Notas iniciais
Era pra ser um conto e acabou ficando um pouco grande, então eu dividi em partes. Boa leitura!

Meu nome é Spencer Wollf. Wollf, é um nome bem peculiar e que eu amo, pois me faz lembrar de Wolf, que é lobo em inglês. E eu não sei explicar, mas tenho uma fascinação por lobos desde...bem, desde que me conheço por gente. Se bem que não faz tanto tempo assim, visto que sou jovem demais ainda, dezessete anos. Na real, tenho dezessete anos e quase doze meses, se contar que meu aniversário será na próxima semana, exatamente daqui a três dias. E pra ser sincera, não estou tão empolgada quanto minha irmã gêmea, Serena. Ela é bem diferente de mim, ou eu sou bem diferente dela, sei lá, não importa, acontece que somos o oposto uma da outra. Serena é doce, meiga, totalmente sociável, ama a natureza, ri quase o tempo todo um riso que contagia o mundo ao seu redor. Pra resumir, ela é o sinônimo de pureza. Já eu...bem, eu sou um caso complicado. Complicado, na verdade, seria o sinônimo que me resumiria. Quer dizer, não sou complicada se houver alguém igual a mim que me entenda. E considerando que eu nunca cheguei a conhecer alguém que seja tão antissocial, calada e que ama lobos e animais selvagens quanto eu, realmente ninguém é capaz de me entender. Até eu não me entendo às vezes, confesso. O caso é que mesmo minha irmã gêmea não acompanha meus raciocínios e meus gostos. Na minha opinião, não acredito nessa coisa de irmãos gêmeos serem praticamente a mesma pessoa. Não importa se compartilhamos o mesmo DNA, nossas mentes funcionam distintamente.

Hoje é um sábado bastante ensolarado, algo que pra mim é detestante, já para Serena é perfeito. Eu, com certeza, preferiria uma tempestade com bastante relâmpagos, não só pra contemplar a beleza extraordinária dos raios, mas também porque isso significa que os pássaros se calam e o clima fica mais ameno. Assim, o dia não só está ensolarado, como também está quente e abafado e suor escorre pela minha nuca, mesmo que eu tenha prendido meu cabelo vermelho tingido num coque mal feito.

Em toda a vila, as pessoas saem de casa em dias como esse pra tomarem sol enquanto nadam no rio que corta a floresta mais próxima, ou aproveitam pra fazer piqueniques com a família embaixo de árvores a beira do mesmo rio. De qualquer jeito, a vila se concentrará no rio hoje como de costume em finais de semanas ensolarados. Mas não eu. Já disse que eu não sou sociável? Acho que já e é um dos motivos pelo qual não sinto vontade de participar desses ajuntamentos. Detesto sol, pessoas tagarelando, pessoas seminuas tomando banho no mesmo local, pessoas tentando socializar com a garota que ninguém gosta, no caso, eu. Enfim, eu basicamente não gosto de pessoas. Até que isso faz sentido, as pessoas não gostam de mim e eu muito menos delas, então, pra quê nos esforçarmos numa tentativa de convivência falsa?

Desse modo, estou trancada em meu quarto com fones de ouvido escutando meus estilos musicais preferidos como indi, rock, metal sinfônico e por aí vai, e com um livro nas mãos que estou tentando terminar de ler faz três dias desde que emprestei da biblioteca da universidade onde estudo. Esse ano sou caloura de ciências biológicas, assim como minha irmã o é em design de animação digital. Todos conhecem Serena, ela é muito popular na faculdade, os garotos a cobiçam e as garotas a invejam, querendo ser ela. E claro, existe eu, a garota que ninguém nota, a excluída, mas totalmente em paz com isso. É serio, não me importo nem um pouco, na verdade, até gosto.

O ventilador que está jogando vento em minha direção, de repente, para. Fico olhando e esperando que seja momentâneo, mas ele não volta a ventilar. Bem provável a energia tenha caído na vila, como geralmente acontece em dias muito quentes como hoje.

Ouço três batidas na porta.
— Spencer — Serena me chama do outro lado da porta — Acabou a energia. Tem certeza que não quer ir hoje? — ela está se referindo ao maldito rio — A galera toda vai estar lá, vem também, quem sabe assim você se diverte um pouco.

Bufo baixinho , andando em direção a porta e abrindo-a. Serena tem os cabelos negros naturais amarrados num rabo de cavalo bem no topo da cabeça, óculos de sol e um biquíni baita pequeno.

Ela sorri quando me vê.
— Oi, espelho — digo de um modo neutro como uma irmã falaria com outra irmã — Nem gaste sua saliva me convidando, você sabe que eu não vou.

Serena revira os olhos e respira fundo, esticando um tubo de protetor solar em minha direção e virando-se de costas pra que eu possa passar nela.
— Relaxa, não gastarei. Até porque preciso guardar minha saliva porque o Daniel vai estar lá hoje — ela diz toda empolgada — E acho que hoje sim vai rolar uns pegas.

Fico em silêncio, apenas ouvindo minha irmã tagarelar sem parar sobre o carinha que ela está afim, ao passo que espalho protetor pelas costas dela. Como ela não cala mais a boca, apenas me concentro em passar protetor solar nela sem escutar sua tagarelice.
— Spencer! — Serena chama a minha atenção.
— O que foi? — pergunto achando que fiz algo errado.
— Você me ouviu?
— Que parte? A que o Daniel é um gostoso?
— Não! Sobre você ir hoje. A galera vai estar toda lá.
— A SUA galera você quis dizer.
— Ah, para com isso, Spencer. É a sua galera também. Moramos todos na mesma vila.
— Por enquanto.
— Ai, não diz que você ainda não tirou da cabeça a ideia de se mudar daqui sozinha?

Não respondo, mas fecho o tubo do protetor e entrego a Serena.
— Tá, que seja. Só acho que você é quem vai perder. Me disseram que um gato se mudou pra vila ontem. Tem uns vinte e dois anos, talvez ele esteja lá hoje.
— Não me dou muito bem com felinos, esqueceu? — sorrio ironicamente.
— Ah, é verdade, garota loba — ela retribui o sorriso — Você vai ficar bem aí sozinha?
— Sempre fiquei.
— A vó foi namorar, você não vai ter companhia pra papear sobre tricô hoje.
— Eu sei. E tô de boa. Pode ir. Não deixe seus amigos esperando.
— Tá bom. Beijinhos — ela faz um biquinho, mandando um beijo pra mim.

Dou uma piscadela e fecho a porta, voltando ao meu mundo de paz e sossego. Abro a janela e deixo a brisa entrar para ao menos eu não morrer do calor e retorno a minha leitura esperando chegar a noite. E quando ela finalmente chega, eu saio do quarto e me deparo com Serena na cozinha comendo algo com vovó, Scarlet, que retornou de seu encontro romântico com o novo namorado.
— Belo bronzeado, Serena — elogio a cor diferente na pele de minha irmã.
— Obrigada, eu estava precisando mesmo pegar uma corzinha.
— E o namorado, vó? — pergunto só por educação.
— Muito velho, acho que vou largá-lo.

Rio da resposta.
— Okay, você que sabe, né — olho pra porta da frente — Eu vou dar uma saída agora, beleza?
— Beleza, mas se cuide, hein, minha filha — vovó diz.
— Pode deixar.

Com isso, saio de casa e logo sinto o frescor da noite me tomar. Aquela sensação é maravilhosa. A escuridão me relaxa. Olho para o alto e vejo a lua no início de seu ciclo.

Daqui a três noites ela estará cheia, e será bem no meu aniversário.

Caminho pela estrada de lajotas até chegar na entrada para a floresta, feita pelos homens da vila para chegarem até o rio. Adentro a mata, ouvindo o som dos grilos e cigarras e, eventualmente, o pio de uma coruja. A maioria das garotas da vila sentem medo da floresta a noite, só porque não estão habituadas com a escuridão. Mas quando estou caminhando por entre as árvores de noite, me sinto mais confortável do que de dia. Ao chegar a beira do rio, com o barulho da água correndo, tiro meu all star e meia, minha calça e blusa, de modo que fico só com roupas íntimas. Não me preocupo em checar se tem alguém por perto, pois já sei que não terá, como sempre. Vou entrando na água gélida com o corpo arrepiando ao contato com o frio. A sensação mais deliciosa que existe.

Mergulho uma vez, molhando meu cabelo avermelhado e deixando-o mais escuro. Nado algumas vezes contra a correnteza e mergulho novamente. Serena sempre me acha estranha por querer aproveitar o rio a noite e não de dia, quando faz mais calor. Mas eu sou assim. Sou a única que iria a noite num rio. E é exatamente por isso que eu vou só a noite. As vezes, até consigo escutar ao longe um uivado, mas bem longe mesmo e daí minha noite se torna perfeita.
— Sem lobos hoje.

Viro-me subitamente na direção da voz, mas o problema é a escuridão que não me deixa enxergar nada, de modo que não sei de onde veio. Mas pelo timbre, é uma voz masculina.
— Quem está aí? — pergunto assustada.

A voz não responde e começo a ficar tensa. Olho de uma direção pra outra da floresta, mas só o que vejo é breu. Consigo apenas enxergar a silhueta de algumas árvores.
— Oie? — tento novamente.
— Olá. Como vai? — a voz baixa e melodiosa me atinge estranhamente. Mas ainda não consigo ver a pessoa.
— Eu? Eu estou bem. Dá pra aparecer? — soo um pouco rude.

Ouço o farfalhar numa direção e conduzo o olhar para lá. E então, um rapaz vestido de preto aparece. Com a pouca luz que a noite permite, consigo notar que o rapaz é moreno e um pouco alto, mas também tem um corpo bem em forma. De primeira, fico amedrontada, pois nunca vi aquele rapaz na vila.
— Quem é você? — pergunto, tentando me equilibrar nas pedras escorregadias enquanto a água me empurra.
— Valentim. E você?
— Não interessa- respondo friamente.
— Nossa, que educação — ele guarda as mãos nos bolsos da calça e toma uma posição relaxada.
— O que você quer?- pergunto sem tirar o olhar dele, esperando qualquer movimento que denuncie alguma violência iminente.
— Ah, entendi. É você quem faz as perguntas aqui, certo? — ele diz sarcástico.
— É, é sim. Responda. — mantenho a voz firme pra não expressar o medo que estou sentindo.
— Tá legal — ele levanta as mãos na altura da cabeça, em sinal de rendição — Eu não quero nada...de você. Só vim aqui porque achei que seria o momento em que esse lugar estaria sem ninguém. Mas pelo visto me enganei.

Quem ele pensa que é? Aquele lugar à quela hora da noite é meu.
— Ei...peraí — recordo de algo que foi dito por Serena a tarde — Você é o novo morador da vila?
— Exatamente — ele parece sorrir.

Com essa resposta, fico um pouco menos tensa, mas não completamente.
— Hmm...okay, novato, vou te dizer o que todos dessa vila já sabem... Ninguém vem aqui à noite, só eu, entendido?
— Entendido — ele fala como se não fosse nada.

Com isso, vejo-o tirando a camisa, mas antes que ele possa ficar com o corpo sarado a mostra, eu o interrompo:
— Epa, epa, epa. Pode parando por aí — levanto uma mão sinalizando pra parar- O que pensa que está fazendo?
— Eu estou me preparando pra nadar. Algum problema?- ele diz sério.
— Se tem algum problema? Tem todos os problemas do mundo — sinto um arrepio e percebo que está ficando frio.
— Você esta querendo dizer que eu não posso nadar nesse rio? Por acaso você é a dona dele? — noto um tom meio irritado em sua voz.
— Não, mas já falei que só eu nado a noite.
— Bom, agora você vai ter que se acostumar com mais alguém nesse rio a noite — ele imita meu tom de voz quando digo "a noite".

Valentim tira rápido sua camisa e antes mesmo que eu possa impedi-lo sua calça já está no chão, mostrando sua cueca box preta. Viro o rosto, mesmo sabendo que não posso ver nada naquela escuridão. Fico apenas observando sem saber o que fazer enquanto o rapaz novo da vila entra sem hesitar no rio gelado.Penso se deveria sair, mas como se ele me veria só de calcinha e sutiã?

Não me mexo, e somente vejo Valentim mergulhar e desaparecer na água. Ele não volta para a superfície e fico esperando. Ele continua submerso, mas não o vejo. De repente, ele retorna pra cima me assustando por estar tão perto de mim agora. Nesse momento, calculo que nossa distância não dê nem dois metros. Cruzo os braços sobre meu busto com vergonha. O rosto de Valentim está mais visível agora e tento me convencer de que ele não é tão bonito como Serena disse. Contudo, é difícil pensar que aquele rosto seja feio. Na verdade, é muito bonito. Seus traços são sedutores e os lábios carnudos totalmente sensuais.

Ele caminha lentamente em minha direção e eu vou recuando para trás um pouco temerosa ainda.
— Qual é o seu nome? — ele pergunta.

Fico calada e, parada, serro os cílios.
— Não vai falar? — Valentim tenta num tom manso — Qual é o problema de você me dizer seu nome?
— Pra quê quer saber meu nome?
— Pra saber, ora. Pra me dirigir a você pelo nome.
— É Spencer — digo um tanto a contragosto.
— Ah, até que enfim, Spencer.

Ele sorri e é um sorriso sincero.
— Hmm...você pode se virar pra lá? Quero sair daqui.
— Ah, vai, não precisa ser assim. Eu não vou te machucar.
— Estou com frio.
— Tá, tudo bem. Mas que tal se você ficar um pouco ainda? Pode ficar ali na beirada. Só quero alguém pra conversar.

Engulo em seco, pensando. Olho para o peito malhado de Valentim e antes que eu possa parecer uma tarada, ergo o olhar na altura de seus olhos pretos. No entanto, vejo seu sorriso malicioso indicando que notou a minha encarada para seu peitoral atraente.

Ele para de sorrir e me encara com as sobrancelhas altas, esperando uma resposta.
— Eu acho melhor eu ir — digo andando na direção da floresta.

Ao passar por ele, porém, sou barrada por sua mão em meu braço. Tremo assustada.
— Por favor, Spencer — ele fala baixinho me seduzindo com sua voz.
Suspiro em derrota e assinto.
— Mas vire-se pra lá pra eu poder ao menos me vestir — reparo que sua mão ainda se mantém no meu braço.
—Tudo bem — ele diz soltando meu braço e virando de costas.

Ando com dificuldade pela água até chegar em terra. Dou uma corridinha na direção das minhas roupas no chão, olhando para Valentim, só pra conferir se está mesmo de costas. Como ele está virado para o outro lado, visto minha calça com dificuldade pelas pernas estarem molhadas e sigo vestindo minha blusa.
— Pronto — digo torcendo meu cabelo molhado.

Valentim se vira em minha direção, sorrindo, ou pelo menos penso que sorri. Vou até uma rocha a beira do rio e me escoro ali, observando Valentim mergulhar uma, duas, três vezes antes de vir mais para o raso. Sinto-me pouco confortável toda vez que ele diminui nossa distância.
— Então... — ele começa — Spencer...o que você pode me contar sobre esta vila?

Solto uma meia risada, meia bufada, olhando para o chão.
— As pessoas aqui são como todas as outras, falam demais, julgam demais, fofocam demais.
— Puxa! Já vi que você tem problema com as pessoas desse lugar.
— Eu? Eu não. Eles é que parecem ter problemas comigo — olho diretamente nos olhos dele — Valentim, eu não me encaixo aqui, sou tão deslocada quanto um lobo fora de sua alcateia.

Valentim sorri de canto e continua olhando pra mim como se quisesse que eu falasse mais.
— Eu morei aqui a minha vida toda e nunca me adaptei ao estilo de vida deles. Basicamente, eles gostam de estarem reunidos o tempo todo, gostam de saber da vida um do outro, gostam de fazer festa todo final de semana, ouvir música alta, e rir alto demais. E eu sou mais na minha, mas ninguém parece entender e por isso fazem questão de me tratarem como aquela que ninguém quer ficar perto. Mas, sabe, eu não ligo. Eu prefiro estar sozinha.
— Prefere mesmo? Ou só não achou sua alcateia ainda? — seu tom de curiosidade me surpreende e o termo alcateia novamente naquela conversa me deixa um pouco empolgada.
— Não acho que deva existir uma alcateia pra mim. Eu sou do tipo diferente.
— Diferente como? — ele pergunta vindo um pouco mais pra beirada.
— Eu não sei, mas meus pensamentos são diferentes, sabe. Eu nunca tive um amigo que pensasse como eu. Nem lembro quando tive um amigo — dou de ombros.

Valentim é só silêncio.
— Sinto que não pertenço a este lugar, ou a este mundo. Não consigo aceitar que a vida seja sempre a mesma. Eu necessito de uma quebra de expectativa, preciso de uma emoção a mais na vida além de ser bem sucedida em alguma profissão ou sei lá o quê. Eu preciso ver coisas que ninguém jamais viu, algo grandioso, algo além de nossa compreensão — estou olhando para o céu, um tanto eufórica com minha linha de raciocínio.

Lembro, enfim, que estou falando com um estranho. E não só estou falando, mas contando coisas pessoais demais, como meus sonhos, coisas que a maioria da vila nunca imaginou.
— Desculpe — coloco a mão na testa constrangida por desabafar com um rapaz que nem sequer conheço.
— Não se desculpe — ele sai da água e anda até suas roupas, vestindo-as — Na verdade, penso que isso é totalmente compatível com a minha visão. Eu penso exatamente como você.

Sorrio com sua gentileza, querendo me fazer sentir bem. Reparo que dessa vez, ele está diferente. Como se quisesse me entender.
— Por que você veio pra esta vila? — pergunto quando ele esta totalmente vestido e sentado no chão pedregoso com os cotovelos apoiados nos joelhos.

Ele reflete por um instante sobre minha pergunta, medindo talvez o que falar e o que deixar de falar.
— Eu não sei, na verdade. Eu apenas fiquei com vontade de me mudar pra um lugar sossegado e um lugar que tivesse bastante mato.

Sorrio.
— Bastante mato tem, mas quanto ao sossego não posso garantir nada.

Ele também sorri.
— Acho que bastante mato já é o suficiente.
— Pra quê você quer mato?
— Gosto de fazer trilha — ele responde de bate-pronto.
— Legal.

Ficamos em silêncio só ouvindo o som da floresta.
— Está ouvindo isso? — Valentim ergue um dedo no ar.

Paro para escutar o que quer que seja.
— Ouvindo o quê? — pergunto sem conseguir ouvir nada de especial.
— Exatamente. Isso pra mim é sossego.

Rio. Até que ter alguém pra conversar não é tão ruim assim, ter um amigo não é tão ruim. Valentim sorri.
— E seus pais? — pergunto.
— Mortos.

Pisco várias vezes sentindo-me idiota por fazer uma pergunta tão pessoal.
— Sinto muito.
— Está tudo bem — ele diz com um sorriso gentil — E os seus?
— Sem pais também. Foram mortos por lobos.

Por um instante penso ver um assombro no semblante de Valentim, mas o que eu vejo, na real, é interesse na história que eu tenho pra contar. O rosto sério e curioso, com um vestígio de compaixão.
— Eu não sei se você sabe, mas antigamente havia lobos por esta floresta. Mas depois que eles atacaram os moradores (não foram só meus pais), uma equipe de caçadores os exterminou daqui. Agora que eu saiba só existem lobos depois daquela montanha.

Aponto um dedo na direção do horizonte indicando uma colina distante.
— De vez em quando, ouço alguns uivos.
Com isso, lembro da primeira frase que ele disse ´Sem lobos hoje`.
— Mas você já sabe disso, não é? — continuo.
— O quê? Que vivem lobos atrás daquela montanha?

Eu aquiesço.
— Sei — ele mostra um sorriso tímido.

Eu começo a gostar da companhia de Valentim. Isso é totalmente novo pra mim. Contatos com pessoas geralmente me entediam, mas com ele sinto que é diferente, como se ele não fosse bem uma pessoa.

Valentim não diz mais nada. Sua cabeça volta-se para o céu e ele observa a lua incompleta. Eu sigo seu olhar e também contemplo a lua.
— Você sabia que daqui a três dias terá uma lua de sangue? — Valentim solta.
— Isso é sério?- pergunto surpresa e interessada.
— Sim. Essa será a primeira depois de duas décadas. E a que vai começar um ciclo, terá outras luas de sangue no decorrer de uns dois anos, mas serão eventos raros.

Então terá uma lua de sangue no meu aniversário de dezoito anos, penso alegre.
— Vou te contar uma lenda. De onde eu vim, contam que existem algumas pessoas capazes de se metamorfizarem em lobos.

Ergo uma sobrancelha e abro um leve sorriso, gostando do que estou ouvindo.
— Isso geralmente aconteceria com pessoas que vivem perto de lobos, e aqui não são pessoas lobos, mas os animais propriamente dito. Claro, não é uma regra, quem mora perto de lobos não necessariamente virará um, mas é um evento quase aleatório e raro. E também dizem que somente ao alcançar a idade adulta isso ocorre. E agora quero chegar no ponto que me fez lembrar essa lenda boba — ele dá uma risadinha — Segundo a lenda, quem chegar a idade adulta debaixo de uma lua de sangue, terá uma força malígna incontrolável. Será um lobo mau. Os que vivem a lua azul no dia, será um lobo especialmente bom.
— E os que alcançam a maioridade na lua cheia comum? — pergunto curiosa.
— Conservará quem ele mesmo é e poderá trilhar qualquer caminho, o do bem ou do mau.

Continuo sorrindo com a história. Qualquer coisa que envolva lobos, eu fico interessada.
— Que engraçado você contar essa lenda — digo — Meu aniversário é daqui a três dias, exatamente na lua de sangue. Minha irmã e eu faremos dezoito.

Valentim soergue as sobrancelhas surpreso.
— Você tem uma irmã gêmea?
— Sim. Serena é o nome dela.
— Legal. Então vocês farão dezoito anos — ele parece interessado em nossa idade.
— É. E quantos anos você tem?
— Vinte.

Sorrio. E ele, por reflexo, sorri também.
— Valentim, o papo tá muito bom, mas agora eu tenho que ir pra casa, okay?
— Ah, tranquilo — ele parece meio decepcionado.

Afasto-me da rocha em que eu havia me apoiado e caminho na direção da floresta. Antes de ir, viro-me para trás e digo:
— Foi legal te conhcer.
— Igualmente. Vai pela sombra.

Rio e volto a caminhar até chegar em casa.

Sei que a interação que tive com Valentim não foi nada demais, mas mesmo assim caio no sono com ele em meus pensamentos.

Notas finais
Se você chegou até aqui, por favor deixe um comentário, qualquer um, mesmo que seja só um oi rs.