A Dama Escarlate
1 Parte 1
LONDRES, 1998.
Mais uma vez, ali estava eu. Moribundo jogado à uma mesa, debruçado sobre papéis, o copo de uísque balançando nas mãos. Minha vida havia se tornado um verdadeiro caos com os acontecimentos das últimas semanas.
Depois da faculdade de jornalismo, com apenas 22 anos, fiquei maravilhado em conseguir trabalhar para um dos maiores jornais do país. Acontece que, depois de 10 anos aguentando o burguês filho da puta me dando ordens, comecei a cansar. Perdi o jeito, a manha. E claro que 10 anos de serviço excelente não compensam os fracassos de uma semana.
Naquela tarde quando James me chamou na sala dele, eu já esperava o que estava por vir: seria demitido. Ou, na melhor das hipóteses, seria tirado do meu posto. Então, dá pra imaginar minha revolta ao perder o lugar de destaque nas notícias políticas para ser colocado na seção de contos e crônicas semanais.
- Conto com você para dar novo ânimo à nossa seção — o babaca dissera, oferecendo-me um sorriso estúpido.
A verdade era que a seção de contos e crônicas era a porta de saída do jornal. Todos que foram mandados para lá só tiveram oportunidade de uma única publicação. Depois disso, rua.
Mas eu era diferente de todos os outros. Sempre tive a escrita como hobby — além de só como profissão — e, portanto, sabia escrever um bom conto, diga-se de passagem. Depois de três semanas de publicações que fizeram bastante sucesso, James me chamou na sala dele. Agora sim eu estava confiante, tinha certeza de que ganharia uma promoção. Talvez meu cargo de volta.
Mas isso só aconteceria se ele não fosse um burguês filho da puta, claro.
- Parece que seus contos estão fazendo sucesso, John. Que tal publicar duas vezes na semana? Dividiremos o conto e atrairemos mais público. Não é uma ideia incrível? — ele sorria, realmente crendo que havia tido a ideia do ano.
- Genial — respondi, controlando-me para não tacar o peso de papel na cabeça dele.
E foi assim que cheguei á essa semana, em particular. A semana que eu tive um bloqueio de criatividade. Nada que escrevia saía do terceiro parágrafo ou sequer possuía sentido. Aquilo já estava me deixando louco. Então decidi arejar, ir ao pub e tentar escrever algo por lá.
Já se passavam das 2h da manhã de quarta-feira e o pub estava relativamente vazio, exceto por eu mesmo, dois casais que ocupavam duas das cabines e outros três bêbados sentados ao balcão.
- É isso, não adianta — murmurei mirando os esboços à minha frente. Peguei o lápis em uma das mãos e comecei a batucá-lo na cabeça, como se aquilo fosse trazer uma ótima ideia — Pensa, pensa.
Estava prestes a levantar, desistir por hoje e tentar me virar mais tarde para poder cumprir o prazo, — que seria para a manhã seguinte — quando a porta do pub se abriu.
Uma loira usando um sobretudo vermelho de gola alta e botas de couro pretas entrou e se recostou no balcão. Larguei o lápis na mesa, passando a fitar a misteriosa mulher.
Algo me atraía e eu não sabia dizer o que era. Precisava saber mais daquela mulher. Ela pareceu ler meu pensamento, porque olhou na minha direção e sorriu. Logo em seguida virou-se e foi embora.
Estava tão enfeitiçado pela loira de vermelho que não me recompus a tempo de ir atrás dela. Ainda com seu sorriso na cabeça, me veio a inspiração necessária. Peguei o lápis na mesa e, no alto de uma folha meio suja, escrevi:
"A Dama Escarlate"
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