A Dança dos Corvos
8 O longo caminho à frente.
–Há uma cidade perto daqui. –Disse Terry, desmontado, procurando uma trilha. –Seis talvez sete montarias indo a noroeste.
–E isso instantaneamente significa cidade na sua cabeça? –Perguntou Katz, com um ar de líder enquanto falava de cima de seu cavalo. –Saber o numero de pessoas é diferente de saber para onde vão. Porra, nós temos metade deste número e nem mesmo sabemos onde estamos indo.
–Você nunca disse; o que exatamente é Ferinank? –Perguntou Robert vigiado a retaguarda enquanto montado. As cicatrizes e os traumas dos acontecimentos de Brimwal ainda não haviam ido embora.
–Isso é porque eu não sei. Terry estava lá, ele sabe o que eu quero dizer.
–Você podia ter conseguido mais informações se quisesse. –Disse Terry.
–Se eu fizesse isso, aquela família de Shivers não estaria mais respirando.
–E por que isso importa? Eles vão estar mortos em alguns meses de qualquer forma. –Disse Robert enquanto passeava com seu cavalo em volta da trilha onde estavam. Naqueles dias ele estava consumido por raiva e ódio, e aquele foi um dos primeiros momentos em que demonstrou isso para seus dois companheiros de viagem.
–Robert tem razão. –Disse Terry. Durante a viagem ele ocasionalmente via Katz chamar Robert de “Rob”; mas sentia medo de tentar usar o apelido daquele homem de um olho, então se limitava a chama-lo de Robert. –Se não fosse sua compaixão nós não estaríamos tendo essa discussão. Talvez Ferinank seja uma cidade. –Terry fez um sinal com a cabeça, apontando para a trilha coberta por pegadas e excremento de cavalo. –Aquela cidade.
–A noroeste? –Indagou Katz. –E volto ao meu argumento inicial: o que te faz achar que têm uma cidade para lá?
–Olhe, nossos archotes já não são mais uteis há dias, eu já não como a dias. Se existe uma chance, mesmo que pequena, de que tenha uma cidade próxima, eu vou escolher ir por esse caminho.
–Não é uma boa escolha, Terry. –Disse Robert parando o seu cavalo. –Digamos que realmente exista uma cidade a noroeste, mas digamos que esteja a léguas daqui. Depois de conseguimos comida, equipamento, um bom banho e uma cama descente; estaremos perdidos e não saberemos como voltar a trilha principal. Eu diria para que continuemos seguindo norte.
–Não poderia concordar mais. –Disse Katz.
Terry revirou os olhos, voltou ao seu cavalo e disse:
–Quem diria que mesmo sem ter que obedecer o rei eu ainda estaria recebendo ordens.
Os três continuaram cavalgando rumo ao norte. Dias se passavam, léguas eles percorriam, cidades eles não encontravam. Seus suprimentos haviam acabado, eles não tinham mais como iluminar o caminho. Agora sobreviviam na sorte, encontrando coisas uteis em cadáveres nas proximidades, algo comum naquela região, ou simplesmente caçando.
Seus cavalos já não aguentavam mais a viagem e aos poucos foram ficando mais fracos, até o momento em que tiveram de ser sacrificados para que sua dor cessasse. Um pequeno ato de humanidade vinda de homens que já a perderam faz dias.
Eles mal falavam durante sua viagem, a exaustão e a fome falava por eles. O pensamento de simplesmente cair no chão e esperar a doce morte beijar seus corpos passou pela mente de cada um deles mais de uma vez.
Quando achavam que já tinham visto tudo de ruim naquela região, que não havia nada de pior ponto para reclamar suas almas, eis que a neve os atinge.
Começou caindo lenta e em pouca quantidade. O frio os pegou de surpresa, claro, então foram forçados a pegar a pele dos poucos animais que matavam.
Então o frio ficou cada vez mais forte e a neve cada vez mais espessa. No escuro aquela visão não era linda, era desoladora, especialmente com aquela tempestade de frio e gelo caindo.
Katz e Robert pararam de caminhar ao perceber Terry olhando para cima, completamente surpreso.
–O que é aquilo? –Perguntou ele em admiração.
–Um general que nunca esteve em regiões frias? –Disse Katz olhando para o festival de luzes no céu que chamavam a atenção de Terry. –Lendas dizem que é um sinal dos deuses, dizendo aos viajantes para que não percam a esperança. Eu não acreditara em tais lendas, no entanto.
–Acho que já é o suficiente por hoje. –Disse Robert, ofegante. O tempo o havia deixado um homem mais duro, mais severo. Naquele momento carregava uma tocha; Katz o ensinara como fazer fogo. –Vamos fazer uma fogueira, caçar e descansar.
Os outros dois seguiram as suas ordens.
Robert estava sentado na neve perto da recém formada fogueira. As chamas estavam pequenas e não se espalhavam, algo que esperavam que mudasse assim que Katz voltasse com mais lenha.
Longe da fogueira, Terry caminhava e patrulhava a área próxima, munido apenas de uma tocha e da espada de Brimwal.
–Terry! –Gritou Robert. –Venha se juntar a mim! Você já patrulhou o suficiente!
–Não, obrigado! –Respondeu Terry, andando para ainda mais longe.
Nos dias em que dormiam, aquele que sempre ficava acordado de guarda era Terry. No entanto, Robert ainda não conseguia confiar no ex-soldado e as vezes ficava acordado, atento a ele enquanto ele ficava atento ao ambiente. As vezes Terry via seu companheiro de viagem suspeitando dele, então os dois trocavam de turno. Ainda assim, Terry sem dúvidas era o que menos dormira durante a viagem, mas ele parecia não se importar.
Após alguns minutos, Katz voltou com a lenha. Robert não pode segurar um pequeno sorriso nostálgico ao vê-lo. O homem com a cicatriz agora usava a pele de um lobo como casaco. Encontraram o animal morto poucos dias antes.
–Sabe quem você está me lembrando agora? –Perguntou Robert enquanto ajudava seu amigo a melhorar a fogueira.
–Hm? –Murmurou Katz curioso.
–Aylon.
–Se você diz... –Respondeu Katz, deitando-se na neve e olhando para cima. Robert inclinou sua cabeça para cima também, observando a escuridão do céu.
–Você nunca me disse o que houve com ele. –Disse Robert inexpressivamente.
Katz manteve-se em silêncio, apenas olhando para cima.
Quando Katz era apenas uma criança, costumava dizer que Revin era o seu padrinho e Aylon era seu pai. Muitos em Stern acreditavam que isso era verdade, ao ver as semelhanças entre os dois, tanto em personalidade quanto em aparência.
Robert também tinha história com o rei dos lobos, pois foi seu escudeiro. Aylon governava Farshall, um importante reino a oeste de Stern. Durante anos Robert teve que conviver com o rei e seus cinco lobos de estimação. De início os lobos assustavam Robert, mas depois ele passou a ter respeito pelo animal.
–Você nunca me disse como ele morreu. –Insistiu Robert.
–Eu não estava lá. –Respondeu Katz. –Apenas vi seu corpo.
–Aonde?
–Eu não lutei por Gerard nas terras desoladas apenas pelo bico do corvo.
Gerard... Este nome ainda era repulsivo aos ouvidos de Robert.
–E como estava seu corpo?
–Completamente normal. Ele não havia sofrido cortes, não havia sido sufocado... Nada havia acontecido com ele, ele estava apenas... Morto.
–Podemos mudar de assunto, se quiser.
–Isso foi a dois anos. –Disse Katz. –O que? Acha que vou começar a chorar em sus braços? –Disse Katz com um sorriso sarcástico no rosto.
–O que você fez depois?
–Com o cadáver?
–É.
–Enterrei e fui embora me perguntando o que ele fazia lá. –Disse Katz se aproximando do fogo.
–Como você sabia que estava lá?
–Da mesma forma que descobri onde estavam os bicos.
–Ah, certo.
Vantagens de ser um mercenário, você pode ouvir de tudo em tavernas.
Katz então bocejou e virou-se de lado, afastando-se um pouco da fogueira e de Robert.
–Agora vou dormir. Trouxe madeira o suficiente para o fogo durar a noite inteira, mas caso eu esteja errado, por favor vá pegar mais um pouco. E tente não ficar acordado a noite inteira.
–Por que eu ficaria?
–Terry. Você ainda acha que ele vai cortar a nossa garganta enquanto dormimos.
Robert levantou-se e girou no mesmo lugar, observando toda a paisagem.
–Ele não está por perto.
–Deve ter ido caçar. –Respondeu Katz com voz de cansado.
–Não devíamos procurar por ele?
–Então vá procurá-lo. Diferentemente de vocês dois, eu gosto de dormir. Agora adeus, encontro vocês dois no mundo dos sonhos.
Robert andou alguns passos, até desistir de procurar.
Ele apenas sentou-se e viu o fogo crepitar.
Terry patrulhava a região, andando por lugares além da fogueira onde Katz e Robert estavam. O lugar onde os dois estavam era cercado por diversos montes de neve, o que dificultava Terry a achar o caminho de volta.
As estranhas luzes no céu o ajudavam tanto quanto sua tocha. A paisagem branca entediava Terry. A floresta era bem mais interessante. Pensou Terry.
Por mais que não conversasse tanto com seus companheiros de viagem, Terry gostava de ficar sozinho. O único motivo pelo qual aquele soldado não estava viajando sozinho era para ter menos chance de morrer. Ainda assim, Terry era a única pessoa em quem Terry confiava; outro motivo para ele ser aquele que fica de guarda durante a noite.
Por sorte a nevasca não era forte o suficiente a ponto de cobrir rastros. O soldado sabia que havia um animal na região, só não sabia onde. Pelo tamanho das pegadas, parecia ser um lobo. Pela quantidade parecia ser uma alcateia.
Terry continuou caminhando fazendo um rastro com seus pés. A cada vez que a neve batia em seu rosto, Terry parava de sentir. Era como se ele morresse a cada segundo, para ressuscitar no segundo seguinte.
Terry subiu um pequeno monte de neve e, ao longe, viu uma pequena alcateia de no máximo seis integrantes. O soldado logo fincou sua tocha na neve e puxou seu arco.
Terry treinou durante anos servindo o senhor de Brimwal. Participou de diversas batalhas e saiu ileso da maioria. Algo que sempre foi elogiado foi a sua maestria no arco. Ele sabia a força e a precisão exatas para acertar qualquer alvo; graças a isso sempre que Terry puxava seu arco, o inimigo era atingido por uma flecha no segundo seguinte.
Não foi o que aconteceu desta vez, a flecha nem ao menos saiu de sua posição no arco.
À sua direita, à poucos metros de distância, estava um lobo rosnando contra ele. A espada de Brimwal acabaria com o animal em um piscar de olhos, porém Terry não quis arriscar. Não se sabe quem seria mais rápido.
Os dois então apenas ficaram se olhando, sem nenhum deles mexer um musculo. Então o lobo virou sua cabeça e voltou-se a rosnar para um homem que caminhava calma e lentamente pela neve em direção aos dois.
–Olá? –Disse Terry em tom cauteloso. O lobo ao seu lado rosnava tanto para o homem que Terry decidiu afastar-se um pouco.
–Robert de Farshal e Katz. –Disse o homem com uma voz áspera e sotaque estranho. –Conhece-os?
–Pode ser que sim. –Respondeu Terry. O soldado deveria estar prestando atenção na armadura reluzente do homem, decorada com diversas gemas que formavam um símbolo que Terry nunca vira. No entanto, havia algo mais peculiar sobre aquele homem que chamava sua atenção.
–Onde estão? –Perguntou o homem, enquanto ajeitava sua armadura, tentando esconder seus longos pelos vermelhos.
–Encontrei com eles na estrada semanas atrás. –Mentiu Terry. –Eu fui noroeste, eles foram norte... E recentemente encontrei seus corpos jogados por ai.
–Mentira. –Disse aquele ser. Ele fechou seus longos olhos amarelos, que eram quase impossíveis de se ver dentro de seu elmo. Ele então os abriu e disse: -Eu os sinto. Eles estão perto.
–Devem ser seus corpos. –Antes que Terry terminasse de falar, o ser já estava andando, seguindo na direção do acampamento como se estivesse sendo possuído por algo.
O ser então parou e urrou de dor. O lobo não estava mais ao lado de Terry, estava agora com os dentes fincados na perna daquilo, fazendo tanta pressão com a mandíbula que aos poucos a bota de metal do ser se estilhaçava.
Ele se debatia, tentava tirar o lobo de sua perna, até obter sucesso ao socar o focinho do animal. Durante o ataque, seu elmo havia caído na neve.
–Estranho. –Disse Terry enquanto sua mão pairava sobre a espada de Brimwal. –Não sabia que Garths eram comuns nessa região.
O Garth observou Terry e o lobo, tentando manter a calma.
–Meu nome é Sayad. –Disse ele. –E minha missão é encontrar Katz e Robert para leva-los a julgamento.
Terry então percebeu que o lobo olhava para algum lugar no horizonte. Ao perceber o eu o lobo observava com pesar, Terry sentiu o medo subir por sua espinha.
A alcateia de lobos já não estava mais lá, tudo que restava era o sangue dos integrantes, derramado por uma horda Garth.
Fale com o autor