A Dama Branca
12 Um Homem Suspeito
Notas iniciais

Fiquei sentada na beira da calçada, e a chuva parecia que não pararia. Eu gostava daquela situação, me sentia bem e viva com a sensação do contato com a chuva. De alguma forma eu me sentia um pouco cansada, e devido a isso fechei meus olhos.
Aos poucos aquele “sonho” começou a invadir meus pensamentos. Quem seria aquele homem? E por qual razão ele me chamava de Aya?
Eu realmente estava determinada a sanar essas minhas dúvidas, mas seria um pouco difícil pois, eu não me lembrava dele, aliás, eu não me lembrava de muita coisa do passado.
Depois que eu fui para aquele laboratório, houve muitos momentos de dores, e memórias ruins, mas depois de um tempo a dor parou. E assim como a dor se foi, parte das minhas memórias também. Mas isso tudo tinha um ponto positivo, afinal se coisas boas tivessem acontecido no passado, eu acho que me lembraria.
De repente uma sensação começou a atrapalhar meus pensamentos, eu me sentia como se estivesse sendo observada. Seria Subaru?
Abri meus olhos, e rapidamente olhei para ele, mas ele se encontrava no mesmo lugar de antes, de cabeça baixa e olhos fechados.
Subaru não seria Ninja de me causar tal sensação de olhos fechados. Ao pensar isso, soltei um leve sorriso. Apesar do seu jeito um tanto rude de ser ele tinha seu charme, eu tinha que admitir. Mas, se não era Subaru que estava me causando tal sensação quem seria?
Motivada por tal, comecei a olhar para os lados, a procura de alguém, mas não havia ninguém. Olhei para trás e vi somente um beco vazio. Resolvi então olhar para o topo dos prédios.
No edifício de frente para onde eu e Subaru estávamos consegui ver a silhueta de alguém, e imediatamente quando o vi, um raio cortou os céus. Ele parecia ser um homem e era alto e esbelto, trajado com um sobretudo preto e com roupas que pareciam ser da mesma cor porém não consegui ver os detalhes das vestes dele. Além disso ele se encontrava com um chapéu, que tampava suas feiçoes.
Eu sentia que apesar de eu não conseguir ver suas feições ele me encarava, e eu não estava gostando daquela situação. Aquilo estava me deixando inquieta, e com certo pavor.
— S-subaru... Não é melhor irmos embora logo? – sugeri a ele.
Eu realmente não queria ficar ali muito tempo, não com aquilo me olhando, e além disso eu não contaria a Subaru sobre o homem, pois aquele homem poderia tentar machucá-lo como o soldado tinha feito. E eu não queria ser responsável por isso, não mais uma vez.
— Estamos esperando Ayato. – respondeu ele friamente. – Mas parece que ele morreu em algum lugar. – disse por fim com ar sarcástico.
— Ayato não morreria assim... – retruquei, apesar de ter entendido o sarcasmo.
Inesperadamente um vento passou por minhas costas, e imediatamente olhei para o prédio onde eu tinha visto aquela silhueta.
Mas ele não estava lá. Meu corpo inteiro ficou anestesiado pelo medo, minha mente ficou em branco e meus olhos se arregalaram, fiquei completamente imóvel, como uma presa diante de um predador que ataca a qualquer movimento. Aquele dia estava sendo amaldiçoado, era a única explicação, e isso me indignava.
Vi a sombra dos braços de alguém vindo me envolver pelas costas, mas por medo, permaneci imóvel.
— Marshmallow! – exclamou uma voz familiar me envolvendo em um abraço.
Aquele jeito de me chamar era único, eu sabia muito bem quem era. Suspirei aliviada.
O corpo de Ayato encostava no meu, e ao contrário de mim ele se encontrava complemente seco e já eu, ensopada. Apesar do alívio, algumas coisas ainda me incomodavam, eu me sentia um pouco confortável nos braços do Ayato, e outra, onde aquele homem foi parar?
— Que roupas são essas? – indagou Ayato parecendo confuso por causa da camisa de força.
Ele estava bem perto, seu queixo se encontrava em meu ombro e seu rosto muito próximo ao meu ao ponto de nossas bochechas se encostarem, e isso fazia meu coração bater mais rápido.
Inclinei minha cabeça um pouco para o lado, na tentativa de manter um pouco mais de distância.
— Já chega disso! Vamos embora logo! – disse Subaru rangendo os dentes.
Eu não tinha reparado, mas ao lado de mim e Ayato havia um guarda-chuva, estava explicado o porquê de ele estar seco.
— Tsc...Certo, certo... – disse Ayato se levantando, e pegando o guarda-chuva que se encontrava ao lado. – Mas ela não vai entrar no carro com essas roupas molhadas. – concluiu ele olhando para mim com um sorriso travesso nos lábios.
— Como não?! – indaguei indignada. – Não sou a única que está molhada, Subaru também está!
—Sim...mas ele vai dirigir, e eu sou o dono do carro, então eu decido quem pode ou não entrar com as roupas molhadas. – disse ele piscando o olho e com o mesmo sorriso travesso.
Aquilo era injusto, eles não me deixavam escolha, e Ayato sempre gostava de me deixar em situações constrangedoras, isso o divertia, e me irritava.
— Isso é injusto! – exclamei levantando rapidamente e olhando para Subaru.
Ele podia me ajudar a argumentar contra Ayato, mas ele simplesmente suspirou.
— Me passe as chaves. – disse Subaru esticando o braço e abrindo a mão.
Imediatamente Ayato jogou as chaves e em um movimento bem rápido, Subaru pegou as chaves, abriu a porta do carro que correspondia ao motorista, sentou no banco e lá ficou.
Uma raiva e indignação inexplicável começou a surgir em mim, e em resposta a isso cruzei os braços. E evitei olhar nos olhos do Ayato. Ele realmente estava dificultando as coisas, eu não ia tirar minhas roupas, não mesmo!
Ayato me contornou até parar em minha frente, o guarda-chuva dele cobria nós dois.
— E então... como vai ser?! – perguntou ele com aquele sorriso irritante nos lábios.
Minha vontade era tirar aquele sorriso com um tapa, mas eu não faria isso. Eu não deixaria transparecer que aquilo me abalava.
— E-eu não vou tirar minhas roupas! Estamos no meio da rua! – conclui virando a cabeça pro lado e fechando os olhos.
Senti-me uma criança mimada, mas eu não ia ceder. Além daquele pedido absurdo, eu não ia fazer isso no meio da rua. E também não ia ficar de lingerie perto deles, eles iriam me devorar, e outras coisas mais as quais eu não gostava nem de pensar, pois me dava vergonha e muito medo.
— Vejamos...vou facilitar um pouco pra você... – fez uma pausa tirando o blazer que ele vestia, e colocando-o em um dos seus braços. – Você pode tirar essas roupas naquele beco, eu lhe dou meu blazer para vestir, e enquanto se troca eu seguro o guarda-chuva...Que tal? – disse ele por fim, me encarando.
Nos olhos dele, parecia pairar um misto de travessura, desejo e diversão. E aquilo me fazia ficar extremamente insegura. Lá no fundo eu sentia que isso não daria certo, mas eu sabia que Ayato era teimoso, e ele não cederia ao que eu dissesse.
Assim, respirei fundo, tentando não mostrar que aquilo me afetava e resolvi encarar a situação.
— Que seja então! – respondi a ele, tentando não transparecer minha vergonha, mas eu sentia que aos poucos eu ficava ruborizada.
Assim ele me acompanhou até o beco, e ficou atrás de mim segurando o guarda-chuva, além da situação constrangedora, a distancia entre nós era pequena, tão pequena que eu sentia a respiração dele bater em meus cabelos. O nervosismo começou a tomar conta de mim, e comecei a tremer um pouco, minha respiração estava ofegante e meu coração batia bem rápido.
— Ande logo...O que está esperando? – disse Ayato.
Saltei de susto. Meus sentidos estavam tão alertas que ao mínimo estimulo meu corpo respondia de maneira desajeitada e um tanto incontrolável.
Ayato soltou um risinho ao presenciar meu susto, e aquilo me irritou profundamente.
Olhei para a camisa e a frustração me consumiu, aquilo era uma camisa de força, não tinha como eu tirar sozinha! Camisas de força são abertas pela parte de trás.
Aquilo agradaria e muito ele, eu já podia imaginar seu sorrisinho irritante.
— I-isso é uma camisa de força, Ayato... Não tem como eu tirá-la pela frente! – comecei a gaguejar, só de pensar na ideia do Ayato me despindo.
Meu nervosismo aumentou, e pelo meu corpo corria um arrepio estranho, não era ruim, mas me causava um certo desconforto.
— Opa! A situação está melhor do que eu esperava... – disse rindo ao fim.
Eu sabia que ele diria algo do tipo, e aquilo me fez gelar. Fiquei paralisada.
Ayato arredou meus cabelos e os colocou sobre meu ombro, de maneira que ele pudesse ver minhas costas. E aos poucos foi tirando minha camisa, ele estava sendo um tando delicado, e isso me impressionou.
Minhas costas ficaram nuas quando ele terminou desentrelaçar as amarras, após isso ele pousou sua mão sobre minha nuca e foi deslizando para baixo.
Seus dedos frios tocavam minha pele quente e molhada, e o choque de temperaturas me fazia estremecer. Alguns calafrios percorriam meu corpo enquanto ele me tocava. Fechei os olhos por causa da vergonha e das sensações que aquilo estava me causando, tentei ao máximo pensar em outra coisa, mas estava muito difícil.
Ele se aproximou ainda mais de mim de maneira que nossos corpos se encontraram. Ele envolveu me com seu braço e pousou sua cabeça em meu ombro. Nesse instante, meu coração deu um salto e passou a bater ainda mais frenético. Abri levemente meus olhos e olhei de relance para ele, e ele se encontrava de olhos fechados. Aquilo foi inesperado, e bem estranho.
— Fico feliz de ter encontrado você! – com uma voz doce ele sussurrou bem baixinho, como se estivesse pensando alto.
Aquelas palavras tinham me surpreendido ainda mais e me tocado de uma maneira diferente, eu não sabia explicar como, mas me senti feliz ao ouvi-las. Pelo menos alguém sentira minha falta.
Após dizer isso ele tirou o que restava da minha camisa, pousou suas mãos sobre meus ombros e as deslisou pelos meus braços até suas mãos encontrarem as minhas, então ele as apertou forte, e depois as soltou, e rapidamente cobriu-me com seu blazer.
Fiquei ainda mais surpresa com aquela atitude, eu não esperava aquilo dele. Juro, que eu esperava que ele me mordesse, mas ele me tratou de uma forma tão carinhosa, que senti até um pouco mal por ter pesado em bater nele. E esse carinho fez aumentar ainda mais um sentimento estranho que eu sentia.
Assim, ele afastou um pouco seu corpo do meu. Ayato estava ainda mais imprevisível do que nunca. Será que ele estava esperando que eu fizesse algo? Espero que não, pois eu não conseguia reagir fisicamente a nada, eu estava refém dos estímulos, sensações e sentimentos que ele me causava.
— O que está esperando para tirar a saia? – disse ele com seu tom normal.
Novamente eu assustei quando ele disse isso. E seu tom de voz havia voltado ao normal, não estava doce como antes. Fiquei realmente um pouco deslumbrada com a atitude que ele teve. Mas esse deslumbre tinha passado quando ele disse para eu tirar a saia.
Rapidamente tirei a saia, e a vergonha tomou conta de todo o meu ser, senti meu rosto extremamente quente, e a tremedeira voltou, porém mais leve.
Eu me encontrava somente com minhas lingeries brancas, e com o blazer de Ayato. Assim eu o fechei com as mãos.
— Pronto! Já fiz o que você queria! – disse tentando manter meu tom de orgulhosa.
Caminhamos um ao lado do outro até o carro, e eu estava andando meio estranha, estava tentando me encolher ao máximo para não mostrar nada. Além disso mantive minhas duas mãos fechando o blazer.
Entrei no carro e sentei, e após isso Ayato sentou ao meu lado, me deixando um pouco inquieta, e com vergonha.
— Não vai no banco da frente com Subaru?! – perguntei tentando influenciar ele a trocar de lugar.
— Não, não...Vou aqui mesmo para ficar olhando suas lindas pernas. – disse ele olhando para minhas coxas com aquele sorriso travesso.
Fiquei ruborizada com tal situação. E imediatamente me encolhi e coloquei minhas mãos sobre minhas coxas na tentativa, um tanto falha, de escondê-las.
Subaru ligou o carro e então partimos em direção a mansão Sakamaki.
O blazer de Ayato não ficara muito comprido para mim, ele cobria até uns bons centímetros acima da metade das minhas coxas. Além disso aquele era o blazer que ele sempre usava, como seria o cheiro dele?
Essa dúvida me incomodava, eu precisava saná-la. Então virei meu rosto tentando disfarçar o que eu estava prestes a fazer, puxei as mangas de maneira que cobrissem minhas mãos como luvas, e trouxe minhas duas mãos até meu nariz, para que eu pudesse sentir o cheiro dele. E assim inspirei profundamente.
Realmente havia o cheiro dele impregnado ali. Aquele cheiro era extremamente bom, me parecia familiar e me trazia conforto, embora eu não quisesse sentir isso.
Enquanto eu inspirava, ouvi um pequeno risinho ao meu lado.
— O que está fazendo? – indagou Ayato meio desconfiado.
Dei um salto, e rapidamente retornei a minha posição de antes, mas sem encará-lo.
— N-n-nada! – respondi gaguejando.
Senti vontade de me bater naquela hora, eu tinha gaguejado! Estava na cara que estava fazendo algo estranho ou suspeito.
— Estava cheirando meu blazer? É isso mesmo?! – perguntou ele, mas essa pergunta tinha um tom de ser retórica.
A vontade de sumir dali só aumentou. Ele tinha visto! Que vergonha! Fiquei sem palavras e sem reação.
Ayato só riu ainda mais.
Depois disso fiquei o caminho inteiro até a mansão de cabeça baixa, e completamente sem graça.
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