A Dama Solitária
9 Capítulo 9 - Nunca subestime a Imortal
Notas iniciais
Setenta e duas horas haviam se passado desde que Gabriela fora iniciada e nomeada como a Imortal. Depois de ter vencido a morte, a garota se sentia estranha, diferente, como se algo naquilo tudo a forçasse a mudar quem era. Serena fora finalmente liberada da prisão de Mirty, o que, de acordo com a fútil explicação da dama, era necessário para que tudo acontecesse do jeito que aconteceu. A loira, apesar de ter os poderes da mentalista, amaldiçoou-a mentalmente com uma praga hilária: calvície. Não que Mirty fosse realmente ficar careca, mas a raiva de um Bellator combinado á uma maldição rendeu á dama problemas estéticos irritantes. Em suas breves aparições, bolsas abaixo de seus olhos eram visíveis, o que foi resultado de longas horas usando seu poder para criar mais cabelo.
Angelo esperava por algo a mais, e andava mais impaciente que a própria iniciada. Serena apenas observava, temendo trazer á tona, novamente, a fúria do anjo, que agora estava mais poderoso. O sacrifício de Gabriela teve um significado muito importante: agora ele tinha parte de seus poderes, parte de sua aura e vitalidade. Estariam eternamente ligados. Até mesmo Freia, a personificação da morte e a dona da imortalidade, em seus vagos caminhos na escuridão, sentia que alguém mais compartilhava de seu poder, e rapidamente descobriu sobre a morte da garota pelo anjo. Por mais insondáveis que fossem seus pensamentos, por ser uma mulher, era levemente previsível o que ela pensaria: mais um romance trágico. E impossível.
Apenas Freia sabia o quão impossível era a chance de um romance entre um Anjo e uma Imortal dar certo. Ser a dona da vida e da morte tinha suas vantagens, poeticamente falando, já que ela era capaz de observar o futuro e saber do passado. A cada observação que ela fazia de Gabriela e de Angelo em tempos mais á frentes, mais sabia o quão doloroso seria o que o destino tramava para eles.
***
– O que os Bellatore fazem por aqui? — Gabriela perguntou, esparramada sobre o sofá ilusório no meio do pavilhão que apenas ela sentia, o que fazia parecer que estava flutuando. Serena olhou aquilo com agonia e reclamou:
– Dá pra parar de fazer isso? Por que não pede logo um sofá? Tem uma loja pra isso lá no subsolo. — a loira disse.
Gabriela desfez a ilusão e se concentrou no que Serena dizia.
– Os Bellatore treinam, óbvio. — sim, o mal humor decorrente da prisão de Mirty ainda pairava por ali. — Como acha que ganhamos esse nome? Não é por acaso que somos guerreiros. Os melhores. — ela sorriu, orgulhosa.
– Então por que estamos todos á toa? — Gabriela perguntou.
– Porque as damas suspenderam todas as atividades dos Elementares. — Elementares é o nome para o grupo formado pelos Milites, Bellatore, Mentalistas, Guerreiros e por Angelo, o único anjo. Todos eles servem ás Damas — não que seja bem assim na prática. Os Bellatore são guerreiros, mas essa não é sua única função. Abaixo das damas, são os cinco mais poderosos, pois além de excelentes lutadores, possuem habilidades extras, como telecinese, telepatia ou algum poder sobre um elemento, como Logan, que possui poder sobre o fogo por ter passado no teste de Alanis e é também um telepata com aptidão intuitiva. — E ainda não sabemos o motivo. Não faremos nada até segunda ordem.
Serena olhou para Angelo irritada. Ele estava, ultimamente, com uma mania estúpida de falar as coisas com sarcasmo, um sarcasmo que não fora nunca uma característica dele. E isso começava a irritar a Bellator, que virou os olhos e deu um soco no ar, fazendo uma barreira se formar acidentalmente.
– Que droga, Angelo! Esse seu sarcasmo já está ficando muito irritante. — ela exclamou, assustando os dois.
– Desculpa, é inevitável. — ele rebateu, casualmente, criando um pássaro de luz á sua frente. O sabiá assobiava, quando Serena mandou uma flecha mental que o matou. Angelo ergueu os olhos para a Bellator, visivelmente bravo, e então sumiu do pavilhão para não arrumar brigas.
– O que diabos está acontecendo com vocês? — Gabriela perguntou incrédula com a tamanha irritabilidade entre os dois. Ela suspirava, cansada, quando Diana surgiu no salão, junto ao Mentalista, James, e o Guerreiro, Tevon.
– A quê devo a honra? — Serena perguntou com raiva e desdém. Angelo transluziu no pavilhão repentinamente, fazendo-a bufar. Ele parecia confuso pela frustrada tentativa de sumir dali.
– Não tenho tempo para brigas, nem para saídas dramáticas. — Diana disse olhando para Angelo. — Eu e meus Conselheiros decidimos, enfim, dar volta ás atividades dos Elementares. Os Milites já estão no Campo de Treinamento, e os mentalistas e guerreiros treinam juntos no Pátio 3. Todos os outros elementares ou estão no Pátio 1, ou estão no 2.
– E nós, ficaremos aonde? — Serena perguntou, referindo-se aos Bellatore.
Diana apertou os lábios e seus olhos soltaram leves faíscas elétricas, o que significava que a dama estava ansiosa. Mas... Por que motivo?
– No Descampado, perto da Zona. — Diana respondeu.
– O que? — Angelo rebateu. — Ninguém treina lá, só as Damas. — ele balançou a cabeça.
Diana bufou e revirou os olhos, se colocando três passos atrás de Tevon, que entendeu o recado e se aproximou de Angelo. Tevon era o líder dos Guerreiros. Ele aparentava beirar os vinte e sete anos, com seus cabelos claros, olhos castanhos e maxilar quadrado. Sua aparência era bela, alto, másculo — era de se esperar por ser um guerreiro — e com um ar de imponência. Serena sorriu pra ele de canto e ele retribuiu, mas nada suspeito. Talvez fossem amigos, talvez já se conhecessem antes mesmo de cair. Tevon possuía uma cicatriz que vinha da maçã do rosto até o queixo, o que dava á ele um certo ar sexy. Ele se aproximou de Angelo e logo ficou claro que Tevon fazia o tipo irônico.
– Anjinho, entendo seu medo pelo Descampado. Mas se Diana falou, é porque assim será. Agora trate de limpar essa sua capinha e a deixe reluzente, talvez assim você possa nos guiar pela Floresta Cinza. — Tevon disse ao pé do ouvido de Angelo, fazendo-o ficar vermelho de raiva. Depois de dar as instruções, os três saíram do pavilhão. Não magicamente, andando, indo em direção as escadas em meio á risos abafados e comentários de Diana sobre como ele era mal e como ela gostava disso.
"Eca" Gabriela pensou.
– Onde fica a Floresta Cinza? — ela perguntou, ingênua. Serena e Angelo se entreolharam e deram um sorriso malicioso, mas logo perceberam que estavam tentando ficar brigados um com o outro e olharam na direção de Gabriela, que curvou os ombros, intimada. — Que foi?
***
– Por que tem que ter tantos galhos perfurantes nesse lugar? — Serena reclamou, cortando-os com uma foice de prata que reluzia em meio á escuridão. Um cheiro de metano invadiu o olfato de Angelo.
– Dá pra parar de cortar isso? O cheiro é horrível! — ele reclamou.
Angelo e Serena discutiam durante o trajeto todo, e logo James precisou criar uma barreira mental para ele, Diana, Gabriela e Tevon, que por pouco não matou Angelo. Aqueles dois já estavam insuportáveis, o que era simplesmente incompreensível, visto que eram melhores amigos, até o episódio da iniciação. Com a ligação, Angelo acabou adquirindo o sarcasmo inevitável de Gabriela, que se sentiu levemente culpada pela desavença entre ele e Serena. Levemente.
– Já chegamos? — ela perguntou, arfando. Ninguém respondeu, então eles continuaram. Era estranho ver Diana, em toda a sua majestosa aura de poder, andando em meio á uma floresta cinza malcheirosa como um soldado, e sem nem reclamar. Não que ela fosse simplesmente ser carregada por uma carruagem feita de ar, mas ainda assim era estranho. Tevon não conseguia evitar socar para longe todos os animais esquisitos que apareciam na floresta, e James se esforçava para manter a briga entre a Bellator e o Anjo inaudível.
Andaram por uma longa distância, até que, entre os galhos que tampavam a visão, uma fresta de luz surgiu ao longe. Gabriela puxou os galhos para o lado e conseguiu ver o que estava á sua frente. Finalmente haviam chegado, pois nenhum dos outros sequer esperou para anunciar a chegada e foram rapidamente para a área onde as Damas, Logan e outra garota lutavam. O clarão que Gabriela avistara tinha vindo de Alanis, que com o fogo conseguiu destruir a maldita ilusão que Mirty fazia.
Logan treinava com a garota desconhecida. Ela tinha uma altura mediana e seu cabelo estava levemente preso pro lado. Era longo, castanho acobreado com algumas mechas claras. Foi difícil ver seu rosto, mas quando ela se virou para golpear Logan, Gabriela conseguiu enxergar um par de olhos verdes, nariz esguio e lábios um pouco cheios. A garota conseguiu jogá-lo no chão, e enquanto apontava a espada para seu pescoço e sorria, orgulhosa, repentinamente seu corpo deu lugar á uma águia linda. A ave deu duas voltas no ar enquanto Logan se levantava, e depois pairou em seu ombro.
Gabriela já andava em direção ao descampado, quando a águia voou até ela e se transformou na garota. Ela era ainda mais bonita de perto, e olhou para Gabriela com certa curiosidade.
– A Imortal. — ela sorriu. — Ouvi falar de você enquanto estava fora, parabéns... Mirty não é flor que se cheire. — a garota deu um piscadela abaixando o tom de voz. — Sou Elizabeth Morgan Evans, mas pode me chamar de Liza.
– Ah, prazer em conhecê-la. Sou Gabriela Hersch Lavi, mas pode me...
– Gabriela Hersch Lavi? É um nome totalmente hebraico, interessante. Estudei algumas línguas antigas quando entrei em Oxford, mas depois... Bem, você sabe, caí aqui.
– Estudou em Oxford? Você deve ser um gênio! — Gabriela disse, surpresa.
– E ela é. — Logan surgiu ao lado da garota e passou seu braço pelo ombro dela. — Mas agora eu recomendo que vocês duas comecem a treinar, a não ser que queiram ver um estrogonofe de gênio com imortal. — ele fez um careta.
As duas foram em direção ás damas, que revezavam. Quando Mirty viu Gabriela, deu um sorriso de lado quase imperceptível. Alanis lhe mandou uma chama por terra que queimou seus pés, e depois ergueu uma sobrancelha.
– Foi mal! — Alanis gritou, começando a lutar com Serena.
***
– A partir de hoje, o treinamento dos Bellatore será com as Damas. — Diana iniciou o discurso em meio ao descampado queimado (Alanis teve alguns probleminhas com Mirty). — Como sabemos, o Descampado é a melhor área para testar o quão forte somos, já que fica perto da Zona, uma área que separa Cineres da Terra das Sombras com uma magia tão poderosa quanto uma bomba ultra-radioativa. Treinaremos por aqui, até que alguma profecia anuncie algo novo. Bem, podemos começar. Oficialmente. — ela limpou a garganta e se afastou. — A divisão será feita por Mirty.
A dama mentalista deu um sorriso sutil e então começou a dividir as duplas de treinamento. Mirty estava com uma armadora preta, que parecia, literalmente, sugar a claridade existente no descampado. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo alto, e havia uma adaga em sua cintura. Alanis observava tudo com cautela, e Ashley e Maya discutiam sobre algo em total silêncio. Apenas Diana não parecia guardar algum segredo. Ela conversava com Tevon sobre estratégias de batalha quando Mirty finalmente terminou a divisão.
James lutaria com Serena, Elizabeth com Logan, Angelo com Tevon e apenas Gabriela ficara de fora. A garota ergueu as sobrancelhas, esperando, mas Mirty parecia ter outros planos para ela.
– Você, — Mirty apontou para ela — vai lutar com as Damas.
***
Depois de Gabriela ter sido separada de seu grupo inicial, as damas foram para uma região mais afastada do Descampado, mais perto ainda da Zona. Gabriela pôde sentir a magia que marcava os dois territórios, algo como radiação grudando em sua pele, fazendo-a ter vertigens horríveis. Não fosse por Mirty, ela teria desmaiado antes mesmo de começar. A mentalista criou uma barreira que impediria a magia de entrar em contato com Gabriela, e logo os duelos começaram. Com a garota ali, eram agora seis: Diana, a dama do ar, Alanis, a dama do fogo, Maya, a dama da terra, Ashley, a dama da água, e Mirty, a dama da mente. Diana anunciou que aquele tipo de treinamento seria diferente, sem divisões, e que a cada luta outra dama revezaria com quem quisesse. Rapidamente Alanis se juntou á Mirty, para lutarem até, provavelmente, a morte. Ashley ficou com Maya, e restou apenas Diana, a dama cujo teste Gabriela nem chegou perto.
– Parece que somos só nós duas. — Diana disse com uma expressão desafiante.
– Vai ser como o teste que eu não fiz? — Gabriela perguntou com sarcasmo.
– Ah, não, — Diana deu um sorriso — agora você vai ver o que uma dama pode fazer de verdade.
A atmosfera ao redor começou a mudar, o ar estava visivelmente sendo manipulado por Diana. Ela sorria de lado, desafiadora, enquanto unia suas habilidades para iniciar um duelo que com certeza abalaria as estruturas de Cineres.
Uma Dama do Ar, e a Imortal. Isso seria destruidor.
– Só toma cuidado, eu até que gosto de você. — Diana avisou.
– Você já se esqueceu de quem tem o poder sobre todos os elementos? — Gabriela perguntou. — Ah, espera, e sobre a imortalidade também.
– Você é só uma garotinha assustada.
– Eu adoro ser subestimada!– Gabriela respondeu, e de repente um ciclone veio na direção da Zona.
Observação: o ciclone era feito de fogo.
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