A Dama da Lua de Sangue
2 Parte II
Notas iniciais
O dia seguinte é como o anterior, estupidamente ensolarado. Passo meu dia trancada em meu meu quarto fazendo algumas coisas da faculdade e planejando a minha semana acadêmica. Ainda que esteja um calor infernal, sinto-me melhor do que ontem, ou não, já que não consigo me concentrar nos estudos com o pensamento voando para outro momento, como ontem a noite.
Francamente, eu não quero admitir, mas sei que Valentim causou certo efeito em mim. Eu não sei, no começo ele pareceu o tipo de cara que dá em cima de qualquer uma, no entanto, no decorrer de nossa conversa, percebi que não houve qualquer tipo de cantada ou flertada, ele estava parecendo mesmo que só queria conversar com alguém. Eu gostei disso. Gostei de ele não ser atirado como a maioria dos rapazes que eu conheço.
Além desse jeito dele, também notei quão misterioso ele é. Não tinha como não reparar que em quase todas as suas falas ele escondia algo, como se ele pensasse no que dizer, mas somente falasse uma parcela do que pensou, deixando o restante oculto em sua mente. Claro, isso é totalmente normal, visto que ele não me conhecia. Já eu agi como uma retardada ao falar demais sobre mim. Realmente não sei o que deu em mim pra desabafar daquele jeito. Eu nunca fiz aquilo. Sempre guardei as coisas pra mim mesma, ou só contava para Serena. Por isso, novamente penso que Valentim causou um efeito desconhecido em mim. Bom, foi por tudo isso e também, como qualquer outra garota repararia, ele é muito bonito. Ele é bonito ao ponto de tirar o fôlego da garota que estiver sendo alvo de seus flertes.
Fico relembrando nossa conversa e a parte da lenda dos lobos. Achei aquela história muito maneira e, com certeza, vou guardar para sempre me lembrar. O que mais gostei, no entanto, foi como coincidentemente meu aniversário cai num dia em que terá lua de sangue. Se eu virasse uma loba, o que vai contra as leis e regras biológicas que conheço, eu não duvidaria de mais nada desse mundo. Bom, se eu virasse lobo, isso explicaria meu amor por eles.
Canso de estudar, ou ao menos tentar estudar, e caio de cara no livro que eu ainda estou tentando terminar. Entretanto, é impossível focar no que leio, de modo que preciso retornar a leitura repetidas vezes. Desisto, enfim, de ler e decido que a melhor forma de aproveitar meu dia é assistindo a alguns episódios das minhas séries favoritas. O calor ainda me atingindo terrivelmente.
Serena, assim como ontem, está no rio o com seus amigos. Vovó deve estar lá também com seu namorado. E eu tenho a casa só pra mim e o silêncio que a vila se encontra já é um ótimo descanso. Com toda essa paz, acabo pegando no sono no sofá da sala com a TV ligada.
Sou acordada por minha irmã entrando pela porta da frente escandalosamente como de costume.
—Spencer, você não vai acreditar! -a voz alta dela me deixa meio abobalhada enquanto tento, entre o sono e o despertar, entender o que está acontecendo.
Resmungo quando percebo que Serena está prestes a narrar mais um de seus romances.
— Spencer! Acorda, garota loba! — ela mexe meus moles braços pra cima e para os lados como se eu fosse uma boneca.
— Que é, pirralha? — solto quase um grunhido.
— Só porque você nasceu primeiro, com meia hora de diferença, não significa que eu sou pirralha. E, pelo Criador, nunca me chame assim na frente dos garotos, tá? — Serena tem a voz toda fina e delicada.
— Vai falar ou não?
— Tá, se você calar a boca, eu posso falar, né?! — quase falo que é ela quem não cala boca, mas isso iria apenas atrasar a tal fofoca que está prestes a dizer — Conheci aquele tal vizinho novo.
Meu coração dá um solavanco fora do comum, e levanto as sobrancelhas, sem querer denunciar que eu também já o conheci.
—Ele é mesmo muito gatooo! — sua voz afinou mais que o normal — Sabe aquele gato sensual? É ele. Aquele gato que só de você olhar já fica excitada.
Faço uma careta e em seguida, rio.
— Ele estava no rio?
— Não. Eu encontrei ele na floresta mesmo. Mas não era na parte que vai para o rio, era além do rio, um pouco mais afastado.
— E porque você estava lá?
— Ai, então, essa é outra parte, mas é uma parte chata. O Daniel marcou comigo de nos encontrarmos lá, ia rolar uns beijinhos — ela faz uma cara maliciosa — Só que ele me deu um bolo e furou comigo. Fiquei esperando lá um tempão, os mosquitos estavam me comendo viva, dai antes de eu ir embora, o cara novo apareceu. Ele ficou assustado quando me viu, ficou me olhando estranho e dai do nada deu um sorriso e disse oi. Eu disse oi e ele perguntou meu nome. Depois eu perguntei seu nome, que é Valentim. E começamos a conversar, falei sobre a vila pra ele e ele falou algumas impressões que teve da vila.
Engoli em seco, sem graça. Não sei porque, mas senti receio de contar pra Serena que eu já tinha conhecido Valentim. E também algo fazia eu manter isso em segredo, por medo do que as pessoas iriam pensar, tipo, uma garota e um garoto sozinhos no mato a noite. Realmente não dava pra contar.
— Ele tava todo suado, sabe? E adivinha o que ele estava fazendo na floresta?
— Trilha — falo, automaticamente lembrando do que ele havia dito ontem.
— Como você sabe? — ela faz careta.
— Hmm... palpite — digo dando se ombros.
— Ah, tá. Mas enfim, ele foi tão simpático comigo, gostei muito dele. E agora que Daniel me deu gelo, eu vou investir no Valentim — Serena bate palminhas empolgada.
Trinco a mandíbula sem que ela note. Está bem, admito que isso não me agradou muito, senti uma pontadinha no peito. Mas fazer o quê? Eu tive a chance de contar pra ela sobre ontem a noite, na verdade, ainda daria tempo de contar e fazer ela desistir dele. Contudo, eu não faço isso porque ela é minha irmã, se ela gostou dele, deixe que fique com ele, afinal eu não o quero e nem estou disputando. Só porque ele ficou rodando meus pensamentos desde ontem, não significa que eu estou afim dele.
Olho pra janela e vejo que já escureceu.
— A vovó foi namorar de novo?
— O que você acha? — Serena dá um sorriso maroto.
— Vou dar uma volta — digo me levantando do sofá.
Sigo indo para meu quarto apenas para checar minha aparência. Tento me convencer de que isso não tem nada a ver com Valentim, mas até pra mim isso soa ridículo, afinal é a primeira vez que eu me olho no espelho antes de fazer minhas saídas noturnas. De qualquer modo, encaro meu reflexo com um quê de reprovação.
Ajeito meus cachos vermelhos escuros, dou uma afofadinha nos fios de cima. Observo minha cara de sono e decido ir ao banheiro lava-la. Ao voltar, troco minha blusa velha por uma mais nova branca com um apanhador de sonhos grande desenhado. Visto um short preto desfiado e calço sandálias confortáveis. Ainda sinto que falta algo e então pego emprestado o rímel a prova de água de Serena e passo em meus cílios. Troco meu piercing de bolinha pelo de argolinha no nariz. Contemplo por mais algum tempo minha face branca, os lábios pálidos, o nariz fino, o rosto alongado, os olhos violeta e o cabelo vermelho vivo pelo ombro. E de repente, acho-me ridícula por estar me arrumando assim, inconscientemente achando que vou encontrar Valentim novamente. Saio da frente do espelho e atravesso a porta da frente chocando-me com a noite. Hoje faz mais calor do que na noite passada e já estou com a nuca suando.
Quando chego ao rio, encontro-o sem ninguém, o que pela primeira vez me faz ficar decepcionada. Sem hesitar, dispo-me, ficando com minhas roupas de baixo. Já que ele não vem, vou aproveitar pra me refrescar no rio, pois minha pele começa a grudar de suor. Entro na água fria e de imediato sinto-me melhor. Mergulho rapidamente e quando volto para a superfície, a primeira coisa que vejo é a lua cortada pela metade, lembrando-me que em breve ela estará vermelha, evento que eu não posso perder de jeito nenhum.
— Boa noite — uma voz profunda soa na noite.
Olho na direção da voz, já sabendo que se trata de Valentim.
Sorrio sem mostrar os dentes.
— Sim, está uma noite boa — respondo.
Dessa vez, não fico envergonhada pelas minhas vestimentas. E também não desejo sair da água tão cedo hoje só porque tenho companhia.
— Posso entrar? — ele pergunta.
— Tenho opção? — tento manter um resquício de meu orgulho.
Ele ri
— Não, não tem.
Valentim tira sua regata cinza, deixando-me quase zonza ao mostrar seu tórax bem malhado, e sua calça de moletom escura com cordinhas na cintura. Sua cueca hoje é azul e tento não olhar muito pra essa região. Valentim vai entrando na água devagar, até alcançar uma profundidade boa pra mergulhar. Meio minuto depois, ele emerge a minha frente, muito mais próximo do que ontem. Nos encaramos calados, até que ele interrompe o silêncio:
— Conheci Serena hoje.
— Eu sei. Ela chegou em casa toda esbaforida por ter te conhecido.
Valentim solta uma risada abafada.
— Quando eu a vi, achei que fosse você, mas daí eu reparei no cabelo dela, que é preto e também lembrei que você não costuma sair de dia.
— Pois é — é só o que eu consigo dizer.
Valentim sorri educadamente e mergulha para o lado mais fundo do rio. Parada sem saber o que fazer, decido mergulhar também, entretanto, numa outra direção. Volto à superfície e não encontro Valentim. Fico estática esperando que ele decida tomar fôlego. Depois de muitos segundos, começo a ficar preocupada por ele ainda não voltar, sem ao menos saber em que parte do rio ele está.
Olho de um lado para o outro e quando sinto algo se enroscar em meu pé, quase solto um gritinho de susto. Coloco uma mão no peito, tentando recuperar meus batimentos cardíacos normais, ao perceber que é apenas Valentim agarrando meu pé para me assustar.
Ele logo emerge com uma gargalhada zombeteira, balançando a cabeça para tirar a água dos cabelos como se fosse um cão.
— Te assustei? — ele pergunta ainda rindo.
— Já te respondo- eu ergo um dedo pedindo um minuto enquanto continuo com a mão no peito e fecho os olhos.
Respiro fundo e logos depois, abrindo os olhos, sorrio.
— Caramba, você quase conseguiu me fazer ter uma parada cardíaca.
Ele ri mais um pouco.
— Você acha engraçado, né? — lanço-lhe um olhar venenoso e um sorriso maléfico.
Jogo meu corpo em sua direção, pulando até alcançar o topo de sua cabeça e empurrá-la fortemente para baixo da água. Tenho a impressão de que Valentim facilitou minha tentativa de afogá-lo. Enquanto ele ainda está submerso, sinto seus lábios beijarem a lateral de minha coxa. Repentinamente, o solto, desconcertada e constrangida. Ele sobe no mesmo momento e se depara com meu rosto envergonhado, talvez da mesma cor que meus cabelos.
Desvio meu olhar, sentindo-me totalmente sem reação. Volto a olhar pra ele e encontro um sorriso sereno e atraente. Valentim anda dois passos em minha direção lentamente. Olho em seus olhos castanhos escuros, quase sem conseguir sustentar seu olhar arrebatador. Sinto sua mão embaixo da água tocar minha cintura, meu corpo arrepia inteiramente e minhas pernas vacilam um pouquinho. Ele para de sorrir, trocando por uma expressão séria, olhando para minha boca. Sinto meu coração palpitar, minha pressão ficar alterada. Valentim está se aproximando. Ele puxa minha cintura, colando nossos corpos ao mesmo tempo que inclina sua cabeça e me beija. Retribuo o beijo, sem consciência alguma, colocando uma mão em seu pescoço e a outra em seu ombro forte.
Deslisamos nossos lábios em sincronia e os de Valentim são tão macios que eu não sinto vontade de parar. Sua língua penetra minha boca e eu respondo com a minha. Valentim me aperta mais firme contra si. Eu agarro seu cabelo crespo. Sua força sobre mim me deixa mais agitada e nos beijamos com mais intensidade. A mão dele desce até minha coxa embaixo da água gelada, puxando-a pra cima, de modo que eu enrosque em seu quadril. Penduro-me em seu ombro e enrosco as duas pernas ao seu redor. Valentim pressiona minhas coxas e puxa-as mais. Ainda aos beijos, sinto sua ereção entre minhas coxas e fico um pouco apavorada, pois isso foge totalmente da minha linha de pensamento. Nunca que eu estaria nessa situação se não fosse o desejo incontrolável que sinto.
Sinto Valentim andar comigo agarrada nele. Sem ter noção aonde ele quer chegar, continuo no ritmo dos beijos, até que sinto um sólido congelante em minhas costas e entendo que é apenas uma rocha. Ali, Valentim me apoia e com nossos quadris submersos, sinto-o movimentar-se devagar pra cima e pra baixo. Aquilo é um estímulo e eu o imito. Na água, começamos a nos esfregar sedentos de desejo. A temperatura começa a elevar e quase sinto a água evaporando. Minha mão desce até o elástico da sua roupa de baixo e puxo-a pra baixo. Roço minha mão em seu membro, antes de puxar minha roupa íntima para o lado. Quando sinto o contato de seu membro na minha parte recém descoberta, gemo baixinho.
Então, Valentim me penetra devagar e mexe-se sobre mim com uma velocidade crescente. Ele beija meu pescoço e lambe meus seios, mas o que me deixa excitada é seu corpo em cima de mim e seu membro em meu interior. Sua mão invade minha intimidade e seus dedos desenham círculos em meu clítoris. Prensada entre a rocha e Valentim, contorço-me de prazer. Ele mordisca meu lábio inferior e o lóbulo de minha orelha, sem parar seus movimentos. Entre gemidos baixos, alcanço o orgasmo e Valentim coloca mais força antes de parar gradativamente. Quando ele para de se mover e apenas continua dentro de mim, respiramos no mesmo ritmo acelerado. Desfaleço sob Valentim, com satisfação. Ele beija delicada e suavemente minha mandíbula, meu queixo, até chegar em meus lábios. Gentilmente ele sai de cima de mim e me põe no chão, ajeitando sua roupa intima.
Encaro-o e, instintivamente, sorrio tímida, meio rindo. Ele devolve um sorriso muito mais atraente e sensual, expressando um resquício do que acabamos de compartilhar.
Valentim se afasta um pouquinho e mergulha.
Passado a euforia do momento anterior, o silêncio da noite me toma e começo a cair em mim e do que eu fiz. O sorriso sendo substituído por uma expressão perturbada. Nem acredito que me deixei levar daquele jeito, fala sério, eu mal conheço o rapaz. E, caramba, eu nem usei proteção!
Valentim continua submerso e eu corro até a beirada do rio, chegando até minhas roupas e vestindo-as. A essa altura, Valentim já está de volta a superfície e olha em minha direção. Não preciso de iluminação pra perceber seu semblante de confusão.
— Já está indo embora? — ele pergunta com a voz alta para que eu possa ouvir de onde estou.
Calço minhas sandálias e vou em direção a floresta no objetivo de retornar pra casa.
— Spencer! — ouço-o me chamar, mas eu não paro de andar.
Começo a correr pra que não dê tempo de ele me seguir. Enquanto isso, minha mente fica voltando a fita e repassando o filme, lembrando-me do quanto fui insensata e procurando dentro de mim a Spencer prudente, a Spencer responsável.
Chegando em casa, abro a porta da frente e sinto os olhares de Serena e vovó em cima de mim. As duas estão sentadas no sofá.
— O que foi, garota loba? — Serena pergunta franzindo o cenho.
Percebo então que estou demonstrando uma euforia diferente e um rosto meio assustado.
— Nada — apresso-me em responder, percebendo que ainda meu corpo não está seco — Vou tomar um banho.
Sigo andando em direção ao banheiro.
Enquanto a água escorre pelo meus cabelos, descendo pelo meu corpo, volto minhas lembranças ao rio e a Valentim. E ainda que eu não queira pensar nisso, começo a sentir calor e a ficar excitada. Imagino a mão de Valentim em meu clítoris, massageando-o e mordo os lábios de prazer. Escorrego minha mão até tocar o local entre minhas pernas que não para de pulsar. Desenho círculos, assim como Valentim o fez e preciso reter um gemido. Continuo com o movimento até me sentir satisfeita.
Termino meu banho normalmente e saio do chuveiro. Concluo que foi demais por um dia, de modo que preciso ir dormir. Mas mesmo depois, quando encosto minha cabeça no travesseiro, demoro a adormecer, pois meus pensamentos insistem em viajar para Valentim.
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