A Dama da Lua de Sangue
4 Parte IV
Notas iniciais
Os dias seguintes são como delírios. Acordo em minha cama, suando e tremendo,visão turva, só para apagar novamente e viajar por sonhos bizarros e alucinantes. Vez ou outra sinto a presença de alguém próximo a mim e tento saber quem é, mas quando abro os olhos a visão fica embaçada e não consigo focar em ponto algum. Calafrios percorrem meu corpo dia e noite. No entanto, meu ser já não consegue distinguir o que dia e o que é noite. Entre delírios e sonhos, tento me agarrar a algum pedaço de realidade, mas é como tentar guardar vento com as mãos. Até que finalmente, toda essa agonia vai diminuindo gradativamente e acordo num dia de tempestade com trovões e relâmpagos estralando o céu juntamente com um torrencial de chuva.
Ainda deitada consigo visualisar cada canto do meu quarto perfeitamente e nada parece ter mudado, exceto eu. Levanto-me da cama encharcada com meu suor e sinto que a gravidade parecer ter mudado, me sinto muito mais leve. Caminho até o banheiro e percebo que meu corpo ainda não está firme, de modo que quase caio várias vezes. Encaro o rosto muito mais pálido do que de costume no espelho, a cara com aspecto doente e os olhos com veias avermelhadas. Sinto-me péssima fisicamente falando. Lavo meu rosto na torneira enquanto minha mente começa a recordar minhas últimas lembranças. Lembro da pele queimando e se rompendo em cortes horríveis. O sangue que saía de mim. E o instinto de fugir. Também me vem na memória fortemente a imagem da lua de sangue, como uma entidade que me observava naquele ataque sobrenatural de insanidade e dor. E lembro de Valentim chamando por mim antes de eu desmaiar. O restante são só delírios que sofri em meu leito.
Vou até a cozinha, reparando que a casa está vazia, e bebo um pouco de água. Meio zonza ainda, arrasto-me até a janela próxima a porta da frente e olho a vizinhança. A chuva castigando a rua de lajotas e o céu dando um show de raios. A casa está escura e ao tentar acender a luz, vejo que caiu a energia. Desmorono no sofá com o corpo extremamente cansado e exausto, como se eu não tivesse descansando em uma cama nos últimos tempos, mas tivesse corrido uma maratona e levantado pesos absurdos. Meus músculos ainda doem. Quantos dias eu devo ter ficado na cama? Vou até o calendário na parede da sala e fico aturdida quando confiro que hoje é apenas o dia seguinte ao meu aniversário. Tento me localizar temporalmente e não consigo acreditar nisso. Pareceram no mínimo uns três dias naquela cama. Os delírios deviam ser mais forte do que eu senti. Meu estômago ronca, pedindo por comida. Ando até a geladeira e fico feliz que ainda tenha um pedaço do bolo de ontem que eu nem sequer comi. O barulho da porta se abrindo e fechando me assusta e eu olho para sala pra ver quem entrou. Sem avistar ninguém, caminho até a porta e noto que ela não está chaveada. Viro-me ao som de paços as minhas costas.
– Spencer! — Clara, a velha senhora que mora ao lado da nossa casa, quase me mata de susto com sua presença — Você está melhor?
– Estou — tento me recompor com um suspiro.
– Que bom. Serena pediu pra que eu viesse dar uma olhadinha em você de vez em quando pra ver como você estava.
– Ah...hmm...obrigada.
Ela sorri.
– O que aconteceu comigo, afinal?
– Serena disse que você saiu correndo da festa ontem e que ficou preocupada. Mas o vizinho novo da vila foi atras de você. Demorou um bocado, mas o moço a trouxe carregada nos braços desmaiada e as vestes rasgadas, só sua capa vermelha ficou inteira. Sua irmã ainda está tentando entender o que houve com você ontem, mas isso realmente é muito estranho, Spencer. Acho que você devia consultar um médico. A afilhada do meu neto teve um ataque parecido com o seu uma vez e descobriram que ela tinha uma doença rara que atacava o sistema nervoso.
A mulher parece preocupada. Eu assinto e agradeço sua visita e então ela vai embora.
Eu mal chego a cozinha e ouço batidas na porta. Ao abri-la, Valentim entra subitamente e agarrando-me, me beija ferozmente. Retribuo o gesto mesmo que ainda meio zonza. Ele vai nos levando para o interior da sala de estar, fechando a porta da frente. Ele me beija apertando minha cintura. Até que ele para e apenas me abraça inspirando contra meus cabelos.
– O que foi, Valentim? — pergunto mais zonza do que antes.
Ele olha em meus olhos firmemente sem desviar um centímetro sequer.
– Eu estou bem. Ou pelo menos melhor — digo concluindo que esse é o motivo de seus beijos desesperados.
Valentim continua calado. Ele beija delicadamente meu maxilar e minha bochecha e eu gosto da sensação.
– Você é boa — ele sussurra — Você não é má, você é boa. Você não merecia isso — sua voz é de dor.
Assusto-me sem saber do que ele está falando.
– Spencer, você é uma pessoa boa. Nada do que aconteceu com você parece certo.
Franzo o cenho, totalmente amedrontada.
– O que aconteceu comigo, Valentim?
Ele fica calado como se pesasse o mundo inteiro para dizer o que ele precisava dizer.
– O que aconteceu comigo, Valentim?! — aumento a voz, fastando-o de mim.
– Spencer, a lenda...você se lembra da lenda? — sua cabeça está baixa, os olhos meio assombrados.
– A lenda dos lobos? Sim, claro que eu me lembro — digo tentando raciocinar da mesma forma que Valentim — O que é que tem essa lenda?
– Você é uma filha da lua de sangue — finalmente seus olhos levantam até os meus e vejo dor nos seus.
Lembro da história que Valentim me contou sobre a maioridade sob a lua de sangue e a maldade que acompanha a transformação em lobo de tal pessoa. Fico um tanto embasbacada, pois Valentim parece um louco falando que eu sou um lobo mau.
– Que piada besta, Valentim — reviro os olhos rindo um pouco.
– Não, não é piada, Spencer. Você precisa acreditar em mim.
Afasto-me um pouco mais dele e começo a temê-lo.
– Sua mente não está saudável. Acho que você deveria procurar ajuda.
Ele bufa e ergue as mãos perplexo.
– Eu sei que é difícil acreditar no que digo. Mas eu fui o único que viu. Só eu poderia dizer isso. Ontem você sentiu seu corpo arder, não foi? Por isso você saiu correndo.
Pisco diversas vezes chocada com como ele poderia saber disso.
– Você achou que estava pegando fogo. Você viu a lua de sangue ontem. Quando ela apareceu você começou apresentar os sintomas. Você sentiu seu corpo se rasgar, não foi?
Não consigo responder, apenas encarar estupefata.
– Spencer...eu vi você...eu a vi no momento em que a metamorfose se deu por completo. Você de repente, virou um enorme lobo preto. Seus olhos eram vermelhos como a lua de sangue.
Solto uma risada nervosa e começo a andar em sua direção, expulsando de minha casa.
– Já chega! Quero você longe de mim e longe dessa casa! — altero-me.
– Espere! Eu posso provar! — ele tenta dizer desesperado por uma chance de ser compreendido.
– Aconteceu o mesmo comigo, Spencer. Acredite, eu sei como é não querer acreditar em algo fora do real.
– Isso não é fora do real, Valentim. Isso é loucura total, insanidade pura — quase cuspo em seu rosto irritada.
– Eu sei que parece. Mas é verdade. Ontem eu tive que me metamorfisar pra me defender de você...de sua forma animalesca. A única diferença entre nós dois é que eu sou um filho da lua cheia normal. Eu tinha consciência de tudo depois de transformado, mas você não era mais você, a maldade da lua de sangue havia tomado seu ser. O lobo mau tomou seu lugar e avançou pra cima de mim — com isso, Valentim levanta sua camisa e me mostra os enormes arranhões feitos por garras grandes. Aquelas feridas eram recentes e vinham da lateral do seu corpo até seu plexo solar. Ao redor, a vermilhidão era evidente, assim como o inchaço. Um trovão cortou o céu ao passo que a casa era tomada por meu assombro.
– Meu Deus, Valentim. Você precisa de um médico agora — coloco uma mão em frente a boca em espanto.
– Não — ele abaixa a blusa — metamorfos se regeneram rápido.
Fecho a cara.
– Você está alucinado. Não existe essa besteira. Agora saia da minha casa.
Vejo a decepção no rosto de Valentim.
– Mesmo depois de ter visto...mesmo assim você não acredita.
Encaro-o irritada.
Ele suspira derrotado e sai pela porta.
O silêncio da casa me invade e eu fico parada no mesmo lugar com o rosto contorcido numa expressão confusa e amedrontada. Tento convencer a mim mesma de que Valentim está louco, de que ele é um louco. Eu havia adorado aquela lenda, mas agora a acho repulsiva. Sou tomada por enjoos. Sento no sofá e penso se não estou delirando ainda. Realmente tudo o que aconteceu comigo ontem foi estranho, mas nada de tão estranho quanto eu ser uma metamorfa. A imagem de minha pele sendo fissurada me invade e eu começo a arfar. À distância, relâmpagos e trovões cortam o céu, a chuva chocando-se contra as janelas. Olho minhas mãos trêmulas. Corro até o banheiro a tempo de vomitar no lugar certo sem fazer sujeira. Pelo resto do dia, me balanço no canto do meu quarto perturbada com algo que vi um momento antes de sentir as náuseas que me fizeram vomitar. Encaro minhas mãos novamente e o sangue seco embaixo das unhas permanece lá. Eu choro inconsolável com o mundo desabando em cima de mim.
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A chuva havia trazido o frio e as temperaturas despencaram, assim como o humor de Spencer. Aquela história de ser uma loba já saíra de sua cabeça, mas ela não voltaria a ver Valentim, mesmo que desejasse isso. Tudo o que acontecera com ela nos últimos dois dias, deixou seus nervos em frangalhos, de modo que Spencer perdeu a vontade de estudar e já não ía mais às aulas. A semana não havia terminado ainda e Serena a enchia de perguntas sobre seu comportamento na festa e até depois disso.
– Acho que abduziram minha irmã e trocaram por uma alienígena- dizia Serena.
Spencer respondia com um dar de ombros. Até ela se sentia meio confusa sobre seu estado sombrio. A garota Wollf passava o dia escutando um estilo musical dark pesado e assistia suas séries de terror favoritas, até seus livros ela havia bandonado mofando num canto junto com seu material da faculdade. Andava de moletom pela casa com o cabelo bagunçado, na maioria das vezes deitada no sofá enrolada em sua manta. A luz do sol era um tormento e quando a escuridão da noite aparecia, ela não sentia ânimo algum. Não saía mais de casa, nem colocava a cabeça pra fora da janela.
– Spencer, desse jeito você vai ficar doente com falta de vitamina D. Por favor, mana, saia dessa casa um pouco, tô muito preocupada cm você.
Spencer fingia não ouvir.
Ultimamente vinha se irritando com Serena, seu jeito todo meigo e preocupado a tirava do sério. Bastava sua irmã deixá-la em paz no mundinho dela? E Serena fazia questão de perturbar o silêncio que Spencer projetava. Enquanto isso, vovó não questionava em nada, na verdade, parecia indiferente como sempre, preocupada somente com seu nariz e seu namorado. Na sexta feira de manhã, quando as mulheres da casa que trabalhavam já haviam saído, alguém bateu na porta. Spencer soltou um grunhido irritado por mais uma perturbação, quem quer que fosse ela não queria atender. No entanto, as batidas se tornaram mais insistentes e ela achou melhor ver quem era. Levantou do sofá a contragosto e sem ao menos ajeitar seu cabelo bagunçado, abriu a porta, dando de cara com Valentim. Spencer ficou surpresa e tentou alisar um pouco seus fios vermelhos, com os olhos arregalados. Não abriu nenhum sorriso. Nem ele, nem ela.
– O que faz aqui? Achei que tinha dito pra ficar longe — Spencer atacou sem piedade.
– Eu só...eu só queria te ver, você não vai mais às aulas e eu fiquei preocupado com seu estado emocional depois do que eu te contei.
Ela fez uma cara de desdém e trincou a mandíbula.
– Meu estado emocional? — ela bufou — Cara, se toca, você acha que aquela história é verdadeira? Se acha, recomendo um psiquiátra. E não quero mais ouvi-la. Não quero mais te ver, Valentim.
Estava estampado no rosto do rapaz a mágoa que sentiu com aquelas palavras. Abaixando a cabeça para o chão, coçou a nuca com uma mão um tanto magoado.
– Olha, me desculpa, tá legal? Eu prometo não te perturbar mais com essa história, mas, por favor, Spencer, eu não posso desistir de você, pelo menos me deixa ficar perto de você — seu olhar esperançoso e doloroso quase deu pena em Spencer- Eu me apaixonei por você.
Ela sentiu um choque. Valentim estava apaixonado, isso seria maravilhoso em outros tempos. Na natureza bondosa de Spencer ela perdoaria Valentim e até admitiria sua aproximação dela, pois era o que ela mais queria. Mas agora, tudo parecia diferente, sua natureza havia mudado e por mais que ainda sentisse desejo de estar com ele, de poder abraça-lo, beija-lo e entre outras coisas, seu espírito estava cheio de ira e ela não compreedia o motivo pra tanto, mas não lutava contra esse sentimento.
Spencer também estava apaixonada por Valentim e queria sentir a mão dele em sua cintura e o frescor do hálito dele em seu pescoço novamente. Contudo, ela juntou toda sua energia negativa que a havia assolado durante a semana e levantando um sombrancelha, disse:
– Não — ele paralisou, seu peito subiu e uma expressão de dor tomou conta dele — Minha resposta é não, Valentim. Eu não quero você perto de mim.
Até ela havia sentido uma dor ao falar isso, mas seu orgulho, maior do que qualquer coisa naquele momento, a fez se manter firme.
Valentim ficou com o olhar perdido e magoado. E sem falar nada, apenas assentir, virou as costas e foi embora. Spencer ainda ficou na porta olhando-o partir e sentindo a metade de seu coração se estilhaçar por dentro. Por que não havia dito sim? Queria dizer sim, por que disse não? Porque ele é bondoso demais pra você, uma voz soou dentro de sua mente e Spencer já a reconhecia fazia quase uma semana, era o timbre da voz malígna que a tomou.
Ela se recolheu para dentro de casa e pelo resto do dia ficou no sofá, sem escutar música, sem ligar a TV, sem fazer absolutamente nada. Spencer ficou pensando o dia todo, uma guerra estava travada dentro de si. Uma lado se perguntava onde estava a velha Spencer, a garota loba e, que mesmo antissocial, mantinha uma humanidade. O outro lado respondia que ela havia morrido, que era pra esquecer quem ela fora, as coisas haviam mudado, Spencer ia ter que se adaptar a sua nova personalidade. No fim da tarde, depois de cochilar por meia hora, Spencer se levantou do sofá e sentiu uma leveza familiar, sentiu que todo aquele peso sombrio havia sumido e começou a sentir remorso por todos os momentos em que se comportou mau. Lembrou-se de Valentim e o quanto fora má com ele. O quanto o desejava e o havia maltratado. Um soluço escapou e lágrimas desciam incessantemente. Como aquela energia negativa havia sumido do nada? Como de uma hora pra outra ela havia se tornado a velha Spencer novamente? Algo dizia que sua nova personalidade, a má, estava apenas dormindo, pemanecendo no cochilo de antes. Spencer não se livrara dela. Até parecia que uma outra presença ocupava seu corpo. Uma outra pessoa. Outra alma.
Ao cair da noite, Spencer permanecia ela mesma, sua outra personalidade ainda dormia. Vovó chegara no horário de sempre e passou direto para seu quarto sem notar Spencer andando pra lá e pra cá na casa. Depois de umas horas, Spencer olhou pela janela e viu Serena chegando. Ela estava acompanhada de Valentim. O coração de Spencer acelerou, ela devia ir se desculpar com ele, voltar atrás em sua palavra. Ela esperou que eles chegassem até quase em frente a sua casa. Entretanto, eles pararam e continuaram a conversar. Não estavam rindo, apenas sorrindo e falavam calmamente sem gesticular ou me mover muito. Valentim olhava para Serena enquanto ela falava. De repente, ela terminou sua fala e eles apenas ficaram se encarando. Spencer já conhecia aquele jeito de Serena. Ela estava flertando. Subitamente, Serena se atirou para frente e beijou Valentim. Este, por sua vez, retribuiu segurando sua sintura, assim como ele fazia com Spencer. Isso afetou-a como uma cacetada. Sua respiração ficou alterada e os batimentos cardíacos também. Ela trincou os dentes e começou a tremer. Spencer podia sentir sua negatividade despertando e mexendo com seus nervos novamente. Uma ira se apossou dela e explodiu em seu peito. Seu corpo começou a pinicar. A pele estava ardendo. Já conhecia essa sensação, a mesma da do dia da festa surpresa. Spencer correu para o banheiro e em frente a pia, olhou para o espelho. Quase caiu para trás ao ver sua pupila contraída ao extremo e sua íris com cor de sangue. Piscou diversas vezes, mas o vermelho escuro continuava em seus olhos. Ela piscou mais algumas vezes e sua íris alternava entre o vermelho e o azul, até finalmente ficar só vermelho. A pele não parava de arder e o tremor aumentara. Ela correu novamente pra fora de casa, esbarrando em Valentim e Serena no caminho. Não queria mais saber dos dois. Precisava correr, fugir. A queimação estava demais e ela quase não aguentou chegar até o rio. Ouviu alguns passos atras de si e sabia que eram Valentim e Serena. Spencer caiu de joelhos arfando e se contorcendo.
– Spencer! — ela ouviu sua irmã chama-la antes de apagar como da ultima vez.
Mas o que Valentim e Serena viram não foi Spencer desmaiar. Eles a viram crescer e se deformar e criar uma pelagem negra. Num instante era Spencer, no outro, um lobo preto enorme. O lobo estava de costas para o casal perturbado e paralisado, mas aos poucos foi virando até ficar de frente para eles. O lobo tinha toda a parte do olho vermelho, sem divisão de íris e pupila, só vermelho escuro. O lobo levantou a cabeça uivando alto. Serena não conseguia dizer nada, nem ao menos se mover, porém Valentim estendeu uma mão na frente dela como se isso a fosse proteger.
O lobo negro rosnou e mostrou os dentes afiados e avançou para frente. Ao mesmo tempo, Valentim se metamorfisava em um enorme lobo branco. Serena caiu pra trás sentada em choque. O lobo branco tinha olhos azuis, todo azul, assim como o do lobo negro. Os dois lobos se chocaram numa briga violenta, grunhindo e se atacando. O lobo negro ficou de pé e avançou com toda a fúria para seu adversário. Mordeu o dorso branco e banhou a pelagem alva com o vermelho do sangue. O lobo branco, mesmo ferido, contra-atacou. E os dois se embolaram em uma luta acirrada.
Serena observava tudo sem conseguir se mexer, tremendo incontrolavelmente.
O lobo negro novamente mordeu o branco e dessa vez o arremessou contra uma árvore, deixando-o sem forças.
O lobo negro voltou seus olhos vermelhos para uma Serena amedrontada e indefesa, caminhando lentamente em sua direção. O lobo franziu o focinho mostrando os dentes e prestes a se lançar sobre a garota, foi atingido na lateral e arremessado para o outro lado. O lobo branco havia se jogado em cima do outro lobo e mordia o pescoço dele. A briga era uma bola mesclada de preto e branco, dente e sangue. O lobo negro mordeu o crânio do branco deixando-o atordoado. Essa foi uma brecha para que o lobo negro pulasse pra cima de Serena. Ela gritou um segundo antes que sua jugular fosse perfurada pelos dentes do lobo mau, depois disso, só silêncio. No momento seguinte, o lobo preto foi atingido por algo em suas costelas e caiu no chão choramingando. O lobo branco não o atacou, ficou observando-o sofrer. O lobo preto havia sido baleado sem nem ver de onde o tiro surgira. O lobo branco vasculhou a floresta com seus olhos azuis e avistou um vulto escondido. O vulto se aproximou da cena e a fraca luz do ambiente distinguiu a figura de Scarlet segurando uma espingarda de caça. Ela era uma caçadora. Scarlet correu até Serena sem se dar conta da presença do lobo branco, que correu para o interior da floresta fugindo e nunca mais aparecendo na vila, nem como lobo, nem como humano. Scarlet se debruçou sobre sua neta Serena e chorou amargamente. Ela estava morta. Sua doce neta estava morta. Com os olhos enfurecidos, foi até o lobo negro que arfava e chorava baixinho, vez ou outra tinha uns espasmos. Scarlet mirou na cabeça do lobo e atirou mais uma vez sem piedade. O lobo morreu na hora. Aos poucos a pelagem densa e escura foi diminuindo e o corpo do lobo se deformou. No instante seguinte, Spencer estava de volta a sua forma humana, mais irreconhecível do que nunca, com a cabeça estourada e a costela perfurada coberta por seu próprio sangue.
Scarlet soltou a arma repentinamente, o rosto contorcido numa máscara de horror, desespero, choque. Ela se ajoelhou perante sua neta chorando melancolicamente. Ela estava morta. Sua neta preferida estava morta. E ela mesma a havia matado.
Os dias na vila nunca foram mais os mesmos, acima de tudo para Scarlet, que se perturbou pelo restante de sua vida e caiu em uma depressão crônica e profunda.
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