A Dama Solitária

25 O Trono de Cristal


Notas iniciais
NOTAS FINAIS ~

Em menos de três minutos, Morgan já havia sumido de vista. Kyle permaneceu no bosque, procurando mais pistas dos elementares.

Já havia encontrado uma antes mesmo que Morgan chegasse, e esperava que aquele rastro de magia o levasse a alguém certamente poderoso para os elementares.

Kyle bateu as mãos sujas de terra e desvencilhou-se dos galhos de árvores, indo em direção a um lugar mais temeroso ainda. A Clareira.

– É hora de um breve cochilo — ele comentou, colocando as mãos nos bolsos do paletó negro.

A Clareira era um lugar letal. Quase todos que adentravam o lugar não conseguiam sair de lá vivos. Porém, quase todos. Kyle descobrira o local há muito, muito tempo. Na verdade, era sua primeira casa. A parte do bosque em que caíra, e a parte do bosque que possuía a magia da própria Dimensão.

Quando alcançou a Clareira, Kyle deu um suspiro antes de dar mais um passo. A sensação de sono já chegava, entorpecendo-o suavemente. Ele abriu os olhos para manter-se firme.

– Pego pela própria armadilha, não é mesmo? — comentou consigo. — Mas o que posso fazer se muitas pessoas têm encontrado o meu belo refúgio?

A Clareira era rodeada por árvores, de coloração distinta das demais. Suas flores pareciam nunca cair, nunca morrer. O círculo guardado por galhos frondosos e vigorosos possuía muito mais segredos do que parecia. A sensação de sono era espetacular; Gwen fizera mesmo um bom trabalho sem nem se dar conta disso.

Não importava quantas vezes Kyle se aventurava por ali; sempre se encantava com a beleza da Clareira.

Kyle abriu as mãos e sentiu as sombras evacuarem como fumaça num incêndio. Mas logo as fechou, pois não queria contaminar um lugar puro como aquele. Puro, mas letal. Afinal, rosas são bonitas, mas também possuem espinhos.

Deixou-se levar pela sensação. A sonolência o embriagava deliciosamente. Mas Kyle estava ciente de seu objetivo. Viajar em alguma visão.

Acordaria antes de cair num sono profundo, e fugiria dali.

Kyle riu sadicamente.

– Gwen, Gwen — ele sussurrou. — Você não é tão esperta quanto pensa.

Dentro de seu quarto, no Castelo das Sombras, a bruxa observava o pergaminho sagrado. Desde a invasão, Kyle sumira sem dizer uma palavra à irmã. Então, ela teve de descobrir por si só.

O desenho formado no objeto de papiro era novo, e ela surpreendeu-se. Não achava que Kyle fazia aquele tipo de coisa — se entregar ao perigo por uma visão. De qualquer forma, pelo menos agora entendia uma coisa: porquê diabos ele a pedira, há anos atrás, uma poção de sono encantado. Ela achara estranho na época, mas não suspeitou que passasse de apenas uma aprontação de Kyle com qualquer mulher.

Porém, agora, entendia muito bem. Admirou a perspicácia de Kyle, mas lamentou ele ter vacilado depois de ir tão longe.

– Kyle, Kyle — ela sorriu, repetindo suas palavras tolas. — Não é tão esperto quanto pensa!

***

Brian arfava. Vinha andando há horas desde que conseguiu escapar de Kyle, e agora finalmente sentia o efeito de andar às escondidas numa terra inimiga. Depois que a patrulha foi reforçada, se esconder ficou mais difícil. Ele torcia para que apenas Jennifer tivesse a capacidade de se transportar nas sombras, caso contrário, estava certamente sendo observado há tempos e não o sabia.

O mágico tinha de encontrar Serena. Se ela morresse, ele não saberia o que fazer. O plano inicial era apenas pegar o pergaminho sagrado da Terra das Sombras, mas acabou que tudo dificultou-se. Ele suspeitava que não deveria subestimar os servos das sombras. E foi exatamente o que ele fez. Subestimou-os, porque tinha Serena. Mas agora, sem a melhor bellator ali com ele, e sem Logan e Elizabeth, todos os seus esforços voltaram-se à busca por Serena. Precisava encontrá-la antes que Angelo conseguisse pegar o pergaminho. Quando ele o fizesse, já seria tarde demais para fugir desesperamente.

O sol se pôs mais rápido que o esperado, exatamente como vinha acontecendo há alguns dias. Brian estava esgotado, nem conseguia mais usar seus poderes. Vencido pelo cansaço, deitou-se embaixo de umas árvores de raízes altas e grossas que criavam uma espécie de esconderijo. Enfiou-se lá dentro, tomando cuidado com o cascalho. Seu estômago roncava; estava morrendo de fome.

Brian tirou a jaqueta preta e fez de travesseiro, recostando-se às paredes improvisadas e rústicas das raízes. Ele suspirou, pensando em como se alimentar.

Quando enfim lembrou-se de que havia ido a umas três aulas de caça oferecidas por Maya, Brian lamentou não ter nenhuma arma ali. Viera confiante demais no sucesso da missão.

"Não subestimar os inimigos" ele confirmou em sua mente.

Rapidamente, o mágico fechou os olhos, vencido mais pelo sono que pela fome.

Antes de adormecer, Brian conseguiu conjurar algumas palavras em língua persa que pudessem garantir sua segurança por cinco horas de sono. Acordaria antes do nascer do sol.

***

Morgan sabia andar pela floresta com todo o silêncio possível. Era tão habilidosa como um predador em quesitos de caça. Suas botas de camurça leve e negra escondiam seus pés por entre os bosques escuros e cheios de musgo.

Sentia a fúria guiá-la como uma mapa. Era tudo de que precisava.

Enquanto cortava o bosque que continuava a Floresta Cinza, Morgan não se esqueceu de ser atenciosa. Precisava chegar até a Zona e pular o limite que separava os dois lugares para entrar em Cineres. Mas... Sentia que ainda tinha coisas pendentes.

Andando no meio do bosque, agora sob a luz prateada da lua, Morgan avistou pegadas no cascalho úmido. Ela passou as mãos cuidadosamente sobre os passos, tentando confirmar se eram humanas ou não. Afinal, algumas feras antigas ainda habitavam aquelas florestas, e ela não queria esbarrar com uma logo naquele momento. Gwen não tinha mais poder sobre eles, e não hesitariam em arrancar sua cabeça em questão de segundos.

No entanto, a espiã sabia bem os truques do tipo de pessoa que deixava aquelas pegadas. Passos cautelosos, uma mente inteligente e observadora tanto quanto a dela. Muito sutil para um elementar. Mas Morgan também usava os mesmos truques, e não poderia deixar-se enganar: um invasor andava por ali.

– Quem restou por aqui? — Morgan sussurrou, falando consigo mesma, rondando o local.

Logo em frente à espiã, as árvores começavam a mudar de forma. Quem quer que estivesse na Terra das Sombras se perdera entre o final da Floresta Cinza e o início dos bosques contínuos. Talvez não mais tão inteligente.

Morgan aproximou-se de um lugar suspeito. Raízes altas e entrelaçadas de árvores criavam uma espécie de esconderijo.

A espiã agachou-se e forçou as raízes para que abrissem. Trabalho em vão. Eram duras como aço.

– Hum — ela murmurou, levantando-se.

Morgan decidiu seguir caminho, pois tinha outra missão mais importante naquele momento.

Mesmo assim, a desconfiança quase a fez dar meia volta.

– Elementares — ela resmungou. — Sempre dando trabalho.

Minutos depois, Brian se levantou e retirou-se do lugar. Precisaria de outro local se quisesse pregar os olhos por mais de quinze minutos.

***

Gabriela deixou o corpo cair na cadeira assim que terminou as viagens no tempo. Foram duas. Dois livros, duas viagens. Uma hora e meia para cada um.

Ela sentia o estômago contorcer-se ruidosamente, como um nó de corda. A bile subia e voltava, tornando sua respiração entrecortada.

As coisas que vira foram mágicas. Completamente. Contemplou toda a história da vidência como se fosse um filme, e logo após, vivenciou aulas de visões, métodos de observação e aprimoramento da simulcognição que fizeram sua mente rodar loucamente.

Mas antes mesmo que pudesse se recompor, ouviu alguém bater a porta.

Gabriela virou na direção e avistou uma porta — bem ali, do lado da estante. Como não vira aquilo antes?! Ou será que não estava ali até...

– M-M-Mirty — ela balbuciou, engolindo a saliva.

A mentalista estava de cara fechada, como sempre. Mas tinha de algo de diferente em seus olhos; algo como um brilho de loucura. Gabriela nunca deixou-se de perguntar o que afinal se passava por a mente de Mirty.

– Você está pálida — Mirty comentou, levantando-a bruscamente da cadeira. — Um dia e três livros é muita coisa pra você? — perguntou. — Pensei que você fosse a Imortal. Sabe, inúmeros poderes, força, foco...

Gabriela mal acreditou quando viu os lábios da mentalista curvarem pra cima num sorriso sutil e breve, que logo se desmanchou quando ela se aproximou dos livros postos sobre a mesa.

Mirty passou os dedos finos e brancos com unhas negras pontudas sobre um deles, o último no qual Gabriela viajara. Quando retirou a mão, havia algo na ponta de seus dedos. Algo mais que... Poeira.

– O que é isso? — ela cheirou, afastando a mão rapidamente. Mirty virou-se para Gabriela e arqueou as sobrancelhas numa expressão assustada e confusa. — Isso... É... Pó de fada?!

Gabriela ficou mais pálida ainda. Na verdade, ficou verde. Quase azul. Mirty arregalou os olhos.

– Não — ela mentiu, pigarreando. — Pó de quê? Você disse fadas?

Mirty parecia furiosa.

– Aqueles malditos livros dourados! — ela passou as mãos pelo rosto, enraivecida. — Eu deveria saber que elas iriam te atrair! MALDITAS FADAS!

Gabriela arregalou os olhos.

– Espere, o que há de tão errado nisso?? Você sabia que seria impossível eu ler tantos livros em tão pouco tempo! — ela argumentou.

Mirty respirou fundo e suspirou.

– Você. Não. Deveria. Ter. Se. Metido. Com. As. Fadas.

– Por quê?! — Gabriela perguntou.

– Gabriela — Mirty disse seu nome seriamente pela primeira vez. — As fadas são interesseiras. Trabalham para qualquer um conforme suas necessidades. Algumas trabalham para os servos das sombras, não se pode confiar em fadas!

– Tá — ela disse. — Mas eu... Acho que a fada de quem tive essa ajuda não é dessas. Ela me garantiu.

Mirty riu ironicamente.

– E você acreditou? — questionou. — Gabriela, são fadas, não anjos.

A garota mordeu o lábio, angustiada.

– Mirty, tudo bem, se você estiver certa, eu peço desculpa, MAS eu precisei disso! E honestamente, acho que ela foi sincera.

Mirty suspirou e balbuciou palavras inaudíveis.

– Não temos tempo — ela disse, recompondo-se. Para uma mentalista, vinha perdendo a calma fácil demais. — Então, precisamos ir para o próximo passo. Se você usou o pó dessas fadas, deve ter aprendido muito mais coisa do que eu imaginei. Acho que está pronta para o que precisa fazer.

Gabriela respirou fundo, prendendo o ar dentro dos pulmões. Mal sabia Mirty que ela já havia usado sua simulcognição para outra coisa...

De repente, uma escada abriu-se em meio as estantes, revelando outra de suas passagens secretas.

– Me siga — Mirty instruiu, fria.

– Para onde vamos?

– Para um lugar onde você possa usar seu poder. Usá-lo de verdade.

***

Kyle abriu os olhos com dificuldade, mas foi como ter recebido um balde de água gelada no rosto. Ele arqueou profundamente, lutando pra sair do transe.

– Ah! — buscou ar com toda a força possível. Seus olhos estavam arregalados. Aquilo fora incrivelmente real.

Em sua visão, Kyle viu uma mulher assentada num trono coberto por cristal. Sua aparência era pouco nítida, mas ele pôde ver seus olhos. Eram azuis como o mar, e cruelmente misteriosos. Ela observava uma bola de cristal, onde via duas garotas tentando enxergar algo, também, dentro de uma bola de cristal.

No entanto, a mulher no trono não precisava daquele objeto. Ela olhava para o horizonte, parecia sentir que havia alguém invadindo sua privacidade.

Kyle se afastou rapidamente, e então a visão acabou. Mas, antes que abrisse os olhos, uma voz grave e metálica fez seu corpo inteiro arrepiar.

– Eu vou te encontrar, anjinho — a voz jurou.

Notas finais
Heeeeeey! OI OI OI! Caraca, nem acreditando nos reviews que tenho recebido! Bem vinda, Scarlett, e Ash, bem vinda de volta! MAS CADÊ A HANNA?!!!!! Mrs. FITZ pelo amor de deus! Quando tua personagem começa a dar as caras você some???!!!!! Sinto sua falta em ADS! Povo, e aí? Esse capítulo foi bem cortado porque precisei escrever sobre muitos personagens, mas espero que tenham gooostado e ficado curiosos!!! Hehehe, alguém chuta quem é a mulher da visão de Kyle?!!! Cuidado com suas teorias hein? Gente! E a Serena? O que houve com a mulher?!!! Mais teorias? Já faz muito tempo que não falamos na Serena. O que será que aconteceu com a melhor bellator de Cineres? O.o Alice