A Cólera Dos Deuses
8 Capítulo 8 DIFFICILE DECISIONEM (Difícil decisão)
Notas iniciais
Afrodite correu sem se importar com os galhos e espinhos que laceravam sua pele. Estava em desespero e o mais apavorante era que sua mente parecia estar em branco! Eram, apenas, medo e instinto que guiando os seus pés pela floresta densa e escorregadia, seus olhos azuis haviam se arregalado tanto quanto podiam e a sua respiração acelerada tornava-se cada vez mais dolorosa, fazendo arder os pulmões.
Não pare! Não pare! Dizia para si mesmo e continuava, apesar da dor do esforço.
— Ele foi por ali! – gritou um dos soldados.
Logo, um destacamento pequeno obedeceu à ordem dada e correu em meio às árvores e arbustos que terminavam em uma clareira bem onde Afrodite, também havia chegado. O jovem estava sem saída, pois a clareira terminava em um precipício.
O líder dos soldados pretorianos, um homem alto e moreno com nariz adunco e olhar duro se adiantou e sorriu com malícia, olhando para o belo rosto e o corpo machucado pelos arranhões causados pelos galhos secos da floresta.
Encurralado, Afrodite só duas opções: entregar-se ou atirar-se do penhasco.
O soldado exultou com um prazer mórbido ao perceber-lhe a dúvida e Afrodite se sentiu enojado. O olhar dele era insultante, grosseiro, explícito... Sabia bem o que ele faria, assim como os demais que o olhavam passando a língua nos lábios. De costas, foi se aproximando da beirada e encarando os soldados que já se mostravam excitados e prontos para violentá-lo.
— Não vamos lhe fazer mal, belo escravo... Só vamos aproveitar um pouco desse seu rabo que parece prometer delícias para quem se enfiar dentro dele... – disse o líder chamado Trajano, enquanto, sorrateiramente, os outros se espalhavam pelos lados.
Afrodite nada disse, apenas ficou encarando-os com fúria dos olhos. O medo havia se dissipado e ele decidira que nenhum daqueles ordinários iria tocá-lo, preferia morrer!
De repente, sem que ele tivesse visto ou notado, uma rede foi lançada e Afrodite se viu enredado e puxado para o meio dos soldados. Em desespero, ele começou a lutar com todas as suas forças, socando e chutando, mas sem atingir nenhum dos experientes pretorianos.
Trajano fechou o punho e deu-lhe um soco no rosto, bem entre os olhos. Afrodite sentiu a cabeça ser jogada violentamente para trás. Estonteado e sentindo muita dor, ele perdeu as forças para lutar, emaranhou ainda mais naquela rede e começou a cair lentamente, ouvindo as risadas e piadinhas feitas sobre si.
O líder se aproximou, vendo-o quase inconsciente. Porém, quando ele chegou bem perto, Afrodite usou de suas últimas forças para chutá-lo e tentar fugir. No entanto, o ato foi em vão e o soldado desferiu-lhe outro soco, desta vez na boca, fazendo com que ele sentisse o gosto do próprio sangue.
— Ora vejam... O puto acha que pode contra um pretoriano... O que tem de bonito tem de burro! – disse Trajano pegando Afrodite pelos cabelos com força e socando-o, novamente, desta vez no estômago.
Gemendo e engasgando, Afrodite tentava raciocinar... Precisava fugir, precisava ser mais forte. Seu rosto doía pelo soco violento e lágrimas se insinuavam em seus olhos cristalinos, mas ele se recusava a chorar e dar prazer àqueles imbecis.
Com uma alegria cruel, o soldado torceu-lhe o braço para trás com violência e puxou-lhe a túnica expondo o tórax esguio. Afrodite cerrou os dentes para não gritar de dor, o lábio inferior cortado e sangrando.
— Vamos lá, putinho hoje vai conhecer a verdadeira espada de um pretoriano. – disse o líder roçando o rosto barbado na face de Afrodite, arranhando e deixando-a avermelhada.
Os demais começaram a rir e a sentir crescer a excitação ao ver o corpo alvo sendo desnudado.
O loiro tentou afastar-se, mas o soldado lambeu-lhe a pele do pescoço e desceu a mão até seu baixo ventre. Afrodite virou o rosto como se fosse se entregar ao ato, fingindo ceder. Então, quando Trajano sorriu, satisfeito, ele o mordeu na orelha, quase arrancando-a com os dentes.
— Ai! Maldito puto!
O homem gritou e acertou-o no rosto outra vez, derrubando-o, novamente.
No chão e sentindo uma dor lancinante, Afrodite forçou-se a sorrir, enquanto exibia o sangue nos lábios que, agora, não era o seu. Cuspiu parte da pele com gosto e continuou a enfrentar o soldado com uma fúria ainda maior nos belos olhos azuis...
Furioso, Trajano desembainhou a espada para matar Afrodite quando uma voz grave o impediu.
— Deixe-o, Trajano! O cônsul deixou bem claro que quer o ex-escravo vivo e sem marcas.
Trajano olhou para o centurião destacado para servir de guardião pessoal de Hades, enquanto a guarda pretoriana se incumbia de caçar os fugitivos de Gemini.
— Esse aqui tentou fugir e me agrediu. Precisa de uma lição. – respondeu o soldado segurando a orelha que sangrava, abundantemente.
— Lição essa que não é você quem vai dar. Agora se afaste! Eu me encarrego do prisioneiro. – disse o centurião tocando na bainha da espada.
Afrodite olhou para o homem alto e moreno que, mesmo sendo um soldado, não se parecia em nada com os outros. Possuía uma postura ereta e olhar firme. O corpo era bem proporcionado e a beleza viril nada tinha de vulgar. Ele não era como os outros romanos e parecia possuir uma autoridade natural que se impunha, apenas por sua presença.
No instante em que encarou Afrodite, o centurião sentiu-se perturbado, porém não demonstrou. Jamais tinha visto um rosto tão belo, nem mesmo entre as mulheres com quem fodia. Entretanto, aquele homem era um prisioneiro, um inimigo de Roma e não alguém para admirar.
— Vamos. – disse ele ajudando Afrodite a levantar.
Olhando firmemente para o centurião, Afrodite obedeceu. Mesmo com o rosto ferido e inchado, ele permanecia altivo e belo. Nem mesmo se abalou com o sangue que escorria do seu nariz. Ergueu a cabeça e empinou o queixo para perguntar:
— Posso, ao menos, saber seu nome?
—Porque quer saber? Meu nome não deve ser do seu interesse. – disse o centurião de forma grave e seca.
— Quero saber para que o poupem quando vierem nos resgatar. – respondeu Afrodite com um tom arrogante.
O centurião sorriu debochado e surpreso com a atitude do escravo.
— Me chamo Shura. E agora venha, estou prendendo-o como inimigo de Roma.
Quando Afrodite juntou-se a Camus, o ruivo fechou os olhos, tomado pela angústia. Tinha esperança que o amigo tivesse conseguido, mas, ao ver-lhe sendo conduzido pelo centurião e com a face machucada, junto a uma expressão de derrota, soube que Hades havia vencido...
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A viagem até o local onde ficariam escondidos transcorreu com tranquilidade. Assim que se distanciaram de Roma, os leprosos livraram-se das vestes imundas que haviam sido impregnadas com cheiro de carne podre.
— Puta que pariu! Se eu tivesse que ficar mais um tempo com esse cheiro eu preferia me entregar! – disse Aldebaran.
Os demais riram com a fala do amigo e tiveram que concordar, o cheiro era mesmo horrível, mas lhes dera a chance única de fugir. Nesse ponto, Camus e Afrodite haviam sido geniais...
Ao chegar no pequeno vilarejo, avistaram a casa onde Milo vivera parte da sua infância. Ela ainda estava de pé e abandonada. O lugar parecia vazio, sem uma viva alma nos arredores, o que facilitou bastante.
Albafica verificou tudo e logo deu um jeito no ambiente o suficiente para acomodar Saga que ficara abatido com a viagem demorada. Mesmo quase em ruínas, a casa possuía vestígios de uma lareira, cuja chaminé de pedras ainda era visível e também alguns móveis que poderiam ser utilizados.
— Aldebaran, por favor, procure algo para fazer um pouco de fogo. O restante ajude a consertar as portas e janelas antes do cair da noite. – pediu Albafica.
Assim que todos se organizaram em suas tarefas, Albafica ajudou Saga a deitar-se e administrou-lhe mais uma dose da sua infusão de ervas. O cônsul avançava em sua trajetória de cura, mas ainda estava fraco e dolorido.
Mais tarde, quando todos já haviam cumprido suas tarefas, Albafica permitiu-se descansar e orar aos deuses pela proteção de Afrodite e Camus.
A noite, enfim, cobriu a terra com um manto escuro e estrelado. Todos estavam abrigados e se alimentando com uma saborosa e nutritiva sopa feita por Albafica. O cansaço da viagem, por fim se fez sentir por todos, com exceção de Milo e Máscara da Morte que pareciam duas feras enjauladas e vigiavam todo e qualquer movimento fora da cabana.
— Não vão descansar? – perguntou Albafica vendo-os beber vinho e observar a noite de forma inquieta.
— Descansem vocês, nós vamos vigiar em dois turnos. – disse Milo e Máscara concordou.
— Está bem, vou verificar como o cônsul está e depois vou dormir. Amanhã teremos um dia cheio com a volta dos outros. – falou Albafica.
Milo assentiu com a cabeça, depois bebeu mais um gole de vinho. Sentia-se inquieto demais e notou que Máscara também estava nervoso, porém o amigo recolhia-se em seu tradicional silêncio e bebia olhando para a direção da pequena estrada.
— Só vou sossegar quando aqueles dois chegarem. – falou Milo.
Máscara não respondeu, continuou olhando e rezando para a angústia que sentia evanescer com o avistar daquele que amava.
— Vá descansar um pouco. – disse ele, por fim. – Eu vigio o primeiro turno.
— E você acha que eu consigo? Eu não queria desse jeito, esqueceu? Por mais que eu tente, ainda continuo sentindo que não devia ter deixado Camus e Afrodite para trás. – falou Milo.
— Não, não esqueci. Vamos pegar mais vinho que essa noite será longa... – disse Máscara também, visivelmente, incomodado.
Os dois sentaram na porta da cabana e ficaram fitando as estrelas. A madrugada fria insinuou-se como uma amante caprichosa e ambos continuaram rezando para ter boas notícias com o alvorecer, mesmo que, em seus corações, a angústia se avolumasse com o passar das horas...
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A cela era escura e fria. O som de água gotejando, de tempos em tempos, era o único som audível e Camus encontrava-se nu e preso por correntes pelos braços e pernas, sendo suspenso a alguns centímetros do chão.
Sua visão já se acostumara com a escuridão e, mesmo apreensivo, procurava manter a estabilidade emocional. Afrodite não estava com ele e desde que fora colocado ali, ninguém havia aparecido, nem mesmo Hades. Fechou os olhos e tentou acalmar a respiração.
Pelo silêncio, Camus arriscou que não tinham sido levados para uma prisão. Se assim o fosse, ouviria as vozes dos guardas ou ruídos produzidos por outros presos. Estavam em outro local e só saberia qual, quando alguém aparecesse e essa espera o deixava apreensivo. Onde teriam levado Afrodite? Porque não os tinham deixado juntos?
Um ruído cortou seus pensamentos e Camus reteve a respiração. Alguém surgia com passos leves e ritmados, depois o som de uma grade sendo aberta. O ranger da chave sendo virada, devagar, deu a entender que não era usada com frequência.
Um vulto surgiu à sua frente, depois que a grade se abriu e Camus não conseguia precisar quem era, mas sua intuição já sinalizava...
— Está gostando das suas acomodações? – perguntou Hades com um tom casual.
Camus não respondeu, apenas continuou a fitá-lo sem demonstrar medo ou pânico o que fez Hades sorrir, satisfeito.
— Sabe, apesar de tudo eu o admiro, ex- escravo. Dificilmente se encontra uma mente como a sua entre a escória e devo dizer que eu soube disso desde o primeiro instante em que coloquei os olhos em você. Pena que... terei de erradicar essa sua altivez de uma vez por todas!
— Você pode me matar, mas nunca vou deixar de ser quem eu sou. – disse Camus.
— Matar? – falou Hades franzindo o cenho. – Não me tome por um bárbaro, ex-escravo. Eu não pretendo matá-lo e sim, reeducá-lo! Quando o grande Scorpionis vier libertá-lo, encontrará, apenas, um pálido reflexo de quem você foi. Vou dizer-lhe algo por experiência própria: o castigo mais cruel que o Destino pode nos infringir é quando perdemos a quem amamos e nada, neste mundo cruel, pode reverter esse processo.
— Faça o que fizer, Milo vai matá-lo.
Hades gargalhou alto.
— Ele vai querer... Porém, mesmo tomado pelo ódio, ele terá que escolher entre a vingança e a sua salvação, meu caro Camus. Veremos o que prevalecerá! Mas, aqui entre nós, qualquer escolha que ele faça, irá destruir a ambos e eu, assistirei tudo com um imenso prazer...
Camus estremeceu. O tom sádico na voz de Hades já deixava antever o que ele planejava. No entanto, o ruivo ainda assim tentava manter-se impenetrável às provocações que o cônsul lhe fazia.
— Bem, até outra oportunidade, ex- escravo!— disse Hades, deixando a cela.
Novamente o silêncio e a escuridão. Apreensivo, Camus esperou que alguém viesse, mas nada aconteceu. As horas passaram, o frio aumentou... Seu estômago roncou por falta de alimento e sua boca secou pela sede. Nada. Nenhum som ou movimento... Foi então que a grade se abriu e um vulto avantajado e malcheiroso entrou. Trazia uma tocha, um balde de madeira e uma ânfora fechada.
— Com os cumprimentos do cônsul... – disse o homem depositando a tocha em um suporte na parede e, em seguida, banhando o corpo nu de Camus com a água fria.
Camus sentiu a pele arrepiar-se com a água gelada, mas o pior ainda estava por vir. O homem quebrou a ânfora sobre o chão coberto de palha seca. Em seguida, deixou a cela, levando a tocha e deixando Camus no escuro, novamente.
Instantes depois, o ruivo sentiu que algo subia pelos seus pés e pernas. Pelos deuses! Pensou Camus ao sentir que a água fria que havia secado em sua pele deixava uma sensação viscosa e que a ânfora quebrada devia conter os insetos que agora rastejavam por toda a sua pele...
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Afrodite estava em outra cela, porém não estava preso. O lugar fedia a mofo e esterco e ele sentia o corpo dolorido pela agressão que sofrera. Sentou-se encolhido e encostado à parede gélida.
Estava escuro e a dor de cabeça que o afligia impedia que enxergasse qualquer coisa. Quando a grade se abriu, ele estremeceu, porém respirou fundo e fingiu não se abater com a sua situação. O carcereiro entrou com uma tocha acesa, iluminando parte do lugar...
— Levante-se, você vai ter companhia para não se sentir tão só. – disse uma voz fanhosa e desagradável.
Por alguns segundos, Afrodite não se moveu e o dono da voz adiantou-se, chegando bem perto dele e pegando-o pelos cabelos.
— Não ouviu puto? Levante-se! – gritou o homem.
As mãos grandes e grosseiras se fecharam sobre os fios sedosos e o loiro não conseguiu conter um gemido de dor.
— Esse seu gemido... É assim que faz quando alguém mete em você, puto? – perguntou o homem bem próximo do ouvido de Afrodite.
O homem cheirava a suor, urina e cebola. Uma mistura repugnante que fez Afrodite ter vontade de vomitar. Entretanto, uma ideia ocorreu ao loiro e ele orou como nunca. Quanto mais bruto, mais idiota! Júpiter Optimus Maximus, por favor, o senhor fechou os olhos, instantes atrás e olha o que aconteceu comigo. Mas, eu ainda sou seu devoto, então, dai-me forças! Ai, acho que também devo pedir à deusa Vênus, da qual herdei o nome em grego...Por favor, apesar de estar feio, dê-me o poder de seduzir esse porco sujo e imbecil!
— Não vai responder? Quer ver o que eu tenho pra alguém como você? Vou foder esse seu rabo, antes de juntá-lo ao outro. – insistiu o homem tocando nos genitais de forma obscena.
— Por Júpiter Maximus, bonitão! Quando foi que tomou banho pela última vez? – devolveu Afrodite com um tom mais sedutor que conseguiu.
— Ano passado. – respondeu o homem.
— Pelos deuses! Faça o seguinte, meu querido... Tome um bom banho e volte aqui.
— Hã? O quê?
— Eu disse: tome um bom banho e volte aqui... Prometo dar-lhe um prazer que jamais alguém lhe deu... – falou Afrodite acariciando o rosto barbado e sujo do homem, agradecendo aos céus por seu rosto estar no escuro e a expressão de nojo do seu rosto não poder ser vista pelo seu carcereiro à luz da tocha que tremeluzia.
— Você? Você vai dar pra mim por vontade própria? Não vou ter que comê-lo à força?
— Mas é claro que vou foder com você por vontade própria, meu... docinho fedido. Porque eu teria de ser forçado por um homem que tem tudo aquilo que eu gosto...? – respondeu Afrodite apontando para os genitais do homem.
O carcereiro franziu o cenho. As instruções tinham sido claras, ele devia violar o prisioneiro de todas as formas possíveis e depois juntá-lo ao outro prisioneiro. No entanto, nunca alguém tão bonito aceitara foder com ele por livre e espontânea vontade e a voz melodiosa daquele puto parecia enfeitiçá-lo e fazê-lo querer ser amado, pelo menos uma vez, em sua vida miserável...
Notando a reticência do carcereiro, Afrodite engoliu em seco e beijou a face do homem e passou o polegar nos lábios grossos que estavam entreabertos, mostrando vários dentes faltando. O carcereiro coçou a cabeça e afrouxou a mão que prendia Afrodite.
— Não tá tentando me enganar, né puto?
— Não seja bobinho... Como eu enganaria um homem experiente como você?
— Tá... eu vou, mas volto! – disse o homem.
— Estarei esperando... ansiosamente!— respondeu Afrodite louco para vomitar.
Mal o carcereiro deixou a cela e Afrodite ignorou a dor no corpo e começou a olhar em volta, já que a tocha iluminava tudo. O ambiente não parecia ser uma prisão e sim uma despensa abandonada e adaptada para servir de cela. Os olhos percorreram todo o espaço, mas nada ali podia ser usado como arma.
Júpiter Optimus Maximus continue com os olhos bem abertos e me mostre uma saída! Rezou Afrodite sabendo que logo o carcereiro fedorento voltaria...
Quando a cela se abriu, Afrodite quase caiu para trás. Não era o homem gordo e fedorento, mas o belo centurião que o salvara de ser estuprado pelos soldados.
— Levante-se! – disse ele.
— Onde está o outro?— perguntou Afrodite, confuso.
— Prefere que seja ele a levá-lo para a outra cela?
— N-Não, claro que não! Mas... Como você? Quer dizer, o que faz aqui? – perguntou Afrodite.
— Não faça perguntas! Apenas venha. Estou arriscando minha posição e minha vida para lhe dar mais um tempo e alguma vantagem.
— E porque está fazendo isso? Eu nem o conheço!
— Não é da sua conta. Agora vamos!
— M-Mas e... quando o carcereiro voltar?
— Tome! – disse Shura entregando um pequeno punhal para Afrodite. – Espero que saiba usar. Boa sorte!
Afrodite pegou a arma e guardou entre os farrapos da roupa. Por um instante, seus olhos azuis se encontraram com os olhos negros do centurião.
— Obrigado. Seja por qual motivo esteja fazendo isso, serei grato para sempre.
Shura nada disse, apenas levou Afrodite para a cela onde Camus se encontrava. Quando Afrodite viu o corpo de Camus coberto de insetos, adiantou-se para retirá-los.
— Camus! Mas que merda é essa?! Aquele sádico filho da puta!
O ruivo não ousava abrir os olhos e nem falar. Os insetos já estavam entrando em seu nariz, causando-lhe angústia e sufocação. No entanto, ele se recusava a entrar em desespero, porque senão seria pior. Afrodite limpou seu rosto e depois o restante do corpo.
Camus olhou para o amigo e tentou dizer algo, mas sentiu ardência nos lábios inchados onde alguns insetos o tinham picado.
— Vou tentar tirá-lo daí. – disse Afrodite.
— S-Sem as chaves... é muito difícil... – sussurrou o ruivo.
— Eu tenho um punhal, veja! Vou tentar abrir as algemas.
— Como... conseguiu? – perguntou Camus.
— O tal centurião que me livrou de ser violado me deu. Não sei por que ele fez isso, mas... Sei lá, talvez seja uma benção dos deuses.
— Ou uma estratégia... de Hades, para que fuja e o... leve aonde estão os outros. – disse Camus.
— Tem razão... Não pensei nisso. E agora, o que eu faço?
— Fuja! Leve-os para outra direção... Engane-os.
— Mas... E você? Não estou conseguindo abrir essa coisa!
— Hades quer me usar para atrair Milo... Ele vai ficar jogando comigo, tentando me destruir... Mas não vai conseguir...
— Camus, eu...
— Vá, Afrodite... Saia logo daqui. Eu aguento, pode... ter certeza.
O loiro sentiu o lábio doer e a cabeça latejar. Não queria deixar Camus, mas ao mesmo tempo tinha que avisar os outros depois de enganar quem o tivesse seguindo. Estava machucado e sentindo um súbito cansaço, porém a excitação que corria em suas veias impedia que se entregasse. Ele começou a gritar e a bater com as mãos nas grades.
— Ei! Alguém aí! Eu quero sair! Tirem-me daqui!
Em instantes, o carcereiro voltou. Tinha tomado banho e lavado os cabelos que estavam úmidos e puxados para trás. Continuava asqueroso, a diferença era que agora cheirava a sabão grosseiro e seu rosto não estava tão sujo por detrás da barba malfeita.
— Quem o colocou aí? – perguntou ele. — Era minha tarefa juntar você com esse outro aí.
— Certamente alguém que ficou com ciúmes da nossa relação e quis me separar de você... – respondeu Afrodite com um tom sedutor.
O homem coçou a cabeça e Afrodite percebeu que ele estava pensando. A anta está desconfiada!
— Olhe só... Esqueça o idiota que fez isso. – disse Afrodite desnudando o tronco e passando os dedos nos mamilos. – Eu já estou louquinho pra senti-lo em mim...
Ao ver aquilo, o carcereiro esqueceu-se de tudo e abriu a porta da cela já passando a língua nos lábios. Afrodite continuou a olhá-lo, intensa e sedutoramente. Quando o homem tentou abraçá-lo, a mão segurando o punhal embrenhou-se, atingindo o homem no flanco direito. Como ali havia algumas camadas de gordura, o carcereiro custou um pouco a sentir a punhalada. Porém, Afrodite continuou segurando a lâmina e a torceu, de forma que o ferimento ficasse mais profundo. O homem arregalou os olhos e o sangue irrompeu dentro da sua boca.
— V-Você...
— Sinto muito... – sussurrou Afrodite quando os olhos febris do carcereiro encontraram os seus e ele apertou o ferimento num último ato instintivo de impedir o sangue que irrompia abundante e quente.
Com um baque pesado, o homem desabou no chão coberto de palha seca, enquanto Afrodite olhava uma última vez para Camus e deixava a cela.
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Quem? – a pergunta foi acompanhada de um olhar surpreso de Aiolia que custou a acreditar no que ouvia.
— Um tal de Mu, senhor! Ele foi detido tentando penetrar na zona de guerra. Disse que tinha uma mensagem para o general e que precisava vê-lo. – falou o soldado.
Aiolia sentiu o coração disparar e rumou para a tenda onde Kanon estava dormindo. O general já se recuperava dos ferimentos e Ikki assumira seu posto com destaque impecável. Logo, uma ordem viera de Roma e ele já marchava para as frentes de batalha em Jerusalém e seria elevado de posto.
— General, teremos notícias de Roma, Mu está aqui. – disse Aiolia ao entrar na tenda e encontrar Kanon acordado.
— Mu, aqui? Aconteceu algo Aiolia. Mande-o entrar, imediatamente. – disse Kanon levantando-se da cama improvisada.
Que não seja o que eu estou pensando, pensou Kanon. Por favor, Marte, eu lhe oferecerei todo o sangue da batalha, mas não permita que aconteça algo grave à Saga.
Mu entrou, acompanhado do soldado e de imediato, seus olhos encontraram os de Aiolia. Houve um momento intenso e silencioso entre os dois. Então, Mu falou:
— Domini, eu tenho notícias sobre... Gemini.
— Soldado, deixe-nos às sós. – disse Kanon dispensando o jovem imberbe que olhava-os com disfarçada curiosidade.
— Sim, general! – respondeu ele batendo com o punho fechado na altura do peito.
Assim que o soldado saiu, Kanon permitiu-se mostrar toda a sua angústia.
— O que aconteceu Mu? Saga está em perigo?
— Hades o prendeu, matou a domina e destruiu a Casa de Gemini. Mas, nós nos reunimos e Camus, junto com Afrodite engendraram um plano. Domini Saga está escondido no mesmo vilarejo em que Milo morava antes de seguir com o senhor para Roma.
Kanon fechou os olhos e levou a mão aos cabelos. Eu sabia! Quando abriu os olhos, novamente, havia uma certeza dolorosa cuja força ele não ousava contrariar.
— Vou voltar e tirar Saga de Roma.
— Você vai... desertar?— perguntou Aiolia.
— Servi a Roma durante toda a minha vida. Perdi amigos, dei meu sangue para que Titus fosse imperador. Mas, não vou dar às costas ao meu irmão e nem obedecer a um homem como Hades! Se isso faz de mim um desertor, pouco me importa. – respondeu Kanon com amargura.
— Vamos reunir os homens e escolher qual centurião o substituirá na liderança das tropas. – disse Aiolia.
— Por quê? Se eu abdicar da liderança, você é o meu sucessor.
Com um sorriso franco e um olhar ardente na direção de Mu, Aiolia respondeu:
— Antes de tudo, sou seu amigo e leal à Gemini.
— Tem certeza? Serei um proscrito e jamais poderei retornar a Roma. Se juntar-se a mim, também o será, Aiolia. Seremos chamados de traidores e inimigos do Estado.
— Já guerreei demais. Quero outras coisas para minha vida, outros lugares, outros desafios... – falou o centurião.
— Se tem certeza, vamos encaminhar as coisas. Creio que não temos tanto tempo e temos que disfarçar nossas ações ou tudo estará perdido. – disse Kanon.
Mu ouvia os dois em silêncio e emocionado pela atitude de Aiolia. Sabia que não era fácil para homens como ele e Kanon abdicar de uma vida inteira dedicada ao serviço militar e à proteção de Roma. Só havia um motivo para tal ato, ambos escolhiam o amor ao invés da obediência cega aos preceitos que já não representavam a verdade. Acima de tudo, os dois eram guerreiros e não soldados.
Aiolia sorriu para Mu e aproximou-se dele, antes de deixar a barraca. Tinha vontade de beijá-lo, mas o faria de forma privada. Agora, mais que nunca, teriam que agir com discrição para não levantar suspeitas sobre as suas ações...
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