A Cólera Dos Deuses
6 Capítulo 6 ARBITRATU DEORUM (Capricho dos deuses)
Notas iniciais
onde a gente se lembra
do que nunca soube.."
Haikai de Guimarães Rosa no blog A poesia concisa.
Bom fim de semana a todos e obrigada, sempre, pelo carinho!!!XD
As carpideiras lamentavam e falavam sobre as virtudes da morta. Como não tinha mais casa e era considerada uma inimiga do Estado, June estava sendo velada em uma das capelas nas catacumbas nos arredores de Roma.
O choro alto das profissionais ecoava nas paredes úmidas de pedra. O ar estava denso com o cheiro das velas usadas para iluminar o lugar e o vazio parecia colaborar com a sensação de sombria de solidão, pois não havia ali o número de pessoas que costumavam participar dos funerais. Os curiosos se esgueiravam, cochichavam, mas não entravam.
Saga tinha sido considerado um traidor e sua esposa também. Eram inimigos de Roma, portanto ninguém queria comprometer-se diante do imperador e ir prestar uma última homenagem a um de seus inimigos. Apenas os servos, os escravos libertos e a família assistiam os últimos momentos de June, antes que ela adentrasse o reino dos mortos, ao ser cremada ao entardecer.
Abeona chegou, acompanhada de Shun e, logo depois, do marido que vinha amparado pelo servo fiel da casa. A matriarca aproximou-se da filha que parecia dormir. June vestia uma túnica azul que acentuava o contraste dos cabelos loiros, devidamente, trançados e a pele alva. Em seu braço direito um bracelete de ouro com o símbolo de Gemini e no pescoço uma pequena corrente dourada.
Afrodite havia preparado o corpo com perfeição e Abeona agradeceu-lhe retirando uma pequena bolsa e estendendo ao ex- escravo.
– Tome, fez um bom trabalho. — disse a mulher.
– Por favor, domina, isso não é necessário. – respondeu Afrodite recusando o pagamento.
Abeona não insistiu, retirou uma moeda de ouro e a colocou dentro da boca de June. Pague o Barqueiro e adentre Jardim das Hespérides, minha pequena...
Shun aproximou-se do corpo e seus olhos se encheram de lágrimas. June estava bela e parecendo em paz, mesmo tendo sido morta de forma bárbara e violenta. Tocou a mão daquela que, muitas vezes, enxugara as suas lágrimas e que agora não mais podia fazê-lo. Sentiu o peito oprimido, junto de um ódio que jamais pensara ser capaz de vivenciar.
– Que a outra vida a receba com alegria. Juro, que não descansarei enquanto a justiça não for feita. – sussurrou baixo, enquanto depositava um beijo da testa da morta.
Neste momento, uma figura adentrou a capela. As carpideiras choraram mais alto e Shun elevou os olhos. O homem que o salvara estava entrando. A túnica fina, a postura altiva... Tudo indicava que era um nobre. Seria um amigo de Saga e June? Teria tido coragem de vir prestar homenagens, mesmo na atual situação?
Afrodite sentiu o coração bater na garganta. Hades tinha vindo pessoalmente conferir o resultado das suas ações cruéis. Milhares de questões borbulharam em sua mente, porém ele continuou a desempenhar o seu papel e manteve a serenidade.
Hades desprezou a imagem de Afrodite e fixou o olhar no jovem perto do corpo de June. Os cabelos castanhos, o corpo esguio... Era o mesmo jovem que encontrara nas ruas. Sentiu um vibrar no corpo, uma estranha e enigmática sensação para um homem com sua experiência.
Abeona estreitou os olhos cansados, notando a presença e a forma como aquele homem olhava para Shun. Com seu conhecimento da natureza masculina, sabia bem o significado daquele tipo de olhar predatório disfarçado sob um verniz de civilidade. Por alguns instantes, ela apenas observou e, então, foi ao encontro do homem de beleza madura e cruel.
– Perdoe a insolência desta velha ao dirigir-se a alguém tão nobre. Diga-me, domini, conhecia minha filha e seu marido?
Hades viu, no rosto enrugado, semelhanças com aquela que jazia na plataforma de madeira. Então ali estava aquela que gerara a rameira de Gemini... Refletiu no mesmo instante em que percebeu a ironia do destino. O jovem que chamara sua atenção também devia ser parente da vadia morta.
– Não só conhecia como fui eu que a colocou ali. – respondeu Hades de maneira fria e impessoal. – Sua filha agiu de maneira desprezível e criminosa. Como juiz, tive de aplicar a lei.
– Então... domini deve ser Hades. – disse Abeona sem demonstrar nenhuma exaltação com o que lhe era revelado.
– Sim, eu sou.
Neste momento, Erídano se aproximou. O rosto vermelho pela cólera e pelo excesso de vinho. O dedo em riste, apontando para Hades.
– S-Seu... seu... assassino! Como pode? Você é um animal!
Shun não tinha palavras, os olhos arregalados contemplando a cena, um burburinho se formando, as carpideiras aumentando o volume das lamúrias com suas vozes esganiçadas.
– Cale-se, seu inútil! – gritou Abeona. E, em seguida, apontou para as carpideiras e continuou: — E vocês, harpias hipócritas, vão embora! Levem suas lágrimas e lamúrias falsas para longe daqui!
Hades franziu o cenho. Após sua fala, achou que a mulher o atacaria, ou até mesmo, tentaria expulsá-lo. No entanto, ela acentuava o seu espanto tomando-lhe a mão e fitando-o nos olhos.
– Peço perdão, domini. Sei tudo o que aconteceu. Minha filha foi corrompida e seu destino... não poderia ter sido outro. Nem eu a reconhecia mais! Meu maior erro foi ter incentivado que se casasse com o cônsul Saga, aquele amigo de escravos! – disse Abeona com firmeza na voz.
Houve um instante de silêncio desconfortável para quem se encontrava ali. As carpideiras haviam saído e sobraram Shun, Erídano, o servo, Afrodite, Albafica, El Cid, Manigoldo e Aldebaran. Todos pareciam petrificados e Abeona continuou sua fala.
– Vocês todos são testemunhas! Este homem só fez o que lhe cabia fazer: justiça! Minha filha tornou-se uma estranha, uma degenerada que só me causou vergonha e desgraça. E o homem a quem desposou foi o responsável por tudo isso. Portanto, eu peço perdão à Hades por ela...
Não pode ser verdade! Minha vó enlouqueceu! Por todos os deuses, o que ela está fazendo? Shun não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Sua cabeça latejava, seu estômago se contorcia e seu corpo estremecia em crescente desespero. Tentava controlar-se, mas o espanto era tão grande que ele foi até Abeona quase tropeçando.
– Vó, o que é isso? Esse homem é um assassino! Ele... matou a sua filha!
A mão enrugada foi direto à boca de Shun.
– Shhiiii... Não fale mais nada! Respeite aquele a quem deve servir! – disse ela.
– O-O quê? O que está dizendo? A senhora não pode estar falando sério! – falou Shun com uma expressão de horror.
Abeona pegou Shun pelo pulso com tanta força que não parecia uma anciã.
– Domini, eu lhe imploro... Fique com meu neto para servi-lo. Ele é educado e poderá ajudá-lo no que for necessário. Com a morte de June, não tenho como sustentá-lo. Ele o servirá como uma forma de retratar-se pelos pecados de sua tia. Sei que não estou em posição de pedir-lhe isso, mas, por favor, fique com Shun.
– Não! – gritou Shun livrando-se da contenção da avó.
Afrodite adiantou-se para falar, mas quando Abeona fixou os olhos nele, ele entendeu o que ela pretendia. Era cruel, perverso e sórdido. No entanto, a velha senhora havia plantado as sementes da vingança com a maestria digna de Nêmesis...
Ainda atônito com tudo aquilo, Hades pensava rápido, tentando compreender o que se passava. Ninguém além do imperador sabia que ele iria ao velório, portanto as chances de toda aquela cena ser uma armação eram poucas. Suspeitava de tudo e todos, pois esta era a sua natureza. No entanto, a firmeza da mulher e o interesse que aquele jovem despertava em si falavam mais alto que seu senso de autopreservação. Era apenas uma anciã, cuja origem nobre falava mais alto. Um capricho dos deuses que ele acolhia com uma prazerosa devoção...
– Eu... Pensarei no seu pedido. Sua atitude me surpreendeu. A natureza feminina é, naturalmente, ardilosa, mas vejo que a senhora é uma grata exceção. Pena que sua filha não herdou tal qualidade.
– Obrigada, domini.
–Isso não pode estar acontecendo! Que loucura é essa? Pelos deuses, eu prefiro morrer a ficar com este monstro! – gritou Shun.
Transtornado, ele tentou sair, mas foi contido por Afrodite.
– Acalme-se, nada é o que parece. – cochichou o loiro, enquanto percebia que seu irmão ia ao encontro de Erídano que acabara de desmaiar.
O jovem ofegou, tomado por emoções turbulentas que martelavam sua mente e reviravam as suas entranhas. Sentia náuseas e queria vomitar, porém as palavras de Afrodite deram-lhe alguma esperança diante daquele quadro desolador.
Neste instante, Hades voltou-se para Shun e Afrodite. Os olhos frios e inquisidores perscrutando os dois.
– Pelo visto, os libertos da Casa de Gemini também são poucos aqui. – disse Hades olhando em volta.
– Os demais estão cuidando dos corpos dos empregados e preparando a pira funerária. Logo, virão buscar o corpo da domina. – disse Afrodite enfrentando o olhar de Hades.
– Ah, é? Então é por isso que não vejo o grande gladiador da Casa e nem... O escravo dileto de Saga.
– Como manda a lei, indivíduos pertencentes à classe baixa não devem misturar-se aos demais, mesmo que estes tenham transgredido. Os dois ex – escravos mortos estão nas catacumbas mais abaixo. – falou Afrodite.
Hades aproximou-se, lentamente, os olhos fixos em Afrodite e Shun que estava tão pálido, que rivalizava com sua túnica branca. Tinha planos para aquele loiro arrogante e para o jovem que mexia consigo...
– Conversaremos mais tarde, Shun. Aqui não é o local, nem o momento adequado. Precisa saber a verdade antes de julgar-me um monstro.
– A verdade? Será que a verdade justifica o ato bárbaro de esfaquear alguém vinte vezes! Você é um monstro e da pior espécie! Do tipo que se esconde por trás de atos justos e gentis! – falou Shun.
Sem nada dizer, o cônsul ignorou o insulto de Shun e dirigiu-se para as capelas inferiores. Queria olhar nos olhos dos dois homens que logo, logo, iria sentir o delicioso prazer de destruir...
O loiro fechou os olhos e rezou. Júpiter Optimus Maximus fazei que Milo já tenha chegado e esteja lá com o resto do pessoal. E que Saga permaneça protegido no lugar que escolhemos até o momento da fuga. Por favor! Levarei oferendas ao seu templo assim que tudo se acalmar. E o farei de joelhos! Pensando melhor, dispensarei a peregrinação de joelhos e o farei caminhando, humildemente, é claro!
Enquanto Hades deixava a capela, Abeona olhava para o corpo da filha, uma última vez. Seus olhos estavam secos, mas seu coração doía e sangrava. No entanto, para quem a visse ali, em pé e de cabeça erguida, diria que aquela mulher não tinha coração.
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Oh, deus Marte! Fui um covarde, não fui digno! Perdoe-me, perdoe-me! Sussurrava Lucius escondido na escuridão, o corpo ainda tremendo pelo terror e pela posição desconfortável a que se impusera.
Mesmo já tendo se passado algumas horas, ele continuava ali, espremido entre as paredes úmidas do local onde os dejetos escoavam. O cheiro de urina, fezes e agora sangue, lhe impregnava as narinas, mas ainda assim ele temia sair e deparar-se com ele...
Quando presenciara aquele homem matar toda a guarda pretoriana, um terror instintivo apossou-se de si. Era apenas um guarda comum, alguém cuja única função era vigiar prisioneiros e não enfrentar o herói de Roma.
Enquanto a espada do gladiador cortava a carne dos pretorianos, ele fugira em meio à confusão. Havia outro gladiador matando também, então decidiu que não tinha chances contra dois gladiadores daquele nível. O melhor era preservar a vida, isso sim!
Esgueirou-se pelos esgotos e ali ficou ouvindo o tinir dos gládios, o som dos ossos sendo estilhaçados e dos gritos mudos dos que tinham membros decepados... Jamais tinha visto algo assim, tão violento e rápido como se o terrível e implacável deus Marte estivesse guerreando e ceifando a vida daqueles homens com destreza sobrenatural.
Ouviu passos e estremeceu. As vozes eram conhecidas, então ele procurou seu gládio, apertando-o com força. Em um movimento desesperado, passou a espada na própria coxa, deixando escorrer o sangue vivo que serpenteou até as tiras da sandália de couro gasto.
– A-Aqui... A-Ajudem...! – gritou ele, até que uma das vozes o encontrou.
– O que aconteceu aqui? Perguntou Fúlvio, líder da segunda tropa da guarda pretoriana.
– Os Luperci... Eles vieram e levaram o prisioneiro. Eu acreditei que eram eles e então... mataram todos!
– Você deve ter enlouquecido! Os Luperci são liderados pelo próprio Hades! E foi Hades quem trouxe o prisioneiro para cá!
– O... O gladiador... Aquele que venceu todos os lutadores da Ludus Maxima... Ele estava com eles! Foi ele! Ele, sozinho, matou toda a guarda.
– Scorpionis? Então... não foram os Luperci, imbecil! Os ex- escravos de Gemini estiveram aqui disfarçados. Precisamos contar à Hades!
– A-Acha que Hades ele... vai me castigar? – gaguejou Lucius.
Fúlvio olhou para o guarda com repulsa. Detestava covardes e sabia muito bem distinguir um ferimento adquirido em um combate dos que os desertores e medrosos se autoimpingiam para escapar do dever.
– É claro que não... Hades vai gostar de saber que lutou bravamente e que, antes de morrer, revelou os culpados de tal ato.
– M-Mo-Morrer... mas eu...estou vi...
Lucius não conseguiu terminar a frase. O gládio rompeu sua carne e ele olhou, incrédulo, quando Fúlvio o retirou do seu ventre e o sangue acompanhou o movimento. A última imagem que viu foi o cuspe que acompanhou a saída da lâmina e a expressão de escárnio do guarda pretoriano.
– Descanse nos Infernos, covarde... – disse Fúlvio empurrando o corpo de Lucius com o pé e deixando-o junto do mar de corpos.
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As capelas do fundo eram soturnas e úmidas, com paredes de pedra cinza e de aspecto sufocante, o cenário perfeito para o plano que havia sido engendrado.
Camus pensara em tudo, até na possibilidade de terem de se separar e na volta de uns, antes dos outros. Na fuga do Coliseu, ele, Afrodite e Albafica tinham saído antes de Milo e Máscara da Morte. Então, rumaram para as catacumbas onde os corpos de June e dos servos já esperavam sob a tutela de El Cid, Mu e Aldebaran.
O local usado para preparar o corpo dos servos, também era ideal por possibilitar que usassem uma passagem antiga para ter acesso às capelas sem ter de entrar pela frente.
Albafica, Afrodite, Aldebaran, Mu e El Cid haviam entrado e se dirigido à capela onde June havia sido colocada. Camus e Máscara foram até a capela onde os servos estavam e agora esperavam Milo que ainda não tinha chegado.
– Você tem certeza que ele conseguiu sair? – perguntou Camus preocupado.
Máscara da Morte olhou para o ruivo como se ele tivesse dito uma piada
– Fica frio, Milo sabe se cuidar. – falou o gladiador.
Camus franziu o cenho. Já era tempo dele estar ali, tudo fora planejado cuidadosamente. Aconteceu alguma coisa. Pensou o ruivo, olhando para a passagem estreita, por onde Milo devia ter passado, minutos atrás.
Passos no corredor anunciava a presença de alguém. Os passos firmes só podiam ser de certa pessoa e Camus sabia quem era. Hades! Ele está vindo, eu sei.
A angústia efervesceu, dentro de Camus, mas outro ruído chamou sua atenção. Alguém se arrastava pela passagem. Então, antes que Camus soltasse a respiração que ficara presa, Milo chegou com os cabelos molhados e uma capa por cima do corpo.
–Milo... – disse Camus, aliviado.
– Desculpa a demora, mas eu tive que tirar o sangue do corpo. – falou Milo.
Nailah e Gracus já tinham sido lavados e preparados. Estavam deitados em um estrado de madeira rústica num ângulo em que seriam vistos por Hades antes que ele encontrasse os três.
O cônsul moveu a cabeça vendo Máscara da Morte, Camus e Milo. Sua expressão não mudou e, sem falar nada, ele foi até os corpos, observando-os.
– Então, veio dar uma olhadinha para se certificar se tinha feito o serviço direito? – falou Milo.
Hades moveu a cabeça com uma lentidão perigosa, então encarou Milo com um olhar frio e significativo.
– Chegará o dia em que a sua arrogância se quebrará e se tornará pó. – disse Hades.
– Quem sabe não é agora? Quer tentar? – falou Milo se aproximando do cônsul.
Camus franziu o cenho e puxou Milo pelo braço.
– Milo. – chamou o ruivo.
Hades não desviou o olhar, tampouco recuou quando Milo o enfrentou. Sorriu, sarcástico, quando Camus veio ao encontro do gladiador. Sim, ele veria a arrogância daquele homem ruir, transformar-se em pó quando a hora chegasse...
– Vocês têm poucas horas para livrar-se desse lixo todo. Aconselho que o façam antes que a demora seja confundida com simpatia aos ideais revolucionários do seu ex – senhor! – disse Hades com um tom perigoso.
Ditas as palavras, o cônsul deixou o local.
– Filho da puta covarde! – disse Milo entre dentes.
– Por que tinha de provocá-lo? – falou Camus, irritado.
– Não suporto esse homem! Por mim eu o matava aqui e agora e encerrava o caso.
– Milo, as coisas não são tão simples assim! Matar Hades é afrontar o imperador e atrair a ira de todos. Seríamos caçados e mortos como traidores de Roma.
O gladiador olhou para o rosto de Camus, vendo-o com aquela preocupação característica que o fazia tão mais centrado e maduro que todos, ali.
– Tá. Vamos lá, então. Vamos cremar os corpos e tratar de sair daqui. – disse Milo com um suspiro.
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A domus estava às escuras, as sombras se arrastando por entre as esculturas e paredes mesmo que ainda não fosse noite. Pesadas cortinas haviam sido colocadas nas janelas tornando o ambiente soturno, quase claustrofóbico...
Abeona não acendeu as velas, preferia ficar assim, envolta pelo manto da escuridão, sentada no divã que, muitas vezes, acolhera também June, para conversar. Agora, esperava o neto que se recolhera ao quarto, certamente para chorar...
Shun puxara sua filha mais velha, Hebe, a que tinha alma sensível e artística, a que se casara por amor. Amor... Um sentimento poderoso e frágil. Uma arma que poderia ser mais fatal que a espada ou a lança.
– Dócrates! – chamou ela.
– Sim, domina. – respondeu o escravo vindo o mais rápido que suas pernas possibilitavam.
– Chame meu neto e traga vinho.
– Sim, domina. Antes, quer que eu acenda as velas ou mesmo, abra uma das cortinas?
– Não, deixe como está!
O escravo assentiu sem nada falar e foi chamar o jovem que vira nascer. Sentia afeto pelo menino e também medo pelo que ele deveria passar nas mãos daquele homem cruel.
Shun estava deitado, o olhar perdido no teto. Não mais chorava e sentia uma estranha frieza por dentro. Quando Dócrates pediu licença e o chamou, ele, simplesmente, levantou-se e foi.
– Já está na hora de escorraçar-me para que eu vá viver com aquele animal? – perguntou Shun sentindo desabar a couraça de frieza e voltando a sentir uma mágoa profunda.
– Sente-se, meu neto e beba comigo. – disse Abeona servindo, ela mesma, duas taças de vinho.
– Nunca me deixou beber vinho puro. – disse ele.
– Não é mais criança, logo fará 16 anos, a maioridade para um romano. Está na hora de adentrar o mundo adulto. Beba!
Shun aceitou a taça e sorveu um gole. O gosto forte e encorpado do vinho mediterrâneo espalhou-se em sua boca e logo lhe subiu à cabeça, produzindo um efeito relaxante.
– Quer me embebedar para ficar mais fácil prosseguir com essa loucura? – perguntou Shun, sentindo-se, estranhamente, atrevido.
– Lembra-se que eu disse que a morte de June não ficaria impune?
– Sim, bem antes de se humilhar para aquele louco assassino. – respondeu Shun já sentindo a cabeça rodar.
– Pois você será o instrumento da vingança. Resta saber se será homem, o suficiente, para cumprir o desafio.
– Eu? Como assim?
– Aquele homem, por um capricho do destino ou... dos deuses, o deseja. E não somente isso, você despertou nele, coisas adormecidas, pude ver pelo olhar que ele lançou sobre você.
– A-A senhora... está dizendo... Propondo que eu...
– Seduza Hades, faça-o se apaixonar por você, deixe-o cego para qualquer outra coisa que não seja o desejo de possuí-lo. E então, quando isso acontecer, nós o destruiremos!
Horrorizado, Shun deixou cair a taça e o vinho espalhou-se no piso claro.
– Vó... Isso é loucura! Eu não sei... Eu nunca...
– Nunca fodeu, eu sei. Por isso, será mais interessante. Um virgem inocente e belo, como você atiça os instintos de um homem como Hades.
– Um homem como ele toma o que quer, sem pestanejar! Ele vai me violentar e jogar fora, assim que saciar seus instintos. Ele odiava June e vai odiar-me, também. Não vejo como esse seu plano pode dar certo.
– Você não conhece a vida como eu, Shun. Eu sei quando um homem quer, apenas, sexo e quando existe algo mais. Hades tem tudo o que quer, é um homem sem escrúpulos e afeito a toda sorte de perversões! No entanto, os opostos se atraem... Ele viu em você, algo que não tem e vai desejar corrompê-lo... Sua pureza e sua beleza são suas armas, meu neto. Armas mais eficazes e mortais que qualquer outra. Armas que vingarão a morte de June!
– Eu não suportaria... – disse Shun com os olhos brilhando pelo vinho e pelas lágrimas.
– Então, vou tomar isso como a prova que não amava sua tia, como disse que amava. Quem ama se sacrifica! Ou será que puxou o sangue ruim e covarde de seu avô?
Shun não sabia o que pensar ou dizer. As palavras de Abeona martelavam sua mente e apertavam seu coração. As lágrimas queimavam seus olhos e, de repente, a imagem de June surgiu-lhe à mente, deitada e inerte, o fogo consumindo seu corpo, a fumaça com odor da carne, a lembrança do sofrimento dela...
Sentiu vontade de vomitar e assim o fez, sujando o chão e sentindo um amargor na boca. Limpou os lábios com as costas da mão e olhou para Abeona que continuava encarando-o como se fosse uma harpia. Então, a resposta saiu num fio de voz:
– Está bem, vó... Eu o farei.
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Saga estava escondido na casa que June confiara à Afrodite. Acordou sentindo a maciez do colchão em que fora colocado. Sua língua estava grossa e a garganta em carne viva, sendo difícil engolir a saliva. A cabeça doía e, constatou que estava nu com emplastros sobre o corpo.
A peça onde se encontrava estava escura, mas havia um filete dourado de sol entrando por uma fresta, então, ainda era dia... Ouviu conversas baixas e, aos poucos, sua memória foi lembrando-o de Albafica e de algo que ele lhe deu para mastigar. Tentou levantar-se, mas não conseguiu e, novamente, as trevas o engoliram, fazendo-o adormecer.
– Não podemos deixar Saga aqui. – disse Afrodite que estava reunido aos outros no pequeno salão da domus.
– Por quê? Não acha que fica perfeito depois do que aquela velha disse? Se Hades ficar com o garoto, Saga pode ficar escondido aqui. – falou Máscara da Morte.
– Afrodite tem razão, assim que souber da fuga de Saga, Hades vai procurar em todos os lugares possíveis, inclusive este. Embora não saiba desta casa, ele tem seus informantes. – disse Camus.
– Bem, tem um lugar que Hades não conhece. Eu e minha mãe morávamos no interior e o lugar é bastante afastado e pouco frequentado. Podemos ficar um tempo lá e depois irmos para outro lugar. – falou Milo.
– Ótima ideia, Milo! – disse Afrodite.
– Tem um detalhe, Saga não tem condições de cavalgar. Teremos de levá-lo em uma carroça. Se formos todos de uma só vez, vão desconfiar. Vamos ter que nos separar. – falou Camus.
– Nos separar? Nada disso. – disse Milo.
– Milo, um grupo grande é fácil de ser localizado. Se você, Máscara, El Cid e Aldebaran levarem Saga, agora, terão mais chances. A gente segue vocês, depois. Faça um mapa para que possamos segui-los e tudo correrá bem. – falou Camus.
O gladiador franziu o cenho. Não gostava nada daquela ideia, principalmente, porque ficaria longe de Camus.
O ruivo olhou para Milo vendo que aquilo não o agradava, mas tinha de ser feito ou arriscavam por perder tudo que haviam planejado.
– Eu vou rumar para onde a legião de Kanon está. Vou informá-lo do que aconteceu aqui. Serei um a menos nessa caravana. – disse Mu.
– Eu ainda não gosto desta ideia. – falou Milo.
Camus se aproximou e tocou-o no rosto.
– Você é um guerreiro e sabe que, muitas vezes, temos que fazer o que é melhor para o grupo. – disse o ruivo.
Milo suspirou, depois puxou Camus para si e o beijou.
– Está bem, você e Afrodite são as mentes pensantes, então vou obedecer. Mas que fique registrado que não gosto nada disso. – falou Milo rente aos lábios que acabara de beijar.
Um sorriso se formou nos lábios desenhados de Camus.
– Não se preocupe...
– Eu ficaria menos preocupado se tivesse deixado eu acabar com a vida daquele infeliz!
– E eu apoio o Milo. – disse Máscara da Morte.
– Vocês dois são loucos!– Agora vamos, temos que aprontar Saga para a viagem. – falou Afrodite.
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Hades saía do banho quando ouviu a voz forte de Fúlvio. Enrolou-se em um pano e foi ter com o guarda pretoriano.
– O que foi Fúlvio? – perguntou o cônsul dispensando o escravo com a mão.
– Domini! – disse Fúlvio saudando-o com a mão fechada batendo sobre o peito. – O prisioneiro foi levado e um só homem matou todos da guarda. Só sobrou um soldado moribundo para contar o que tinha acontecido, antes de morrer.
Com o cenho franzido, Hades fez a pergunta para a qual já sabia a resposta.
– O homem que matou todos...
– Foi Scorpionis, senhor! Ele sozinho acabou com toda a guarda pretoriana.
Hades fechou o punho, embora seu semblante continuasse frio e controlado.
– Devo mandar a guarda, domini? Os homens estão a postos, esperando a sua ordem. – disse Fúlvio.
– Não. Meus peões morreram, mas eu tenho outras peças bem melhores para continuar esse jogo. Deixem que pensem que o plano deu certo. Assim, quando se derem conta do erro cometido, já será tarde demais. – respondeu Hades, deixando o guarda pretoriano confuso.
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