas dito “não” no momento em que Katz e ele foram ao bar de Stern, nada daquilo teria acontecido, e isso ficava cada vez mais óbvio a cada soco.
O sangue na poça passou a ser uma mistura do sangue de Robert e o sangue de Margery. Um sorriso foi surgindo no rosto de Gerard, e foi crescendo a cada soco que acertava no rosto de Robert. Quando o rosto de Robert já estava coberto de sangue, o rei começou a gargalhar alto. Aquela típica risada para se livrar da dor.
Aquilo foi o suficiente para transformar a culpa de Robert em ódio. Ele se concentrou o máximo possível e chutou a perna de Gerard, fazendo-o cair e parando sua combinação de socos.
Robert se levantou e pegou sua lança feita por Revin. Ele esperou Gerard se levantar, e olhar para Robert. Quando o rei percebeu, já estava com uma lança perfurando a sua garganta. Gerard morreria eventualmente com a garganta perfurada, mas não era o suficiente para Robert.
Ele levantou o rei com sua lança e o levou para fora do quarto. Gerard tentava gritar em agonia, mas tudo que Robert ouvia eram ruídos. Ele largou o rei na parede do lado de fora do quarto e começou a perfurar sua cabeça com a ponta da lança. Uma, duas, três vezes; Robert não se cansava de perfurar a cabeça de seu adorado rei.
O rei morreu, mas ainda não era o suficiente. Ele voltou ao seu quarto e pôs as partes de ferro da armadura e pegou sua sacola de viagem. Depois saiu e começou a chutar a cabeça do rei com suas botas de ferro. A cada chute Robert ouvia um osso da face do rei se quebrar e via a sua pele se rasgar.
Ele finalmente parou e se afastou para ver a face deformada de seu rei. Depois ajoelhou-se em sua frente e retribuiu a combinação de socos, mas gritando um insulto a cada soco.
–Seu sádico, cruel, monstro, imbecil, pedaço de merda, escória da humanidade, por que você... Por que... Você. –Robert parou aos poucos, ofegante. O rosto de Gerard nem parecia mais algo humano.
Robert resolveu deixar a outra lança para trás e foi embora, mancando pelo castelo, com seu rosto e roupas ensanguentadas. Um grito veio de trás. Era uma das criadas, que acabara de encontrar os corpos. Poucos momentos depois, começou o tumulto no castelo. O pensamento de se esconder e andar silenciosamente nunca passou pela cabeça de Robert. Ele sentia seu corpo ficar cada vez mais pesado, mas tinha que continuar, precisava chegar aos estábulos.
Perto da escada, Robert foi surpreendido por seis guardas. Vendo que não havia como sair dali, ele jogou sua lança no chão e se ajoelhou. Naquele estado, não tinha como resistir.
Subitamente, um dos guardas foi atingido por uma faca. Robert estreitou os olhos para conseguir prestar mais atenção na arma. Sem duvidas, aquela era uma faca de Garth.
Katz desceu as escadas com velocidade e ao chegar ao chão, apontou sua espada contra os guardas. Logo depois, outro homem que havia saltado de um dos corrimões pousou ao lado de Katz. Robert nunca havia visto aquele homem, mas vendo que ele brandia sua espada contra os guardas, Robert assumiu que era amigo.
Os seis guardas correram em direção a Katz e Terry. Um deles atacou Terry com uma lança, mas Terry conseguiu desviar com um movimento leve e cortou suas duas mãos em um movimento rápido com a espada de Brimwal. Ela cortava membros protegidos por armadura como se fossem papel.
Katz finalizou o homem sem mãos perfurando sua garganta. Ao ver outro vindo, ele usou a prata de sua espada para refletir a luz do salão e cegar o guarda, depois se abaixou e viu Terry decapitando o seu distraído adversário.
Terry estava trocando golpes com dois guardas, sendo que um deles tinha um arco e flechas pendurados em suas costas. Katz pegou sua faca que estava presa em um dos cadáveres e perfurou o guarda sem arco na nuca, matando-o instantaneamente. Terry deu um chute no outro guarda e disse:
–Vá ajudar seu amigo para sairmos daqui, eu cuido do resto.
Katz foi até o centro da sala e se ajoelhou ao lado de Robert.
–Esta tudo bem, Rob? –Perguntou Katz.
–Eu os matei... –Respondeu Robert. Ele mantinha o olhar sem expressão focado no chão.
Katz levou um tempo para entender o que seu amigo estava falando. Após entender ele não perguntou por detalhes, isto podia esperar; fugir da cidade era a prioridade. Ele ajudou seu amigo a se levantar, pegou sua lança que estava no chão e devolveu para ele.
Ao levantar o rosto para procurar Terry, viu que os dois últimos guardas estavam mortos e Terry estava pegando o arco e as flechas de um dos cadáveres.
–Caso eu precise... –Disse enquanto botava a arma nas costas.
Os três saíram às pressas e foram direto para os estábulos, onde pegaram seus dois antigos cavalos e um cavalo novo para Terry. Os três então cavalgaram para fora da cidade o mais rápido possível, para nunca mais voltar.
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