A Dama Solitária
26 A Mensagem Do Paralelepípedo
Notas iniciais
Kyle saiu da Clareira com o corpo quase caindo. Curvou-se sobre os joelhos, esforçando-se para não ser tragado pelo feitiço mortal de encantamento. A cada vez que visitava o lugar, sentia mais dificuldade para sair de lá acordado. Era como se a Clareira o estivesse rejeitando, e ele não entendia o porquê.
A visão que tivera o deixou paralisado. Aquela voz... Jamais a esqueceria. Foi como um sussurro ao pé do ouvido, próximo e claro como nunca. Kyle tentava não lembrar dela, mas era algo impossível. Seu juramento selou seu destino. Um destino de medo.
Quando conseguiu sair dos bosques, Kyle apoiou-se numa árvore. Era alta, e suas raízes grossas entrelaçavam-se, formando uma espécie de refúgio. Ele respirou fundo, tentando restabelecer a respiração. Seu peito estava acelerado, como se tivesse acabado uma corrida.
O ar estava denso, mais que o normal. E Kyle estranhou. Como o dono das sombras, conhecia suas terras muito bem. Havia algo de estranho no clima, se é que existia clima na Dimensão.
Kyle recompôs-se com dificuldade, mas logo já conseguia andar e respirar simultaneamente sem sentir a tontura enjoada. Quanto mais se aproximava daquela espécie de refúgio, mais sentia-se invadido. Seu corpo podia captar algo de diferente no ambiente. Um elemento diferente das sombras.
– Um elemento — Kyle sussurrou, arregalando os olhos. Um quase imperceptível rastro de cor roxa seguiu o caminho por baixo daquelas raízes.
Kyle sorriu.
– Acho que encontrei o elementar de vocês, Damas.
Ele seguiu o rastro até que sumisse a alguns metros a frente, mas quando ele enfim se dissipou, Kyle já sabia para onde ir.
A Terra das Sombras nem sempre precisa de espiões para encontrar os invasores.
***
Mirty levou Gabriela até o terraço do Castelo Bellator, onde os três Bellators, Serena, Logan, Elizabeth e o mágico, Brian, foram vistos pela última vez.
A mentalista estava concentrada. Sem piadas sobre a Imortal, sem comentários maldosos. Apenas instruções.
O sol já havia se posto. Os dias vinham terminando mais cedo, mesmo que ligeiramente, e a mentalista parecia ter algum propósito secreto nisso. Gabriela tinha a sensação de que algo terrível estava por vir.
Esperava estar sinceramente errada.
– Quando vamos começar? — Gabriela perguntou, apreensiva.
Mirty não trouxera muitas coisas para o terraço. Havia, ali, apenas uma bola de cristal que fora posta com cuidado em cima dos muros, que batiam um pouco acima da cintura.
Assim que o céu escureceu completamente, a mentalista pediu que Gabriela aproximasse-se com um gesto rápido.
– Agora — ela ordenou. — Não vai ter dificuldades em encontrá-lo, pois o sol já se pôs inteiramente.
A garota arqueou as sobrancelhas, confusa.
– Não seria mais fácil se houvesse alguma luz? Não me ajudaria a...
Mirty rolou os olhos.
– Não — respondeu, interrompendo-a. — Imortais sentem-se mais confortáveis com a escuridão. Não se sente assim?
Gabriela remexeu os ombros dentro da jaqueta preta. Mais uma vez, Mirty acertara isso sobre ela.
– Antes que você pergunte — a mulher falou — essa bola de cristal é a mesma que você usou para rastrear as fadinhas perdidas daquela fada velha com quem conversou.
– O que?! Roubou a bola de cristal das fadas? Por que?
Mirty ergueu as sobrancelhas.
– Não era delas — respondeu, desdenhosa. — Mas agora é sua. E se você não... — Mirty respirou fundo. — É melhor que você consiga rastrear os NOSSOS elementares.
Gabriela se aproximou do objeto, tirando as luvas negras de couro para poder tocá-lo. A mesma sensação de eletricidade percorreu seus dedos, parando nos pulsos.
– Detesto isso — ela murmurou, torcendo, logo em seguida, para que Mirty não tivesse ouvido.
– As descargas elétricas são por causa dos poderes de Diana. Os poderes que VOCÊ pegou — Mirty explicou, irritadiça.
Gabriela ignorou.
O fato de já ter feito aquilo uma vez deveria contribuir para que pudesse fazer de novo com facilidade.
Mas, não foi assim.
Muito pelo contrário.
A cada vez que tocava na maldita bola de cristal, sentia pavor, um pavor inexplicável, e rapidamente tirava as mãos dela.
"Por que isso está acontecendo?!" perguntou-se.
Mirty aproximou-se.
– O que foi? — questionou.
A garota respirou fundo e prendeu o ar dentro dos pulmões, ignorando-a novamente.
Colocando um pouco de fé pra dentro da cabeça, Gabriela tentou outra vez. Talvez agora funcionasse, como fora com Ellya.
A eletricidade afastou suas mãos instantaneamente.
– Droga! — ela praguejou, afastando-se e balançando-as, tentando se livrar da sensação horrível de formigamento.
Mirty franziu o cenho e arregalou os olhos.
– O que foi?! — perguntou.
Gabriela lançou-lhe um olhar fulminante. Se a mentalista viesse com suas piadinhas infames outra vez...
– Ficou muda? — Mirty insistiu.
A garota se aproximou do objeto de novo, recobrando a calma. "Desta vez, vai dar certo."
Seu suspiro de frustração foi seguido de um grito de raiva.
– Mas que porcaria, não tá funcionando! — Gabriela lamuriou.
– Talvez se você...
– Não — ela cortou-a, sua voz agora dura e ríspida. — Chega. Já tentei inúmeras vezes, não consigo. Mirty, por favor. Estou... Furiosa.
Mirty ergueu as mãos na tentativa de acalmá-la, mas foi interrompida por um clarão no terraço.
A voltagem era tão alta que poderia tê-las matado se não tivesse parado centímetros acima do chão.
– Mirty, Gabriela — Diana chamou-as, arfando. — Rápido, venham para a Sala do Trono. Acabamos de receber uma mensagem de Brian.
– Mensagem? — Gabriela perguntou. — Pensei que não podiam se comunicar telepaticamente da Terra das Sombras.
– E não podemos — Diana explicou. — Mas a mensagem que ele mandou não foi por telepatia.
Mirty arquejou. Seus olhos adquiriram um tom de medo que Gabriela nunca vira antes.
– Ele se comunicou pelo paralelepípedo. Seu objeto de poder. Mandar mensagens por ele só pode ser feito uma única vez, o que significa que é tudo o que teremos de Brian.
– Então Brian está sem poderes ao ter enviado o paralelepípedo?! — Gabriela perguntou, sentindo o coração acelerar.
Diana ofereceu as mãos para as duas.
– Temo que não somente Brian esteja sem os seus poderes.
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