A Cólera Dos Deuses
5 Capítulo 5 DUELLUM EX TITANIS (Duelo de Titãs)
Notas iniciais
O roteiro escolhido pelos gladiadores para conseguir as vestimentas dos luperci consistia em uma pequena escalada pela encosta da montanha, a fim de evitar serem vistos no caminho, tradicionalmente procurado.
As rochas estavam escorregadias devido à chuva, porém Mu era experiente na arte de escalar. Sua terra jazia entre montanhas altas e frias, muito maiores que o Vesúvio e ele aprendera a subir nelas quando ainda era um menino. Milo possuía destreza física e embora não escalasse, fazia-o com bastante facilidade por ter força nas mãos e dedos que agora se cravavam nas reentrâncias das rochas.
A decisão de ir, apenas dois, partira da ideia que as tarefas seriam divididas conforme as habilidades e tempo. Então, enquanto Albafica preparava sua poção, Afrodite e Camus encaminhariam os rituais fúnebres, sendo ajudados por El Cid, Aldebaran e Manigoldo, enquanto Mu e Milo se encarregavam do empréstimo das vestimentas e Máscara da Morte descobria o local para onde Saga havia sido levado.
— Segure minha mão. – sussurrou Mu para Milo.
O gladiador apertou firme a mão estendida e deu um impulso. Logo, ambos rastejavam, sutilmente, espreitando a caverna onde os luperci estavam reunidos.
Não havia mais ninguém para ser purificado. O líder, então, adentrava a caverna onde tudo começara e junto aos irmãos se entregava a outro tipo de ritual. No interior da rocha, havia uma pequena fogueira que deixava escapar uma fumaça esbranquiçada e com um forte odor herbário. Criando espirais, dentro do ambiente, a fumaça tornava a atmosfera densa e hipnotizante...
Mu observou que, quanto mais a fumaça se dispersava, mais os luperci pareciam entrar em uma espécie de transe coletivo. Tiravam as roupas e dançavam nus, se esfregando uns nos outros, refletindo as sombras do fogo em seus troncos, braços e pernas. Alguns riam, outros tentavam intimidades, outros choravam e alguns se isolavam murmurando palavras desconexas...
Milo fez um sinal que mostrava a Mu onde as roupas estavam sendo empilhadas e, para sorte de ambos, os luperci estavam, cada vez mais, envolvidos no clima sensual que a exposição dos corpos nus incitava...
O líder, como se fosse o próprio deus Pã, exibia uma ereção que era apreciada por dois homens mais jovens. Em dado momento, um deles abocanhou o falo pulsante, enquanto o outro mordia as nádegas que se contraiam com o prazer despertado.
O luperci, cujo falo era lambido e manipulado, arfou e seu rosto se contorceu em um esgar grotesco e primitivo. Ele começou a urrar como se fosse um animal e o clima orgiástico se acentuou com mais homens buscando as bocas uns dos outros, as mãos vagando com fúria pelas peles suadas...
Logo, todos fodiam de uma forma animalesca, penetravam e eram penetrados de todas as posições possíveis e, a cada perversão, gemiam de prazer e uivavam como se fossem lobos... Alguns apreciavam chicotear o parceiro e depois lamber o sangue, enquanto eram possuídos de forma violenta, outros pediam para ser chicoteados e só assim, chegavam ao orgasmo.
Mu e Milo arrecadaram as vestes necessárias e deixaram a montanha, rapidamente, enquanto os luperci continuavam com sua cerimônia particular. Em silêncio, ambos se perguntavam como aqueles homens, considerados a elite moral de Roma, podiam ser tão pervertidos e tão hipócritas...
Eu devia ter enfiado aquele chicote no rabo daquele luperci, ele ia ter gostado. Pensava Milo enquanto olhava para a marca em seu braço e voltava com Mu para o restante do grupo.
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A manhã chegou com murmúrios e pequenas confusões dominando o cenário romano. Havia mulheres cochichando segredos, homens em pé em carroças, carregando sacos de cereais, ânforas de vinho mediterrâneo e pequenas aves em gaiolas feitas de madeira. Não mais chovia, mas a lama e o ar úmido continuavam a dominar as ruas. Entretanto, nada disso impedia as aglomerações costumeiras no mercado e adjacências...
— Os luperci da montanha não descerão tão cedo. – disse uma mulher com seios avantajados, enquanto se abanava e escolhia frutas e carne fresca em uma banca.
— Nunca descem... Ficam jejuando até o meio do dia. – falou uma senhora cujos cabelos prateados desciam, ondulantes, pelas costas.
Um grupo de mulheres cujos rostos exibiam uma coloração avermelhada riu, entre si ao ouvir a conversa das damas da sociedade.
— Pois, sim, que ficam jejuando... Uma vez, um senador me disse que eu chupava tão bem quanto um destes luperci...Ele até pagou um pouco mais para que eu batesse nele com um chicote... — disse a cortesã com um sorriso malicioso.
— Eles aproveitam a festa para foder entre si, os safados. Mas também, com esposas como aquela ali... Se fosse eu preferia até mesmo foder com um bode!— falou outra.
Mais risadas até que um grupo de lupercos sodales adentrou as ruas estreitas. Alguns trataram de se esquivar do chicote, outros imploravam pela purificação.
— Eu não gosto disso. – sussurrou Albafica entre dentes.
— Mas tem de fazer ou vão desconfiar de nós... Senta o chicote neles! – sussurrou de volta Afrodite.
Albafica fez o movimento de forma contida, então Afrodite completou chicoteando o próximo com força, arrancando um gemido extasiado e uma postura contrita.
— Viu? É assim! – resmungou baixo, Afrodite.
Atrás do cortejo, Máscara da Morte, Milo, Manigoldo e Mu observavam cada canto das ruas, atentos a qualquer movimento. Como os luperci eram escolhidos entre os patrícios Albafica, Afrodite e Camus seriam os primeiros da fila por falarem a linguagem culta e conhecer as orações ditas durante a purificação. O restante acompanhava em silêncio, apenas chicoteando e dizendo palavras ensaiadas.
Os únicos a ficarem fora do cortejo haviam sido Aldebaran por sua estatura avantajada, fato que denunciaria o grupo e El Cid que ficaria nas redondezas do Coliseu como um observador. Atentos, ambos agiriam como guardiães e ficariam à espera do retorno dos amigos para, então partir, com Saga para um local seguro, enquanto os demais seguiriam para o funeral de June e os servos mortos na Casa de Gemini.
O grupo ganhava as ruas e rumava em direção ao Coliseu. Segundo as informações obtidas por Máscara da Morte, era ali que se encontrava Saga à espera do julgamento.
Hades se preparava para convocar os senadores para julgar e ter uma audiência com o imperador. Havia deixado uma guarda insuficiente à vista e vários soldados da guarda pretoriana posicionados em locais estratégicos no Coliseu.
Esperava que os homens leais à Gemini tentassem um resgate à força e, para isso, os provocaria ao máximo, expondo Saga de forma a atrair a ira dos gladiadores. Sorriu ao pensar que talvez fosse surpreendido, afinal havia uma mente sagaz, entre eles... Camus... Será que terá a coragem de me surpreender? Pensou, revivendo situações antigas, enquanto se dirigia ao palácio do imperador.
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O guarda olhara com surpresa para o jovem à sua frente. Uma audiência com o imperador sem ser chamado? Pensou ele ao fitar os grandes olhos verdes que lhe causavam uma sensação estranha.
— Você veio até aqui sem ser chamado e quer falar com o imperador Titus? – falou o homem em tom de deboche.
— Sim, por favor. – disse Shun, gentilmente.
— O imperador está ocupado e não costuma receber sem audiência marcada. Portanto, nada posso fazer! — retornou o homem mantendo sua postura altiva e forçada.
Shun ainda tentou argumentar, mas foi em vão. Então desistiu e voltou às ruas sentindo a garganta apertada e aquele sentimento ruim torcendo suas entranhas. Estava cansado de chorar as perdas da sua vida, mas ainda assim as lágrimas teimavam em encher-lhe os olhos. Caminhando rápido e tentando contê-las, não viu quando o cavalo avançou em sua direção e um par de mãos fortes impediu-o de ser atropelado.
— Cuidado! – disse a voz forte em sincronia com o puxão em seu braço.
Um gemido escapou da boca do jovem e seus olhos úmidos se encontraram com duas orbes frias que se fixaram nos seus. O homem altivo e belo mantinha seu pulso sob a mão forte e a forma como o olhou fez com que sua pele se arrepiasse diante daquele contato.
Houve uma centelha que se formou entre os dois... Rápida, invisível e quase asfixiante. O coração de Hades disparou, o estômago de Shun doeu. Sem graça, o jovem desviou o olhar e fez o que sempre fazia, se desculpou tentando sorrir.
— Não há porque se desculpar... Apenas tome cuidado, as ruas estão cheias de toda a espécie de criaturas. – falou Hades e sua voz adquiriu um tom rouco e gentil.
— Obrigado... – disse Shun desvencilhando-se da mão que o segurava e tratando de seguir seu rumo.
Hades observou o corpo esguio misturar-se ao povo que circulava e algo dentro de si experimentou uma emoção nova, algo que não acontecia desde a morte de Minos. Tratou de resguardar aquele sentimento e voltou ao seu caminho original, sem saber que a roda do destino girava em sua inexorável jornada de armadilhas e desafios...
Shun seguia pelas ruas com pressa. Logo adentrou a domus de sua avó e logo foi interpelado pelo criado idoso que o conhecia desde que nasceu.
— Aconteceu algo, meu senhor? – perguntou Dócrates vendo que o jovem estava com as faces coradas.
— N-Não... Eu, apenas não estou acostumado a sair e enfrentar o movimento das ruas. – respondeu Shun.
— Vou trazer-lhe uma bacia com água para que se lave. – disse o escravo.
— Não é preciso, Dócrates. Eu mesmo posso ir lavar-me lá dentro. – respondeu Shun tentando poupar o velho escravo.
Nesse ínterim, Abeona surgiu vestida de negro da cabeça aos pés. Um véu transparente cobria o seu rosto, porém seus olhos claros pareciam arder através dele. Shun evitou-os, porque parecia que sua avó podia ler tudo que se passava em seu íntimo, assim como June.
Entretanto, por mais parecidas que as duas fossem, June lhe devotara um afeto quase maternal e gostava de ouvi-lo recitar as poesias que escrevia. O sorriso e a força que emanavam dela o ajudaram a ver que não seria como seu irmão, Ikki. E que isso, em nada, o desabonava. Ela o fizera aceitar a si próprio em um mundo onde a violência era considerada um componente essencial na vida e na personalidade de um homem.
— Por onde andou? Vá se vestir que logo será o enterro de sua tia. – disse ela em um tom autoritário e cansado.
— Vó... Eu... quero que saiba que eu...sinto muito.
— Eu sei meu neto, eu sei... Você sente por mim e por você. June era a minha preferida, que Hebe não me escute e o amava como o filho que ela nunca teve. Eu me pergunto se as duas estão juntas, agora... Se, realmente, existe um lugar de paz neste mundo amaldiçoado...
Shun abraçou a avó, sentindo o corpo envelhecido estremecer e só então, percebeu, que ela chorava...
Erídano, o pai de June entrou quebrando o clima entre Shun e Abeona. Estava bêbado e tinha algumas escoriações pelo corpo. Ele tentou balbuciar algumas palavras, mas nenhuma tinha sentido e se revelavam um amontoado sem nexo.
O escravo adiantou-se, levando seu senhor para o banho. Abeona nada disse, mas Shun sentiu-lhe o ódio. Essa era uma das maldições que carregava em seu coração, sentir a dor do outro como se fosse a sua. De imediato, lembrou-se da cena nas ruas e no sentimento poderoso que sentiu fluir do olhar e do contato com aquele homem estranho. Fechou os olhos por um instante, até ouvir a voz de sua avó.
— Vamos, meu neto, venha assim mesmo! Está bem vestido, apesar destes respingos de lama em sua roupa. – disse Abeona apoiando-se nele.
— Não vamos esperar o vô? – perguntou Shun.
— Deixe esse inútil aí. Não quero que minha June veja no quê o pai dela se tornou. Um fraco! Isso é o que ele é!
— Ir ao enterro sem o seu marido será estranho. As pessoas vão falar. – disse Shun.
— Já estarão falando e, mesmo que eu aparecesse acompanhada do melhor homem de Roma, ainda assim veria naquelas bocas venenosas o escárnio e a falsidade. Vamos hoje você será o meu homem.
Shun estendeu o braço para a avó e ambos deixaram a domus. Lá fora, a chuva recomeçou fina e intermitente, como um substituto das lágrimas que não eram mais derramadas...
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O cortejo dos luperci chegou ao Coliseu sob a chuva fina. Com seus capuzes, era difícil ver-lhes o rosto, então foi fácil para Afrodite, Camus e Albafica falarem com os guardas como se fossem nobres.
— Viemos purificar o prisioneiro! Meu irmão fará os procedimentos habituais! – disse Afrodite em um tom alto e imperativo.
— Pensei que seria o próprio Hades a... – começou a falar o guarda.
— Silêncio, animal! Como ousa dirigir-se a um luperci com essa boca imunda? – falou Afrodite interrompendo a fala do homem e já descendo o chicote sobre a cabeça do soldado.
Um gemido de dor escapou dos lábios do soldado e ele baixou os olhos, enquanto Albafica e Camus se dirigiam até as celas. Mu, Milo e Máscara da Morte, apenas observavam e, de vez em quando, brandiam os chicotes para que os guardas não os olhassem diretamente.
As celas do Coliseu ficavam abaixo das arquibancadas e muitas outras estavam em construção. O monumento, apesar de ter sido construído para os jogos, ainda estava em obras. Os andares superiores estavam completos, enquanto as galerias subterrâneas ainda pediam atenção.
Saga ocupava uma das celas do fundo que eram mais escuras e úmidas. Ele ouviu a movimentação, mas estava fraco. Sua garganta estava dolorida e seca. Seus olhos estavam inchados e ele via, apenas, silhuetas que se moviam na sua direção.
Albafica entrou com cuidado, enquanto Afrodite vigiava e Camus recitava a oração de purificação.
— Mundavero in nomine Pan! Qui flagellum emundans removere malum, quod incolit corpus tuum et te facta purus, iustus, et faustumque sit! (Eu te purifico em nome de Pã! Que o chicote purificador retire o mal que habita teu corpo e te torne puro, justo e próspero!) – disse Camus com forte entonação na voz.
Introduzindo a mistura que fizera na boca de Saga, Albafica rezou em silêncio para que tudo desse certo. Achara Saga fragilizado e ferido demais, mas mesmo assim tinha de tentar.
Saga tentou falar algo, porém Albafica tocou-lhe os lábios e sussurrou para que ele mastigasse. O cônsul obedeceu e instantes depois, sua respiração estava fraca e as batidas de seu coração, inaudíveis.
O jovem curador fez sinal para Camus e Afrodite. Logo, os guardas vieram até a cela, encontrando o corpo de Saga estendido no chão.
— Este pobre pecador foi ao encontro de seus ancestrais! Aproveitando que estamos aqui, vamos levá-lo conosco. – disse Camus.
— M-Mas, domini... o cônsul Hades, ele é o Luperco Sodales e...
— Cale-se, eu não permiti que falasse! Hades vai castigá-lo se souber que nos enfrentou! Agora nos deixe fazer os encaminhamentos. – disse Camus.
O soldado hesitou, porém o tom na ordem dada o fez recuar. Camus chamou seus irmãos e, em seguida, Mu e Afrodite ergueram o corpo de Saga, enquanto Milo vigiava, discretamente. O grupo saiu de forma natural, sem apressar o passo até chegar ao longo corredor que levava para fora do Coliseu.
Tudo ia bem, até um dos guardas pretorianos que permanecia escondido, observar as sandálias do último luperci da fila. A capa que Milo vestia não cobria toda a sua perna, deixando à mostra parte das sandálias... Sandálias essas que não eram de um patrício. Experiente, o soldado notou que aquele tipo de calçado pertencia a um guerreiro, mais especificamente, a um... gladiador.
O alarme foi dado quando Albafica, Camus, Afrodite e Mu carregando Saga já adentravam o corredor que levava à saída do Coliseu. Milo e Máscara da Morte ficaram mais atrás e logo, a guarda pretoriana que Hades deixara de prontidão em lugares estratégicos, lançou-se na direção do grupo.
— Tem algo de errado com estes luperci! Peguem-nos!- gritou o líder da guarda pretoriana fazendo eco nas paredes do lugar.
A guarda surgiu de todos os lados e tanto Milo quanto Máscara da Morte percebeu que a estratégia empregada devia sofrer alterações.
— Máscara, vai com o grupo e cuida que nenhum guarda esteja à espera deles lá fora. Mata quem estiver no caminho! – disse Milo.
— Mas e você? Vai ficar encurralado aqui dentro. – falou Máscara de Morte.
— Não tem importância. Por mim, nenhum desses otários vai passar. Cuida do resto da guarda prá que o disfarce não se desfaça por completo. Eu sigo depois. — falou Milo.
Máscara obedeceu e correu para junto dos outros.
Milo parou e livrou-se do disfarce que limitava seus movimentos. Tocou a espada que trazia sempre presa às costas. Posicionou-se como uma barreira entre a guarda pretoriana e seus amigos. Por alguns instantes, ouviu o som de gládios se enfrentando fora dali e sorriu sabendo que Máscara da Morte já tinha feito a sua parte...
Camus, meu amor... Você planejou bem e sei que prefere a sutileza, mas agora, vai ter que ser do meu jeito e... eu não sou nada sutil! Pensou o gladiador enquanto via os soldados rumarem na sua direção.
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Titus lia algumas mensagens quando Hades surgiu em vestes civis. O palácio estava silencioso e o som dos passos firmes sobre o mármore escuro fez o imperador elevar os olhos.
— Hades... Foi bom ter vindo, soube de algumas coisas que me deixaram preocupado.
— Preocupado? – falou Hades movendo-se de forma bastante segura.
— A prisão de Saga e tudo o que aconteceu. Acha que não devo me preocupar?
— Saga é um traidor , seus servos e sua mulher também o eram. Saiba que ela confessou, em altos brados, ter envenenado Minos. Toda aquela casa estava impregnada de manifestos para a libertação de escravos e toda a sorte de ações visando subverter a ordem. Sou um homem de ação e tomei as providências pertinentes a tais atos.
— E quanto à guarda pretoriana? Um dos destacamentos da minha guarda pessoal foi acionado para vigiar Saga. Acha isso necessário?
— Meu senhor, tudo o que faço é para o bem de Roma. Mas, se acha que estou sendo demasiado rigoroso, coloco-me sob suas mãos.
— Bem sabe que o tenho como amigo e homem de total confiança, Hades. Este Saga, embora fosse um homem admirável, perdeu o bom senso e traiu seu dever de defender os cidadãos de Roma para defender a liberdade dos escravos.
— Exatamente! Por isso, ele deve servir de exemplo. Vou julgá-lo em praça pública e crucificá-lo.
— Tem o meu aval, Hades. E quanto aos escravos que ele libertou?
— Creio que logo eles deixarão de fingir ser bons homens.
— Acha que tentarão algo?
— Tenho certeza. Por isso, requisitei a guarda pretoriana.
— Fez bem. Agora, deixe que enterrem seus mortos e cuide da seleção dos patrícios para o julgamento. Escolha, somente, aqueles cuja moral seja intocada. Precisamos mostrar que os cidadãos honestos de Roma serão sempre priorizados em meu governo.
— Com toda a certeza, meu senhor. Agora, devo me retirar e verificar como está o prisioneiro, assim como os rituais fúnebres daquela... mulher.
— Sim, faça-o. Mesmo que os traidores não mereçam um túmulo em solo romano, deixe que essa tal June seja enterrada ou cremada. Tanto faz. Aproveite para ver quem irá ao enterro e como se comportam os ex-escravos de Gemini.
— Seguramente, me senhor! Com licença. – disse Hades dirigindo-se ao funeral sem saber que reencontraria certo alguém...
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A situação tornara-se tensa e delicada. Milo não deixaria que seus amigos fossem pegos, porém estava diante da guarda pretoriana, famosa por salvaguardar a vida dos imperadores. Era formada legionários experientes, aguerridos e fortes no combate.
Otaviano, seu atual líder, gabava-se de ter o mesmo nome do imperador que transformara os pretorianos originais em uma espécie de guarda de elite. Era um homem famoso por já ter matado muitos e jamais ter perdido um combate.
— Você! Estou te reconhecendo... O tal Scorpionis, herói de Roma... Pois muito bem, o cônsul Hades avisou-nos que a corja dos gladiadores tentaria libertar o prisioneiro. Tem a chance de se entregar antes que eu o mate e prenda seus amigos por traição.
Um sorriso sarcástico se fez nos lábios de Milo, enquanto batia com a ponta da espada na outra mão e olhava Otaviano com desprezo. O ato fez Otaviano cerrar os dentes e franzir o cenho.
—Seu filho da puta arrogante! Vou fazer você engolir esse seu sorrisinho imbecil ! Enquanto eu cuido desse aqui, peguem os outros! – disse o pretoriano.
A guarda avançou, com a intenção de passar e impedir que o grupo deixasse o Coliseu.
— Nã-na-ni-na-não! Por mim ninguém passa. – disse o gladiador colocando-se bem no centro do corredor.
Com um movimento rápido, Otaviano empunhou a espada e o homem atrás de si avançou com a sua, ambos atacando Milo, ao mesmo tempo e sendo recebidos com extrema agilidade. Milo golpeou o soldado na altura do ombro, abrindo um corte que lhe decepou o braço. O sangue vivo jorrou do corte e o restante da guarda entrou na luta, saltando sobre Milo, mas sendo interceptado na metade do movimento com um chute desferido pelo gladiador.
Rapidamente, um dos soldados puxou um punhal curto e investiu direto na altura do rosto de Milo que desviou e pegou-o pelo pulso, encaixando um golpe que quebrou seu braço na altura do cotovelo e o fez cair em cima do homem que tivera o braço decepado e que segurava a ferida aberta com os olhos vítreos e arfando, quase em choque, devido à imensa perda de sangue.
Silenciosamente, Otaviano entrou no combate e atacou com uma rapidez espantosa fazendo surgir faíscas azuladas que escaparam do contato violento entre as duas lâminas. A defesa, também rápida, de Milo fez o movimento parecer uma dança orquestrada e ambos desferiam golpes fortes que só guerreiros daquele nível poderiam suportar e ainda permanecer com seus gládios inteiros.
Os golpes de Otaviano desciam com um poder de corte como se ele fosse um gladiador, exigindo de Milo defesas fortes e um revide ainda mais violento. Nenhum dos dois dava trégua um ao outro. Então o líder pretoriano deu um salto no ar, elevando a espada acima da cabeça e descendo-a em um movimento espiralado, fazendo Milo recuar dois passos com a força do choque e ser atacado por mais um soldado que tentava atingi-lo e desbloquear a passagem.
Impiedosamente, Milo lançou-se na direção dos dois que tentaram furar seu bloqueio e moveu sua espada com uma rapidez tão espantosa que, quando Petrônio e Jano se deram conta, tiveram suas cabeças arrancadas de seus corpos com uma precisão digna de um carrasco, fazendo um caminho de sangue que se projetou em uma das colunas da arena. Os corpos sem vida desabaram como se fossem bonecos e um rio rubro escorreu pelo chão.
Depois, virando-se para à sua esquerda, Milo viu-se, novamente, frente ao líder do grupo, mais dez soldados. Otaviano era um homem de pele alva e olhar agressivo. Seu porte físico era mais avantajado que o de Milo e ele voltava à luta destemido e com a intenção de matar, mostrando que ele não era o principal em comando, à toa. Seu olhar e sua técnica resultavam de anos combatendo. Entretanto, não foi ele quem atacou Milo e sim os seus subordinados.
Um brilho gélido acentuou-se nos olhos de Milo. O gladiador podia ser impulsivo e brincalhão, mas em termos de luta, sua mente era tão sagaz e estratégica que o adversário custava a adivinhar-lhe os movimentos. Era óbvio que Otaviano esperava que ele cansasse e deixava que os soldados avançassem e atacassem com todo o poder e força que tinham, pois afinal, eram a guarda pessoal do imperador.
De posse das informações que sua mente processava, Milo inspirou e elevou a espada, girando sobre o próprio corpo e, trocando-a de mão, confundiu o primeiro soldado que o atacou cortando-o na altura da cintura, fazendo jorrar o sangue como se fosse uma pequena cachoeira.
O homem caiu de olhos abertos, enquanto o gladiador saltava sobre ele e descia o gládio bem no meio da cabeça do seguinte, abrindo o crânio e expondo o cérebro. Rapidamente, Milo girou novamente e cortou o ventre de outro e, aproveitando o impulso, saltou com uma precisão inacreditável, cortando mais três soldados que estavam atrás, na altura do peito, ventre e genitais.
Pedaços de carne, pele e ossos voaram, projetando-se no chão do Coliseu. Era algo horripilante e fantástico, tudo ao mesmo tempo.
Milo parecia o próprio deus da guerra e sua lâmina descia implacável, fazendo o papel de Deimos e Fobos, bebendo sangue e forrando o chão com pedaços dos corpos do inimigo.
Quando os últimos homens avançaram gritando, Milo os cortou, em segundos, estripou os cinco de forma certeira e impiedosa, deixando Otaviano sem nenhuma proteção.
O líder sentiu o olhar penetrante e desafiador de Milo. O líder pretoriano nunca perdera uma luta, porém aquele homem não parecia humano. Havia uma aura quase sobrenatural nas ações e na forma como ele movia a espada.
Ficou encarando aqueles olhos azuis que não desviavam, nenhum momento, dos seus, sentindo um leve estremecer na mão que empunhava o gládio. Milo baixou a espada, um ato que sempre empreendia fosse na arena ou fora dela.
Otaviano inspirou com o cenho franzido. Seus homens haviam sido massacrados por um só homem. Nem mesmo a guerra que havia enfrentado com seus soldados tinha feito tantas baixas em tão pouco tempo.
Um último grito de guerra junto ao ataque empreendido e a última cena que Otaviano vislumbrou, foi a lâmina afiada de Milo beijar a sua como se fosse um amante voraz. Num movimento calculado, o gládio vibrou, escorregou e estocou de forma a cortar-lhe o ventre e depois a garganta.
A precisão do corte fez com que as vísceras de Otaviano ficassem expostas e a garganta se abrisse como se fosse uma segunda boca. Tudo em uma perfeita e macabra sincronia... O sangue brotando aos borbotões e espirrando em jatos, molhando a areia e o corpo de Milo.
O líder pretoriano elevou as mãos, tentando conter o sangue e caiu, em seguida, sob os estertores finais do seu corpo diante da morte rápida.
Estavam todos mortos... Não havia sobrado ninguém para testemunhar quem acabara com boa parte da guarda pretoriana e Milo tratou de seguir os companheiros.
Por um instante, o gladiador deu uma olhada nos corpos que ficaram para trás. Muitos daqueles homens eram corajosos e fortes.
Pena estarem à serviço daquele escroto do Hades! Pensou, enquanto sentia forte, dentro do peito, uma enorme gratidão por Saga tê-lo libertado, possibilitando que ele pudesse fazer suas próprias escolhas...
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