A Cólera Dos Deuses

7 Capítulo LACRIMAE SUAE SANGUINUM


Notas iniciais
****Bem, aí está mais um capítulo, exatamente quando faz um mês e um dia da outra postagem. Espero que perdoem a demora e gostem! Bjs e boa semana!!
**** A tradução do título do capítulo é Lágrimas de Sangue.

O dia findava em tons de roxo e laranja, encontrando Shun organizando alguns poucos pertences. Na verdade, ele não sabia nem o que levar e, horas antes, ficara perambulando pela domus como um fantasma, pedindo força às sombras que cobriam as paredes... Era estranho sentir-se um instrumento de vingança e ter de seduzir um homem experiente como Hades. Sentia um aperto nas entranhas só em pensar no que teria de fazer.


- Já está pronto?


A voz rouca de sua vó preencheu o salão e Shun voltou-se para o vulto que surgia junto com a claridade rarefeita que ameaçava insinuar-se no atrium.


- Vó, eu... Eu não sei como fazer isso. – respondeu Shun com uma visível angústia.


- Não terá que fazer nada! Seja você mesmo e a probabilidade deste plano obter êxito será total.


- Ser eu mesmo? Mas eu odeio aquele homem! Como vou seduzi-lo?


- Será que odeia mesmo?


Shun franziu o cenho, os olhos de Abeona pareciam cintilar com aquela pouca luz. De repente, sua avó não se parecia com um ser humano e sim uma personificação de todos os sentimentos ruins que alguém poderia ter.


- O-O que quer dizer com isso?


- O maldito pode ser um crápula, mas possui carisma e magnetismo. Eu vi como ele olhou para você, assim como percebi algo em você também.


- A senhora está vendo coisas! Eu... Eu o tinha conhecido na rua. Ele impediu que eu fosse atropelado, mas... quando eu o vi no funeral e soube quem era, odiei-o de imediato!


- Mas antes de saber, sentiu-se atraído, não foi?


- N-Não! – gritou Shun e sua voz tremeu.


- Aprenda uma coisa, meu neto. O oposto do ódio não é o amor, e sim a indiferença! Hades o deseja e o fará desejá-lo, também. O fato é que ao tentar conquistá-lo, ele se tornará vulnerável. E quando isso acontecer, nós iremos destruí-lo!


Um gosto amargo insinuou-se na boca de Shun. Sua vó não parecia a mesma pessoa e sim uma entidade movida a ódio e planos mirabolantes. Temia que a perda de June a fizera abdicar de sua humanidade e agora, ela exigia que ele fizesse o mesmo.


Abeona colocou as duas mãos nos ombros de Shun e encarou-o, séria e gélida como se fosse uma das esculturas do jardim.


- Dócrates vai acompanhá-lo. Você vai hoje, agora mesmo!


Shun pensou em recusar, mas enfim, já havia dado a sua palavra, então devia honrá-la.


- Está bem. – respondeu sem olhar nos olhos de Abeona.


O velho escravo aproximou-se, sentindo o clima pesado. Vagarosamente, colocou-se disponível para ajudar Shun a organizar sua bagagem. Lembrou-se dele criança e também do irmão mais velho que agora servia como centurião. Desde que haviam se separado, a tragédia os rondava e ele pedia aos deuses que protegessem àqueles dois meninos que, em sua opinião, eram a única parte boa daquela família...


- Vou ajudá-lo a preparar sua bagagem, meu senhor. – disse Dócrates.


Shun seguiu o homem idoso sob o olhar vigilante de Abeona. Podia sentir a força do ódio dela acompanhando-o e temeu tornar-se assim, amargo, rancoroso e tão vazio por dentro que apenas o ódio podia estabelecer-se em seu coração. Mesmo tentando resistir, antes de adentrar o corredor, olhou para trás e pareceu ver June ao lado de sua avó, uma sombra ao lado de outra...


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Saga abriu os olhos e Afrodite o encarou com bondade e sorriu com o canto dos lábios. Embora sua cabeça ainda latejasse, o cônsul sentia-se mais presente em seu corpo e as dores pareciam ter diminuído, um pouco.


- Até que enfim torno a ver a bela cor dos seus olhos, domini! – disse o jovem tomando nas mãos um pano úmido e colocando-o na testa do cônsul.


- Afrodite... – sussurrou Saga movendo-se com dificuldade.


- Tenha cuidado, os ferimentos ainda estão abertos. – pediu Afrodite ajudando-o a apoiar-se sobre os ombros.


- Onde... estou? O que vocês fizeram?


- O tiramos da prisão e agora vamos levá-lo para fora de Roma. Já está tudo encaminhado para esta noite, portanto não há com o quê se preocupar.


- Vocês invadiram a prisão? Hades... e o... Imperador vão caçá-los! – falou Saga apoiando-se nos cotovelos e forçando para se levantar.


- Domini! Não! Se forçar vai piorar seu estado!


- Então ajude-me...


- Se quer fazer suas necessidades eu trago o...


- Não! Quero sair desta maldita...cama!


Afrodite suspirou, pegou a ânfora e despejou o restante da água límpida dentro da bacia de metal enchendo-a até a borda.


- Está bem, mas apoie todo o peso em mim e comece sentando.


Enquanto apoiava Saga, Afrodite viu Albafica surgir com uma taça.


- Preparei este tônico, mas terá que descansar mais um pouco. A jornada será longa, domini. – disse o jovem averiguando os ferimentos e a testa do cônsul para verificar-lhe a febre.


- Estou nu... gostaria de me vestir. – disse Saga bebendo da taça trazida por Albafica.


- Já providenciei, domini. Mas antes, quero que saiba que são roupas de escravo. Não podemos correr o risco de que seja reconhecido. – falou Afrodite com uma peça de roupa escura, feita de algodão grosseiro.


- No meu atual estado... acho que nem mesmo Kanon me reconheceria. – disse Saga tentando sorrir.


No atrium, Milo conversava com Máscara da Morte, enquanto o restante arrumava mantimentos e armas sob a supervisão de Manigoldo. Camus havia saído para conseguir uma carroça de forma mais discreta possível.


- O que tá te inquietando, escorpião? – perguntou Máscara vendo que Milo parecia distante.


O gladiador cruzou os braços em frente ao corpo e apoiou os ombros contra a parede.


- Não estou nem um pouco a fim de deixar Camus e Afrodite prá trás. – disse ele com o cenho franzido.


Máscara sorriu, malicioso.


- Nunca pensei em te ver assim, de quatro por alguém. Mas, eu te entendo, também não estou a fim de deixar Afrodite. No entanto, ele e o Camus planejaram tudo com detalhe e nós somos bons com a espada. E se a gente interferir e colocar tudo a perder?


Um traço sombrio escureceu o comum brilho de seus olhos e Milo não respondeu. Não conseguia explicar, era apenas uma sensação que dominava seu peito de tempos em tempos. No entanto, havia lógica no que Máscara dizia e Camus era um homem cujo raciocínio apurado e certeiro, admirava. O plano havia dado certo por causa dele. Suspirou e olhou para o céu que começava escurecer.


- Tem razão, não podemos arriscar. – disse Milo e tratou de afastar os pensamentos.


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Titus olhou para o soldado à sua frente com o semblante fechado. Uma das suas tropas havia sido dizimada e pelo homem que ele mesmo libertara na arena! Deu uma última olhada no pergaminho que lhe fora entregue, antes de lançá-lo ao fogo com fúria.


- Então Scorpionis e o restante libertaram Saga... Malditos!


Havia chamas na imensa lareira e Titus cobriu-se com o manto púrpura e fixou o olhar no fogo vivo que se alimentava do pergaminho. Cerrou os dentes e fechou o punho como se estivesse esmagando algo invisível.


- Hades virá, ainda hoje?


- Sim, César! Ele pede, inclusive, que o perdoe por enviar-me antes. Ele está cuidando de alguns detalhes.


- Detalhes?


- Sim, ele planejou uma armadilha e está cuidando, pessoalmente, dos detalhes finais.


- Independente disso, reúna os homens da segunda legião pretoriana e espalhe cartazes com os nomes de todos os ex-escravos de Gemini. Oferecerei uma recompensa por cada cabeça e condenarei à morte por crucificação quem os ajudar.


- O farei imediatamente, César!


Quando o soldado deixou o salão, Titus voltou-se para o busto esculpido de seu rosto. O artista havia feito aquela obra quando ele ainda era jovem e cheio de expectativas. Agora, olhando bem de perto, não encontrava mais aquela expressão em si mesmo e nem os sentimentos que se apoderaram do seu coração, naquela época.


Cláudia... que falta me fazes! Jamais fui feliz, novamente. Será um castigo? Viverei, eternamente, nessa ciranda de poder e morte? Pensou Titus, enquanto recordava-se da amante.


Esposa de seu melhor amigo, Gracus, ela o amara e incentivara a tornar-se político.Eram jovens quando se conheceram em um banquete e desde então, tornaram-se amantes apaixonados. Cláudia o apoiara em tudo, até mesmo quando se afastou dela e foi guerrear com seu pai por anos a fio. E o que lhe dei em troca? O mais vil dos presentes: a traição!


Novamente, olhou para as chamas que agora arrefeciam deixando brasas avermelhadas em seu lugar. Não notou quando sua esposa adentrou o salão cambaleando com uma taça de vinho em uma mão e uma pequena ânfora na outra.


- Ah, aí está... O senhor meu marido! Faz dias que não o vejo. – disse Márcia com a voz arrastada.


Titus olhou-a com desdém. Nunca a amara e ela nunca lhe dera um varão, apenas uma menina franzina e doente chamada Júlia. Como seria se tivesse desafiado tudo e todos para assumir Cláudia? Ela teria lhe dado filhos tão belos como ela?


- Vá deitar-se! Tenho trabalho a fazer. – disse ele, secamente.


- Sozinha? Não quer tentar esta noite? O oráculo disse que se fizermos amor, durante a lua cheia, a chance de termos um varão é...


- Para o inferno com o oráculo! Deixe-me em paz, mulher! – disse Titus interrompendo a fala da esposa.


Márcia baixou os olhos e obedeceu. Deixou o salão com passos rápidos e um soluço preso na garganta. Titus ignorou-a e continuou a olhar as chamas. Não sentia o menor desejo por Márcia e mesmo ainda sendo, relativamente jovem, esquecera o que era sentir-se dentro de uma mulher. Cláudia havia sido a única que o despertara para o desejo, a única que amara... E, mesmo assim, escolhera o poder e agora teria de conviver com esta escolha até sua morte.


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Sentado à mesa farta, Hades mandou vir a ceia, antes de ir encontrar o imperador. O escravo trouxe-lhe vinho mediterrâneo envelhecido e serviu-o. A noite se aproximava e ele já providenciara os detalhes principais de sua armadilha.


Olhou para os figos ao redor da carne tenra da codorniz e divagou, refazendo os acontecimentos recentes. Acabaria com todos os seus inimigos com o requinte de um mestre. Sabia como o imperador agiria, após ser informado da dizimação de sua preciosa guarda. Havia sido apenas um destacamento, mas a guarda pretoriana era notória em força e eficácia. Perdê-la significava uma baixa na influência e prestígio. Titus irá oferecer uma recompensa e enviará a guarda para a saída da cidade. Isso os fará tomar outros caminhos e quando acontecer... Eles estarão indo direto para onde eu planejei.


- Perdão, domini, mas tem um jovem desejando falar-lhe.


Hades bebeu um gole de vinho e quase sorriu.


- Faça-o entrar.


- Sim, domini.


Shun entrou, vendo Hades com uma expressão satisfeita. Sentiu um estremecimento que tratou de controlar.


- Perdoe-me vir assim, mas minha avó insistiu para que eu me colocasse à sua disposição de imediato. – disse o jovem, sério.


Hades observou-o de alto a baixo e, ao contrário do esperado, não demonstrou o desejo que aquele jovem lhe despertava. Limpou os lábios e depositou a taça sobre a mesa.


- Já jantou? – perguntou o cônsul.


- Não, domini.


- Sente-se. – disse Hades indicando-lhe o lugar à mesa.


- Se não for ofendê-lo, não costumo cear a esta hora. – respondeu Shun sustentando o olhar diante dos olhos frios e intensos do cônsul.


- Deixe-me explicar-lhe... sua avó o enviou a mim para que me sirva. Para isso, tem de saber a rotina de tudo o que acontece e inserir-se nela. Entretanto, não vou tratá-lo como um criado e exigir-lhe coisas descabidas. Será como um convidado em minha casa e creio ser indelicado para com o anfitrião recusar-se a acompanhá-lo em sua ceia. – disse Hades e o tom de suas palavras oscilava entre o formal e o... íntimo.


Àquelas palavras, Shun reagiu com incredulidade. Não esperava esse tipo de tratamento de Hades, principalmente depois de demonstrar o ódio que sentia por ele. Havia naquele homem uma espécie de autoridade sedutora que, ao mesmo tempo, parecia encerrar em si uma aura de crueldade fria e estudada.


Sem nada dizer, o jovem sentou-se e Hades sinalizou ao escravo para que o servisse. Os lugares eram próximos e ao ver que Shun mantinha o olhar desviado do seu, o cônsul aproximou-se dele e disse com a voz grave:


- Aprenderá muito, comigo, Shun. E a nossa primeira lição é: nunca priorize o chão sobre o olhar de quem o recebe. Olhe para mim.


Shun obedeceu e então percebeu o cintilar ardente dos olhos, antes frios e distantes. Sentiu um arrepio na nuca e um desconforto em sua respiração. Manteve a postura firme até Hades desviar os olhos e estender a taça para ser servido de vinho.


- Muito bem, agora coma, enquanto seus aposentos serão preparados para recebê-lo. Como não o esperava, tenho coisas urgentes para tratar.– disse o cônsul deixando a mesa farta e o jovem tomado pela confusão.


Quando Hades deixou a domus Shun abraçou o próprio corpo e soltou um longo suspiro. Estava sozinho, entregue à própria sorte, agora. O primeiro movimento fora feito, mas ele temia quais seriam as jogadas a seguir e se teria coragem para executá-las...


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A carroça trazida por Camus era fechada e pertencera a um grupo de artistas itinerantes que desistira de apresentar-se na cidade. Estavam magros e famintos, prontos para matar e comer os cavalos que movimentavam seu meio de transporte. De bom grado aceitaram as moedas de cobre e a incumbência de usar outra carroça aberta e deixar Roma ao final da noite. Assim, Camus conseguiu algo discreto para transportar Saga para fora de Roma e deu início ao plano de burlar a barreira que seria feita para prendê-los.


- Bem, só temos que trocar os cavalos e logo poderão viajar. – disse Camus.


Milo foi até Camus e o levou para outra peça. Quando não havia sinal de ninguém, puxou-o, fortemente, de encontro a si. O polegar acariciou os lábios do amante e o olhar foi penetrante e tão sério que o ruivo estranhou.


- Escute... Vou seguir o seu plano mesmo contra vontade. Mas eu faço uma exigência, quero que Manigoldo fique com vocês para o caso de precisarem. Nem você, nem Afrodite tem experiência com armas, portanto aceite, por favor... Faça isso Camus. – disse Milo.


Camus sorriu com a preocupação de Milo. Ele ficaria apenas até o amanhecer e esperaria Afrodite deixar as coisas encaminhadas com Shun. Não era nada tão difícil visto que estavam muito bem escondidos. No entanto, Milo, sim, deveria deixar Roma o mais rápido possível e Saga também.


- Está bem. – respondeu Camus suspirando. – Mesmo achando desnecessário, eu aceito se isso o deixa menos preocupado.


A rigidez desapareceu do rosto do gladiador e ele olhou para Camus com desejo, aproximando o rosto do dele. Faíscas de prazer percorreram o corpo de ambos quando o beijo ardente uniu as bocas.


- Milo... – gemeu Camus, quando os braços musculosos do amante o rodearam e apertaram fazendo-o sentir a língua sôfrega na sua, o poder rijo do desejo dele contra o corpo...


Quando o beijo impetuoso começou a fazer os corpos incendiarem, Milo interrompeu o ato e nada disse, apenas olhou dentro dos olhos de Camus deixando transparecer o amor profundo que sentia por ele. Camus abraçou-o e fechou os olhos, saboreando a proximidade.


- Nos encontraremos logo... Vou compensar a preocupação que está tendo comigo. – disse o ruivo baixinho junto com o roçar dos lábios no pescoço do gladiador.


Milo estremeceu ao contato e sorriu.


- Vou cobrar isso, ruivo... – respondeu ele, também baixo, antes de se afastar.


Afrodite e Albafica surgiram com Saga apoiado entre os dois. Máscara, Aldebaran e El Cid já haviam aprontado tudo na carroça e Manigoldo permanecia junto de Milo e Camus.


- Bem, estamos prontos! – disse Albafica.


- Bem, pessoal, já sabemos como vai funcionar. Há essa hora, já devemos estar sendo procurados por toda Roma e deve haver barreiras para averiguar quem está deixando a cidade. Albafica conduz a carroça, Aldebaran, El Cid, Máscara, Milo e Saga ficam dentro. Afrodite já providenciou o disfarce e vamos fazer o que Hades não espera, vamos deixar Roma pela porta da frente e não por caminhos alternativos como seria o ideal. Seremos uma pequena caravana de leprosos que veio em peregrinação e que agora deixa Roma para voltar à exclusão a que somos submetidos. Entendido? – falou Camus.


- Entendido! – disseram todos, rindo.


Camus olhou para Milo, mais uma vez e depois retornou para junto de Afrodite que dava os últimos retoques na maquiagem que fizera. Orgulhoso de seu trabalho, ele tocou a face de Máscara da Morte que também o fitava com intensidade.


- Está bonito gladiador... – disse ele sorrindo.


Máscara puxou-o pela nuca e devorou os lábios rosados com tanta sofreguidão que Afrodite ficou sem ar. O ato fez o restante do grupo arregalar os olhos e depois sorrir, deixando-os um pouco às sós...


- M-Máscara... – gemeu Afrodite, enquanto o gladiador mordiscava seus lábios e o apertava forte junto ao corpo.


- Eu acho o mesmo que o Milo, mas vou seguir com o plano e fazê-lo funcionar. Mas, tome muito cuidado, porque se algo acontecer com você... Eu... Eu sou capaz de tocar fogo em Roma! – sussurrou Máscara.


Afrodite sentiu os olhos se encherem de lágrimas e encostou a testa na de Máscara da Morte.


- Eu te amo... muito! – disse com a voz trêmula.


Máscara o encarou e respondeu:


- Então se cuide, porque o seu amor é a única coisa capaz de despertar a minha humanidade. Sem ele, eu só sei matar.


Ditas as palavras, o gladiador se afastou e Afrodite sentiu um pequeno estremecimento em seu coração.


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Os soldados estavam perfilados na saída da cidade. Aqueles que haviam vindo por conta da Lupercália, agora deixavam Roma quase em peregrinação e era este fato que Camus levara em consideração apara engendrar o seu plano. Famílias à pé e carroças se deslocavam, lentamente, e eram verificadas pela barreira de soldados. Quando Albafica, que dirigia a carroça, se aproximou e o soldado olhou-o, o jovem alto, moreno e esguio não combinava com a descrição de um gladiador ou qualquer um dos outros.


- O que tem na carroça? – perguntou o soldado.


- Meus irmãos, domini. Eu os trouxe do vale dos leprosos para receber a purificação da Lupercália, mesmo de longe. – disse Albafica.


O soldado soltou uma gargalhada.


- Leproso sendo purificado! Seus irmãos ainda estão inteiros, imbecil?


- Veja por si mesmo, domini. – respondeu Albafica.


- Abram a porta da carroça! – gritou o soldado.


Quando a porta se abriu, um mau cheiro, vindo do interior, exalou de tal forma que os soldados deram um passo para trás. Era algo que lembrava carne apodrecida misturada com sangue fresco. O soldado que abrira viu quatro homens com as peles acinzentadas que fediam horrores. Quando dois deles se moverem em sua direção ele deu um passo para trás com uma expressão de nojo.


Os artistas eram El Cid e Aldebaran que tinham sido preparados por Afrodite. Saga não podia se mexer e ficara deitado, apoiado por Máscara. Milo era o único escondido dentro de um saco de cereal, próximo à Saga.


- Mas que merda!Fechem isso! – gritou o soldado.


Albafica quase riu, mas controlou-se. Quando o soldado discutiu com o outro sobre o que fazer, o líder mandou que seguissem viagem.


Assim que se afastaram da barreira, Albafica empreendeu velocidade à carroça e rumaram para o seu destino.


Perto das florestas que levavam às montanhas, soldados escondidos esperavam na madrugada fria. Hades estava com eles certo que os fugitivos escolheriam aquela rota. Era a mais íngreme e afastada. Até mesmo os soldados haviam tido dificuldade em achá-la, mas o cônsul tinha pleno conhecimento dela já que os caçadores de escravos a usavam para prender aqueles que entravam por ali para chegar até Roma. Em sua mente, ele tinha certeza que o grupo passaria por ali, no entanto, a demora já o incomodava.


A noite passou cedendo lugar ao amanhecer frio e brumoso. Uma chuva fina começou a cair, porém Hades permanecia firme e, ainda assim, nada de diferente acontecia. Sua mente dava voltas tentando entender o ocorrido e custava admitir que se enganara. Quando o fez, compreendeu que era tarde demais...


Afrodite chegou na domus de Abeona pelos fundos e foi informado por Dócrates que Shun já havia sido enviado até Hades. O loiro disfarçado de moreno franziu o cenho e hesitou, por alguns instantes. Camus estava com ele e também com os cabelos enegrecidos pela tinta misturada à gordura. Manigoldo raspara a cabeça e também aguardava, atento a tudo. Dali, os três partiriam com o restante das pessoas que continuavam deixando Roma, desta vez por outros caminhos.


- Bem, diga a Shun que tome cuidado e que darei um jeito de me comunicar com ele. – disse Afrodite para o escravo.


Dócrates assentiu e os dois partiram rumo ao caminho íngreme que levava para fora de Roma junto com os peregrinos que buscavam as montanhas. Encontrariam os outros, somente em dois dias, indo por ali, mas era uma forma de despistar e dar a chance dos outros irem mais rápido.


Era manhã alta quando Hades voltava com a maior parte da guarda e deixava alguns em vigília. Seu semblante estava tenso e a chuva aumentava. Os soldados marchavam em um ritmo regular e pesado. De repente, um grupo de peregrinos passou por eles, molhados até os ossos. Os soldados olharam para Hades e o cônsul gesticulou para que verificassem.


Afrodite e Camus se olharam. Todos estavam sendo obrigados a baixar o capuz e com aquela chuva, a tinta escorreria e denunciaria o disfarce. Manigoldo olhou para os soldados e buscou a espada que trazia às costas.


- Devagar... entrem na floresta e depois corram. – disse o Doctore.


- Manigoldo... não... – sussurrou Afrodite.


- Afrodite tem razão, não vamos deixá-lo fazer isso. Deixe-me pensar em algo. – cochichou Camus.


Manigoldo desprezou a fala dos dois e gritando, lançou-se contra os soldados romanos sob o olhar surpreso de Hades.Sabia que eram muitos e que não mais possuía o vigor de antes, mas daria a chance de seus companheiros fugirem.


Afrodite congelou e Camus também.Viram quando o gladiador saltou por sobre dois soldados decepando a orelha de um e o braço de outro. Braços, pernas, órgãos expostos amontoavam-se em segundos, como se o gládio de Manigoldo tivesse vida própria. O gladiador não só usava a espada, mas também o corpo vigoroso, chutando e quebrando ossos com as mãos nuas.


-Por Gemini! – gritou ele sem olhar para os companheiros.


Hades percebeu a estratégia e olhou para o grupo de peregrinos que corriam desnorteados, menos dois que hesitavam em deixar o amigo. Um sorriso insinuou-se nos lábios do cônsul e ele sinalizou para dois arqueiros que integravam o grupo de soldados e que se mantinham fora do combate corpo a corpo. Flechas zuniram e cravaram-se no ombro e no peito de Manigoldo. O gladiador continuou investindo e mais duas cravaram-se em sua coxa. O Doctore caiu, um filete de sangue escorrendo pela boca.


Afrodite correu, mas Camus permaneceu. Algo dentro de si voltou ao passado, especificamente à infância onde fora capturado e escravizado e ele repetiu a mesma ação de quando se recusara a abandonar o pai. A atitude permitiu que Afrodite se embrenhasse na floresta, enquanto os soldados que restaram cercavam Camus.


O ruivo nada disse, apenas tomou o corpo de Manigoldo nos braços.


- P-Por-que... ruivo? P-Por-que n-não fugiu... q-quando e-eu g-gritei..? M-Milo... e-eu... f-falhei...– disse o Doctore antes de expirar pela última vez.


- Não, meu amigo, você não falhou... – disse Camus fechando os olhos de Manigoldo.


Hades se aproximou e encarou Camus cujo cabelo ruivo revelava-se por baixo da tinta que escorria.


- Fiel até o fim... Uma cena tocante, eu diria. Pena que o ato o condenou, ex-escravo e inutilizou o sacrifício que seu amigo fez por você. – falou Hades.


Camus encarou-o e sem demonstrar medo, falou:


- Sua vitória é parcial, cônsul. Capturar-me não faz da sua ação um sucesso.


Um sorriso frio curvou o canto dos lábios de Hades.


- Tem razão, ex-escravo... Entretanto, tê-lo em minhas mãos não só me trará sucesso, como também a minha vingança!

Notas finais
***Agradecimentos especiais a todos que leem, comentam, aguardam e cobram a postagem. Tenho tido pouco tempo, mas a fic será postada sempre e os comentários, respondidos com muito carinho!
*** Um super agradecimento à recomendação da Angelique. Obrigada, amada!
Bjs!XD