Notas iniciais
Perdão aos caros leitores pela demora. A culpa não foi minha, porém. Boa leitura.
~Manuel

A culpa foi minha, perdi o capítulo original e a gente fez esse de improviso. Foi mal, foi mal! Perdoem esse pecador! ~Neir

Tirando o braço esquerdo de cima do rosto, Isaac dedicou-se a acordar. Resmungando, ergueu seu corpo lentamente, fazendo a sua velha cama ranger um pouco, e sentou em sua borda, dando um longo bocejo. Esfregou os olhos e, relutante, disse “Deus lhe pague” pelas três horas de sono.

Olhou para sua mesa e viu sua máquina de escrever, o envelope, e a caneca de café. Pensou em dar um gole, mas quando lembrou do gosto das cinzas, fez uma careta e resmungou de novo.

Olhou pela janela e viu aquela paisagem irritantemente confortável de novo: Um céu nublado, um tom de cinza bastante forte, e uma pouca movimentação na rua abaixo. O jovem escritor morava em um apartamento maior que o normal, mas menor que o mínimo recomendado, em um prédio velho. Sua “propriedade” consistia em dois quartos, um banheiro pequeno e uma sala-cozinha.

O primeiro quarto, o seu, era bem abarrotado: Uma cama simples, um armário, uma escrivaninha e uma janela. Claro, o lixeiro que havia sido esvaziado na noite passada estava no canto do cômodo. Era um quarto pequeno, mas havia espaço suficiente para Isaac dar três passos de um lado para o outro, do armário à mesa.

Levantando-se agora completamente, abriu a porta do quarto e deparou-se com outra, a de seu irmão, que, obviamente, não estava acordado.

A imagem que Isaac tinha do irmão era bastante simples e ao mesmo tempo complexa, julgava seu parente um vagabundo por completo, preguiçoso, ignorante e carente de juízo, e ao mesmo tempo um sábio, homem prudente, e dedicado aquilo que lhe importa.

Indo para a direita, deu quatro passos curtos e alcançou a sala-cozinha.

Nesse ambiente, havia uma mesa de madeira, onde repousavam vários livros e papéis, além de um prato com um pão duro e velho, duas cadeiras, um sofá antigo que ele julgava bastante agradável com algumas roupas jogadas em cima, e o balcão da cozinha, anormalmente limpo. Talvez pela ausência de comida na casa, a geladeira vermelha junto ao balcão estava parecendo antiga, quase arcaica. Ela não era usada frequentemente.

Aliás, por trás daquela geladeira, tinha uma história importante. Na Inglaterra de 1993, período pós-Thatcher, geladeiras eram um artigo bastante complicado para a classe baixa obter. Apesar de ser o item mais importante numa casa, eram muito caras.

Isaac Bach estava falindo. Aquela geladeira havia sido fruto de seu primeiro e único livro até agora, cujo capital ganho já estava se esvaindo e via-se a necessidade de uma nova obra.

Sim, ele era o tipo de escritor genial que, mesmo tendo capacidade de criar uma boa obra para seus leitores, visava o lucro. Na verdade, o único momento em que pensou nos leitores, foi quando considerou que tipo de obra teria maior impacto na sociedade.

Com esse pensamento lançou seu primeiro livro, que foi um sucesso sem precedentes, “O Fruto do Dinheiro”, em 1991, sobre a queda do comunismo na Alemanha reunificada. Ironicamente, dinheiro era o que mais lhe faltava nesse momento e, talvez por causa de seus métodos, enfrentava uma resistência ferrenha à sua criatividade.

Com passos pesados e sonolentos, Isaac foi até a mesa e pegou um papel. Era a conta de eletricidade. Observando que já havia passado do vencimento, calculou imediatamente a multa que teria que pagar, devido ao seu atraso. Passou a mão na cabeça e, desistindo de pensar, lançou o pedaço de papel pra longe, ignorando seus deveres.

“A situação”, pensou Isaac, “Está cada vez pior. O dinheiro está quase no fim. E eu não consigo escrever outro livro. É incrível que eu ainda esteja vivo...”

O homem de cabelos negros pensou em ir ao banheiro, mas quando considerou ter que desentupir o mesmo, preferiu evitar o mau-cheiro de fezes e urina. Sentou no sofá, jogando algumas camisas sujas pro lado, e revirou o mesmo em busca de seu relógio, até perceber que o mesmo estava em seu pulso.

Estava com sono.

Mesmo assim, agradeceu as poucas horas de sono que teve, e quando foi ver a hora, lembrou-se de já ter verificado a mesma ainda na cama. Eram oito e alguma coisa.

O cheiro de chuva inundou seu nariz, e quando observou a janela da sala, viu as gotas caindo. Era algo desagradável, e também agradável. Estava prestes a se levantar, quando ouviu o som de uma porta se abrindo. Depois de alguns passos, uma voz rouca disse:

– Bom-dia, Isaac.

– Nem tanto. Mais um dia de chuva, e mais uma noite mal dormida para mim.

David Bach era o irmão mais velho de Isaac. 39 anos. Solteiro. Igualmente “desempregado”. Estava começando a perder cabelo, mas ainda tinha um rosto jovem, e uma barba malfeita, olhos escuros e uma barriga maior que o normal, para alguém que teoricamente estava “passando fome”. Todavia tinha um rosto um tanto carismático, que fazia você se sentir bem. Havia saído de casa aos 22, jurando casar-se e conseguir um bom emprego. Isaac o reencontrou onze anos depois, no centro de Londres, e se encarregou de informar a morte do pai.

O pai havia sido um mineiro em Manchester, e levara uma vida pacata. Até Margaret Thatcher ser eleita primeira-ministra da Inglaterra. Os numerosos cortes de benefícios sociais e de salários fizeram com que muitos operários se juntassem aos sindicatos independentes e organizassem greves. Ele havia sido um desses operários. Ao longo dos anos 1980, ele liderou grevistas e era muito popular por ser duro nas negociações com o governo, e por sempre estar à frente das multidões durante as passeatas.

Um dia, porém, tudo saiu errado. Um grupo de mineiros que estava perto dele começou a atacar a polícia. Os policiais revidaram com balas de borracha; sete delas atingiram o peito dele. E esse foi o destino final do destemido sindicalista.

E quanto à mãe, não conheceram.

Isaac estava prestes a falar alguma coisa, quando ouviu alguém bater na porta.

– Quem deverá ser? – disse seu irmão coçando uma barba rala.

– Deve ser o vendedor de jornais – disse o escritor, seco. – Ele deveria saber que não temos condição para fazer uma assinatura agora. Não teríamos cancelado a antiga por capricho, você sabe.

– Calma, calma – disse o irmão rindo – Ele deve estar fazendo seu trabalho.

Irritado, Isaac foi até a porta, imaginando quais xingamentos usaria.

Quando chegou na porta, se aproximou do olho mágico e constatou algo desagradável, que ele sabia que não conseguia lutar contra, e a qual era vulnerável. Por esses motivos, a pessoa do outro lado da porta era evitada por ele quase que todo o tempo.

Anne Hughes, a dona do prédio.

Sua primeira reação foi fechar a tranca da porta pelo lado de dentro, assim, mesmo que a mulher usasse a chave mestra, seria empatada de invadir o apartamento.

“Droga, ela chegou.”

– David, é ela.

– Você devia abrir a porta, certo?

– Tem certeza? Parece perigoso.

–Abra, abra... – disse ele, coçando a barriga e rindo um pouco.

“Droga, pare de rir. A situação é crítica!”

– ISAAC, abra a porta!

Abrindo lentamente a porta, Isaac disse de mau humor:

– Você poderia escolher outra hora, que não a manhã, para me assaltar?

– O que você quer dizer com isso, Mr Bach?! O preço do aluguel é justo! E mesmo assim, você me deve três meses!

– Vamos, me deixe em paz. É manhã. Quando tiver o dinheiro eu pago.

A mulher ficou séria, como sempre fazia quando o assunto era dinheiro. Estamos falando de um bairro pobre, de um prédio pobre, e de pessoas pobres. Era tudo como devia ser.

Isaac tentou fechar a porta, mas a mulher entrou no apartamento e indagou à David:

– E você, nunca vai achar um emprego?!

Anne era um típica inglesa, branca, loira e de olhos claros. Entretanto, há algumas gerações sua família havia falido, e toda a “classe” dessa mulher não estava presente. Ela deixava o cabelo preso, nunca usava nenhum produto, nem mesmo perfume, e não tinha um andar chique ou algo parecido. Portanto, era uma mulher bonita, mas comum, pobre igual a todos os moradores daquele bairro.

Era, também, uma das poucas pessoas que podia invadir a casa de Isaac e não levar um tiro. Em fato, Isaac devia bastante àquela mulher.

Anne fechou a cara e chamou David de vagabundo, e este respondeu com um sorriso. Em seguida, exigiu que ele colocasse uma camisa e fosse atrás de um emprego.

Aproveitando-se dessa situação, Isaac pegou um guarda-chuva e desceu as escadas do prédio acabado. “Que eles se divirtam, têm muito assunto em comum pra falar”, pensou ele maliciosamente.

No portão, recebeu um “bom-dia” que não devolveu, e foi para a rua enquanto, com a mão esquerda, tratava de colocar o cabelo para trás.

As ruas de Whitechapel eram como deveriam ser, para sua tristeza. Cinzas e tediosas, naquele dia chuvoso. O único fluxo considerável de carros era nas vias principais, como a Commercial Road. No caminho até a banca de jornais (que porém era mais comprida e larga do que bancas de jornal comuns), não tinha que atravessar nenhuma via grande. Era na mesma área, a apenas dois quarteirões de distância.

A paisagem trágica de um bairro pobre de Londres da década de 1990. Algumas construções antigas, precisando de reformas urgentes. Hoje os mendigos não estavam lá, deitados na calçada. Quando chovia eles preferiam pedir esmola na praça com um nome árabe estranho.


Quando chegou à banca onde costumava comprar seu café, viu o velho, que estava sentado em uma cadeira, com os olhos semicerrados, e disse:


– Um jornal.

– Ah, bom dia, Mr Bach!

– Para alguns, talvez.

– Tome o jornal. – pegou o exemplar do “Times” e o entregou – Mais um dia sem café em casa, senhor?

– Eu realmente não quero falar sobre meus problemas financeiros a essa hora, Gerald.

Gerald era o velho da banca onde Isaac geralmente comprava seu jornal. O velho não vendia café, por assim dizer, mas a banca era sediada em frente à própria casa e, portanto, sempre que o jovem escritor passava ali, ganhava um café do bom velho.

Isaac não sabia seu sobrenome e nada do tipo, nem mesmo se considerava intimo daquele homem, apenas aceitava o café e comprava seu jornal.

Sentou-se num banco que o velho lhe deu e, cruzando as pernas, colocou-se a ler o "Times".

Uma ou duas pessoas passavam na calçada, e já que a chuva havia parado, Isaac não se incomodava em ficar ali, lendo seu jornal. Julgava que seria melhor do que ler ouvindo uma mulher e um gordo discutindo.

Virava as primeiras páginas do jornal apenas vendo de relance os títulos, não tinha nada de importante: guerra na Bósnia, mortes, microprocessadores, gritarias no Parlamento, o de sempre.

Também passava direto as páginas de esportes: o Manchester joga quinta... O Real Madrid vence... Inútil para ele, que nunca torceu para nenhum time.

A parte de economia despertava um pouco mais de interesse. A libra estável, como sempre, taxa de juros baixando, salários estagnados, a mesma miséria habitual. No final: “tempo chuvoso em Londres, o resto da semana.”

Por fim, as páginas de classificados. “Trabalho para técnico de computadores...”. Ele não tinha essa capacitação. “Diarista...”, “Revisor de provas...”, “Datilógrafo...”. Sim, ele era um ótimo datilógrafo. Leu em voz alta o anúncio:

“Serviço para datilógrafo, segunda a sexta, de 10 A.M até 6 P.M. Boa remuneração. Interessados podem ir ao Burnier Law Office*, na Myrdle Street, nesse horário. Falar com Mr Clement Burnier.”

O velho sobressaltou-se ao ouvi-lo falar.

– Burnier ainda está vivo?

Isaac não entendeu.

– O senhor conhece esse advogado? Por quê ele não estaria vivo?

– Conheço, ele vinha aqui comprar jornal todo dia, pontualmente às nove horas. Há uns oito meses atrás ele deixou de vir, e soube que foi devido à um acidente. É tanto tempo que eu achei que ele já tinha partido. – estremeceu-se ao terminar a frase.

– Bem, ele certamente está, ou esse anúncio não existiria. Vou passar na Myrdle Street depois do almoço, fica bem perto daqui.

– Vá mesmo, o preço do café está aumentando. – riu.

– É mesmo. – retribuiu a risada – tenha um bom dia.

– Igualmente para você, Mr Bach.

Virou-se e foi andando de volta pro seu prédio.

Notas finais
*escritório de advogado

É isso. Sugestão, crítica ou comentário para o capítulo que você acabou de ler, escreva.
~Manuel