A Cólera Dos Deuses

11 Capítulo 11 MORTEM HABERE NOMINE : SCORPIONIS


Notas iniciais
**** Tradução do título: A morte tem nome: Escorpião

**** Em primeiro lugar, obrigada pelo carinho enorme que recebo através dessa fic.

****LucyStar83, Hitsujikai Atsuya, Persefone_san, Fnanda, Doce Amarga, Kao, CiçaDF, Mililika, Aghata Marie, Angelique, Lemony, Saturno, Shall, Mel Dark
Bjs, amadas e saibam que receber os comentários de vocês me ajuda a ver os dias mais coloridos!!! Boa noite a todos e uma excelente e desafiante semana!!

**** Aos silenciosos, obrigada, também.


“Como se fosse a foice da morte,

Minha espada ceifará sua vida miserável!

E quando seu corpo estremecer, imerso em sangue,

eu pisarei no seu cadáver!”

Scorpionis, Roma ano79 AC.



As ruas de Roma começavam a criar vida. Os primeiros raios de sol misturavam-se aos sons de carroças, aos passos apressados, ao cacarejar das aves e às vozes humanas.



Não seria, apenas, mais um dia comum, onde o povo trabalharia até a exaustão, enquanto a nobreza usufruiria dos prazeres cotidianos... Este dia seria um marco na história de todos, seria o dia em que Roma sediaria um espetáculo sangrento como jamais houvera presenciado...



– Venham todos! Venham todos! Hoje, no Coliseu um espetáculo surpreendente! O imperador Titus os convida a celebrar a magnificência da Ludus Maxima e clama pelo apoio do povo! – gritava um velho com voz forte.



– A Ludus Maxima trará todos os seus gladiadores para enfrentar os fugitivos da Casa de Gemini! Não percam! – gritava um jovem entusiasmado com um tom de voz que oscilava entre o agudo e o grave.



De imediato, a notícia se espalhou como fogo em palha seca. Murmúrios entusiasmados, risinhos e apostas correram de boca em boca por becos, ruas e casas de Roma como Milo desejava. Logo, o Coliseu estaria lotado e tudo terminaria...



Após instruir os dois locutores, Aldebaran e El Cid haviam voltado para o interior do Coliseu e lá deixavam os lugares preparados para o espetáculo que seria exibido.



Quando a liteira parou diante do grande monumento que era o Coliseu, Hades surpreendeu-se com toda aquela movimentação e seu cenho endureceu. Não contava que o embate seria público. Olhou para Shun que também estava confuso, porém manteve-se frio e controlado como era do seu feitio.



– Parece que aquele gladiador tem planos... Veremos se os mantém, assim que seu amante seja exposto! – falou entre dentes. – Guardas! Tragam o prisioneiro e o crucifiquem no centro da arena! – ordenou, logo a seguir.



Shun estava em silêncio, mas ao ouvir a ordem, não conseguiu se conter.



– Por que faz isso? Qual o prazer que tem em ser tão cruel?



Hades encarou-o e levou a mão ao rosto do jovem, fazendo-o esquivar-se.



– Vai aprender um dia que o poder tem o seu ônus. Não se lidera homens pela bondade, mas pelo terror! Crê que Roma seria um império se ensinasse seus soldados a plantar flores ao invés de lhes dar o gládio? Vou ensinar àquele gladiador que não se brinca com um cônsul romano e muito menos comigo!



– Não estamos falando de Roma e sim da sua vingança! Você matou minha tia, torturou e mandou prender Saga e pretende continuar em sua jornada de sangue até que todos morram, inclusive, você mesmo!



– Esse é o seu desejo mais profundo, não é mesmo? O doce Shun também deseja vingança... Está na hora de deixar de ser hipócrita e assumir as reais intenções da sua vinda à minha casa! Você me odeia, mas não tem coragem de tomar outra atitude que não seja choramingar... – falou Hades apertando o queixo do jovem.



Shun sentiu a pressão dos dedos e a força da mão de Hades que o obrigava a elevar a cabeça e encará-lo dentro daqueles olhos frios. Por alguns segundos, ele nada disse. Então, quando sentiu as lágrimas inundar-lhe os olhos, deixou escapar as palavras com toda a força do seu coração:



– Sim, eu desejo! Desejo que morra e desça aos Infernos!



Um sorriso largo abriu-se nos lábios de Hades e ele aproximou-se de Shun, ainda segurando-o com força e o beijou, ferozmente, arrancando-lhe sangue do lábio. O jovem tentou afastá-lo, mas o cônsul era mais forte e, após beijá-lo, levou a mão ao seu pescoço e apertou. Shun abriu a boca sentindo a pressão e a falta de ar.



– Quem sabe você possa me acompanhar aos Infernos... Eu adoraria fodê-lo, em qualquer lugar... – sussurrou Hades rente ao rosto de Shun.



Os olhos de Shun se arregalaram e ele já sentia a visão nublar quando Hades o soltou, tão violentamente, quanto o tinha pegado, fazendo-o bater com as costas em uma das vigas de sustentação da liteira. Nesse exato instante, Hyoga aproximou-se e encarou Hades com intensidade nos olhos azuis.



– O que está fazendo aqui? – perguntou o cônsul. – Seu lugar é com os outros gladiadores.



Hyoga viu o estado de Shun e seu sangue ferveu. Ele tocou na bainha da espada, apertando-a com força. Um só gesto desse maldito e eu... Controle-se, Hyoga... A vida de Camus é a sua prioridade! Em seguida, piscou e respirou fundo, antes de responder.



– O centurião da guarda pretoriana ordenou que eu ficasse ao seu lado, enquanto ele recebe o imperador.



Hades olhou-o, de cima a baixo.



– Não necessito de escolta. Volte para dentro e prepare-se. – disse seco e autoritário.



– Sim, domini. – respondeu Hyoga, olhando de relance para Shun.



Sentindo a garganta doer, Shun viu quando Hyoga se aproximou, mas não ousou deixar que Hades soubesse que o conhecia. Não era medo e sim um modo de proteger aquele que mexera com seu coração. Precisava falar com o gladiador, mas teria que ser em outra oportunidade.



– Desça. – disse Hades a Shun.



O jovem desceu, ainda sentindo a pressão em seu pescoço. No entanto, obrigou-se a olhar para o lado quando viu o imperador sendo escoltado por Afrodite e Shura. O loiro comportava-se como se fosse um nobre e andava com passos firmes. Já o centurião parecia incomodado, porém mantinha a postura ereta e atenta dos homens que guardavam a segurança do homem mais poderoso de Roma.



Afrodite viu Shun junto de Hades e retomou seu caminho. Shura olhou para o loiro com uma interrogação muda e incisiva, recebendo um discreto sorriso de volta.



Titus permanecia sério e silencioso, observando tudo em volta e procurando onde estaria Scorpionis. Após terem deixado o palácio, ambos os gladiadores que haviam dizimado sua guarda levaram sua esposa e filha e não foram mais vistos. Afrodite ficara ao seu lado e deixara bem claro o que faria, caso ele tentasse algo. Espero que mantenha a sua palavra e me acompanhe sem tentar nada. Odiaria ter de acrescentar “parricida” a minha história pessoal!



Quando Titus foi conduzido para o interior do Coliseu, o público já tomara as arquibancadas dos andares superiores e sentia-se o clima festivo e excitado que preenchia todos os espaços daquele monumento. O Coliseu possuía 50 metros de altura e seus três andares tinham a capacidade de receber 90 mil espectadores. Os lugares reservados aos nobres e imperador estavam à espera e quando Titus sentou na cadeira, Hades juntou-se a ele, percorrendo com o olhar as galerias térreas de onde surgiriam os gladiadores.



– César. – disse Hades fazendo uma breve reverência.



– Espero que tenha entendido minha mensagem. – respondeu Titus sem importar-se com a presença de Afrodite ao seu lado.



Hades sorriu e olhou para Afrodite que continuava a olhar para a arena, ignorando-os.



– Tenho algumas surpresas, domini e a principal já está sendo colocada na arena...



Shun estava quieto, apenas olhando e pensando. Sua mente dava voltas e seu coração estava acelerado. Afrodite percebeu, mas continuou firme e estendeu um pergaminho na direção de Titus.



– Pode conversar com seu comparsa mais tarde ou durante as lutas, César. Agora leia, ou além da surpresa do poderoso Hades, teremos outras, igualmente mortais... Ah, e já aviso, que instantes atrás, recebemos reforços muito bem–vindos. Temos, inclusive, um exímio arqueiro apontando para as cabecinhas de vocês dois, nesse exato momento! – falou Afrodite apontando para uma das galerias superiores.



Titus e Hades olharam, ao mesmo tempo, vendo um reflexo metálico brilhando na direção apontada pelo loiro. Aproveitando que a atenção dos dois estava voltada para a própria segurança, Shun esgueirou-se pela passagem atrás de si e correu em direção às galerias subterrâneas...



0000****0000****0000



Quando decidira abandonar o campo de batalha, Kanon não sabia o que o esperava, desejava, apenas, salvar Saga. Sabia que se tornara um desertor, um traidor de Roma e mesmo que isso lhe causasse dor, ela ainda era menor que a perda daquele que amava.


Tinha Aiolia e Mu ao seu lado e haviam cavalgado dois dias e duas noites sem descanso, até que, por fim, chegaram às fronteiras de Roma. Os três fediam a suor, estavam cobertos de poeira e cansados, porém notaram que a cidade estava agitada. Nas ruas, diziam que havia um espetáculo imperdível no Coliseu solicitado de última hora pelo próprio imperador.



Kanon aproximou-se de um menino descalço que logo lhe mostrou quem o havia instruído para divulgar o espetáculo na arena. Mu, que estava ao seu lado reconheceu Aldebaran e sorriu. Logo, os três estavam sendo colocados a par da situação e somando forças para o plano de Milo...



– Esse é o plano. – disse Aldebaran ao olhar para o cenho franzido de Kanon.



– Tem um homem que eu gostaria de tentar salvar, embora saiba que é tão leal à Roma como eu fui um dia. – falou Kanon.



– Vamos falar com Milo, quem sabe ele o ouve, domini. – disse Aldebaran.



0000****0000****0000



Aiolia dava-se bem com o arco. Era uma arma que aprendera a manejar quando criança. Seu irmão mais velho o instruíra a usá-lo e ele admitia que sentia mais prazer com ele que com o gládio. Por isso, quando Milo pediu que o usasse, ele não pensara duas vezes.



– Parece que o gladiador pensou em tudo. – disse Titus desviando o olhar das galerias.



– Mesmo que ele vença e mate a todos, sua vitória será a sua ruína! Ele perderá o que lhe é mais precioso e isso, meu caro amigo, será o meu prazer e a minha vingança. – falou Hades.



– O que pretende Hades?



– Veja... – disse Hades apontando para a arena. – Ali está!



Uma cruz de madeira foi colocada próximo no centro da arena com Camus amarrado nela. Hades franziu o cenho porque o tinha mandado pregar com cravos de ferro nos pulsos e pés e ele estava amarrado. Shura seria responsabilizado e açoitado por tal desobediência. Pensou com desagrado.



– Está na sua hora, domini! – Reinterou Afrodite.



Titus levantou-se e ergueu os braços.



– Povo de Roma! Hoje lhes trago... Este espetáculo! A Ludus Maxima enfrentará a Casa de Gemini em termos absolutos. Libertos contra... escravos. Que entrem os desafiantes!



Nem bem Titus terminara sua fala, Hades se levantou. Milo e os outros ainda não tinham se revelado e ele desejava provocá-lo o máximo.



– Como responsável pela Ludus Maxima eu ouso dizer que este embate está além de evidenciar a supremacia desta ou daquela ludus. O confronto principal é entre o poder dominante e a patética tentativa de mudar o que não pode ser mudado. Veremos quem vence hoje! Mas antes, eu lhes ofereço outro tipo de divertimento! Este homem! – disse apontando para Camus – Está aqui para mostrar aos incautos que nem sempre a vitória compensa!



Milo viu quando elevaram a cruz com Camus amarrado nela e apertou os dentes com tanta força que seu maxilar doeu. A mão no cabo da espada ficou branca pela tensão dos dedos apertados em volta dele. O ar que inspirou pareceu tão quente quanto o seu sangue. Então os portões se abriram e ele entrou na arena...



Scorpionis! É o Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis!Scorpionis!Scorpionis!



O brado do público, agora, era ainda mais intenso e ecoava por todas as galerias como se fosse o rugido de várias feras juntas. Milo olhou para o alto vendo homens e mulheres delirar e a única coisa que desejava era tirar Camus daquela maldita cruz!



Quanto caminhou na direção do ruivo, três gladiadores da Ludus Maxima o surpreenderam entrando na arena usando bigas e emitindo um brado de guerra. Kraken, Alcion e Hyoga o cercaram, cada um com seu conjunto de armas.



Alcion era um retiário. Ágil e veloz, ele era perigoso devido ao uso da rede e do tridente que manejava com destreza.



Kraken era um secutor e sua proteção, aliada ao escudo pesado que ele segurava como se fosse um pergaminho, propiciava que ele atacasse como uma verdadeira máquina de guerra.



E, finalmente, Hyoga que era um dimachaeri como Milo. Usava duas espadas e nenhuma proteção. Foi ele quem primeiro saltou da biga e atacou o experiente gladiador.



Milo olhou para o jovem que o atacava com tanta força logo de início. Era óbvio que o garoto não tinha experiência de combate e isso facilitaria tudo. No mesmo instante, Alcion ergueu o tridente e se preparou para lançar a rede. Milo defendeu o ataque de Hyoga e Alcion atirou a rede, fazendo-a desenrolar-se no ar à frente do gladiador que a evitou com uma torção de corpo que fez o público delirar.



Um brilho gélido acentuou-se nos olhos de Kraken que nutria grande afeto por Hyoga e queria protegê-lo. Ele brandiu a espada, girando sobre o próprio corpo e, trocando-a de mão, tentou confundir Milo. No entanto, sendo um dimachaeri e já tendo enfrentado Kraken, Milo previu o golpe e cortou o movimento, atacando-o primeiro. Sem hesitar, Milo atacou cortando-o na altura da cintura e, logo a seguir, rasgou-lhe a garganta fazendo espirrar sangue em jatos quentes e fortes. A boca encheu-se rápido de sangue e Kraken caiu de olhos abertos, enquanto Milo saltava sobre ele e descia ambos os gládios em cruz sobre Alcion, desfazendo-lhe o rosto e expondo o crânio sob a carne retalhada num espetáculo terrível, mas que levantou as arquibancadas.



Hyoga viu o amigo cair e uma dor imensa se expandiu dentro do seu peito. Correu na direção de Milo para o tudo ou nada. Shun conseguira falar com ele e revelara que aquele gladiador era amante de seu irmão, mas ele não tinha escolha. Se não o matasse, Camus morreria e Kraken... Kraken fora como um irmão no meio de todo aquele horror! Tinha ao menos que honrar a memória do amigo.



Alheio ao fato que Hyoga era irmão de Camus, Milo tinha pressa em acabar com aquela luta e tirar o ruivo da cruz. Pressentia que Hades tinha algo em mente e buscava aproximar-se mais e mais, principalmente porque Camus que antes estava inconsciente, agora começava a mostrar sinais de vida.



Hyoga cortou seus pensamentos atacando-o e Milo sentiu que aquele garoto tinha algo diferente. Pena ter de matá-lo! Pensou enquanto desferia os golpes que acabariam com a vida daquele jovem gladiador.



A força e o tamanho de Milo eram o dobro dos seus e, mesmo assim, Hyoga defendia os golpes, suportando o peso da espada do outro com a determinação de não estar lutando por si e sim pela vida de seu irmão. Não tinha medo de morrer, mas ter assistido a morte de Kraken e o olhar do gladiador quase demoníaco sobre o amigo e, agora sobre si, o desestabilizava.



Ofegante, Hyoga sentia a espada pesar e doer, como nunca havia sentido. Então, com as duas mãos, preparou-se para um golpe final mais intenso, tentando manter-se vivo. Entretanto, acostumado a um clima mais ameno que aquele, parecia que seus pulmões estavam pegando fogo e o suor atrapalhava sua visão da luta. Vacilou, sentindo um gosto metálico na boca e a saliva grossa. Camus, meu irmão, perdoe-me!



Camus havia sido alimentado aquele dia e, após algumas horas de inconsciência, agora se via amarrado em uma cruz. Sua visão estava embaçada, mas sabia que era Milo quem lutava, assim como também sabia que o adversário do amante era seu irmão. Balbuciou o nome de ambos, mas a voz estava presa na garganta. A angústia o dominava, assim como o terror em ver as pessoas que mais amava se enfrentando.



Milo admirou a resistência do garoto, mas já decidira exterminar todo e qualquer lutador da Ludus Maxima. Fazendo um movimento ágil, levou a lâmina da mão esquerda para o lado, enquanto virava a outra lâmina na mão direita no ar, interrompendo sua trajetória na metade para atingir o braço de Hyoga e, em seguida, o ventre. O garoto sentiu a lâmina cortar a sua carne não conseguindo suprimir o gemido de dor e a perda de uma das espadas. Entretanto, desviou do segundo golpe e isso deixou Milo admirado.



Hades estreitou os olhos, antevendo o prazer de ver seu plano concretizado. Milo mataria o garoto e Camus assistiria antes de também ser morto por um arqueiro muito bem escondido entre os espectadores...



– Escuta, vou fazer algo que nunca fiz... deponha a espada e eu poupo a sua vida. – disse Milo.



– Pouco me importa a minha vida, gladiador! Luto por meu irmão e mesmo se eu não puder salvá-lo, vou morrer tentando! – respondeu Hyoga.



– Seu irmão?



A resposta da própria pergunta saltou na frente de Milo. Camus! Esse garoto é irmão do Camus! Por isso... Por isso Hades fez aquele discurso!



À hesitação de Milo, Hyoga respondeu com um ataque mais forte. Estava exausto, ferido e ofegante, mas seguiu atacando.



Posicionando o corpo em um movimento de defesa, Milo segurou ambas as espadas de lado, estreitando os olhos ao sentir que Hyoga atacava-o com força, mas sem a intensidade de antes.



– Não precisa fazer isso, Hyoga! – falou Milo na defensiva.



– Eu não tenho escolha, não entende?- insistiu Hyoga tornando a golpear.



Os olhos azuis e atentos de Milo se mexeram quase imperceptíveis e ele virou o cabo da espada da mão direita num movimento de estocada que, ao invés de ir em direção ao peito de Hyoga, bateu secamente em sua testa, enquanto o outro cabo batia em seu estômago, fazendo-o cair de costas na areia quente. O jovem sentiu faltar o ar, ficando alguns segundos semi-inconsciente.



– Quando levantar, finja que está estudando um modo de revidar e ajude-me a tirar Camus daquela maldita cruz... – falou Milo, baixo.



Estonteado, Hyoga viu dois gladiadores falando consigo, mas entendeu a proposta de Milo. Levantou-se o mais rápido que conseguiu e continuou a empunhar uma das espadas. Há essa hora, o público emudecia e via ambos parados, frente a frente. Sendo que Milo se mostrava ereto e imponente e Hyoga cambaleante.



– Como... Como fazemos isso? Ele... Ele está nos... observando. – disse Hyoga.



– Vamos continuar lutando e chegando perto. Hades deve ter planejado isso colocando um arqueiro escondido entre o público, mas não deve estar muito longe. O lugar mais provável é perto dos portões por onde entramos na arena. Defenda minhas investidas até chegar na cruz. Camus está amarrado e eu cortarei as cordas. Nesse momento, você cuida da minha retaguarda.



– Está bem. – disse Hyoga e o plano foi posto em prática.



Hades percebeu o plano de Milo e buscou visualizar o arqueiro. Nada! Alguma coisa saíra errado. Tinha que pensar rápido!



Afrodite notou a mudança de Hades, assim como a volta furtiva de Shun. Olhou para o jovem que exibia marcas de dedos no pescoço alvo e tornou a olhar para o cônsul. Desejou que tudo acabasse logo e que Milo liquidasse com aquele pervertido cruel.



Totalmente controlado e, em silêncio, Hades estendeu a mão na direção do sol fraco do entardecer. O ato fez seu anel brilhar. Aquele era o sinal que faria todos os gladiadores da Ludus Maxima, mais os arqueiros da guarda pretoriana invadirem a arena e acabarem com aquele espetáculo!



Correndo contra o tempo, Milo cortou as cordas com sua espada, acolhendo o ruivo em seus braços. Hyoga vigiava, porém nada de imediato aconteceu. Não houve interferência de nenhum arqueiro, mas até mesmo ele sabia que Hades não deixaria assim.



– Camus! – disse Milo, trêmulo, tocando o rosto pálido com suavidade.



Camus respirava fraco e baixo e Milo tocou seus lábios arroxeados, estreitando-o junto ao corpo. Sentiu as batidas fracas do coração dele junto a si contrastando com o retumbar do seu. Notou o rosto magro e o corpo enfraquecido e aquilo fez seu estômago contrair.



– M-Milo... H-Hyoga, ele... — balbuciou Camus



– Ele está bem. Você vai sair daqui com ele, fique tranquilo. – respondeu Milo com a voz grave e embargada.



Tomando o ruivo nos braços, Milo viu entrar os gladiadores da Ludus Maxima. A guarda pretoriana não viera junto, sinal que Máscara da Morte, El Cid, Aldebaran, Mu, Kanon e Aiolia haviam dado um jeito na situação como haviam combinado. Enquanto ele lutava dentro, o restante cuidava da guarda, fora! O único a ser poupado seria Shura a pedido de Kanon e de Afrodite...



– Hyoga, assim que eu começar a lutar crie uma brecha e tire o seu irmão da arena. Afrodite estará esperando na galeria. – disse Milo entregando Camus para Hyoga e voltando a empunhar suas duas espadas.



– Vai lutar contra todos sozinho? – perguntou Hyoga.



Milo girou as espadas, mexeu o pescoço para a direita e para a esquerda e só depois respondeu:



– Conhece a história “Era uma vez a Ludus do Imperador...”? Fique preparado e cuide do Camus, que eu tenho muito que fazer.



Hyoga obedeceu e Milo fechou os olhos, formando em sua mente uma imagem da arena e de todos que nela se encontravam. Os gladiadores da Ludus Maxima o foram cercando com as mais variadas expressões.



O público que, até então, acompanhava aquela situação manifestando as mais diversas emoções, agora voltava ao entusiasmo original, ao tipo de emoção que excitava por completo por conter em si, a possibilidade real do derrame de sangue...



Milo atraiu todos para o seu redor. Sabia que todos ali tinham gana de vencê-lo e era esse sentimento que desejava evocar para que Hyoga pudesse tirar Camus dali.



– Então, quem vai ser o primeiro imbecil retardado a morrer hoje em nome do grande e poderoso filho da puta do Hades? – gritou o gladiador baixando as espadas ao lado do corpo.



O gladiador mais antigo da Ludus, chamado Minotauro, emitiu um som semelhante a um rugido e tomou a iniciativa, atacando Milo com toda a força que seus cento e vinte quilos podiam imprimir a um golpe de espada.



Milo pulou junto e torceu o corpo no ar, fazendo Minotauro defender na altura do peito. Então o gladiador sorriu e torceu o pulso, como se virasse a espada para si mesmo. Minotauro ergueu o gládio e então, Milo inverteu o movimento de um jeito inexplicável e cortou-o, bem no baixo ventre, um golpe mortal e doloroso que deixava o guerreiro agonizante, demorando em ser acolhido pela morte...



Minotauro arfou e sentiu seu próprio sangue, quando deixou cair a espada. Suas vísceras ficaram expostas e ele desabou. Milo encarou o corpo com desprezo e pisou sobre ele como se não houvesse ninguém ali, saltando sobre os demais.



Os movimentos rápidos de Scorpionis deixaram os outros homens boquiabertos. Milo tornara-se uma máquina de matar cortando, estocando e decepando como se estivesse saudando velhos amigos. Os homens foram caindo, um a um, abatidos pelos golpes que acertavam a cabeça, o tronco, os membros. A carne e o sangue mancharam a areia transformando a arena de combate em um matadouro.



Embora fortes e experientes, a maioria dos gladiadores da Ludus Maxima não conseguia acompanhar a velocidade de Milo e só sentiam não ter mais nenhuma chance quando a morte os acolhia e a carne lhes era arrancada dos corpos robustos.



O público estava em transe, a violência e o sangue causavam uma comoção primitiva que os fazia urrar e pular nas arquibancadas, criando um vórtex ensurdecedor de corpos e vozes...



Hyoga aproveitou aquele frenesi e fez o que Milo havia dito, conseguindo retirar Camus de dentro da arena.



Quando percebeu que seu amado já não estava mais ali, Milo apontou a espada na direção do palanque onde estavam Hades e o imperador. Seus cabelos estavam revoltos e desalinhados, seu corpo vigoroso, banhado em sangue...



– E agora o grande final... Se ambos estão esperando que sua preciosa guarda invada a arena, podem esquecer! Estão todos ocupados... fazendo fila para entrar nos Infernos! Em respeito à sua autoridade, César... Eu não impedirei que deixe esta arena. Mas o cônsul, o grande Hades... Vai, finalmente, receber o que merece!



– Eu não permitirei que ataque um nobre romano! – falou Titus.



– Não creio que está em condições de permitir ou não meu ajuste de contas, César! – disse Milo.



– Eu sou a maior autoridade em Roma! Você não é nada! Nada! – gritou Titus.



– Pois esse nada acabou com a sua matilha de cães bem treinados! Esse nada é o homem que honra a Casa de Gemini, a primeira casa a reconhecer o direito à liberdade! E agora saia ou esse nada será o primeiro a calar prá sempre, a boca de um imperador!



O público não conseguia ouvir com exatidão o que era dito, mas sentia um clima estranho e agressivo no ar. De repente, uma fumaça negra começou a subir da parte térrea, no centro onde ficavam os lugares dos nobres. Titus olhou para trás e viu Afrodite, ao lado de Shun, fazendo sinal para que deixasse o palanque. Não havia nada que pudesse fazer. Rendeu-se ao fato que sem sua guarda, teria que engolir as ordens do gladiador.



Hades olhou para Milo, compreendendo que tudo estava preparado. O imperador seria retirado e o povo, ao ver fumaça ficaria em pânico e abandonaria o Coliseu.



Fogo! Fogo! Gritaram algumas vozes espalhadas nos quatro cantos do monumento e a correria em direção à saída começou, confirmando as suspeitas do cônsul.



Não havia escapatória para Hades. Depois de tudo, era ele e Milo. O cônsul olhou dentro dos olhos do gladiador e o enfrentou:



– Então, faça de uma vez o que quer fazer! Mate-me! Eu não vou implorar, gladiador! Nem agora, nem nunca! Eu sou um nobre e você sempre será um reles escravo! – disse Hades.



Milo sorriu.



– Quem disse que eu vou matá-lo? A morte é boa demais para um filho da puta como você! Quanto ao implorar... Ah, seu nobre de merda, você vai sim e quando o fizer, de nada adiantará ser um nobre como gosta tanto de enfatizar! Agora, seu covarde, é somente entre você e eu...

Notas finais
Próximo capítulo: "Redemptiónem amor ..." (O resgate do amor)
Para quem pensava que era só salvar o Camus, acabar com Hades e fazer a festa... Está, redondamente, enganado...!!!!
É, eu sou má. * risos
Bjs a todos!!!XD