A Dama da Lua de Sangue
3 Parte III
Acordo somente a tarde do dia seguinte, mas só porque o calor não me deixa dormir mais. Devo ter adormecido quase de manhãzinha pelo modo como me debati pra conseguir pegar no sono.
À noite, pego o ônibus que passa perto da vila e vou para a faculdade. Serena trabalha durante o dia, por isso ela irá direto pra a faculdade quando terminar seu expediente. No trajeto, coloco meus fones de ouvido, e tento relaxar até chegar ao meu destino. Contudo, quando me vejo revivendo a noite passada e meus momentos de prazer dentro daquele rio com Valentim, meu corpo fica tenso e sinto um calor, um desejo que me toma dos pés a cabeça. Desejo que Valentim esteja sobre mim, pressionando-me, comprimindo nossos corpos. Quero sentir sua força e seu toque. Meus pensamentos me distraem tanto que não vejo o caminho que o ônibus percorreu e quase perco o ponto que devo descer. Uma vez dentro da faculdade, tento me desvencilhar de todo e qualquer pensamento relacionado a Valentim, pois pretendo não vê-lo mais. Eu sei que aquilo que fizemos foi prazeroso, mas foi totalmente imprudente, pelo que eu saiba eu poderia estar grávida neste momento e de um desconhecido, alguém que, agora percebo, não sei nada a respeito. Em suma, tento esquecer toda essa questão e começar a me concentrar no que o professor está tentando explicar à turma.
Duas batidas na porta interrompem a aula. O professor gentilmente abre a porta e conversa algo com a pessoa na porta antes de deixá-la entrar. Meu queixo cai e meus olhos arregalam-se quando Valentim entra na sala e procura um lugar para sentar.
— Pessoal, este é Valentim, transferido de outra cidade. Seja bem vindo — o professor educadamente faz as apresentações.
No segundo seguinte, nossos olhares se encontram, o de Valentim e o meu. Seus lábios se contorcem em um sorriso de lado e ele vem em minha direção. Meu corpo se enrijece e não consigo conter minha cara de "você- está- me-seguindo". De repente lembro que há uma carteira vaga atrás de mim, que torço pra ele não sentar, já sabendo que é inútil torcer por isso. Quando Valentim passa por mim, sua mão desliza propositalmente por meu braço sem que ninguém veja. O gesto me arrepia e trinco os dentes, sentindo meu corpo pulsar. Fecho os olhos, tentando descobrir um modo de sobreviver a essa aula com ele atrás de mim. Valentim se senta na carteira de trás e a aula continua. Se antes eu já não estava conseguindo focar nas palavras do professor, agora muito menos. Alguns minutos se passam, mais outros se arrastam, até que está quase acabando a aula. E eu preciso evitar falar com Valentim, não quero ter de encará-lo, nem conversar sobre o que houve entre nós. Meu medo é que ele me persiga pra levantar este assunto, algo que eu não desejo.
Poucos minutos antes de o professor finalizar sua aula, pego minha mochila e saio da sala. Fico parada após fechar a porta atrás de mim e inspiro profundamente, como se estivesse respirando pela primeira vez . Olho de um lado pra o outro e começo a andar em uma direção sem rumo. Não tenho um lugar em que eu queira ir, apenas qualquer um que eu possa fugir de Valentim. Entre um bloco e outro, há um gramado e algumas arvoretas,onde eu posso me esconder. Sento-me no chão e fecho os olhos como se fosse dormir encostada numa parede.
Enquanto tento me conformar com a entrada de Valentim na mesma sala que a minha, bato minhas mãos na testa como um castigo por ser tão estúpida e ter me envolvido com o cara novo da vila, e que agora também é o novato do meu curso.
— Fugindo do lobo mau? — aquela voz.
Antes de abrir os olhos já sei que o timbre profundo e sedutor pertence a Valentim.
— Por quê está me seguindo? — questiono olhando para cima na direção dele.
— Não estou te seguindo — ele tenta se defender, a voz num tom de surpresa — Eu juro que não sabia que você fazia biologia aqui. Sério mesmo, não estou te seguindo. Mas agora que estou aqui, e você aí, quero saber porque está me evitando. Francamente, você me deixou confuso ao ir embora sem mais nem menos ontem a noite — Valentim guarda as mãos no bolso da calça preta justa.
Solto o ar, sem saída.
— Olha, o que aconteceu entre a gente foi um erro, tá legal? Um erro que não será repetido. E acho que pelo bem de todo mundo, não devíamos mais nos ver.
O rapaz continua a me encarar, dessa vez estupefato.
— Tá, agora me explica o motivo disso tudo — ele cruza os braços, a feição séria demais — me explica, por favor, porque eu não estou entendendo nada. Do que você tem medo? É de mim?
— Não — eu respondo rapidamente — Não é nada disso. Só que eu mal te conheço, não sei praticamente nada sobre você, e além do mais, fomos insanos ao não nos protegermos ontem.
— Tá. Peraí, deixa eu ver se entendi... Você prefere me evitar porque você não me conhece do que aproveitar para me conhecer melhor nesse tempo em que você fica fugindo de mim? E o que? Você acha que está grávida? — sua expressão fica apreensiva.
— Não! — digo incrédula.
— O que é então? Até agora não escutei motivos plausíveis pra receber um gelo desses.
Qualquer garota ficaria derretida ao ser interrogada por um cara como Valentim sendo exigida a dar satisfações por não poder ficar com ele. Mas eu estou prestes a surtar sem ter para onde correr.
— Quer saber? Eu sei lá. Talvez eu esteja com receio porque Serena se interessou em você e é meio hipócrita da minha parte ficar com a paquera da minha própria irma.
— É com isso que você tá preocupada?
— Pode ser.
— Mas eu te conheci antes dela e me interessei por você, eu quis ficar com você. Eu mal troquei duas palavras com sua irmã.
Meu coração acelera. "Me interessei por você".
Fico calada apenas olhando para Valentim.
— Já sei. Você está com medo de ter um relacionamento. Você tem medo de acabar se apaixonando porque esse é um território desconhecido pra você. Você não quer entregar seu coração para qualquer babaca — ele conclui, como se tivesse lido minha mente.
Continuo em silêncio. Como posso negar se realmente esse é o real motivo pelo qual estou fugindo dele? Abaixo o olhar para minhas mãos.
— Xeque mate — ele diz calmamente, indicando que descobriu a "charada"- Spencer, eu não sou qualquer babaca. Poxa, eu sou um babaca legal.
Mesmo na tensão da conversa, ele acaba de me arrancar uma risada.
— Sou o tipo de babaca que te tratarei bem, com respeito. O babaca que cairia a seus pés se você me permitisse e se permitisse. Não fuja das encruzilhadas da vida, Spencer. Não fuja de seu destino.
Olho-o interrogativamente tentando compreender o que ele quis dizer com "Não fuja de seu destino". Acaso ele pensa que o destino quer nós dois juntos? Ridículo.
Valentim se afasta de costas me olhando enigmaticamente e depois se vira e desaparece de vista.
Preciso de um tempo pra processar a conversa depois que ele se vai. Sei que não terei condições de prestar atenção a aula de hoje, então, decido ir para casa. A conversa continua rodando em minha cabeça, as palavras se repetindo incessantemente. Valentim conseguiu saber o motivo de algo que eu nem sequer admitia a mim mesma, o motivo de minha fuga. Claro que eu não quero me envolver com ninguém, isso estragaria todo o meu plano de vida. Já havia planejado viver pelo resto da vida pra estudar, viajar e conhecer o mundo, alguém aparecer e acabar com meu coração não faz parte do planejamento. Não que Valentim, a pessoa em si, seja uma pessoa cruel e queira me magoar, mas é que os homens têm o hábito de destruir o coração apaixonado de uma mulher como eu. Não que eu tenha tido várias experiências amorosas em dezessete anos, mas a única vez em que eu cheguei a gostar de alguém, a pessoa me humilhou na frente de todos os seus amigos e de toda a sétima série, me chamando de esquisita e de Murta-que-geme, como a fantasma do Harry Potter. E francamente, eu não estou disposta a sofrer mais uma desilusão amorosa. Por mais que ele afirme que não será um babaca comigo, não conseguiria confiar meu coração a ele.
Ao chegar na vila, desvio meu caminho e vou direto para o rio, a fim de aproveitá-lo antes que Valentim possa chegar.
Como sempre, dispo-me, ficando seminua. Entro na água e mergulho. A correnteza parece lavar todo o peso do dia que se acumulou em minha mente. Contemplo a lua em sua fase quase completa. Hoje ela está brilhando, jogando sua luz e iluminando a floresta mais do que nos dias anteriores. Mergulho e nado mais algumas vezes antes de sair da água e me vestir. Pego minha mochila e começo a sair da floresta, no entanto, sou barrada no meio do caminho por Valentim. Em todo lugar que eu vou, ele parece estar lá. Isso já está ficando repetitivo e fastidioso. Trinco a mandíbula.
— Por quê está me seguindo? — pergunto num tom irritado.
— Temos um assunto pendente.
Dentro da floresta, a luz da lua chega até nós por frestas na copa das árvores e, ainda assim, continua claro a ponto de eu enxergar o rosto de Valentim. Ainda que contra minha vontade, meu coração dispara num ritmo mais acelerado e um frio percorre minha espinha dorsal.
— Não temos assunto algum a tratar, Valentim. — levanto meu queixo alguns centímetros.
— Temos, sim, eu não vou deixar que você esqueça o que aconteceu ontem — engulo em seco, tentando não vacilar minha postura decidida — Apenas escute. Você não me conhece direito, nem eu a você. Não sei porque você tem tanto medo de se relacionar com alguém. Mas não deixe que esse medo te restrinja a algo que te faz feliz — ele dá um passo em minha direção.
— Que convencido! — cerro os cílios.
— Não sou convencido, você poderia buscar essa felicidade com qualquer outra pessoa. Mas eu preferia que fosse comigo — Valentim se aproxima mais dois passos.
— Sexo não é igual a felicidade. Minha visão de felicidade é diferente das de outras pessoas.
Valentim anda até a árvore mais próxima de mim e se escora nela com as mãos no bolso da calça. Aos poucos, ele está diminuindo a nossa distância.
— Qual é sua visão de felicidade?
Dou de ombros, não desejando entrar nesses assuntos pessoais.
Ele vira o rosto encarando qualquer outra coisa na floresta distraidamente.
— E se eu mudasse qualquer que seja sua visão de felicidade? — ele desencosta da árvore e anda até mim tão depressa que mal há tempo para eu me afastar — E se eu me encaixasse em sua visão de felicidade?
Sem que eu perceba, há uma árvore bem rente às minhas costas e Valentim está me colocando contra ela com uma mão em meu quadril e a outra no tronco da árvore acima de minha cabeça. Seu rosto bem perto do meu, impossibilitando qualquer movimento de esquiva. Tento olhar em outra direção, entretanto, sua boca possui uma força magnética que puxa meus olhos. Sinto seu hálito em minha bochecha quando ele fala:
— Deixe que eu te mostre a minha visão de felicidade.
Tento empurra-lo,porém, ele segura minhas mãos pressionando-as contra seu peito, o que me faz sentir seu coração martelar violentamente contra seu esterno. Sinto-me tentada a me espernear até Valentim me soltar, mas uma outra tentação me atrai. Como um efeito hipnotizador, ele me mantém vidrada naquela aproximação. Aos poucos, me sinto empurrada para mais perto de seus lábios cheios.
— Diga sim — ele sussurra em meu ouvido, fazendo eriçar os pelos da nuca.
Fecho os olhos, a respiração pesada, uma eletricidade percorrendo minhas entranhas.
— Diga.
Não podendo mais resistir, aproximo minha boca da sua e antes que elas se toquem, ele recua pra trás.
— Diga sim — ele insiste.
— Sim — arfo.
Valentim, então, pressiona sua boca na minha e me beija contra aquela árvore, meu corpo ainda molhado debaixo das roupas. Ele agarra meus pulsos e levanta-os acima de minha cabeça, prendendo-as com suas mãos. De repente, o tempo não existe mais, nem o mundo ao nosso redor, esqueço onde estou e quem sou. Sua língua explora o interior da minha boca e uma chama se acende em meu âmago. Valentim solta meus pulsos e agarra meus quadris, apertando minhas nádegas e puxando-me fortemente contra si. Uma de suas mãos sobe até meus seios e aperta-os por cima da roupa. No momento seguinte, ele para de me beijar, eufórico.
— Prometi a mim mesmo que iria com calma dessa vez. Portanto, não vou ultrapassar seus limites.
Ele se afasta mais um pouco, enquanto esfrego meus dedos ao redor dos lábios pra secar a saliva que se acumulou durante o beijo.
— Concordo — digo por fim — Eu prefiro assim.
Ele aquiesce.
— Acho que vou pra casa agora.
— Não, fique mais um pouco — Valentim pede.
Paro e penso por um segundo antes de assentir.
— Tá bom — sorrio de lado.
Passamos horas conversando a beira do rio, falando sobre nossas famílias e o que restou delas, sobre como nossos pais foram mortos. Digo a ele sobre a minha estranha atração pelos assassinos dos meus pais, os lobos, e ele, por sua vez, confidencia a mim o acidente de carro de seus progenitores. Contamos alguns de nossos sonhos e ideais, discutimos gostos e visões de felicidade e de mundo. Ali, naquela noite passamos a nos conhecer melhor. Durante aquele tempo, aproveitamos e desfrutamos a companhia um do outro, adorando tal momento. Quanto mais conversamos, mais assuntos surgem e mais nossa curiosidade um sobre o outro aumenta. Depois de muito papear, volto pra casa e hoje, sim, posso dizer que é impossível dormir sem antes pensar em Valentim. Tudo o que aconteceu no dia me fez esquecer que no dia seguinte farei dezoito.
— Parabéns, maninha! — Serena se joga em cima de mim, na manhã seguinte, enquanto ainda estou na cama, e gritando daquele jeito animado que só ela consegue.
Resmungo, não querendo acordar ainda.
— Vai, acorda, hoje é o nosso dia, garota loba! Levanta logo, tem um super café da manhã nos esperando!
Com isso ela consegue me convencer a pelo menos abrir os olhos. Sorrio pra Serena.
— Feliz aniversário, ranhenta — digo carinhosamente.
Ela tasca um beijo em minha bochecha, sorridente.
— E aí? Como é estar em um corpo de dezoito anos? — ela imita a voz de um locutor e fingi segurar um microfone perto de mim.
Rio.
— Você mesma pode responder essa pergunta, boba, você também tem um corpo de dezoito.
— Ah, tá, mas pra você deve ser diferente, né? Tipo, somos diferentes e tals.
— É verdade.
— Agora levanta, sua preguiçosa, chega de dormir — Serena puxa meu braço tentando me arrancar a força da cama, ao passo que eu me agarro a cabeceira da cama grunhindo.
— Só mais cinco minutos — imploro.
— Nada disso, querida — seu tom sarcástico me faz rir.
Meus dedos vacilam e eu escorrego pra fora da cama. Serena cai pra trás me levando junto com ela e no momento seguinte estamos as duas caídas no chão, rindo.
Ao chegarmos à mesa da cozinha, logo avisto um bolo de chocolate com dezoito velas brancas. Há também brigadeiros ao redor do bolo.
— Claro, não podia faltar os brigadeiros — digo sorrindo.
— Óbvio que não — Serena sorri também.
Vovó, Scarlet, que estava sentada a mesa nos esperando, levanta-se e vem nos abraçar felicitando-nos por mais um ano de vida. Cantamos o tradicional "Parabéns pra vocês" e comemos o bolo, que, por sinal, está delicioso. Vovó termina seu pedaço de bolo e sai da mesa, voltando em seguida com dois embrulhos coloridos.
— Comprei um presentinho pra vocês. Passei numa loja e disse a mim mesma que eram a sua cara.
Serena e eu nos olhamos, nos perguntando o que poderia ser os tais presentes.
Scarlet entrega o pacote de presente com coraçãozinhos azuis para Serena e o de coraçãozinhos vermelhos a mim.
Abro meu presente empolgada e logo vejo um tecido vermelho-escarlate, um tecido tão macio e sedoso que me chama a atenção, fora a cor que é a minha preferida. Termino de desembrulhar e puxo o tecido, que cai até o chão. É uma capa estilo medieval. O fecho do capuz grande é um botão azul-turquesa e na lateral da capa existe aberturas para os braços. Fico em êxtase com o presente, quase hipnotizada. Não poderia ter recebido presente melhor. Olho para Serena e vejo que seu presente é igual ao meu, exceto que a cor de sua capa é azul, da mesma cor que o botão do meu capuz. Sua expressão também é de fascínio. Sorrisos nascem em nossos rostos.
— Vó, não precisava — digo ainda maravilhada.
— Precisava, sim — Serena faz sua conhecida voz aguda — Esse é o melhor presente do mundo, são lindas.
Scarlet sorri gentilmente.
— Obrigada , vó. — agradeço, abraçando-a.
Serena junta-se para um abraço coletivo.
— Vistam — vovó diz alegre.
Abro o botão da minha capa e coloco-a por cima dos ombros. Fecho o botão, enfio as mãos nas aberturas do lado e puxo o capuz, cobrindo minha cabeça.
— Serviu certinho — digo antes mesmo de olhar no espelho.
Serena também já vestiu sua capa, ficando tão linda quanto já é, parecendo uma garota mística.
Corro até meu quarto e paro em frente ao espelho, admirando minha imagem. A capa cai perfeitamente sobre mim e me encanto com a cor vermelho vivo. Viro de um lado a outro contemplando a perfeição daquele tecido. Já até sei com qual das minhas roupas essa capa irá combinar: com meu vestido branco de renda e babados. Agradeço Scarlet mais algumas vezes antes de ela e Serena saírem para trabalhar, deixando-me sozinha em casa.
Durante o dia, faço alguns trabalhos acadêmicos e arrumo a casa. Quando a noite chega, vou para a faculdade. Novamente meus pensamentos insistem em voltar a Valentim, mas dessa vez não luto contra. A noite passada fica se repetindo em minhas memórias e eu me pego sorrindo ao lembrar da boca de Valentim na minha e de nossas conversas. Mesmo ainda estando receosa com a questão Sentimentos Amorosos, sinto uma empolgação crescente em meu estômago que me faz querer saber o final dessa história.
A primeira pessoa que vejo ao entrar na sala de aula, é o moço de tez morena, lábios cheios e de postura selvagem e sedutora sentado atrás da carteira que eu geralmente ocupo. Sem querer, me escapa um sorriso tímido, que é respondido por outro de Valentim.
— Boa noite — engato uma mexa de cabelo atrás da orelha.
— Sim, está uma noite boa — Valentim retruca irônico sem tirar o sorriso dos lábios — Aliás, feliz aniversário.
— Obrigada.
A professora chega em seguida, de modo que não temos tempo para uma conversa rápida. Logo a aula se inicia, fazendo-me prestar atenção.
Ao fim, Valentim me acompanha até a entrada da universidade, onde Serena aparece sorridente.
— Oi — ela cumprimenta confusa ao ver Valentim — Vocês já se conhecem?
— Ele está na minha sala — digo.
— E você nem pra me falar isso, né?
— Ah, Serena, como se isso fosse relevante.
Valentim arqueia as sobrancelhas parecendo meio ofendido e eu respondo com um dar de ombros e um sorriso.
— Feliz aniversário, Serena — ele vira-se em direção a minha irmã.
—Ah, obrigada, fofinho.
Valentim ri do termo usado por ela.
— Vamos, então? — olho para o ponto de ônibus em frente a universidade, onde nosso ônibus nos espera.
Seguimos juntos para o automóvel. No caminho, conversamos um pouco. Pela janela, vejo a lua aparecer grande e redonda, logo ela estará vermelha. A lua de sangue.
Chegamos em casa e ao abrir a porta da frente somos surpreendidas com um bando de gente gritando "surpresa". Ao meu lado, Serena solta uns gritinhos animada e bate palminhas pulando no mesmo lugar. Já eu, permaneço parada observando a quantidade de moços e moças reunidos em nossa casa.
Logo um de cada vez vem nos dar beijinhos e abraços em felicitações. Sei que mesmo que hoje seja meu aniversario também, a festa surpresa é para Serena, pois todos da vila estão aqui, e considerando que não simpatizo com ninguém daqui nem eles comigo, devo estar sobrando nessa festa.
Depois dos cumprimentos, Serena e eu vamos até nossos quartos vestir outras roupas. Do meu guarda-roupa, retiro meu vestido branco o qual combina com minha nova capa, que visto em seguida. Ajeito meus fios avermelhados e saio para a tal festa surpresa. Deve ter no mínimo umas vinte pessoas reunidas na minha sala de estar e cozinha. Avisto Serena já vestida com sua capa azul rodeada de amigos, todos disputando sua atenção. Risos e vozes se misturam naquele ambiente que costuma ser silencioso e, por mais que o gesto daquelas pessoas tenha sido um agrado as aniversariantes, estou meio desconfortável com a situação. Algumas pessoas, quando me veem, sorriem educadamente e admiram minha capa vermelha que cai até os pés, mas nenhuma vem conversar comigo. Todas as pessoas interagem entre si e com Serena, porém, esquecem que eu existo e que sou uma das aniversariantes. Alguém liga um aparelho de som e música reverbera dentro da casa. A coisa mais estranha é que me sinto deslocada em minha própria casa. Conheço a anos aquelas pessoas que são meus vizinhos, mas não me sinto confortável com a presença delas. Olho de um lado para o outro, estática, mas aquela festa parece não fazer sentindo para minha pessoa. Serena está tão distraída dando e recebendo atenção que não nota minha falta de interação.
Já estou prestes a me retirar para meu quarto, quando avisto uma figura de preto no canto extremo da casa. Assim como eu, ele está sozinho apenas observando. Observando-me. Fico constrangida por não ter reparado que Valentim estava naquela festa e que ele estava o tempo todo olhando para mim. Desloco-me até ele. Seu sorriso sedutor de canto aparece e meu rosto fica rubro.
— Não sabia que você vinha — digo tímida.
— A graça é que seja surpresa, não é?
Assinto, sorrindo.
— Você está linda.
— Obrigada.
Olho para as pessoas que conversam e ignoram nossa presença.
De repente, Léo, um dos amigos de Serena, sai da cozinha para a sala com um enorme bolo nas mãos e uma vela de dezoito em cima acesa. Começam a cantar Parabéns Pra Você e Serena parece emocionada. Sorrio por minha irmã ser tão querida pelas pessoas. Léo coloca o bolo em cima da mesa posta no centro da sala e Serena caminha até lá para que todos continuem cantando parabéns e vejam-na. Léo olha em minha direção e me chama com a mão. Meio a contragosto vou até o lado de Serena forçando um sorriso educado. As pessoas batem palmas enquanto cantam.
"Parabéns pra vocês..."
Encaro Valentim que acompanha a canção apenas batendo palmas com seu sorriso malicioso de canto e coro.
" ...nesta data querida..."
De repente, a temperatura começa aumentar consideravelmente. Começo a suar. E estranhamente me sinto desconfortável. Não do mesmo modo que antes, mas fisicamente falando. Uma ardência começa assolar minha pele. Encaro a chama na vela e um desespero me toma. Meu corpo parece pegar fogo.
"...muitas felicidades..."
Olho para Valentim, que parou de bater palmas e está serio, até preocupado, refletindo talvez a expressão em meu rosto. Algumas pessoas me encaram estranhamente, outras nem olham para mim, mas para Serena. Sinto-me tonta e o ambiente parece ficar com uma iluminação avermelhada.
"...muitos anos de vida!"
As pessoas terminam a canção com escândalo e algazarra e batendo as palmas mais violentamente, gritando nosso sobrenome cinco vezes, Wollf. Corro desesperada em direção a porta da frente, deixando os presentes perplexos e perguntando o que houve. Mesmo fora de casa, corro loucamente. O corpo queimando. Não consigo compreender o que está havendo, nem por quê meu instinto me levou a sair correndo da festa. Adentro a floresta assutada. Minha capa se agitando em um movimento esvoaçante. O que mais me amedronta, no entanto, é essa queimação estranha que me atinge. Isso nunca havia acontecido comigo. Contorço-me com a ardência. Chego a beira do rio, grunhindo de dor e noto o reflexo da lua na água. A lua de sangue. Olho pra cima frustrada por não conseguir admirar a lua vermelha da forma como eu desejava, pois a queimação só aumenta e eu não consigo ficar parada. Arranho-me, sentindo como se tivesse sido jogada em uma fogueira ou em cima de uma chapa quente. Começo a chorar e os soluços balançam meu peito. Solto um grito de dor. O ar me falta e eu perco os sentidos. Chego a água e mergulho com roupa e tudo. Mesmo o rio gelado não alivia em nada o fogo que corre em minhas veias e alcança meus órgãos internos. Toda célula que compõe meu organismo deve estar sofrendo uma autólise. Olho para a água vermelha pela luz da lua e me debato chorando, clamando por socorro de qualquer direção. Saio da água aos tropeços e caio de joelhos no chão pedregoso. Arfo. Contorço-me. Choro. Grito. Meu corpo tem espasmos e treme loucamente. Levanto, com aquele instinto desconhecido e incontrolável.
Corro na direção de uma subida que vai me levar a um cume. Lá no alto, a céu aberto, a lua de sangue me observa com o vermelho jorrando e misturando-se ao tom do meu cabelo, capa e sangue que escorre dos meus braços arranhados. Meu corpo treme e sacode e eu grito e me contorço. Olho para a lua de sangue e arregalo os olhos, quase hipnotizada. Sinto como se minha pele estivesse se rompendo aos pouco, e quando olho para meus braços confirmo a sensação. Fissuras são abertas em minha carne e feridas horríveis se formam. Eu não entendo o que está acontecendo. Cada vez mais sou rasgada de dentro para fora por uma força sobrenatural.
— Spencer! — Valentim aparece atrás de mim.
E é a ultima coisa que vejo e ouço antes de explodir e apagar.
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