A Dama Branca
11 Lembranças Fragmentadas
Notas iniciais

“Acordei em um lugar extremamente familiar. Me encontrava em quarto simples com paredes e chão de madeira polida de tom escuro, e intercalando com as paredes haviam painéis Shoji. Todos os móveis eram feitos do mesmo material da casa, porém em um tom mais claro. Ao lado do colchão, onde eu me encontrava, havia uma luminária Chochin, e ao fundo do quarto havia um grande baú. Os lençóis eram grossos e o colchão parecia ser preenchido com palha seca. Espalhados pelo chão vi alguns brinquedos, os quais, eu sentia de alguma forma que, pertenciam a mim.
Eram bonecas de pano, e alguns utensílios feitos de bambu.
Estava de noite, os painéis Shoji se encontravam entreabertos e pela abertura entrava uma brisa fresca com o aroma de cerejeira. Senti uma vontade imensa de ir até lá e admirar o céu. E assim o fiz, levantei-me, e caminhei até a pequena varanda.
No céu, a lua se encontrava majestosa, e as estrelas brilhavam vigorosamente. Fui completamente tomada pela nostalgia, e por uma alegria inexplicável. Eu realmente me sentia bem naquele lugar, eu sentia como se aquele fosse um refúgio no qual nada de mal pudesse me alcançar.
Tomada por esse sentimento sentei na varanda e fiquei observando o céu. Aquela casa pequena era cercada por várias árvores, dentre elas algumas cerejeiras, e muitos bambuzais. De alguma forma eu conhecia aquele lugar, ele se assemelhava e muito com minha casa, a casa na qual passei parte da minha infância.
Ao sentir o contado da brisa com meu rosto eu fechava os olhos, era uma sensação boa, me sentia em paz.
Ao longe ouvi, o que parecia ser, um barulho de matos remexendo. Em reação a isso abri meus olhos e vi, um pouco distante de onde eu estava, o que parecia ser uma pessoa. A silhueta daquele ser se assemelhava com a de um homem alto, mas ele parecia estar envolto por uma luz branca.
Algo além daquilo chamou minha atenção, daquele homem parecia vir um fio vermelho, que emitia uma aura também vermelha. E esse fio seguia um caminho até chegar a mim.
Me levantei para procurar onde aquele fio se prendia em mim. Olhei para minhas pernas, pés e tronco, mas não achei, até que resolvi olhar para minha mão direita e lá estava o fio, amarrado ao meu dedo mindinho.
Aquele fio parecia me ligar aquele homem, mas o que seria isso? E quem seria ele? Movida por essas perguntas, decidi correr até ele. Enquanto corria outros sentimentos começaram a surgir, eu sentia vontade de estar com ele, de tocá-lo e abraçá-lo, seria isso saudade? Mas saudade de quem eu não conhecia?
Quando estava me aproximando ele se virou para mim.
— Aya... – disse o homem esticando a mão em minha direção.
No dedo mindinho de sua mão se encontrava a outra extremidade do fio vermelho. Não entendi o porquê de ele ter me chamado de Aya. Seria esse meu nome verdadeiro? E de onde ele me conhecia?
Cuidadosamente fui me aproximando dele, comecei a ver parte de suas feições, ele possuía a pele branca e seus cabelos eram lisos, loiros que se estendiam até o ombro, mas antes que eu pudesse ver suas características por completo, uma voz familiar começou a invadir minha cabeça.
— Shirooo! – gritava desesperada a voz em minha mente.
Ajoelhei-me no chão e coloquei minhas mãos sobre a cabeça tentando fazer aquela voz parar, aquilo estava doendo. Estava tudo tão bem, e em paz. Por que isso agora?
Eu não queria sair daquele lugar, era tudo tão bom, tão tranquilo. Além disso eu queria ver quem era aquele homem.
De repente senti uma mão puxar meu braço, após isso senti meu corpo bater contra um chão duro, frio e molhado, e então todo aquele lugar maravilhoso desapareceu.”
Quando abri meu olhos, Subaru estava sobre mim. Nossos corpos molhados estavam em contato e suas mãos se encontravam ocupadas segurando meus braços. Sua face estava muito próxima a minha, nós estávamos próximos até demais, e aquilo me envergonhava muito.
Estava chovendo e ventando bastante, as gotas de chuva escorriam pelos cabelos e pelo rosto dele e após isso passavam para o meu rosto, para então encontrar o chão.
Ele me fitava fixamente e em seu olhar pairava um sentimento parecido com raiva e alívio ao mesmo tempo.
O que eu estava fazendo ali? Eu realmente não me lembrava de ter andado até ali.
— O-o que eu... – comecei a falar gaguejando um pouco, mas fui interrompida por Subaru.
— Você realmente dá muito trabalho... – disse ele me olhando nos olhos.
O olhar dele havia mudado, estava indecifrável e isso me dava medo, já não bastava aquela situação, ainda tinha aquele olhar me fitando. Subaru soltou meu braço direito, e após isso começou a abrir minhas vestes. Eu me encontrava trajada com uma camisa de força bege claro, e com uma saia de colegial, mas de alguma maneira elas estavam sujas de fuligem e pareciam estar queimadas em muitos pontos.
— Espera! O que pensa que está fazendo?! – indaguei indignada.
Com minha mão livre, agarrei a dele, na tentativa de impedi-lo de prosseguir com o que desejasse. Embora eu não soubesse exatamente o que ele faria, boa coisa não devia ser. E quando o interceptei, ele não reagiu.
O olhar de Subaru voltou-se para a área abaixo da minha clavícula, minha pele estava exposta naquela parte. Ele começou a aproximar sua boca da minha pele, pude sentir seus lábios gélidos e molhados de chuva entrarem em contato com minha pele quente e também molhada.
Um arrepio percorreu meu corpo ao sentir tal estímulo, eu sabia o que ele faria, ele se alimentaria do meu sangue, e eu não queria isso.
Subaru parecia estar com a guarda baixa, e essa seria a minha chance de sair dessa situação.
Aquele lugar deveria ter uma saída. Olhei de relance para trás e pude ver o que parecia ser o inicio de uma construção, na qual, deveria estar a saída daquele lugar.
Em um movimento rápido, o empurrei para longe de mim, olhei na direção da construção que eu havia visto e lá estava a porta, aberta e me esperando...então rapidamente corri para lá. Tentei ser o mais rápido que eu podia, evitei olhar para trás pois do jeito que eu era desastrada eu cairia.
Além disso, Subaru estaria furioso pois ele estava faminto, e sua comida tinha saído correndo.
Eu também não ia gostar disso, mas nesse caso eu sou a comida, então deixarei minha empatia de lado, e não me colocarei no lugar dele.
Desci os degraus de dois em dois, para ser mais rápida. Meu coração batia frenético, meu corpo inteiro pulsava devido a adrenalina que corria em minhas veias, e minha respiração estava ofegante. O lugar estava bem escuro, mas eu conseguia enxergar um pouco e assim consegui descer até o andar abaixo do que eu me encontrava. Abri a porta que levava para os corredores e de repente um vento passou por mim, vi Subaru na minha frente.
Estremeci com o susto e com seu olhar dele. Seus olhos ardiam em desejo de sangue, meu sangue. Tentei correr, mas ele agarrou meu braço, me jogou contra a parede e imediatamente colou seu corpo frio no meu.
Urrei de dor, ao sentir o impacto do meu corpo com a parede.
— Você acha mesmo que fugiria de mim? – indagou ele com o rosto próximo ao meu. – Como você disse, sou o mais salvagem...então seria impossível para você fugir de mim. – sussurou ele por fim, com um leve sorriso.
Odiei aquele sarcasmo. Eu não me lembrava de ter dito isso. E novamente ele estava muito perto, mais do que antes, deveria haver somente alguns centímetros separando nossos lábios. E eu podia sentir seu hálito frio.
Aquela situação me abalava em todos os sentidos. Tanto físico, quanto psicológico e emocional.
Tentei me debater, mas de nada adiantou. Acho que a única coisa que consegui foi aumentar a raiva dele.
— Você não vai fazer a mesma coisa duas vezes... – sussurrou ele balançando levemente a cabeça em sinal de negação.
— P-porque voc... – comecei a falar, mas fui interrompida por Subaru.
— Sshhh... – fez ele com o dedo indicador sobre o seu lábio.
Mas inevitavelmente seu dedo estava esbarrando também nos meus lábios. Seu dedo era frio como o seu corpo. Subaru parou de olhar em meus olhos, e passou a encarar minha boca. Com o mesmo dedo ele começou a acariciar meus lábios, continuando a fitá-los.
— N-não faça nada, p-por favor... – disse com a voz tremula.
Aquela situação estava me deixando com extrema vergonha, ele estava invadindo meu espaço e sem sequer pedir licença. Meu coração batia rápido e minha respiração estava ofegante.
Ele tirou seu dedo dos meus lábios, arredou meus cabelos do pescoço. Eu podia jurar que ele cravaria suas presas em mim, mas ele envolveu meu pescoço com sua mão e empurrou minha cabeça na direção dele, parando quando nossos lábios se encontraram.
Aquilo tinha me pegado de surpresa, arregalei meus olhos, meu coração deu um salto, e de rápido passou a bater frenético.
Até que Subaru afastou um pouco seus lábios dos meus. Senti-me um pouco aliviada, mas eu ainda me encontrava surpresa com aquilo.
— Você fala demais... – sussurrou ele puxando meu corpo mais para perto do dele, e depois me beijou novamente.
Sua língua começou a invadir minha boca, tentando envolver a minha naquele enlace. Todo meu corpo começou a ficar extremamente sensível, cada vez que Subaru acariciava meu pescoço enquanto me beijava, me fazia estremecer.
De repente ele parou de me beijar e rapidamente mordeu meu pescoço. Sentir suas presas cravando em minha carne me causava dor, e a dor era intensificada devido a sensibilidade em que eu me encontrava.
Eu podia sentir meu sangue sendo sugado vigorosamente, e Subaru parecia se lambuzar com o mesmo. Depois de sugar meu pescoço por um tempo, ele mordeu a área abaixo de minha clavícula. Enquanto bebia, ele parecia se sentir inebriado com meu sangue. Subaru começou a querer me despir, até que comecei a ouvir alguns passos no corredor onde nos encontrávamos. Tentei alertá-lo, mas ele parecia não me ouvir. Subaru paria estar em Frenesi, e ele ignoraria tudo que estava ao redor.
Os passos se aproximavam mais e mais, de repente ele parou de sugar meu sangue e tirou suas presas de mim. Novamente senti uma pequena dor, mas eu estava mais preocupada em sair dali.
Fiz um gesto para Subaru, no qual eu apontava para os ouvidos. Eu queria que ele ouvisse que havia alguém chegando ali.
Ele olhou na direção em que vinha o som dos passos, e rapidamente me pegou no colo.
— Feche os olhos e não abra até que eu diga. – disse ele.
Naquela situação, eu simplesmente fiz o que ele pediu, fechei meus olhos. Senti um vento batendo em meu corpo, até que aquilo foi substituído pelo barulho da chuva e pela sensação das gotas batendo contra meu corpo. Eu havia voltado pra onde eu estava?
— Agora pode abrir os olhos! – disse Subaru em um tom imperativo.
Abri meus olhos, e me vi em um beco escuro.
— O-onde estamos? – indaguei receosa.
— Vou te levar para casa! – afirmou ele, virando as costas para mim, e começando a caminhar.
E assim eu o segui. Passamos por algumas ruas que não consegui reconhecer, até que passamos por um lugar estranho.
Aquele lugar estava todo cercado com faixas listradas de amarelo e preto, e nas faixas estava escrito “Mantenha Distância”. A faixa delimitava uma área toda destruída, haviam escombros para todos os lados, muitas ferragens que parecia ser de carros, além de ferragens das construções destruídas. E em meio aquela destruição havia alguns investigadores, policiais e bombeiros. Ainda podia-se ver algumas pessoas com guarda-chuvas que assistiam ao trabalho daquelas pessoas.
No centro daquela destruição pude ver as ferragens de um carro, eu parecia reconhecê-lo de algum lugar e ao chegar a essa conclusão alguns flashes começaram a surgir em minha mente: Eu estava amarrada a uma camisa de força, depois vi um clarão. Pude ver também muito fogo, e em minhas mãos havia um pouco de sangue.
Arregalei meus olhos, meu coração apertou e minha respiração começou a ficar pesada. Enquanto esses flashes vinham a minha mente trazia consigo uma dor de cabeça e um desespero aterrador. Que memórias eram aquelas?
Imediatamente olhei para minhas mãos e elas estavam um pouco borradas de vermelho.
— N-não...não fui eu! – murmurei pra mim mesma.
— O que você disse? – perguntou Subaru, interrompendo seu caminhar e virando-se para me olhar.
— E-e-eu não disse nada! – respondi a ele desviando o olhar.
— Tem certeza? – perguntou ele novamente.
— Claro que tenho! – disse tentando me manter calma, e ainda de cabeça baixa.
— Então vamos... – disse Subaru por fim voltando a caminhar.
Assim caminhamos por alguns minutos, nos afastando do incidente. Não havia ninguém na rua, parecia que a chuva havia forçado algumas pessoas a voltarem para suas casas, em vez de acompanhar o trabalho da polícia e dos bombeiros. Até que paramos perto de um Asx de cor cinza.
— Vamos esperar aqui. – disse Subaru.
Estava cansada de ficar em pé então resolvi sentar na beira da calçada. Já Subaru permaneceu encostado no carro.
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